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Blog Bestialmente Conhecido

Pérolas da parentalidade (1)

Passar o fim se semana com sôtor meu filho é o mesmo que andar à caça do tesouro, há moedas de ouro e pérolas a cada esquina.

É também bastante desgastante e infantil, considerando que, à parte dos momentos de sesta, com uma criança de menos de 3 anos passamos o dia a toque de caixa dos seus "queo, queo, queo, queo".

Este fim de semana não foi exceção.

No sábado, para comemorar o aniversário do Nuno vieram cá jantar algumas pessoas de família onde estavam incluídos (como seria de esperar) os meus sogros.

Sôtor passa os dias com os avós paternos e, ao final do dia e fim de semana quer estar apenas com os pais, mandando frequentemente para casa os avós (se calham a vir cá a casa por algu motivo) porque estar com os pais, aparentemente, é mais fixe.

Vai daí e o meu irmão e a minha cunhada preparam-se para ir embora porque a minha sobrinha tinha um trabalho de grupo para fazer na faculdade e precisava de ir ter com as colegas. Com eles foi também o meu pai.

Vendo todos de partida sôtor pegou na trela do cão dos meus sogros, entregou-a ao avô e disse-lhe:

- Tu também vais.

Todos nos rimos.

Não satisfeito e já depois de todos saírem, os avós foram ter com ele ao quarto.

Foi então que perguntou:

- Onde estão os outros?

Eu respondi:

- Foram para casa.

E ele disse para o avô e para a avó:

- Só faltam vocês. Adeus!

Fiquei sem palavras.

 

No Domingo, ao final do dia fui dar uma corrida. Quando cheguei disse ao pai:

- A mãe chegou, agora vai lá tu correr....

Contemos o riso.

Sentei-me com ele no chão a brincar e ele diz-me:

- Ai mãe, gosto tanto quando ficamos os dois sozinhos em casa...

Contive o riso. Sei que é egoista, mas é tão bom ouvir estas coisas.

 

Estávamos sozinhos em casa e eu fui à cozinha desligar um aparelho enquanto ele ficou no quarto a brincar. Quando ia ter com ele vejo-o a correr na minha direção. Dobro-me e digo:

- Oh amor, vens dar um abraço à mãe...tão bom.

Ele diz-me continuando a correr e passando ao meu lado:

- Sai da fente, tá a dar uma Patulha Pata!

 

E eu fiquei ali de braços abertos.

Depois ri-me.

Ah, as maravilhas da parentalidade (pérolas para o pai e pérolas para a mãe).

 

Esta coisa do sorriso permanente aflige-me

Não tenho sequer 35 anos mas para muita coisa sou uma pessoa antiga. Arriscaria dizer que um dinossauro.

No meu tempo as pessoas podiam chatear-se. Podiam aborrecer-se. Depois falavam, acertavam agulhas e a vida continuava. Não eram más porque tinham dito algo. Nem eram riscadas porque tinham uma opinião.

Agora vivemos na nuvem dos sorrisos. Temos de estar sempre a sorrir como se a vida fosse um mar de rosas onde não há o direito a estar de trombas, chateado com o dia, com uma determinada circunstância, com um acontecimento. É pá, ter, pura e simplesmente, acordado com os pés de fora.

Está em vias de extinção aquela coisa de respondermos torto a alguém e essa pessoa nos responder enviesado e nós percebermos que tivemos um comportamento de bosta e redimirmos-nos com um café…ou um simples, desculpa lá!

Nada disto!

Nos dias que correm funciona assim: ou rimos e concordamos; ou discordamos mas sempre com o risinho (ahahahahaha) que cheira a fezes a 10.000 km de distância; ou somos uns trombudos anti sociais que não sabem falar. Perde-se a razão do que se diz porque não se sorri e a indignação assenta.

Da próxima vez que falarmos com essa pessoa, a quem apenas manifestámos a nossa opinião, seremos tratados com um certo distanciamento e frieza para que não haja confusões.

Houve um tempo em que eu não percebia que isto acontecia.

Depois passei a perceber e importava-me.

Agora sei exatamente quando acontece e estou-me borrifando. Não consigo engolir aquela coisa de perder a razão pela forma. Ou se tem razão ou não se tem razão.

Também não engulo aquela de ter de andar sempre com os dentes de fora para se ser boa gente.

Pelo que é isto, cá ando nesta cepa torta para os outros e alinhadérrima para mim.

Já não tenho idade para aturar merdas!

 

Momento de sensualidade doméstica

Ela entra na sala e sinte o frio.

Está um briol do catano.

Os ossos apertam com as cartilagens, os poucos músculos ficam tensos, as carnes moles ficam moles e ela, à beira de uma enxaqueca provocada pelo gelo que se faz sentir, senta-se no sofá.

No lombo um pijama polar. Por cima do pijama polar, um robe polar. Para aquecer mais um pouco uma manta polar por cima do robe polar que está em cima do pijama polar.

Recosta-se.

Ele senta-se a seu lado.

Todo ele fibras polares.

Encosta os lábios à orelha dela e sussurra:

- Pavimento Radiante.

 

#arrequenãonasceuparaofrio