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Blog Bestialmente Conhecido

My kind of hero

Tem 100 anos (isso mesmo cem anos, cem), vive sozinha, é totalmente independente, a filha arranjou-lhe uma pessoa para a ajudar com a casa, mas prefere fazer as coisas dela sozinha. 

Mas não é só isto...

Palmira Cruz é a sócia mais velha do ginásio da sua aldeia. É verdade.

Vai ao ginásio todos os dias à tarde e como indicam "agora já não faz musculação todos os dias".

Uma inspiração para todos nós, especialmente os que ainda nem chegaram aos 40 (como eu) e estão sempre cheios de queixumes.

Com poucas resoluções para 2018, mas já levo uma inspiração.

 

 

 

Afinal sempre tenho 1 resolução para 2018

Melhorar o meu vocabulário doméstico

Porquê?

Por isto:

 

Episódio 1

O pai enganou-se a fazer qualquer coisa na cozinha, e Sôtor diz-me:

- Olha mãe, o pai fez uma cagada!

 

Episódio 2

Estava a tentar pôr no telemóvel o vídeo que ele gosta de ver (seleciona sozinho) e a net não estava a descarregar. Enquanto persistentemente carregava no ecrã disse:

- Ai o caraças! O telemóvel nã funchiona!

 

Episódio 3 (motivador desta resolução)

Na minha busca incessante de aquecimento porque sou um bicho que sofre com o frio, tinha ligados, só na sala: uma placa de aquecimento e um ventilador (tudo no máximo). O quadro de eletricidade foi abaixo uma porrada de vezes. A determinada altura a box da TV começou a ficar passada com tanta ida abaixo. Eu levanto-me a ralhar entre dentes e digo qualquer coisa como:

- Estou farta desta merda! Uma pessoa só quer aquecer a casa...

E Sôtor responde-me.

- É mesmo uma méda mãe. Uma méda!

E eu "Ups" ...se calhar é melhor começara  dizer "coabreca" e "ora bolas"...

 

12 Badaladas e 0 (zero) Resoluções, que venha 2018!

2018.gif

 

 

Ora temos de falar de resoluções não é?!

Assim de repente pode parecer que sim.

O ano está a acabar, estamos já enjoados dos fritos e do bacalhau, meio ressacados do vinho e do champanhe que bebemos na consoada, programa que se arrastou para dia 25, afinal de contas é preciso malhar o cabrito no forno e degustar as sobras que ficaram do dia 24. Olhamo-nos ao espelho e em vez de começar a fazer o que já nos faz falta há mais de um ano, adiamos mais uns dias "porque é esquisito começar coisas a dia 26".

É com este espírito e motivação que se fazem as listas de resoluções.

Normalmente as resoluções não são mais que uma lista de compras para ações que não temos na verdade grande vontade de fazer. Ou melhor, são coisas que gostávamos que acontecessem, mas sem que tivéssemos muito trabalho para isso.

Emagrecer por exemplo. Fazendo uma estatística rápida, que tem a mesma credibilidade que a maior parte dos estudos que se apresentam hoje em dia, diria que 5 em cada 10 pessoas tem como resoluções: inscrever-se no ginásio e começar a comer melhor. O que na realidade constitui duas resoluções fáceis de cumprir, porque o que é certo é que os ginásios em janeiro estão a rebentar pelas costuras (só voltam a estar assim lá para maio, porque o coelho da pascoa lixa tudo com os ovos de chocolate), e a conversa do comer melhor é uma excelente forma de continuar a encher a mula, basta comprar light e bio, assim já se come melhor, não se come é menos (gastroenterites não contam para as resoluções). As pessoas não entendem que gastar uma pipa de massa em joia e inscrição não faz com que uma pessoa comece a ficar em forma. É necessário, de facto, levar o lombo até ao ginásio, pô-lo em cima das máquinas e fazer coisas com elas. Pode parecer estranho, mas é dessa forma que ficamos em forma.

Normalmente a pessoa fica cansada e suada, com um certo odor a cavalo (ou égua) quando está a caminho do balneário. Se isso não acontecer é porque provavelmente não estiveram lá a fazer nada. Tirar selfies com um peso não equivale a fazer 15 series de biceps, OK?

O pior é que a maioria das pessoas percebe lá para dia 15 de janeiro que ir ao ginásio é cansativo e, aproveitando que lá para a última semana de janeiro há o dia mais deprimente-ou-depressivo-ou-lá-o-que-é do ano, vão começando a sair mais tarde do escritório e a dizer "bem tento mas não há meio de conseguir ir, é uma chatice". Nas primeiras semanas de janeiro foram todos os dias e queixaram-se muito porque sairam de lá doridos, para não falar no dia seguinte. Sim, porque as pessoas acham que podem passar 20 anos sentadas no sofá e depois quando entram no ginásio são logo a Carolina Patrocinio. Não é assim, minha gente.

Em fevereiro já só foram 2 vezes e em março estão a escrever no livro de reclamações porque tinham assinado um contrato de 6 meses sem dar conta e, para cancelar a inscrição têm de: ter um problema de saude grave, ir trabalhar e viver para um sitio onde não haja ginásio da marca a 50 km ou esperar até que o periodo de 6 meses acabe pagando para não ir.

Aproveitando o clima depressivo e porque também não conseguem ir ao ginásio concluem que mais vale voltar aos hambúrgueres e batatas fritas, aos banana splits, porque sem exercício de que vale comer melhor.

Faz sentido, né!?

Primeiras duas resoluções rebentadas antes do fim do primeiro trimestre, para voltar a constar da lista de resoluções do ano seguinte.

Diria que a outra estatística fácil é a realização de viagens de sonho, que normalmente é estourada porque a pessoa tem uma avaria no carro e porque, apesar de gostar muito de viajar, rebentou com o dinheiro do visa em roupa nas promoções pós natal e nos trapos novos para a praia. Lá vai tudo com a mala às costas para a Costa da Caparica dar-me cabo da vida nas filas.

 

À primeira vista pode parece que estou a falar de cor, mas não. Fiz um estudo de dois anos a esta coisa das resoluções tendo como elementos de análise 2 pessoas: eu e o meu marido.

Nunca fui dada a resoluções, sempre tive a cabeça demasiado ocupada, por isso, ali 5 minutos antes das 12 badaladas lá me dedicava aos desejos. Se os 3 primeiros estivessem garantidos já me dava por contente.

No entanto, nos últimos 2 anos decidi começar a fazer uma lista de coisas que ia fazer no ano seguinte. As minhas resoluções. Sabem quantas garanti? Aquelas que a sorte me permitiu e aquelas que já tinha começado. Porque quando queremos fazer uma coisa não precisamos que um mês comece, nem a semana seguinte, muito menos um ano novo.

Se é algo que queremos fazer, hoje é um bom dia para começar.

Se eu acho que preciso fazer exercício não tenho de esperar por dia 2 de janeiro para me inscrever no ginásio, posso hoje mesmo calçar os ténis e ir correr. Não posso sair para correr porque tenho de tomar conta do puto? Sem stress, posso pegar no telemóvel e descarregar uma das mil apps de treino e fazer uns exercícios. Acho que ando a comer mal? É só pousar o bolo e ir buscar uma banana ou uma maçã. Não é preciso esperar por dia 2 de janeiro.

Quero escrever? Se tenho teclado hoje porque raio só escrevo no inicio do ano?

As resoluções não passam de uma forma de mantermos a esperança viva enquanto nos recostamos no sofá. Queremos fazer alguma coisa, é deitar mãos à obra.

Os desejos são outra coisa: saúde e sorte. Os essenciais para que tudo o resto aconteça. O que sobra depende da vontade. Da disposição. Ponto.

Este ano a minha única resolução é: não fazer resoluções.

Aquilo que quero fazer é começar a fazer no dia, ou quando chegar o momento, porque às vezes não é a hora certa.

Pessoas lindas, tucanos azuis de penas aveludadas que tantas vezes me desprezam, tenham uma boa passagem de ano, entrem com os dois pés (nunca se sabe bem qual é o melhor, pelo que mais vale saltar para dentro de 2018). Pensem bem nos vossos desejos e não se esqueçam, para que se concretizem há que trabalhar neles.

Bom ano Novo, que seja cheio de saúdinha da boa e com muita sorte para todos nós!

 

Então e esse Natal?

Podia dizer: passou-se, mais ou menos como nos outros anos. Mas a verdade é que não foi bem assim.

Quando temos filhos pequenos o Natal ganha uma magia diferente. Por eles e através da alegria deles, há um reviver da fantasia de natal.

É não é!?

Podia ser. Se o meu filho não fosse a cópia chapada da sua mãe.

 

A consoada foi passada em minha casa. Presentes: sogros, marido (era o que mais faltava que não estivesse), filho e Augustinho (também conhecido como pai).

O Augustinho, homem sempre à frente, decidiu arranjar uma prenda extra para o neto, e, em vez de a embrulhar e entregar à filha, por sua vez mãe do neto que ainda devia acreditar no Pai Natal, para que esta a escondesse. Não. Decidiu coloca-la em cima da mesa da cozinha. Não demorou 5 minutos para o miúdo dar conta de um camião da policia.

Passei 20 minutos a explicar-lhe que não era certo de que a prenda fosse para ele e que não podia reivindicar todos os brinquedos que via.

Assim fiz até o Augustinho aparecer e dizer:

- Claro que é para ti, para quem mais havia de ser!? - colocando-me a mim, enquanto mãe e pessoa que forma um ser humano para a vida numa excelente condição.

Nesse preciso momento havia de sentir a primeira sensação de que o RAP tinha razão: a melhor ceia de Natal é com desconhecidos, os de sempre já sabemos o que a casa gasta.

O miúdo põe-se doido com o brinquedo e chegam os meus sogros. O puto vai ter com os avós e esclarece:

- O meu avô Augusto deu-me esta prenda! Olhem!

O meu sogro começou a ficar agitado porque também queria ver o neto abrir uma prenda sua.

Para apaziguar ansiedades tive uma ideia: eu garantia ao pequeno que se ele comesse a sopa toda o Pai Natal vinha mais cedo. Para isso, depois de a sopa estar comida ele tinha de ir para a cozinha com os avôs para que o Pai Natal pudesse sentar-se ao pé da lareira, a comer as bolachas que lá deixámos e a beber o seu copinho de leite, enquanto consultava o seu caderno de bom comportamento.

O rapaz, filho cético de sua mãe desconfiada, não se afiançou nem um segundo. Comeu a sopa a contragosto e foi para a cozinha com ar de quem achava que aquela palhaçada não tinha ponta por onde se pegue.

Claro que não ajudou o Augustinho dizer: “para com isto porque ele não está a acreditar nesta merda!”, sempre no mais alto nível de pedagogia.

Recebo indicações do Pai Natal que os presentes estavam colocados (ou seja o Nuno ficou a tratar de tudo e a falar com o Pai Natal para argumentar a favor do filho, quase parecia um episódio de uma serie de advogados), saímos para a sala e Sôtor não se quis acreditar com tanta caixa para abrir. Coitadinho, depois de ganhar o Super Wings achou que já nem ganhava mais nada. Quando lhe entrego o presente maior com a prenda que anda a pedir há perto de 6 meses, acho que a criança ia desmaiando.

Esteve entretido com as coisas dele nas 2 horas seguintes.

 

Criança entretida e velhotes apaziguados porque o neto já tinha as prendas fomos ao bacalhau.

Tal como previ o Augustinho estava satisfeito depois de chuchar a terceira espinha, possivelmente por conta da quantidade de azeite que pôs no prato – fiquei nitidamente com a noção de que o bacalhau ia voltar à vida e começar a nadar bruços. A minha sogra estava cheia antes de o bacalhau chegar ao prato e pediu para pôr mesmo muito pouco porque comer muito lhe dá azia de noite ou lá o que é.

Eu botei abaixo 2 copos de tinto que me deixaram logo mais alegre e até parece que pedi tangerinas aos meus sogros, porque eles apareceram lá em casa no 25 a alegar que eu tinha dito que queria que me trouxessem um saquinho.

 

Antes da meia noite estavam os velhotes a caminho de casa e eu a ver a Patrulha Pata, tentando desesperadamente convencer o meu filho que a noite de Natal também serve para dormir.

 

No dia 25 sôtor acordou feliz de sua vida, deserto de pegar nos brinquedos outra vez. Inicialmente não queria ir almoçar à casa do meu irmão, mas lá aceitou quando soube que o primo também ia.

Chegámos todos à mesma hora e o que aconteceu a seguir foi aquilo a que chamo: uma tourada.

O meu sobrinho tem mais 9 anos que o meu filho, mas juntos parecem ter mais ou menos a mesma idade. O pequeno é terrível e convence o outro desgraçado a fazer as coisas à maneira dele.

Nisto pressionou o primo a despachar-se a comer, tentou saquear todas as batatas fritas do prato do primo, porque eu lhe tinha dito que só comia mais batatas se comesse chicha também, correu pela casa e até partiu uma arte de um dos brinquedos que lhe deram.

A determinada altura despediu-se de mim e do pai, disse que ele e o primo iam ficar a brincar na casa do meu outro irmão – tio dos dois. Foi quando o ouvimos gritar para o primo: “anda Duarte, vamos partir a casa toda!”, e gritava esta alarvidade satisfeito da vida dele.

Os crescidos, por mais que tentassem controlar aquilo, partiram-se a rir. Como é que uma coisa daquelas que ainda nem fez 3 anos tem aquela pica toda.

Estava a ser impossível "desliga-lo".

O meu irmão já dizia: "o puto não tem off?!" - e ria-se que nem um perdido.

Quando finalmente o conseguimos agarrar para se despedir de toda a gente, acalmou-se mas quis que o primo viesse viver connosco. Expliquei-lhe que não era possível, o primo tem escola. Aceitou.

Estávamos nós já no carro, a passar ao lado do portão da casa do meu irmão, tentando fazer os últimos adeus quando ele grita para o primo:

- Duarte, VAI PARA A ESCOLA!

Como quem avisa, não vens brincar é bom que vás estudar.

Adormeceu ao fim de 5 minutos.

 

E foi assim, o meu Natal foi o meu filho, ele e as histórias dele. É tão bom registar para não esquecer.

 

Os Bolos-Rei da Padaria Portuguesa

Seria de esperar que o fogo não tivesse o seu expoente forte em clima húmido, com aguaceiros persistentes. Seria desejável que ele não lavrasse em pleno dia de Natal. Mas há um fogo que arde permanentemente sem se ver, o fogo das redes patetas, aquele que, sempre à procura de um culpado para qualquer coisa, seja ela qual for, queima e arrasta tudo à frente mesmo naquele que devia ser um dia de pleno amor: o dia de Natal.

Mas, tal como qualquer boa fachada para o vizinho ver, o melhor da vida é tirar fotos de muita alegria, partilhar mensagens de inspiração, motivação e força com árvores de natal digitais. O amor é sempre o mais importante, ultrapassa tudo. E bla-bla-bla pardais ao ninho, como diria a minha sábia avozinha. Porque apesar de tanto amor, sempre que haja a mais pequena hipótese da vizinha ter posto a pata na poça, lá vem o machado atrás dela.

Ora pois que desta vez a vizinha foi a Padaria Portuguesa. Quase consegui ouvir pelo ecrã aquele celebre discurso que todas as alcoviteiras de meia tigela usam: "eu não sei bem se é assim, por isso não ouviste de mim, mas dizem que foi tal....eu cá não sou de intrigas mas parece-me que....já viste...não têm vergonha nenhuma....eu tinha feito....e isto..."

Uma fotografia com uma dúzia de bolos-rei em cima de uma caixote e lixo que estava à porta da Padaria Portuguesa da Graça foi o suficiente para gerar uma corrente de indignação sanguinária quanto à cadeia de Padarias.

Não estou aqui para defender nada nem ninguém, muito menos a Padaria Portuguesa, não sou colaboradora nem acionista, e creio que nem me podem considerar uma cliente. Desde aquele dia em que me cobraram 2,5 € (por extenso, dois euros e cinquenta cêntimos) por um pão de Deus misto, fazendo-me ter vontade de o vomitar mesmo antes de o comer, raras vezes lá pus os pés. A verdade é que os acho careiros e a qualidade não justifica o preço. Mas isso é a minha opinião enquanto cliente e não deve, em nada, influenciar a minha opinião quanto a esta...nem sei bem o que lhe chame...ocorrência, talvez. É uma questão civilizacional.

A única coisa que gostaria de defender é o bom senso. Aquele desgraçado que é apedrejado a cada 5 minutos neste planeta dos macacos em que vivemos.

Ora pois que, à boa moda de qualquer sociedade com elevados níveis de civilizacionais, não foram procuradas razões, nem se questionaram elementos base do que se mostrava na fotografia, para quê?, houve um salto imediato para o julgamento sumário do costume, com certezas irrefutáveis, porque aquela cadeia de Pastelarias não apresenta o mínimo de compaixão e solidariedade para com aqueles que nada têm.

Será que não se achou um tudo ou nada estranho que, com baldes de lixo vazios, ou parcialmente vazios, os bolos tenham sido colocados logo em cima de um dos caixotes de lixo? Ninguém acha assim um pouco, no mínimo suspeito, terem logo tirado uma foto fresquinha aos bolos assim que os acabaram de colocar? Não haverá a possibilidade de, em vez de haver diretrizes da empresa tenha sido um colaborador a tomar uma decisão errada? Será assim tão descabido que um colaborador insatisfeito tenha pregado com os bolos cá fora, naquele belo espetáculo, mesmo em cima do balde e tenha tirado a foto? Afinal de contas hoje em dia é fácil difamar, basta mandar um fosforo para a lareira sempre em funcionamento das redes patetas. As pessoas pegam logo, como se pôde ver. Não seria possível que alguém, de outra pastelaria ou hipermercado tivesse feito aquele belo serviço?

Não sei o que aconteceu, não lá estava. Contudo houve muita gente que se comportou como se tivesse assistido a tudo, ao detalhe. É evidente que nem no dia de natal as pessoas se coíbem das seus julgamentos sem pensamento. Imediatos e sem preocupação. É bastante nítido que há gente que, em vez de andar a dar uma sopa a quem tem fome anda a policiar os comportamentos de quem não ajuda. Só é pena que haja mais policias do bom comportamento que voluntários para ajudar quem precisa. Será porque para ser policia basta ter um telemóvel com acesso à net e um polegar e para ajudar têm de levantar o befe do sofá?!

É maravilhoso assistir à aplicação prática do "mais vale sobrar que falte", garantindo que o bandulho está cheio e que a família vê que ali em casa é tudo à farta, mas depois a teoria adaptável à casa dos outros é a do "é uma tristeza, tanta comida para a rua com gente a passar fome". 

A revolta dos que nunca contribuem nem se deram ao trabalho de fazer meio dia de voluntariado, mas que mesmo assim acha que as empresas devem garantir que o que sobra nas pastelarias deve ser bem distribuído pelos menos favorecidos, tudo isso enquanto nega uma moeda a um pobre e raspa o prato meio cheio quando há sempre alguém em falta. A mesmíssima pessoa que ainda a semana passada prometia que nunca mais contribuía para nenhuma associação, porque: "são tudo uma cambada de ladrões"; e é lógico que já estavam fartos de saber isso.

O que os outros devem fazer. O que os outros devem garantir.

Os sempre presentes CEO's de polegar.

Sentados do seu sofá são de facto uns maravilhosos campeões, com o bandulho cheio de rabanadas e coscorões que disseram que não iam comer e a lista de papel com as resolução do ano passado: ir ao ginásio e fazer dieta, quem sabe algum voluntariado para ajudar os pobrezinhos e desfavorecidos, para não serem como os mau maus das grande empresas e já agora aproveitarem para tirar uma selfie com o pobrezinho, têm de colocar nas redes patetas com duzentos hashtags para mostrar aos amigos como são altruístas, porque sem a foto para partilhar é um dia perdido de voluntariado.

 

E se eu disser que gosto do Natal...

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O Natal é das crianças e de todos aqueles que mantém alguma infantilidade, como eu.

É dos que gostam das musicas, das fitas, das árvores com bolinhas. Dos que sonham com o dia em que vai nevar pouco depois da ceia, mesmo vivendo nos trópicos. Dos que vibram com a Mariah Carey e o All i want for christmas is you, quando toca no carro cantam aos altos berros e dançam como umas malucas. O Natal é dos que secretamente ainda acreditam que, se calhar um dia, pode aparecer um velho de barbas para deixar na meia uma chave para uma casarona na Quinta da Marinha. Sete quartos e quatro casas de banho. Um quintal com espaço para dinossauros.

O Natal é daqueles que reclamam porque o Centro Comercial está cheio mas deixam sempre as prendas para a ultima da hora. É dos que prometem todos os anos fazer listas e depois acabam a comprar em cima do joelho. É dos que dizem que este ano não vão dar prendas às tias da terra porque estão fartos de oferecer chocolates de 1,99€, mas acabam sempre por passar no corredor e achar que o preço está mesmo bom. Dizem para si mesmos: “tadinha da minha tia Clotilde, gosta tanto de um chocolatinho…olha é só mesmo pelo gesto, para dizer que me lembrei!”, e carregam com sete caixas de chocolates baratos no meio da tralha para a consoada. Bacalhau, couves, batatas, grão, azevias, broas de milho (que parecem adornos porque nunca existiu uma pessoa que as comeu), guardanapos com desenhos de azevinho, quinze garrafas de tinto, sete envelopes para as prendas dos sobrinhos que recebem em dinheiro e sete caixas de chocolates.

O Natal é dos que prometem não comer tantas filhoses* e ainda menos coscorões, mas que depois de atracam à mesa e puxam a travessa para si.

O Natal é dos que garantem que só vão comprar prendas para a criançada e depois aparecem com um pijama novo para o marido e recebem dele umas pantufas. Coisas de velhos casados há mais de 2 anos. Malta com os seus trinta e tal anos. Os que começaram a dizer com assustadora frequência: "aí que estou cada vez mais parecida com a minha mãe!"; dele espera-se que esteja parecido com o pai.

O Natal é a piela que os tios, os pais e os avós apanham. A mesma que os filhos e sobrinhos vão apanhar daí a uns anos. A tia que bebe um cheirinho e rica logo rosada. 

Natal é a noite de consoada com todos os que nos dizem algo, até aqueles que nos dizem que os queremos estrangular a maior parte do ano.

O Natal é dos que recebem peúgas de raquete e cuecas. É dos que reclamam que mais valia não receber nada. É dos que dez anos mais tarde ainda têm as mesmas meias porque são as mais quentinhas, ali puxadinhas para cima com as calças do pijama enfiadas lá dentro. Não há corrente de ar que entre debaixo dos lençóis.

O Natal é a bica de petróleo na Noruega, com a quantidade de bacalhau que exportam para Portugal. É a desgraça do cabrito no dia 25. Dele e das dez garrafas de tinto que se vazam num abrir e fechar de olhos.

É a fatalidade da cintura da tia, da prima, da sobrinha, da irmã e da pessoa. Até o cão tem de andar a ração sem gordura nos primeiros quinze dias de Janeiro.

“É Natal! Uma filhós não lhe há de fazer mal!”, dizemos. Certos de que por ser Natal o cão não cega com diabetes. Afinal de contas é uma época mágica.

Natal é a notinha no envelope para a sobrinha mais velha. É o “compra uma coisa que gostes”, apesar da quantia mirrada.

O Natal é dos que lembram aqueles que partiram, os que fazem falta todo o ano, mas que tinham um lugar especial ali à mesa. É dos que já não estão, dos que nos ensinaram o que sabemos hoje, das histórias hilariantes que deixaram e das frases que sempre disseram. Dos que lembramos com um copo de tinto a mais, primeiro rimos, depois viramos costas para limpar a lágrima porque somos fortes demais para lamechices, e voltamos a rir outra vez, sempre com a frase: "era mesmo assim, era!".

O Natal é das crianças e de quem quiser.

O Natal é de quem acredita no senhor das barbas e de quem acha que a rena de nariz vermelho é a maior.

O Natal é de quem acha que o velhote de vermelho é um embuste.

O Natal é dos que não gostam do Natal, dos que preferem esquecer a data, fechar os olhos e esperar que passe. É dos que dizem: "que se lixe o Natal". Dos que comem o bacalhau sozinhos. Uns porque a vida assim o faz, outros porque assim o preferem.

O Natal é de quem quer estar em casa a distribuir presentes. E é dos que saem antes da consoada para distribuir um prato de comida quente a quem tudo o que tem na vida é o ar que lhe enche os pulmões.

O Natal é de quem viaja porque não gosta das festas familiares e de trocas de prendas porque-tem-de-ser.

É dos forretas que compram as prendas a 26 para apanhar as promoções sempre com a desculpa que as filas estavam grande demais.

Hoje parei para pensar no Natal e cheguei à minha conclusão.

Eu gosto do Natal, durante muitos anos preferi não gostar, as faltas custavam-me mais que as presenças.

Mas hoje digo: eu gosto do Natal. Das filhoses (o plural é filhós, mas eu digo como aprendi como a minha avózinha que não sabia ler nem escrever), do bacalhau, de todos juntos à mesa com a toalha feia que a sogra ofereceu. De ouvir as musicas em repeat na rádio e nos Centros Comerciais, em quantidade bastante para me cansar e dizer: “já está, para o ano há mais”.

 

Um feliz Natal para todos.

Para os tradicionais e para aqueles que têm o melhor Natal de todos: perfeitamente imperfeito.

 

Queques de sabão

No fim se semana tenho por habito adiantar algumas refeições da semana. Nessas refeições estão por regra incluídos uns biscoitos ou muffins tendencialmente saudáveis para que depois não ande a palmilhar para a Padaria Portuguesa enchendo o bandulho de queques de chocolate super macios.

Vai daí e este fim de semana decidi repetir uma receita vencedora de muffins de coco e pepitas de chocolate, sem glúten e sem lacticínios, que tinha visto na NIT. Desta vez, considerando a validação da experiência, decidi duplicar as quantidades para fazer queques maiores.

Até aqui tudo bem. Quando chego ao Bicarbonato de sódio, na duvida entre colher se sobremesa e colher de café, espeto com colher e meia de sobremesa, assim haviam de crescer que era uma maravilha.

Na segunda feira quando como o primeiro fica na minha boca uma estranha sensação de que tinha estado a mascar um sabonete.

Bebi muita água e não passou.

Receei que me corroesse o estômago e pesquisei na net se havia de chamar o INEM caso o meu estado avançasse e eu começasse a arrotar bolinhas.

Não aconteceu.

Ao final do dia pedi ao Nuno para provar. Concordou.

Na terça comi outra vez, queria ter garantias de que o bolo sabia a sabão.

Sabia.

Pesquisei na net, excesso de bicarbonato de sódio e falta de um ácido para balançar deixam uma sensação de que andámos a lamber uma saboneteira (não estava assim escrito no site, mas ficou claro para mim).

Aprendizagem: no futuro uso só o fermento em pó que a minha mãezinha punha nos bolos, criou 4 criaturas a pães de ló desses e nenhum andou a arrotar bolinha rua afora.

 

 

Madonna e a "lenda viva"

No seguimento das cantorias entre a estrela internacional Madonna e a “lenda viva” Celeste Rodrigues, ocorridas durante uma noite de forrobodó Lisboeta, decidi entrevistar uma das pessoas que, em total êxtase decidiu colocar like, comentar e partilhar a noticia onde proclama que a Senhora Dona Celeste Rodrigues é a maior.

 

Eu Entrevistadora (EE) - Ora muito bom dia.

Pessoa que fez like e partilhou em êxtase (PQFLPE) – Bom dia.

EE – Verificamos que gostou imenso de ver o vídeo da Sª D. Celeste Rodrigues a cantar com a Madonna.

PQFLPE – Sim foi brutal, a voz daquela senhora mesmo com a idade que tem.

EE – Sabe a idade que tem?

PQFLPE – Não, mas parece ser bastante idosa.

EE – Tem 94 anos. Mas adiante. Visto que é alguém que preza pode dizer-nos o nome de um dos discos de Celeste Rodrigues que mais gostou de ouvir.

PQFLPE – (ri um bocado e pensa) Não tenho muito jeito para nomes de discos, não me consigo recordar de nenhum agora.

EE – É de facto uma pena. Já conhecia Celeste Rodrigues?

PQFLPE – Sim, claro que sim.

EE - Se lhe disser o nome de 3 músicas de Celeste Rodrigues acha que me consegue dizer de qual gosta mais?

PQFLPE - Sim, claro.

EE - Então aqui vão: a) Crazy; b) Caminho sem ver; c) Eu levo no pacote.

PQFLPE - Sem dúvida a "A" porque a "C" é da Rosinha e a "B" acho que nem existe.

EE – Sabe de quem era irmã?

PQFLPE – Era irmã da Amália.

EE – Que por sua vez era….?

PQFLPE – Uma banda com a Sónia Tavares.

EE – Incorreto. A Amália Rodrigues foi o maior nome do fado português.

PQFLPE – Ahhhh, essa Amália, sim claro. Pareceu-me uma pergunta de rasteira.

EE – Sabe se a Amália ainda é viva?

PQFLPE – Sim creio que sim.

EE – Muito bem, e onde acha que estaria nesta noite em vez de estar na ramboia com a irmã?

PQFLPE – Provavelmente num lar, porque já tem uma idade avançada.

EE – E se eu lhe disser que Amália Rodrigues já morreu há mais de 15 anos.

A pessoa entrevistada entrou em choque e não conseguiu prosseguir com a entrevista. Decidiu fazer 3 dias de luto e ia fazer uma carta ao Parlamento para pedir que seja feriado nacional pela perda de tamanha lenda.

 

É lógico que todo este paleio corresponde a uma espécie de fábula criada na minha mente, contudo acredito piamente que não estará muito longe da realidade. Eu dava dois tostões e meio (porque esta designada noticia não vale mais do que isso) para saber:

1. Das pessoas que vibraram com esta partilha nas redes patetas quantas sabiam quem era Celeste Rodrigues?

2. Destas quantas sabiam que era irmã de Amália Rodrigues?

3. Destas quantas sabiam que Celeste Rodrigues ainda estava viva?

4. E já que falamos em estar viva, destas quantas sabem que a Amália já faleceu há mais de 15 anos?

5. Das pessoas que partilharam quantas alguma vez ouviram um disco de Celeste Rodrigues?

6. Uma musica?

7. Numa noite de fados?

 

Provavelmente as respostas seriam: poucas; pouquinhas; quase nenhumas; algumas; nenhuma; praticamente ninguém; as que o fizeram já não fazem parte deste mundo. Respetivamente.

A ultima vez que eu ouvi falar de Celeste Rodrigues foi quando saiu o filme Amália e esse já tem quase 10 anos.

Em resumo o que temos aqui é mais uma daquelas situações de sobrevalorização da valorização dos outros. Se a senhora calha a ser apanhada a cantar sozinha na noite Lisboeta tinham-lhe dado uma moeda e dito “coitadita”. Se a senhora calha a cantar com outro fadista, ainda podia ser que achassem engraçado. Mas como foi a Madonna a dizer que Celeste Rodrigues é uma “lenda viva” já é toda uma outra conversa.

Eu não tenho qualquer aporrinhamento que a rainha da pop partilhe os seus vídeos nas suas redes patetas, mas confesso que me faz alguma confusão que os meios de comunicação tratem uma situação destes como noticia.

Podia também dizer que é triste a valorização atribuida por uma sociedade que nunca deu um cavaco pela senhora e que lhe dá agora tanto mérito quando aparece ao lado de uma estrela internacional, mas isso é pedir às pessoas que não vão atrás dos outros e isso é-lhes muito difícil, especialmente quando estão com o telemóvel na mão a fazer likes e a partilhar cenas na net que 25 dos seus outros amigos já catalogaram como “Brutal”.

A mim o que me fazia partilhar com o #brutal era se a sodona Madonna fizesse um dueto com o Quim Barreiros a cantar o “I like to suck on the tits of the little lamb”, isso era coisa para me dar um certo alento. Era isso e se a ela lhe apetecesse convidar o Elvis, afinal de contas a rainha da pop diz que ele a segue para todo o lado.

 

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