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Blog Bestialmente Conhecido

Lé chon se á abané...

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Estava eu descansada da minha vida, ali forte a ler documentos cruciais à minha vida de trabalho, e vai de sentir o chão a mexer-se com vontade própria.

- Ó não-sei-quantas deste conta disto filha, ou fui só eu?

É que às vezes acho que as coisas se dão, porque sou uma caguinchas, e não se passou nada.

Todos confirmaram o abanico menos o chefe, metido com a sua vida achou que estávamos a mangar com ele.

Liguei para casa a saber se alguém tinha sentido alguma coisa, rico filho estava no jardim a dar à perna de um lado para o outro nem se apercebeu de nada.

No Correio da Manhã não tardou a saber-se que o epicentro foi em Arraiolos com uma magnitude de 4.9. E ao fim de poucos minutos já lá havia um reporter. (às vezes tenho medo...parece que estão sempre entre nós...)

Caramba, se menos de 5 se sente tão bem, se isto se me abana como no Japão estamos feitos ao bife. Mas atenção que não houve baixas de pessoas, animais ou objetos.

Durante a hora de almoço já houve quem esclarecesse que os gatos conseguem pressentir terramotos, a minha colega do lado esclareceu que se ouve barulho antes.

Para ir beber o cafezinho à rua fiz as viagens de elevador com um certo tefe-tefe, mas depois enchi-me de coragem e lembrei-me que nos filmes a malta que lerpa sempre são os medrosos histéricos. Os heróis ultrapassam tudo estoicamente e nunca mostram um semblante acagaçado.

Estou a tentar manter esse estado mental para ultrapassar a tarde.

E farei os possíveis nos próximos dias para convencer os RH e o meu chefe de que a melhor coisa para a empresa é adquirir um gato. Fariamos como com o peixinho dourado do Colégio e cada colaborador fica com o gato um fim de semana.

Por enquanto...

...ainda que ache que o melhor era preventivamente evacuarem Lisboa, que assim preveníamos baixas num cenário de catástrofe e eu adiantava as coisas para o jantar.

 

 

Focus Cátia son, focus….

focus.jpg

 

 

O meu pai é um engenheiro autodidata das mais modernas tecnologias.

Sempre o foi.

Criou um método infalível para resolver quaisquer questões, que podem ir da falta de contacto de um fusível dentro da TV à falta de rede de um telemóvel. É sempre o mesmo método e raras vezes falha.

Quando este método já não funciona, normalmente o equipamento está pronto para ir pró lixo.

E muito simples: basta levar a mão que lhe der mais jeito o mais atrás possível, exercer o máximo de força que conseguir e arrear uma valente pantufadona no equipamento.

É um movimento que impõe respeito e repara.

Aquele objeto passará a respeitar-nos para todo o sempre, seja pela nossa conduta, seja por medo de apanhar outra vez.

Tenho muito presente a imagem do meu pai a reparar a TV antiga lá de casa, daquelas que pareciam uma caixa gigante e pesavam toneladas.

 

Quando estou com falta de concentração tenho vontade aplicar a mim mesma este método. Para ver se volto a ter sinal na pinha e se me ligo ao que mais importa.

 

Arre que isto à segunda é muito difícil….

 

O meu filho à solta numa grande superfície de bens de desporto

Estávamos a caminhar para a porta de entrada e disse-nos:

- Lá dento queo andá xójinho!

- Tá bem filho, lá dentro a mãe deixa-te ir sozinho. - respondo eu já meio a soar profusamente porque sei o que me espera.

Passamos a segunda porta, pouso-o no chão, ergue o braço direito e corre enquanto grita:

- Bichicletaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

À frente aparece-me uma miúda saída de não sei onde, quer bloquea-lo, ele ignora-a, ela decide ser mais incisiva e empurra-o. Meto-me ao barulho:

- Ó amiguinha, empurrões não!

Faz-me sempre uma certa confusão esta coisa de aparecerem crianças vindas do nada em grande espaços comerciais, sem pais, irmãos, avós, nenhum acompanhante com idade que se apresente. Faz-me lembrar os jogos de computador, deve dar pontos ou coisa que o valha.

Ultrapassada a criatura-perdida-de-mãe-lá-atrás-que-nem-chamou-a-filha-à-atenção porque alguém lhe deve ter ensinado que os outros é que a têm de educar; sôtor monta-se na primeira bicicleta com rodinhas que encontra. Já está a tentar encaixar os pés nos pedais e diz-me:

- Falta-me o capichete!

Lá vou eu buscar um capacete, lá ouço outra vez que aquele não é o que ele gosta mais.

Anda para trás e para a frente duas vezes - empurrado pelo pai porque ainda não sabe andar de bicicleta - e salta lá de cima. Quer experimentar mais três ou quatro "bichicletas" e quando lhe digo que a profissional é para crescidos passa à secção seguinte. Arranca em modo Bolt e diz: 

- Vamos ao meu xitio pifiido!

Que é a secção de fitness onde estão os kettlebels, os pesos livres e as passadeiras. Tenta levantar todos os pesos, informa que são mesmo pesados e lança-se para as passadeiras. Sobe e desce todas elas e depois chama-me, aponta para os botões e para as ranhuras no painel das passadeiras de corrida e diz-me:

- Mãe põe aí uma mieda!

Quando acabo de lhe explicar que aquilo não é o carrossel de um supermercado arranca na direção contrária, enquanto corre diz-me:

- Vamos ao meu xitio pifiido!

Que é a secção das bolas. Quando o alcanço já está a lançar a primeira para ser apanhada. O objetivo dele é atirar todas as bolas para o fundo da loja. O nosso é tentar impedir que passemos - nós os crescidos - mais de um quarto de hora a apanhar bolas à vez. Eu vou apanhar uma e o pai fica com ele, assim que acaba de o repreender ela lança outra bola, arranca o pai e eu estou a chegar. Não pode ficar sozinho, porque da ultima vez que isso aconteceu, por 2 segundos não estava ninguém logo ao lado - estava no ângulo de visão - ele arrancou e já estava com uma cana de pesca na mão, quase a enfiar um anzol na boca de um velhote que estava a escolher isco. 

Ultrapassada a secção das bolas começamos a apressar-nos para a saída. Eu já estou em fraqueza e preciso de passar na zona das barras energéticas. Gastei tudo o que tinha. Tiro duas ou três e ele diz-me:

- Que é isso mãe?

- São barras de chocolate?

- Quero...

- Então temos e ir pagar.

Quando lhe digo isto arranca em voo picado para a caixa enquanto grita:

- PARARIIIIIIII!

Quando chegamos à fila já estou quase a desfalecer, a moça da caixa pretende informar-me dos pontos que tenho, ao que parece estou quase a receber um vale de 6 Euros. Sorrio, não sei se me aguento até à saída.

Adoro ir à "Detaton" é sempre muito "divitido".

 

Ainda há menos de 100 anos...

Há aproximadamente 36 anos uma senhora de nome Maria José, conhecida por todos como Zé, foi despedida da fábrica de costura para a qual trabalhava fazia anos. Há mais de 3 meses que a fábrica não pagava ordenados, mas na classe baixa, em que o vencimento de cada mês fazia falta para pôr comida na mesa, era uma calamidade perder o emprego. Por isso as pessoas mantinham-se a trabalhar, na esperança de que tudo se resolvesse.

A fábrica acabou por fechar. O proprietário colocou todos os seus bens no nome da ex-mulher. Os empregados ficaram sem emprego, sem os últimos meses de ordenado e sem indemnização.

A Zé decidiu que não podia continuar assim e decidiu começar a trabalhar por conta própria.

Tinha então 3 filhos, havia de ter mais uma menina havia de cuidar também das duas sobrinhas que moravam no mesmo prédio.

Mestre perfeccionista no seu oficio depressa granjeou uma mão cheia de clientes. Trabalho não lhe faltava. 

Um dia apareceu uma cliente que se chamava D. Isabel, queria saber se a Maria José aceitava costurar para ela, disponibilizava-se a pagar extra por isso, se fosse o caso.

A D. Isabel era uma senhora negra a quem as costureiras recusavam fazer roupa pelo tom de pele.

A guerra colonial não tinha acabado há anos suficientes....havia muito racismo. Muito tratamento desigual. As palavras "preto", "negro" e "retornado" eram usadas à boca cheia com o intuito claro de ofender e rebaixar.

A Maria José esclareceu que costurava para pessoas honestas e que pagassem a horas, se eram mais escuras ou mais claras pouco importava, a cor do dinheiro era verde e pessoas dessa cor não conhecia nenhuma.

Começou naquele dia uma boa amizade.

A Maria José era a minha mãe. A D. Isabel era uma das pessoas mais doces e de melhor conduta que alguma vez conheci.

 

A minha mãe não permitia que se chamassem nomes aos outros. Não se usava a palavra "preto" porque ela tinha uma conotação negativa e para a minha mãe isso não fazia sentido.

Aprendi com ela que as pessoas se avaliam pelos seus comportamentos e pela sua conduta, a cor de pele que trazem consigo nada acrescenta à equação, e só pessoas ignorantes eram capazes de agir dessa maneira.

A minha mãe tinha a quarta classe e trabalhava deste o dia em que acabou de fazer o ensino primário.

Não precisou de se julgar um génio para saber que pessoas são pessoas, independentemente da sua cor.

 

A D. Isabel transformou-se numa das melhores clientes. Pagava a horas, dava boas gorjetas e trazia muito trabalho.

Mas havia um problema: a minha mãe tinha duas clientes de nome Isabel, e nós - que abríamos a porta e informávamos quem estava a subir enquanto a minha mãe preparava tudo para a prova da roupa - tínhamos de saber destingir.

Então informou-nos:

- Para destingirem entre uma Isabel e a outra, dizem-me que esta é A D. Isabel, que é uma senhora de cor.

Hoje dir-se-ia que quando alguém se refere a uma pessoa negra como "pessoa de cor" é alguém que está a reprimir um certo racismo. Mas isso é porque as pessoas não viveram ou assistiram ao momento em que uma pessoa insulta outra apontando-lhe a cor da sua pele.

Ou isso ou já se esqueceram de como era a vida em Portugal há 40 anos.

A minha mãe não era uma economista formada no estrangeiro. Não tinha lido mil livros nem pensado filosoficamente na questão. Queria apenas que os filhos soubessem que era possível descrever alguém usando uma caracteristica sua, como qualquer outra, sem usar uma palavra que lhe soava a insulto.

Que fosse tão linear como destinguir as 2 D. Ana que haviam: ou era a loira ou era a outra.

 

Quando conhecemos a D. Isabel ela tinha uma vida muito confortável, pagava bem e dava boas gorjetas. Foi cliente da minha mãe enquanto viveu financeiramente desafogada e quando lhe passou a faltar o pão para a mesa.

Tinha uma valente vivenda e era proprietária de 2 ferro velhos.

Depois os filhos envolveram-se na droga e ela perdeu tudo o que tinha com negócios organizados pelos dois.

Já não fazia fatos caros. Pedia alguns arranjos.

Em tempos dava gorjetas tão grandes quanto o valor do trabalho.

Depois passou a levar o arranjo com um "uma mão lava a outra D. Isabel, já foi para mim, hoje sou eu para si, nunca me esqueço".

 

Com a minha mãe aprendi a respeitar os outros por aquilo que são e como se comportam: se são respeitadores, honestos e educados, devem ter o mesmo de mim. Sejam brancos, pretos, ciganos, romenos, americanos, com barbas longas, carecas, zarolhos, o Presidente da Republica ou a senhora da limpeza.

 

Ontem à tarde vi este filme e lembrei-me da D. Isabel. Lembrei-me de como as coisas eram nesta nossa terra há tão pouco como trinta e tal anos.

É aterrador que há menos de 100 anos estivéssemos a pôr um homem na lua e na terra ainda houvesse uma casa de banho separada para pessoas com uma cor de pele mais escura.

 

Este filme está magnifico. Um desempenho extraordinário das 3 atrizes que representam estas maravilhosas mulheres que foram um marco para mudar mentalidades.

3 mentes brilhantes.

3 corações de coragem.

Um rasgo de sorte.

E a oportunidade de encontrar um homem que, à  semelhança da Maria José, avaliava as pessoas pelo seu comportamento e pela sua conduta, não dando valor à cor de pele que traziam consigo.

 

 

 

 

Às vezes falta-me a pachorra...

...e é por isso que cada vez menos opto por partilhar coisas muito minhas. Sabe quem me seguia no Em Busca da Felicidade que o fazia com bastante frequência.

Mas....

As pessoas acham que, porque escrevemos num espaço público, partilhando opiniões, situações, peripécias e até sentimentalismos baratos, porque deixamos em aberto uma minúscula fresta da nossa vida, lhes é concedido uma espécie de direito divino para dizer o que querem, como querem. De opinar sobre o que somos e em respeito às decisões que tomamos.

Pequeno e breve esclarecimento:

Cada um sabe de si e Deus, a existir, lá saberá da maioria. Porque até Ele, sendo o sábio dos sábios, não terá certamente vagar para tanta idiotice a sabichonice da treta.

 

Uma boa noite, um bom fim de semana e um grande bem haja para todas as mães que, tal como eu, nem sempre sabem o que fazem, que têm medos e que se aporrinham com coisas aparentemente irrisórias.

 

#osparvoshaviamdeterumacaganeirasemprequeapoquentamosoutros

 

As mães não sabem o que querem….

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Quando ainda não era mãe, e parava para pensar em como seria no dia em que esse momento chegasse, tinha um milhão de certezas.

Ia ser medianamente assertiva, o miúdo ia para a escola logo aos 6 meses, porque as crianças com os avós ficam mimadas e precisam de conviver com os seus pares, não ia desatar a chorar quando o deixasse aos cuidados da educadora e nunca me afligiu a ideia de deixar um filho com uma perfeita desconhecida.

As coisas eram o que eram e eu, pessoa prática e que despacha coisas diversas, ia gerir a maternidade como uma espécie de brisa porque tinha uma ideia clara de como as coisas se haviam de passar.

 

Quando o pequeno nasceu, a ideia de o deixar com 6 meses, pequeno e indefeso, aos cuidados de uma pessoa que eu não conhecia começou a atormentar-me.

Por isso convidei os meus sogros a mudar-se do Alentejo para Lisboa para que cumprissem um único propósito: tomar conta do neto.

Não fazia sentido ter ciúmes da minha sogra. Eu era a mãe e o meu filho sabia disso.

Não foi preciso um mês para perceber que me incomodava a ideia de a minha sogra estar mais tempo com o meu filho do que eu. Começou a preocupar-me a possibilidade de aquele ser, tão meu, tão mais meu do que eu própria me pertenço, pudesse, sequer de forma remota, gostar mais da avó do que de mim.

O tempo foi-me tranquilizando. Todas as manifestações de carinho que tem comigo e a alegria com que me recebe, a par com o abraço que se acompanha com um sentido “estou tão contente por te ver mãe!”, apaziguaram a caixinha vermelha que trago ao peito.

 

Nos primeiros tempos que ficava com os avós não havia choros nem tristezas. Depois, quando começou a perceber que os pais iam fazer alguma coisa sem ele, começou a pedir que ficássemos, que fossemos todos passear, que estivéssemos sempre com ele.

Fomos-lhe explicando que os pais tinham de trabalhar. Foi percebendo e hoje fica com os avós sem dizer nada. Ou melhor, às vezes lá esclarece: “vá, vão lá tabalar!”.

 

A primeira vez que o vi chorar porque não queria que o deixasse fiquei com o coração partido. Queria ligar para o trabalho e dizer que não ia, não trabalhava até o meu menino dizer que estava bem, que eu podia ir.

Agora que essa fase passou percebi que me afeta que ache normal que eu vá embora horas a fio.

Uma espécie de “então caraças, afinal não tens saudades da mãe”.

Volta aquele receio de que venha a gostar mais dos avós que de nós. Afinal de contas eles dão-lhe muito mais tempo que os pais.

Zango-me comigo, afinal de contas quero-o independente ou dependente?

Acho que queria uma espécie de medida intermédia que nem eu sei bem qual era.

 

Suspiro quando está sempre a chamar-me para brincar. O pai está sempre no banco de suplentes. Tem oportunidade de descansar. Depois chama pelo pai porque prefere fazer uma brincadeira com ele e a minha cabeça pensa “olha, está a começar a perceber que a mãe é uma tola e que o pai é muito mais fixe!”

Um dia isso vai acontecer.

Eu sou uma pessoa destrambelhada, tola, que fala pelos cotovelos, tendencialmente infantil e que tem a mania que tem graça. Nos dias maus sou uma trombuda da pior espécie, abuso do sarcasmo bem ácido e tenho pouca paciência.

Para ele sou sempre a primeira, a segunda desaparece quando ele está.

É claro que ralho, e que me descabelo, especialmente quando anda a correr pela casa e corre o risco de abrir a cabeça contra a quina de uma mesa. Afinal de contas ainda no outro dia me caiu em voo picado, ficando completamente estatelado no chão, porque tinha tropeçado num edredão.

 

Ontem chamou-me para brincar, no meio da brincadeira explica-me as regras:

- Mãe, tu vais tabalar pa ganhar dineio. Eu fico em casa shojinho. Tá bem!?

E eu pensei com os meus botões que tinha estado o dia todo fora e agora ele queria brincar a eu ainda ir trabalhar outra vez.

Tonteira. Eu sei.

 

Hoje acordou às 6:20 da manhã, a primeira coisa que me disse foi:

- Vá, vamos para os avós!

Ainda pedi que confirmasse, ele esclareceu:

- Vamos para os avós. Vai-te vistiri.

 

E eu a pensar no que é que eu estou a errar, para o meu rico menino, às 6 da manhã, acordar com vontade de estar nos avós em vez de dizer “bora lá ficar em casa mãe!”.

Custa-me esta coisa de me sentir a passar para segundo plano.

Ele vai fazer 3 anos.

E atormenta-me a ideia de que um dia, se tudo correr bem, ele vai ser um homem independente, que, com muita sorte, me liga uma vez por dia e vai ter a vida dele. Independente da minha.

 

Na minha cabeça crio a ideia que há um mundo de mães que pensa assim, faz de conta que pertenço a uma espécie de gangue com um certo grau de psicose normal nesta coisa dos filhos. Preciso de acreditar que há mais como eu, quase tanto como os astronautas precisam de acreditar que há vida noutros planetas.

 

O Skyr é o novo Aloe Vera

Eu devia ter os meus 9 anos quando uma amiga da minha mãe lhe recomendou uma mezinha caseira com uma planta que era uma espécie-de-cacto-gordo-que-não-pica. Naquela altura, no inicio da década de 90 as pessoas não sabiam dar nomes a cactos. Um cacto era um cacto e acabou.

Perto de nós havia uma quinta onde, se pedíssemos com jeitinho, os proprietários deixavam entrar para "roubar" umas folhas do cacto.

Assim o fizemos, depois de descarnar aquilo, lá foi cozido e, junto com whisky, mel e mais uma catrefada de especiarias ficou ali uma mistela um xarope que era uma maravilha. A minha mãe tomou aquilo até lhe terem identificado mais um quisto, afinal de contas andava a castigar-se a papar plantas alcoolizadas com mel e os problemas de saúde estavam lá na mesma. Borrifou-se para aquilo.

Muitos anos passaram e, creio que à cerca de uma década começou a febre do Aloe Vera, se não estou em erro primeiro foram os cremes caros, depois os suplementos, a seguir vieram os iogurtes e agora até os detergentes de loiça mais baratos têm a dita planta. Aquilo sofreu uma massificação tal que a determinada altura era quase difícil comprar alguma coisa que não tivesse um cheiro da planta milagreira.

Mas, como qualquer bom milagre comercial, não há nada melhor do que arranjar outra coisa magnifica para o bem estar que a destrone e, pelo que me vou apercebendo esse novo milagre chegou este ano, em formato de iogurte e através do LIDL: estamos a falar do Skyr.

A primeira vez que ouvi esta designação falava-se de uns iogurtes que, não só esgotavam, mas faziam com que pessoas crescidas se metessem em filas à porta do hipermercado para comprar caixas. Estava sempre esgotado.

Comprei esta bodega uma vez, detestei, fiquei com a boca a saber a qualquer coisa que seria um híbrido de palha com cortiça e esferovite.

Desde então tem sido uma loucura com as coisas designadas de Skyr (lacticínios que alegadamente têm uma maior percentagem de proteínas que os outros). Mais do que uma marca comercializa e até já há gelados de vários sabores. Estou à espera do dia em que aparecem os cremes, os quais nos vão fazer absorver proteína por via cutânea; seguidos dos shampoos e acabando com o detergente de lavar chão Skyr, até porque toda a gente sabe que um bom chão é um chão saudável, cheio de músculos e bem alimentado.

 

#fartadestasmodas

 

Apontamentos da vida sobre coisas que pouco importam aos outros (2)

O meu pai é um homem feito de memórias, às vezes acho que a vida dele se alimenta das memórias de um passado de que não quer abrir mão. As decisões menos boas que ainda o atormentam, os azares que lhe calharam, os momentos que viveu em sítios que preserva na sua memória intactos como no dia em que os viu pela última vez.

Às vezes organizo um ou ourtro passeio com ele, não o faço tantas vezes quanto gostaria, mas gosto de o levar a sítios que conheceu bem, espaços que já não visita há mais de vinte anos, aqueles que continua a descrever como se tivessem ficado intactos na história, alheios à evolução e à corrosão do tempo. É frequente que a caminho nos presentei com todas as histórias lá passadas, lembra-se das pessoas e dos nomes dos restaurantes, fala no presente, como se aquelas pessoas ainda hoje estivessem sentadas na mesma mesa a comer um almoço farto. É assim que as recorda.

Quando chegamos vejo no seu olhar um misto de suspresa e desgosto, a surpresa de quem conhece uma terra nova, tão diferente daquela que um dia soube como a palma da sua mão; desgostoso porque as ruas e as pessoas que ainda vivem no seu presente já não existem ou estão envelhecidas pelo tempo.

Tudo lhe traz memórias passadas e eu sempre fiz pouco disso. “Ó Augustinho lá estás tu, isso foi há quantos anos? Essa história é mais velha que eu sei lá…”

E ele conta-a na mesma.

“Que é que queres?, são as minhas histórias, pá! Se não falo destas falo do quê?!”

Com a idade vou-lhe dando razão, vou compreendendo que as memórias nos compõem mais do que pensamos. As recordações fazem parte da nossa vida presente porque alimentam aquilo que somos.

 

Há uns dias o Nuno vendeu um aparelho de secar a roupa que tínhamos comprado o ano passado (falo como quem ainda está em 2017 e não se acamou ao 2018, como se o ano fosse um par de sapatos que tem de ganhar jeito ao corpo).

Deu para remediar a avaria da máquina de secar, mas este ano já não precisamos dele.

Quando foi entregar o aparelho à compradora viu-se grego para lhe dar troco, não havia uma única loja que lhe trocasse 10 Euros por duas de 5 Euros. Só à quinta loja e com a ajuda da rapariga é que conseguiu a troca.

Fez-me lembrar uma história.

A minha mãe sabia delegar responsabilidades como ninguém, quando aprendíamos a ler a escrever o básico ia-nos dando tarefas mais complexas para ver se ficávamos atentos, se eramos responsáveis. Um dia, quando fomos ao antigo Pão de Açúcar na Cova da Piedade – hoje já não existe, foi demolido e deu lugar a um terminar de autocarros – a minha mãe deu-me 500 Escudos para ir trocar à papelaria, tinha entrado em vigor à pouco tempo aquela coisa de os carrinhos precisarem de moeda e a minha mãe não tinha moedas de 100 ou de 50 Escudos.

Entro na papelaria e peço educadamente à senhora para trocar, numa atitude pedante a pessoa diz-me que não tem de trocar nada, que tivesse trazido moedas de casa.

Parei a olhar para a moeda. Para a senhora eu estava a parecer meio atrasada, na minha cabeça estava a engendrar-se uma solução que me garantisse que trocava a nota e não me metia em chatices.

- Então quero comprar uma pastilha Gorila se faz favor.

Aquela decisão requereu coragem, muita coragem. Eu não estava autorizada a gastar o dinheiro com doces, tinha apenas de trocar o dinheiro. Mas o valor era tão baixo, que decidi arriscar, deixado para trás as eventuais consequências. Aprendi nesse dia que queria dar uma lição áquela pessoa que estava a tratar-me incorretamente só mesmo porque eu era uma criança.

- Não me vais pagar com 500 Escudos pois não?

- Vou e a senhora vai dar-me troco, porque tem de me dar troco.

A tipa enfureceu-se e deve ter-me desejado as maiores pragas. Quando saí cá para fora enchi o peito, esta já tinha aprendido que não se metia comigo, faltava era explicar à minha mãe que tinha comprado um doce sem a autorização dela.

Quando lhe contei encheu-se de orgulho, afinal de contas, sem gastar praticamente dinheiro nenhum ensinei uma adulta que não fazia pouco de mim.

 

Cada vez estou mais parecida com o meu pai. A minha vida são histórias.

 

Os filhos, os telemóveis e as encrencas em que nos metem

Ora muito bons dias.

tsitude?! Boa!

Então e eu?

Cá ando, com aquelas dores do costume e hoje a acrescer uma pontada de vergonha pelas situações em que me filho me coloca.

O meu maravilhoso rebento é uma criança tremendamente ativa e eu, pela hora de jantar sou uma mãe extremamente cansada. Ele quer correr pela casa toda. Eu quero sentar-me durante 10 minutos a comer uma bucha jantar, enquanto vejo um qualquer programa de decoração na TV.

Para que eu possa ter esses singelos 10 minutos tenho de o manter entretido e, manda-lo para o quarto brincar com as coisas dele não é opção, essencialmente porque com todas as horas que teve longe de nós quer atenção, em especial atenção da mãe, passando o todo a perguntar: “Já acabaste de comer, mãe?!”. O interrogatório de uma só questão começa, normalmente, antes mesmo de eu me sentar.

Vai daí e eu empresto-lhe o meu telemóvel. Normalmente vai sempre ao Youtube para ver os vídeos do homem aranha e do Hulk.

Ontem, depois de um dia de chuva e transito e trabalho e o diabo a sete, não foi exceção. Emprestei-lhe o telemóvel e comia a minha sopinha de espinafres biológicos (todo este post é para dizer que como sopa de espinafres biológicos) quando ouço o Nuno:

- O que é que estás a fazer? Dá cá o telemóvel.

Sem que nós estivéssemos a dar conta o pequeno estava a mandar por messanger uma todo nossa para todos os meus contactos. Conseguiu mandar para quase 30 pessoas. Entre os destinatários estavam o meu responsável do trabalho, a responsável do Nuno, a antiga responsável do Nuno, familiares, amigos, pais de amigos e ainda colegas de escola que já não vejo há quase 20 anos.

E que foto era?

Uma foto linda.

Quando eu e o Nuno fizemos 1 ano de casados achámos graça fazer uma montagem de fotos que tirámos nesse dia: nós abraçados, os dedos entrelaçados com as alianças, um beijinho com a lua atrás. Enfim, lamechices que fazem sentido quando se faz um ano de casado e ainda se está movido pela emoção de ter sido pais há menos de 6 meses.

Então foi essa montagem que seguiu para toda a gente.

Das pessoas que receberam a maravilhosa missiva recebi todo um pot-pourri de respostas...para as quais criei uma hierarquia para as que me fizeram rir mais.

Vamos ver? Bora lá!

  

Em 6º lugar ficam as pessoas que se borrifaram completamente para a foto.

Não disseram aí nem ui. Já sabem mais ou menos o que a casa gasta e, à partida, a menos que eu estivesse a ter algum acesso de paragem cerebral não estaria a mandar mensagem privada com uma foto daquelas para ninguém.

 

No 5º lugar estão os que perguntaram “isto é para mim?”.

Pessoas sensatas que quiseram apenas alertar numa espécie de: “se querias mandar para alguém parece-me que te enganaste!”.

 

No 4º lugar estão as pessoas que saíram do seu caminho para dizer que estamos lindos.

Ou seja é malta tão do bem que acha que eu, pessoa trombuda e circunspeta, com toda uma panóplia de redes sociais à disposição, havia enviado uma foto romântica por mensagem privada. Pessoas lindas….

 

No 3º lugar estão as pessoas que de facto pararam para nos dar felicidades.

Não sei o que raio lhes terá passado pela cabeça, mas pelos vistos acharam que nós andamos por aí, a uma terça-feira, a mandar fotos com montagens por mensagem privada. Não faço isso pessoas. Nunca. Melhores foram os que acharam mesmo que tínhamos voltado a casar. A sério? Com o mesmo homem. Que canseira….

 

No 2º lugar estão as que já sabiam quem tinha mandado a foto. E com estas escangalhei-me a rir.

Respostas como: “minha querida, acho que o teu príncipe está a bombar no facebook” e a minha favorita “estão lindos. Gosto de todas as fotos que o Ricardo me envia”, fizeram-nos partir a rir em casa. É gente que já está habituada a receber mensagens de meu filho e faz pouco disso. Gosto de gente desta.

 

A cereja no topo do bolo, a que leva o primeiríssimo prémio vai para o meu querido chefe. Homem sério e circunspeto que, após eu lhe ter mandado uma mensagem a dizer para desconsiderar a foto me disse “eu já tinha calculado”, quando lhe respondi que havia pessoas que tinham achado que tínhamos voltado a casar, deu-me a melhor resposta de todos os tempos “quando amamos, casamos todos os dias!”. AHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAHAHAAH. Fartei-me de rir. Claro que lhe respondi à altura com um “bla bla bla pardais ao ninho”.

 

E é isto. Estive mais de 30 minutos a explicar a pessoas que havia ocorrido uma situação de telemoveljacking feito por meu filho. Sendo aquela missiva o resultado de um equivoco.

Já sei que me vão dizer que as crianças não devem andar com os telemóveis e não lhe devia emprestar o objeto e ele devia saber estar quieto e rebeubeubeu e a Branca de Neve limpou a casa dos Sete anões e a Capuchinho Vermelho deu os queques a comer ao lobo quando fizeram um walk and talk pela floresta e tal e coise.

O que é certo é que uma pessoa está cansada ao final do dia e usa dos recursos que dispõe para que as coisas corram, se possível, a velocidade cruzeiro.

Algo que não aconteceu ontem, visto que bati de frente com este iceberg.

 

Fugiram de casa de seus pais

Não vi o primeiro episódio quando estreou. Com muita pena minha.

Não vi o segundo episódio quando passou na televisão. Para minha vergonha.

Foi ao terceiro que me apercebi que havia algo a passar na RTP com o Bruno Nogueira e o Miguel Esteves Cardoso.

Ah, a desgraça de ter a vida a passar no Panda. A catástrofe cultural de ver mais Patrulhas Pata que programas de adultos.

No fim de semana vi os programas “em atraso” porque estão disponíveis na RTP online. E desde então não perco.

Infelizmente não contribuo para o share de pessoas que assiste, porque às 23 horas de uma terça feira estou em debate vivo com Sôtor para que este vá dormir.

Depois disso, por regra, tenho uma espécie de apagamento geral, retomando a parte dos meus sentidos pelas 6 e tal da manhã do dia seguinte.

 

Há muito que não passava na TV generalista algo que me desse tanto prazer ver. E quem diz generalista diz na TV no seu todo. Com mais de 200 canais é fantástico como uma pessoa pode fazer zapping 3 vezes a todos e chegar à conclusão que não passa nada que valha gastar 15 minutos do nosso tempo.

Aqui temos meras conversas de poltrona, sobre temas do dia a dia, coisas do nada, trivialidades, banalidades e algumas irritações. Um olho simples sobre a sociedade em que vivemos, sem estudos de Universidades estrangeiras. Umas gargalhadas honestas com a aterradora simplicidade cómica do MEC e o acutilante sarcasmo do Bruno Nogueira.

Adoro a combinação de ambos e faço de meu pai. Falo com a televisão e comento. “Ah como isto é verdade!”, “Sim realmente não se entende…”, “Ai, eu faço isto….”, os telemóveis que interrompem conversas, as conversas que acontecem por telemóvel, as redes sociais, o nosso comportamento em restaurantes, as pessoas que nos encontram na rua e perguntam “então nunca mais dizes nada?”, como se houvesse uma espécie de obrigação nossa de ir reportando o nosso estado de vida, entre tantas outras coisas que dão as melhores conversas. Aquelas em que quando olhamos para as horas percebemos que o temo voou.

A fuga tão inteligente e deliciosa às entrevistas quadradas e estudadas, formatadas com planos cortados para o drama e a tragédia de sempre. Ou para as respostas esperadas onde só falta um pôr do sol atrás e o som do mar no fundo.

Tudo fica ainda mais animado (como é possível) com a entrada na conversa de um convidado, assim, a meio do nada e o desejo sério de estar sentada naquela terceira cadeira, nem diria para participar, só para ter o prazer de assistir aquelas duas cabeças a pensar. A comentar entre si.

Depois disto só tenho pena de uma única coisa, com o qual sei que não concordo mesmo nada, é aquela coisa de saber que tem um fim. Não vai ser todas as semanas durante os próximos 10 anos. E é uma pena.