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Blog Bestialmente Conhecido

Meu amor, ainda és tão pequenino...

 

Numa semana em que se falou tanto de crianças, de educação, da falta dela, de pais - uns bons, outros piores, ou talvez apenas diferentes.

Numa semana de tantas opiniões.

Vou resumir a minha a esta música.

Isto com mais amor, mais 10 segundos de tempo, 1 caneca de paciência, uma pitada de ralhetes, meia dúzia de caras feias, umas gargalhadas, muita relativização e um punhado de exemplos. São coisa para ajudar nisto de criar os filhos.

Por hoje amor e encher de beijos.

A minha música para este fim de semana, da autoria da brilhante Luísa Sobral.

 

Kong Fu ganga

Gaja que é gaja quando compra uma calça de ganga quer com ela fazer boa figura. Ou isso ou procura uma coisa barata para fazer de pré-panos em casa. Aquele trapo mal enjorcado que se usa para as limpezas e para despejar o lixo.

Vai daí e a gaja entra na loja que vende o artigo pretendido e procura o que está na moda, que, de acordo com os meus parcos conhecimentos pode ser:

Temos a calça de ganga boyfriend jean

Que é aquela calça de ganga que tem um corte adaptado para o maridão, pela largura das ditas será sempre um grande calmeirão: alto e largo. A cintura fica larga, nas ancas sobra pano e depois espeta-se com um cinto. Assim um bocado naquela de fazer de conta que dormimos ontem lá em casa e como o vestido era muito formal ele nos emprestou dois trapos para meter em cima, assim confortáveis e que fazem de nós mulheres sensuais, porém desarranjadas e que não querem saber porque já têm um grande machão consigo.

 

Temos a calça de ganga com remendos

Que é aquele artigo que parece que a pessoa esteve num acidente de mota grave mas só a roupa ficou aleijada. As mais estranhas são as que vêm mesmo com um pedaço de tecido pendurado, qual estropiado em estado pré-coma. Esta calça pode ser encontrada na versão super larga, ali próxima do boyfriend jean, que pretende dar a ideia que foi o namorado que emprestou as calças de ganga depois de ele ter tido uma acidente de mota grave. A outra hipótese é o skinny jean, que é aquela calça de ganga tão justa que mais parece um legging mas cheio de buracos e farrapos.

 

Temos a calça de ganga de cintura descaída

Que é aquela calça onde a pessoa quando se agacha, se a blusa não for comprida, fica com a asa delta à vista.

 

Temos a calça de ganga com a cintura subida

Que é aquela calça de ganga que tem tanta cintura que a calça acaba mais ou menos no esófago, mesmo ali abaixo das marias. A ideia é esmifrar a organlhada de maneira a parecer que a pessoa tem uma cintura de vespa. Mesmo que os órgão se mantenham em sofrimento.

 

Detalhado que está um espetro relativamente vasto das macro categorias de calças de ganga deparamo-nos com um problema no momento da aquisição e posterior utilização pós lavagem.

Este obstáculo não se coloca para as calças de ganga que parecem ser 4 números acima do da pessoa, mas concretamente nas calças que se querem justas e firmes em torno do pernil da elemento que adquire.

 

Ora pois que a gaja dirige-se à loja e pretende comprar uma calça de ganga justa, quer aquela que arredonda a nalga e dá a impressão de que debaixo daquele trapo está um par de glúteos que Sim Senhor!, vai daí e pede apoio ao funcionário da loja para saber se a calça é bicha para dar de si, ou se se mantém rijinha.

O funcionário explica que, após utilização é normal que dê um pouco de si, afinal de contas o tecido sempre tem alguma elasticidade, pelo que o melhor é comprar o número mais justo, para que depois não fiquem laças. Ali a criar bolsas no rabo, daquelas que parecem umas babas estranhas, resultando no trágico cú de velha.

Por isso a pessoa pega nas calças apertadinhas e entra no provador, enfia a primeira perna, tudo encaminhado, encaixa a segunda e começam os problemas, há uma estranha barreira criada pelas ancas alavancada pela largura da coxa. É nesse preciso momento que se iniciam as manobras de Kong Fu. A pessoa agarra forte do cós da calça, exercício a duas mãos e, enquanto puxa com força para cima dá um pontapé com a perna direita. Repete o exercício com a esquerda. Arreia forte na parede do provador, sopra o cabelo das ventas e continua o esforço. Inspira para ganhar balanço e expira tudo ao pontapé. Bora lá!, tá quase. A pessoa dá tudo até apertar o ultimo botão. Compreende que tem apenas 25 % dos pulmões ocupados com oxigénio e tenta perceber se é possível manter-se vivo dessa forma.

Confirma-se. Adquire o bem.

Nos primeiros dias que usa consegue brilhar por onde passa, afinal de conta a calça já de acomodou ao lombo e tudo corre pelo melhor.

Depois as calças vão para lavar.

E há um dia de manhã em que a gaja fica com as calças pela zona das ancas. Dá-se um momento de falta de reconhecimento do bem. Depois compreende o sucedido e inicia o processo.

Agarra-se a duas mãos, faz força e…pontapé pá direita. Descansa. Pontapé pá esquerda. Recupera. Sopra, Grita um “Yiiiiaaaaa!”, para dar mais vida ao momento.

É o chamado Kong Fu Ganga, em que a calça é sempre a derrotada e quando assim não é, lá vai a auto-estima da gaja pelo cano.

 

Alô! É da Austrália…

Quando me perguntam de onde sou gosto de responder que sou um pouco de vários sítios. Fui buscar a minha tenacidade e perseverança aos genes nortenhos da minha mãe. Gente de Viseu que se viu arrastada para Lisboa a meio do século passado. No interior havia fome e pouco trabalho, na capital não havia muito mais condições, mas pelo menos havia trabalho para os pais e para os filhos.

Sim, os meus tios, as minhas tias, a minha mãe, todos começaram a trabalhar com 10 anos.

Na mesa onde comiam 10, comiam 11 e há mesa havia mais de 21 cabeças para alimentar. Entre filhos e sobrinhos. Os filhos de uma irmã que morreu em tenra idade. O pai quis seguir com a vida dele e a minha avó decidiu cuidar dos sobrinhos.

Sim, era o mesmo tempo em que havia meia dúzia de sardinhas para todos, as crianças comiam os lombos e a mãe comia as cabeças, “porque eram a parte mais saborosa”.

Sabemos lá nós alguma coisa da vida.

Fui buscar a meu tom de pele mais moreno ao Alentejo. A costela que herdei do meu pai.

Uma realidade diferente da minha família materna. Um principio de vida em Luanda. Um regresso porque o filho mais velho (o meu pai) havia sido mordido por uma formiga venenosa e queriam tirar a perna à criança. A minha avó pegou em tudo, enfiou a família num barco e regressou a Portugal.

Nasci em Almada. Num hospital que já nem funciona.

Passei a vida no Seixal e consegui acabar a minha adolescência sem meter pés no Ginjal.

Uma vergonha.

 

A minha mãe tinha sobrinhos de todas as idades, alguns quase da idade dela. De entre todos os sobrinhos que tinha no norte havia os que tinham emigrado. A vida em Portugal era difícil e quem queria mais tinha de deixar a terra para trás.

Parece que estou a falar do nosso país há 3 ou 4 anos, mas não, foi há quase quarenta.

Ao fim ao cabo o ciclo vai-se repetindo.

 

Uma das sobrinhas foi viver para Sidney.

Vinha cá uma vez de 5 em 5 anos, mais coisa menos coisa. Passava uma temporada, visitava tios e primos, trazia lembranças.

Lembro-me perfeitamente de “os primos da Austrália” nos virem visitar, de contarem que na terra deles havia cangurus e eu querer que me levassem. De o meu irmão me dizer que as tarântulas se escondiam nos sapatos e eu desistir de ir num ápice.

 

Depois de a minha mãe ter falecido perdemos o contacto. Nunca soube se tinham voltado para cá. Ou se preferiam a vida de ozzies lá na terra dos cangurus.

 

Na terça-feira recebo um pedido de amizade no Facebook de uma senhora com idade para ser minha mãe. Acontece-me às vezes receber pedidos de amizade de pessoas que não conheço. Elimino.

Normalmente tento perceber se pode ser alguém que conheça, mas que não esteja a reconhecer na foto.

Então entrei no perfil da pessoa e vejo que uma tia e vários primos eram seus amigos, olho para a localidade de residência e vejo: Sidney.

Penso: não me digas! Só podia ser.

Aceitei.

Recebo uma mensagem a perguntar se eu sei quem é.

Digo-lhe que sim.

Diz-me que somos primas.

E eu que sei, que me lembro perfeitamente da família dela e dos filhos e de que uma das pessoas tinha deixado de comer coelho.

 

Na altura, eu devia ter uns oito anos, e a filha dessa prima tinha a mesma idade que eu, como gostava muito de coelhos passou a recusar-se a come-los. Lembro-me que deve ter sido das minhas primeiras questões existências: devia ou não continuar a comer carne de coelho?

 

Depois da minha ultima mensagem ligou-me.

Nem sabia bem se havia de atender, era estranho voltar a falar com alguém ao fim de 26 anos.

Pensei: vamos ver no que isto vai dar…se parecer estranho, pelo menos não me vai convidar para beber café….

 

Atendi.

Falámos um bocado. Ela já tem os filhos crescidos. Já tem 6 netos. O filho mais novo que eu nunca vi vai para o Iraque (e eu espero que corra tudo bem).

Agora que tem tempo e uma ferramenta que agiliza os contactos (o facebook) decidiu começar a procurar as pessoas de família, saber como estão, falar em português, porque gosta e é tão raro.

 

Gostei daquele bocadinho.

Acima de tudo porque é alguém de quem sempre tive boas memórias. E esses, vale sempre a pena recordar.

 

Foi uma daquelas coisas que altera o dia por completo, porque chego a casa e posso dizer: nem imaginas o que me aconteceu hoje?

E não, não foi uma buzinadela no transito, não encontrei um idiota numa fila de supermercado, não apanhei uma camada de nervos, não perdi nem parti nada; recebi uma chamada da Austrália. Quem diria, hã!?

 

Conversas de pendura

Estávamos a sair do Eixo Norte Sul e o Nuno pega no telemóvel para ver não sei o quê:

Eu: Deixa o telemóvel, estás a conduzir.

(pousou o telemóvel)

Ele: Este bocadinho é a direito.

Eu: Mas pode aparecer um animal, por exemplo...uma raposa...

Ele: Ou uma galinha...

Eu: Ou uma galinha...(confirmo)

Ele: Porque é muito comum encontrar galinhas na Segunda Circular.

Eu: Olha, podia ser uma galinha a correr atrás de uma raposa e a gritar "vais comer os ovos é o caralho! volta pó tê monte!", e a raposa atravessava louca pela estrada porque estava acagaçada de medo da galinha.

Ele: Porque na aldeia as raposas comem as galinhas, mas nas cidades as galinhas já são informadas.

Eu: Precisamente.

 

E é assim que se viaja comigo a pendura. Com muita dica de condução. Introduções à natureza e emancipação de animais. Para não falar no desenvolver de capacidades cognitivas e de fala.

Quem ficou agora com vontade de fazer uma viagem comigo para o Porto e volta?

 

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As palavras também fazem cócegas

...

- Ai, cruzes, credo! – disse o Sr. Nervoso…

- Ahahahahahahahahaahhah (gargalhada alta e sonora) cuzes, quedo, cuzes, quedo. Otavez mãe! Lê otavez….

...

 

É assim que se passa a leitura da história à noite.

 

Gosto de ler. Gosto de livros. Gosto de lhes pegar, de folhear, de sentir o cheiro, do mundo desconhecido que está dentro daquelas página. Deslumbra-me a capacidade de alguém juntar um conjunto de palavras umas às outras e conseguir criar um mundo paralelo na minha cabeça. A história desenrolasse à minha frente, abusando da minha própria imaginação. Fará parte de mim para sempre.

Os livros fazem-nos pensar, fazem-nos rir, entretem-nos nos momentos mais chatos, ajudam-nos a ultrapassar dificuldades e dão-nos a conhecer o maior numero possível de: palavras.

Como diria o Ricardo Araújo Pereira: acho que gosto de palavras. Do poder que podem ter. Conseguem fazer chorar, fazer rir e podem ter um impacto que causa mais dor do que um murro na cara.

Criam um sentimento sem que tenhamos fisicamente de tocar alguém.

É essa a força das palavras.

 

Estava ainda grávida e lia em voz alta para pequeno sôtor. Tinha lido algures que me conseguia ouvir e queria que se habituasse, lá está, a palavras.

Quando ele nasceu, recordo-me de o colocar na espreguiçadeira e sentar-me à frente dele a ler em voz alta. Ele muito atento.

Com poucos meses de vida as crianças não conseguem ainda assimilar uma história, mas aprendem a gostar de ouvir histórias. Sem saberem cresce o prazer de ouvir palavras.

Li livros inteiros – meus – para ele.

 

Quando começou a ter tamanho suficiente, fui-lhe perguntando se queria ler uma história para dormir. Importa que seja algo que lhes dê prazer, e não uma obrigação. Isso é o que os professores se veem obrigados a fazer nas escolas (e faço notar que os professores não o fazem de propósito mas têm de cumprir o seu papel e blablabla…só mesmo para evitar mal entendidos…).

Agora, com quase 3 anos não vai dormir sem ler uma história e, como é algo que gosta tanto, se eu ameaço que não há história porque se está a portar mal, orienta logo o comportamento.

 

Gosta de me ouvir ler, gosta que lhe faça perguntas sobre a história, mas acima de tudo gosta das palavras. Particularmente das que são diferentes do seu léxico de dia a dia, em especial aquelas que o fazem rir.

Quando tem uma história nova com palavras que ainda não conhecia, pequenas expressões, quer ler todos os dias a mesma. Às vezes duas semanas seguidas. Ri imenso com as palavras que mais gosta, pede para repetir.

Para mim é um encanto. Ainda que às vezes esteja cansada e à beira de cair para o lado….

 

O livro que estamos a ler agora tem, a páginas tantas, a empressão “cruzes, credo!”, e ele ri como se alguém lhe estivesse a fazer cocegas. Acho que nos quatro andares do prédio toda a gente o consegue ouvir.

E é delicioso.

 

Lá está, se não fossem as palavras, como é que eu escrevia esta história para me lembrar daqui a 20 anos….

 

Às 5 da manhã não é justo...

O karma é tramado.

Ontem publiquei um texto sobre pais e filhos. Sobre as fragilidades. Sobre como temos de compreender que os miúdos têm de fazer as suas patetices e como temos de os entender.

Hoje, por volta das 4 horas e 50 minutos da madrugada, estive por um fio para retirar tudo o que disse.

 

Eram cerca de 4 e meia da manhã ouvimos:

- Pai! Mãe!

O pai foi lá, e deu para eu ouvir no nosso quarto.

- Queo ir pá cama do pai e da mãe…

Aquela hora e com aquele nível de desgaste não debatemos, arranjamos espaço para ele.

Chega à cama e mal os costados tocam nos lençóis já está a dizer:

- Queo bebê leitinho.

Lá foi o desgraçado do pai – que está com uma carraspana em cima - buscar leite morno.

Eu dou-lhe o leite, porque tudo na vida daquela criança tem um circuito.

Bebe o leite e mergulha de cabeça na cama.

Menos de 10 minutos depois abre os olhos e começamos neste diálogo:

- Vamos buscar o patulheiro autocarro…

(queria ir ao Continente comprá-lo….faltavam 20 minutos para as 5 da manhã e aquele boneco só o vai ver se o Cristiano Ronaldo lho quiser comprar porque é uma porcaria de um carro que custa 120 €. Respira que esta foi à Saramago e quase me aleijou o bolso)

- Dorme…

- Posso estacioná o veliculo do Maschal debaixo da tua mofada?

- Não. Dorme…

- Posso estacioná otos veliculos debaixo da tua modafa?

- Não. Dorme…

- Posso pô a mina cabeça na tua mofada?

- Podes.

Nisto abarbatasse de tal forma à almofada que eu fiquei com 10 % (ou seja a ponta da fronha) e ele ficou com a almofada toda.

Continuou:

- Mãe, a Patulha Pata vai ajudá!

- Dorme…

- Podemos ir busca o Patulheiro autocarro?

- Não é muito caro…dorme…

- É muito caro?

- Sim. Dorme.

- Posso…

(interrompo-o)

- Não tarda nada voltas para a tua cama. Abarbatas-te a minha almofada e estás aí que é só rebeubeubeu e a mamã tem de dormir filho. Vai dormir, amanhã falamos…

Passado um bocado adormeceu…e acabou por sair de cima da almofada.

 

Agora vejamos uma coisa, quando eu decidi ter filhos deram-me várias informações, por exemplo:

Que ia chorar – check

Que ia fazer birras – check

Que ia apresentar fraldas que pareciam cenários de crime mas em cocó – check

Que eu quase ia morrer com o cheiro – check

Que o quarto ia parecer um cenário de guerra 10 minutos depois de eu ter ganho 3 bicos de papagaio nas costas, ali debruçada a apanhar tralha para o manter arrumado – check

Que eu ia acordar de madrugada para falar da porra da Patrulha Pata – NÃO!!!! Não há check para isto.

E eu sou uma pessoa que precisa do seu sono.

 

Bom. Por enquanto por aqui me arrasto, a sentir quase uma espécie de stress pós traumático quando vejo a publicidade dos desenhos animados nos cartazes da NOS.

 

Um bom dia para as pessoas que, do alto da sua vida maravilhosa, puderam dormir a noite sem ser interrompidos.

 

Este post é para a Ângela Pimenta…

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…e um pouco, ou talvez muito, para todas as pessoas que leem as minhas baboseiras.

 

Este exercício de escrever todos os dias tem que se lhe diga. Há dias em que tinha o que dizer de manhã à noite e seria capaz de escrever mil textos. Vale-me o bloco de apontamentos, onde tiro as minhas notas, porque a cabeça já não é o que foi em tempos. Outros dias é mais difícil, parece que a cabeça está perra e que não há uma única fagulha de uma ideia que saia cá para fora.

Como tenho sempre qualquer coisa para dizer, estes dias de silêncio são mais esporádicos.

 

Escrevo por prazer, para manter a cabeça ativa e para me convencer de que a vida pode ser mais qualquer coisa do que o pica o ponto e arruma as tralhas e limpa a casa e faz o jantar.

A vida pode ser um faz de conta em que eu escrevo uns textos e até os publico num espaço para quem quiser ler. A mente quase acredita que escrevo uma espécie de crónicas. Olha pa mim.

 

O número de visitas diário é poucochinho ao lado dos espaços mais badalados. Há dias em que nem chego aos 3 dígitos, em que ninguém demonstra gostar, em que ninguém comenta. Nesses dias fico com a impressão de que escrevo só para mim. E penso que sou uma totó de andar a investir o meu tempo em escrevinhanças.

Digo para mim: isto sou só eu, e o marido, uma prima, três colegas de trabalho, a Marta, a Joana que lá passa de vez em quando, o Mário, a Ângela….

…e dou comigo a perceber que, apesar de ser uma pé rapada disto da escrita, há pelo menos uma dezena de pessoas que até gosta disto.

 

Ou lê, vá...gostar se calhar também demais...

 

Podemos questionar a sua sanidade mental? Podemos.

 

Quando andamos nisto de escrever num espaço publico, em que partilhamos opiniões, peripécias de família e até lamechices, é bom saber que há quem leia e se entretenha com aquilo que nós nos divertimos a fazer.

É isso que me faz escrever todos os dias e não assim, de quando em vez.

 

Há uns meses, tinha eu outro blog, decidi que não tinha vida para isto de escrever, então fechei o espaço. Depois fiquei com saudades, ou isso ou o bichinho da escrita que falou mais alto. Decidi voltar.

Um dia, vou ao final do dia ver o ponto de situação do espaço, ver se tinha comentários para aprovar e essas coisas quando dou com 3 ou 4 comentários da Ângela Pimenta.

Estava contente por eu voltar a escrever e a “pôr a leitura em dia”.

 

A Ângela nem sabe nem sonha como me soube bem ler aquilo.

 

A Ângela não sabe, nem sonha, que quando me ocorre que devia mas é fechar isto, é um dos primeiros nomes que me lembro.

 

Hoje a Ângela esteve aqui no barraco novo. Comentou alguns posts e deixou um comentário para o qual nem tenho palavras agradecer. Depois, como tenho 2 mãos esquerdas e não sou canhota.....

Não sei o que aconteceu, mas apareceram-me 2 comentários para validar, iguais, e eu, procurando não duplicar a aprovação, eliminei 1. Desapareceram os 2. Fiquei apenas com o texto do comentário no e-mail de alerta que recebi.

Transcrevo-o agora.

E como não posso voltar a aprovar, respondo aqui, num post que nem chega a ser digno de tantos elogios.

Respondo um obrigada e um “se é para ser elogiada vou-me embora!”, como diria o RAP.

 

Obrigada Ângela, "mulher do nuorte", e que goste sempre...

Que eu cá guardo o comentário para quando não me der na telha escrever.

 

Cátia: Sigo-a há algum tempo e comento sempre que me apetece (algumas vezes vá) e quando não comento não significa que não goste. Às vezes não tenho nada a dizer. Este texto, que li de olho aberto e com uma facilidade tremenda, é um grande tema, algo que me toca pessoalmente por ter um filho de 16 meses. E que bem escrito está! Este mundo dos Blogs é uma injustiça. Deveria ser lida por milhares de pessoas!!! Mas adiante!! Concordo na íntegra, repito, na íntegra, com cada palavra escrita ou como foi escrita. Claro que a minha concordância não vem aqui acrescentar nada. Simplesmente para dar uma festinha na cabeça que lhe indica que não está só neste mundo de pais (im)perfeitos e filhos (im)perfeitos. Sou uma dessas, e daquelas que, quando provocada consegue responder para libertar o stress da comparação, da opinião, do palpite, do bitaite (sou do Norte né?), da voz da sabedoria de anos e anos a palpitar por esse mundo fora. Obrigada pelo seu texto. A sério! Vou guarda-lo para sempre, para dias de maiores incertezas e aporrinhações! Beijinhos

 

Os filhos perfeitos que não temos

Tenham alguma paciência para mim hoje, que isto vai ser longo, não esperem!, vocês já estão habituados, isto aqui nesta chafarica é como com os livros dos JRS, é um bom rácio quantidade preço, barato à folha.

Vou falar de pais e filhos e depois de filhos e pais…pano para mangas…mas prometo que no fim há musica.

 

Como diriam os ingleses: bare with me just a little.

 

Ando nisto de estar viva há pouco mais de 34 anos e nunca encontrei um ser humano perfeito. Conheci gente que gosto, conheci gente que não gosto, gente a quem me apetecia arrear umas valente porradas; mas perfeição é coisa que este par de olhos nunca vislumbrou.

Faz-me crer que isto de ser perfeito está mais ou menos no mesmo patamar de realidade que os unicórnios, as fadas e as sereias.

Os chalupas e os bêbados de quando em vez lá dão por eles, mas a malta razoavelmente sã e completamente sóbria, nunca lhes pôs os glóbulos oculares em cima.

 

Muito se fala hoje da educação das crianças, da falta dela, do que é melhor e do que nunca deve acontecer. Toda a gente quer molhar a sopa porque é tema que tem assunto para dar e vender. Não há comprovações cientificas e por isso toda a gente pode alvitrar a sua tese.

Comummente, como devem ser educados os filhos dos outros, porque problemas de vida alheia resolvo eu bem.

Custam-me em particular os “instrutores” sem filhos. Pessoas que não fazem a menor ideia do que é criar um ser humano, mas que acham que têm a solução para todas as duvidas, até dos pais mais experientes.

Na berlinda estão sempre os maus comportamentos dos filhos (dos outros) e as más escolhas dos pais. A ocasional “no meu tempo levava umas lambadas” e o “se fosse comigo ia ver”. Mas na verdade não ia ver nada. Porque a maior parte das pessoas que conheço que prometiam, faziam e aconteciam, passaram a piar como canários roucos sem acesso a Mebocaína 6 meses depois de o primeiro filho nascer.

 

Antes de mais ter um filho é como jogar na lotaria. Podemos ganhar um grande prémio, como ficar na bancarrota. Pode ser mais fácil e melhor do que pensávamos, como pode ser mais difícil.

Quando eu andava na faculdade estudávamos Piaget, de forma muito sucinta Piaget acreditava que a influência exterior determinada a construção do indivíduo. Nunca gostei de Piaget porque não concordo com ele. Lá em casa éramos 4 filhos, os mesmos pais e a mesma educação. Todos temos formas diferentes de olhar para o mundo.

Há algo que pertence apenas à pessoa, e os mesmos fatores externos interagem com essas condicionantes de forma completamente diferente para cada individuo.

 

É por isso mesmo que há filhos maravilhosos que têm pais de merda. Histórias magnificas de sucesso.

E há pais fantásticos cujos filhos não se tornaram no que estavam à espera. Lembro-me de estar na faculdade e ter entrevistado um ex-toxicodependente com 40 anos, os pais eram tudo o que um filho podia querer, mas as influências, os amigos e a sua própria natureza ditaram que roubasse os pais, que os agredisse e que lhes tivesse destruído a vida.

 

São histórias de vida.

 

Por isso chateia-me esta permanente e incessante demanda em culpar ao pais. Se dão uma nalgada é uma desgraça, se não dão o miúdo fica mal educado.

É pá chega! As pessoas têm de olhar para dentro das suas casas e trabalhar para melhorar o que têm dentro das suas quatro paredes, em vez de ter sempre os olhos postos na tabanca dos outros.

 

Mas comecei com a perfeição e entretanto derrapei. Tenham calma, em principio vou chegar a qualquer lado.

 

Os miúdos querem-se perfeitos. Querem-se cheios de atividades extra curriculares para depois dizer aos colegas do trabalho como os miúdos são bons a tudo. Se não gostam têm de papar na mesma com aquilo, até porque o filho da Maria Amélia da Contabilidade faz e dá-se muito bem.

 

É suporto os miudos serem o que os pais não foram. Olhe-se para a quantidade de gente formada em temas que detesta. Os pais quiseram que tivessem o canudo - obviamente com a melhor das intenções - para que arranjassem, não um trabalho, mas um emprego. Para que pudesse estar à secretária todo o dia a ditar coisas e quem sabe um dia mandar em alguém.

Sim, porque neste nosso Portugal a carreira só levanta voo quando se manda em alguém.

 

E assim colocam-se as expectativas nos miúdos.

Não se lhes dá o acompanhamento necessário, não se conversa com eles, mas tiram-se fotos para pôr nas redes sociais e declarar o amor que não se diz ao ouvido antes de deitar.

 

Os miúdos revoltam-se com isto.

 

Os miúdos são umas pestes. Não prestam para nada.

 

Mas há motivos.

 

As crianças passam o tempo todo a desejar ser crescidas e quando lá chegam percebem que a vida não é nada do que estavam à espera. Os adultos só têm temas de merda.

As contas para pagar, o trabalho que detestam (na maioria), as maleitas de saúde, os miúdos que querem e querem e querem e a pessoa só queria estar descansada 5 minutos.

Então colocam-se os sonhos nos ombros dos filhos. A pessoa fracassou em tudo, mas aquele, aquele vai saber tudo e ter todo o acompanhamento necessário.

Mais ou menos como a promessa que se faz de ir ao ginásio no dia 31 de Dezembro. Parece tão real naquele dia, mas depois na prática é tudo tão mais complicado.

Vai daí e a criança ainda não largou as fraldas e o miúdo da Clarisse do arquivo até já limpa o rabo sozinho e tem menos 2 meses.

 

O filho da Joaquina só tira cincos e o idiota lá de casa mal passa a matemática.

 

Os sonhos começam a desvanecer.

 

A vida apressa os pais e os pais apressam os filhos: para aprender, para brincar, para crescer.

Pedem que se despachem a torto e a direito, tenham a idade que for, bufam: “ai filho, vá lá!” tantas vezes que as crianças já não sabem porque o estão a ouvir.

Eu sei, temos o jantar para fazer, o trabalho, os banhos, a casa, a roupa, os cães, os gatos e mais um par de botas. Têm lá agora vida para andar a jogar à apanhada.

Mas depois querem que os miúdos os ouçam, que se interessem, que brilhem.

 

Tudo o que os pais fazem é sempre pelos e para os filhos, e um dia, tal como os seus pais lhes disseram a eles e os avós disseram aos pais, um dia eles vão entender.

O quê, nem os pais sabem muitas vezes.

Por um motivo simples: fazem assim porque sempre se fez assim e quando passou a  haver maturidade para entender começou a faltar tempo para pensar.

Compram uma casa melhor, para eles.

Compram um carro mais caro, para eles.

As férias, são para eles.

São o bode expiatório para o tanto que os pais trabalham e é isso que se diz aos filhos: “temos de ir trabalhar para ganhar tostões”.

Não é por acaso que um dia acabem por achar que é para isso que os pais servem: para ganhar tostões.

 

Mas não é de propósito. As pessoas não queriam fazer assim. E os miúdos, no final das contas sabem que os pais não servem apenas para ganhar dinheiro.

 

Porque não há pais perfeitos.

Nem há filhos perfeitos.

Há educação.

Há algo intrínseco que apenas cada individuo consegue mudar.

E há a sorte que pode fazer toda a diferença.

 

Quando se está sempre a falar mal dos miúdos de hoje, quando se começa com a treta de que os miúdos agora não têm educação, importa lembrar que nós também já fomos miúdos e já fomos parvos. Para os nossos pais também foi esquisito lidar com os punks e freaks e piercings e coisas. Os putos de hoje também devem ter a oportunidade de errar.

Na loucura os pais podem optar por - e tenham calma, é só uma sugestão - falar com os miudos, explicar-lhes as coisas. Demonstrar porque é que está certo e porque é que está errado.

Mais ou menos o contrário do que aconteceu connosco porque eles agora têm acesso ao Google que lhes pode dar com uma serie de informação errada.

Na altura que éramos putos bastava que os pais dissessem: "é pá porque te estou a dizer pá!", e estava resolvido.

 

No fim, não fosse o tema da educação (ou falta dela) um nicho que alimenta muita coisa decide-se criar um programa para “resolver” - ou piorar (a ver) - a vida de miúdos que, obviamente, já não estão lá muito bem.

Programas que eu considero sensacionalistas e que expõem as fragilidades de uma criança.

Não vi, nem faço qualquer intenção de participar para o share de audiências. Também não vou bater no programa (acho que já foi dito mais do que suficiente), levanto apenas uma questão: estamos perante miúdos problemáticos, cujos pais já não sabem o que fazer com eles e consideramos, mesmo, que o melhor que há a fazer é expor todas as suas frustrações e fragilidades na TV generalista e em horário nobre?

A sério que achamos isto?

Como terá sido a segunda-feira na escola?

Terão sido gozados?

E daí por uma semana.

Será que não se vão sentir obrigados a fazer pior? Porque é óbvio que não têm as ferramentas necessárias para viver em sociedade.

Não se sentirão humilhados?

E será que a humilhação é a melhor forma de ensinar?

É apenas um pensamento de uma mãe que muito falha, com muitas imperfeições, mas parece-me que uma senhora super cool, com uns óculos de professora marota e ar de quem vai dar umas palmadas (não às crianças) mas aos papás mal comportados, não é a solução. Especialmente se acompanhada de câmaras.

 

Porque não há pais perfeitos.

Nem há filhos perfeitos.

Há educação.

Há algo intrínseco que apenas cada individuo consegue mudar.

E há a sorte que pode fazer toda a diferença.

 

O meu álbum favorito de todos os tempos é o Jagged little pill da alanis morissette. Na faixa 3 tema temos a musica Perfect, não é uma canção de amor como a do Ed Sheran, é sobre ser criança e o que se espera muitas vezes. Para quem é pai, para quem é mãe eu convido a ouvir, a olhar para os próprios defeitos (todos os temos) e perceber se às vezes é assim.

 

Sometimes is never quite enough
If you're flawless, then you'll win my love
Don't forget to win first place
Don't forget to keep that smile on your face

Be a good boy
Try a little harder
You've got to measure up
Make me prouder

How long before you screw it up
How many times do I have to tell you to hurry up
With everything I do for you
The least you can do is keep quiet

Be a good girl
You've gotta try a little harder
That simply wasn't good enough
To make us proud

I'll live through you
I'll make you what I never was
If you're the best, then maybe so am I
Compared to him compared to her
I'm doing this for your own damn good
You'll make up for what I blew
What's the problem, why are you crying

Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough
To make us happy
We'll love you just the way you are
If you're perfect

 

 

 

Vida de mãe incompetente é assim...

Sôtor dorme 50 % da noite da cama dele.

Adormece na nossa cama. Depois de ouvir uma história, de comentar os nossos livros e de tentar arranjar temas de conversa para galhofa em vez de sono.

Nos dias mais cansativos adormece rápido e o pai vai pô-lo na cama.

Por regra, a meio da noite, recebemos um pedido de acolhimento. Tentamos que fique na cama dele, mas estamos tão cansados e cheios de sono que entramos na atitude “que se lixe, mais noite menos noite” e o miúdo lá arranja um bocado de espaço no meio dos pais.

Já sei: somos uns irresponsáveis que estão a criar o novo king jong un da Margem Sul. Vai oprimir pessoas com gargalhadas e injuriar inocentes com piadas. Uma desgraça. Para os que já viram o novo programa da Nanny cool e aprenderam coisas até se lhes arregalam os olhos e se lhes arrepanham as pálpebras a ler isto. Meu Deus os riscos comportamentais que esta criança corre.

Expôr os defeitos de uma criança na TV nacional é como o outro, agora dormir na cama dos pais, isso é que não!

ESCUTEIROS! Ainda se fosse na droga!

Adiante que já se faz tarde e a hora de almoço é curta.

 

De manhã levantamo-nos com pezinhos de lã para nos despacharmos. Vamos tomar o pequeno almoço, tratar das coisas essenciais às pessoas asseadas e voltamos ao quarto para nos vestirmos.

Quando há tempo deixo a roupa já arranjada do dia anterior. Quando não me lembrei lá ando a pescar combinações no guarda vestidos com a ajuda da lanterna do telemóvel.

 

No Domingo, final de fim de semana, logo com algum descanso no lombo, consegui deixar a saia e a camisola de gola alta que ia vestir. À segunda feira é dia de muito frio no escritório e eu tenho de estar agasalhada porque sou uma pessoa que sofre com o frio.

É uma espécie de condição médica.

Quando vesti a camisola senti qualquer coisa estranha no pescoço. Palpei a camisola por dentro e estava do lado certo. Tinha de me despachar. Era cedo e eu estava com neura. Devia estar com comichões porque não me apetecia sair de casa com frio.

Passei o dia a coçar o pescoço, cheia de impressões.

 

Ao fim da tarde, depois de ter passado o dia a esticar a gola da camisola dou conta pedaço de tecido. Era a etiqueta. A camisola estava vestida ao contrário e tinha estado assim o dia todo.

Não dei conta das vezes que estive em frente ao espelho na casa de banho.

Ninguém me avisou.

Nem o meu marido que almoçou comigo.

 

Tentei ajeitar a gola um pouco para fazer de conta que era mesmo assim.

O que vale é que aquilo que mais me vê durante o dia é o ecrã do computador.

 

Irritações de elevador

Às vezes páro para matutar um bocado sobre temas para falar aqui, gosto particularmente de pensar em coisas triviais do dia-a-dia e que, por estarem tão intrínsecos nos nossos hábitos nem nos damos contas deles. Mas por mais que me ponha a pensar, é quando menos espero que me ocorrem as melhores ideias, o que também acontece quando não tenho um bloco de notas à mão para apontar aquela pequena lâmpada.

 

Desta vez tinha esperado pelo menos 5 minutos pelo elevador, ele chegou cheio e foi quando parou no 1º andar para entrar uma pessoa que a minha irritação normal chegou. Com ela o pensamento “é bom que seja coxo, que tenha uma perna partida, que isto por um andar não se admite”. Quando a pessoa entrou não tinha nenhuma maleita, gozava de aparente boa saúde e demonstrava apenas não estar para descer degrau nenhum.

Quando a porta do elevador abriu no piso zero ocorreu-me pensar: o que será que é mais estupido? Apanhar o elevador para descer um andar ou implicar com quem apanhou o elevador para descer um andar?

A resposta é obvia: ambos!

Mas cada um escolhe as suas irritações.

Por isso o post de hoje é sobre irritações e convivências de elevador.

Vamos a isto.

 

A pessoa que não gosta de andar de elevador e por isso bufa o tempo todo

A pessoa que não gosta andar de elevador não tem propriamente medo, mas fica desgastada com todo aquele processo de botão, espera, paragem em vários andares, potencial conversa de circunstância sem qualquer valor acrescentado para a vida do ser humano. Esta pessoa usa e abusa do telemóvel para sentir que o tempo passado a andar de elevador não está totalmente perdido. Esta é aquela pessoa que devia ser obrigada a subir e descer vários lances de escadas todos os dias para não falar mal deste privilégio.

Esta pessoa sou eu.

 

A pessoa que usa o telemóvel para fingir que não vê os outros

Esta é aquela pessoa que quando está a chegar ao elevador pega no telemóvel e começa a ver o que se passa lá para dentro. Demonstra um profundo interesse em qualquer dos conteúdos que se lhe apresentam e muitas vezes é possível perceber que esteve sempre a olhar para a mesma mensagem ou a pôr likes em imagens no facebook. Esta pessoa não quer fazer conversa de circunstância e portanto opta por usar as comunicações como um escudo. Às vezes funciona, mas quando encontram os conversadores não têm hipótese.

Estas pessoas são, por regra, muito inteligentes.

 

As pessoas que gostam de conversar

São a pior espécie de pessoa para encontrar no elevador. Há pessoas que não conseguem fazer uma viagem de elevador em silêncio. Parece que se torna incomodo. E torna. É assim um pedaço constrangedor, ter de estar ali, fechado numa caixa com outra pessoa, quase parece que se torna imperativo qua alguém diga algo. Enfase no quase. Quando se apanha o elevador no meio de pessoas que não se conhece podem ser feitos uns sorrisos e tal, mas tudo gira em torno de agitar de pernas, balancear de malas, chocalhar de chaves nos bolsos. Uns sopros profundos ocasionais. Mas quando apanhamos o elevador com aquela pessoa que gosta de falar tudo muda de figura. É aquela pessoa que tentamos deixar ficar para trás carregando efusivamente para a porta fechar, mas que consegue sempre alcançar a caixinha a tempo.

Normalmente falam do tempo. São fortes a constatar que no inverno está frio e que no verão faz imeeeeeeenso calor. Queixam-se sempre do estado do tempo da estação em que estamos e se chove é como se houvesse uma espécie de calamidade. Se o elevador demora passam para os filhos, como vão, e a escola, e os trabalhos, e as explicações, e como se portam mal, e como os atormentam, e as fotos que viram no facebook.

Este utilizador é mau a qualquer hora do dia, mas particularmente doloroso de manhã.

 

A pessoa que para no meio do elevador para não entrar muita gente

Há uma raça de pessoas que declaradamente não concorda com o numero máximo de pessoas permitidas em cada elevador, então, não satisfeitas com essa contagem, entram e estagnam a meio da caixa. Não se encostam nem atrás, nem a um dos lados. Ficam ali, parados a meio do caminho, ombros largos, queixo alto, cara de quem não se quer mover nem mais um segundo e não aceita objeções. Estes, quando há ainda espaço, temos de os contornar, quando já há pouco espaço é preciso pedir que se cheguem para trás, acabam por faze-lo de contra vontade e dão um passo pequeno só mesmo para mostrar boa vontade. São pessoas tremendamente bondosas e altruistas a quem devia nascer uma hemorroida com picos.

 

As pessoas que carregam efusivamente no botão para fechar as portas

É comum encontrarmos aquela pessoa que assume para si a função de porteira do elevador. Entra, encosta-se à área de botões e põe a mão sapuda em cima do botão para fechar a porta. Mal entrou a última pessoa e já está a carregar selvaticamente para que a porta se feche.

Vai o caminho todo a bufar e se o elevador pára em mais do que um andar revira os olhos e faz aquele movimento de sacudir o corpo que as pessoas têm habito de levar a cabo quando estão aflitas para fazer xixi.

Normalmente dá vontade de dar umas lambadas a estas pessoas porque acham mesmo que os outros não têm o minimo interesse em despachar-se.

 

Os que dizem “é pior que o comboio, pára em todas as estações e apeadeiros”

Às vezes as pessoas pensam que devia haver um elevador para cada ser humano que está dentro de cada edifício. Por isso ficam transtornadas quando o elevador tem de parar em mais do que um piso. Desta feita, à terceira paragem anunciada há sempre um engraçadinho que diz: “booooolas, daqui a nada é pior que o Fertagus, pára em todas as estações e apeadeiros”

A estes devia haver um que gritasse: "então salta p'á linha desgraçado!".

 

O utilizadores bufa

Nunca me encontrei com um utilizador bufa em pessoa, mas infelizmente já estive várias vezes em contacto com o seu trabalho. Há pessoas que, perante uma porta de elevador fechada libertam o mal gaseificado que percorre o seu organismo. Isto quando ficam com o dito só para si, entenda-se. Quando a porta abre podem sempre dizer “ai está um cheiro horrível aí dentro, a pessoa que aqui esteve tinha de estar podre”, nunca temos como confirmar quem é que foi o animal pouco asseado que fez aquele serviço.

Já me deparei diversas vezes com elevadores muito mal cheirosos e é uma coisa que, quando ocorre de manhã, deixa o dia de uma pessoa marcado para o mal.

Estas pessoas deviam ter a sorte de apanhar um elevador que avaria logo depois do flato, tendo de ficar a gozar dele pelo menos 10 minutos.

 

Os que chamam o elevador por um andar

Quando alguém chama um elevador é espectável que vá subir ou descer, pelo menos, dois andares. Coisa que nem sempre acontece. Quando vejo uma pessoa a chamar o elevador no primeiro andar, presumo logo que será alguém com alguma dificuldade motora. Se a porta se abre e a pessoa que entra é apenas preguiçosa dá-se um momento de consternação. São pessoas preguiçosas que muitas vezes pedem o elevador para descer um andar e depois vão enfiar-se ginásio para estar fit.

 

Os que implicam com os que chamam o elevador para descer um andar

Os elevadores foram feitos para transportar as pessoas para cima e para baixo. Em nenhum momento foi estabelecido um acordo a indicar que, para menos de 3 pisos, é preciso ter uma perna partida, pelo que, a pessoa que chama o elevador no primeiro andar tem toda a legitimidade para o fazer. Podemos não gostar dela. Podemos desejar que Deus Nosso Senhor a leve em breve, mas não podemos implicar. O tipo que fica empertigado permanece dessa forma porque dentro da sua cabeça há uma espécie de acordo tácito com o elevador, de que, abaixo do terceiro não pára, e, quando isso não acontece fica danado e diz entredentes: “pfff, olha para isto, um piso, uma vergonha, atão não tinha já descido!”, por regra diz sempre “atão” e nunca a palavra completa “então” porque é uma pessoa que está com pressa e tem coisas para fazer. Tipo…coisas.

 

Os que têm medo de andar de elevador

São pessoas que reclamam mesmo antes de entrar, mal se encontram dentro da caixa já estão a dizer que está a abanar demasiado. Quando entra a quarta pessoa ficam meio pálidas e alvitram um “se calhar já é gente a mais!? Não!?”. Querem ficar perto da porta para sair mais depressa e, quando aquilo vai abaixo um bocadinho pedem licença e saem à pressa. Esperam mais 10 minutos por outro elevador e muitas vezes acontece tudo de novo.

 

Faço notar que me enquadro em vários destes estereótipos de utilizadores de elevador, mas ainda assim é divertido dar conta deles.

 

Se conhecerem mais alguns que queiram partilhar....?