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Blog Bestialmente Conhecido

Apontamentos da vida sobre coisas que pouco importam aos outros (2)

O meu pai é um homem feito de memórias, às vezes acho que a vida dele se alimenta das memórias de um passado de que não quer abrir mão. As decisões menos boas que ainda o atormentam, os azares que lhe calharam, os momentos que viveu em sítios que preserva na sua memória intactos como no dia em que os viu pela última vez.

Às vezes organizo um ou ourtro passeio com ele, não o faço tantas vezes quanto gostaria, mas gosto de o levar a sítios que conheceu bem, espaços que já não visita há mais de vinte anos, aqueles que continua a descrever como se tivessem ficado intactos na história, alheios à evolução e à corrosão do tempo. É frequente que a caminho nos presentei com todas as histórias lá passadas, lembra-se das pessoas e dos nomes dos restaurantes, fala no presente, como se aquelas pessoas ainda hoje estivessem sentadas na mesma mesa a comer um almoço farto. É assim que as recorda.

Quando chegamos vejo no seu olhar um misto de suspresa e desgosto, a surpresa de quem conhece uma terra nova, tão diferente daquela que um dia soube como a palma da sua mão; desgostoso porque as ruas e as pessoas que ainda vivem no seu presente já não existem ou estão envelhecidas pelo tempo.

Tudo lhe traz memórias passadas e eu sempre fiz pouco disso. “Ó Augustinho lá estás tu, isso foi há quantos anos? Essa história é mais velha que eu sei lá…”

E ele conta-a na mesma.

“Que é que queres?, são as minhas histórias, pá! Se não falo destas falo do quê?!”

Com a idade vou-lhe dando razão, vou compreendendo que as memórias nos compõem mais do que pensamos. As recordações fazem parte da nossa vida presente porque alimentam aquilo que somos.

 

Há uns dias o Nuno vendeu um aparelho de secar a roupa que tínhamos comprado o ano passado (falo como quem ainda está em 2017 e não se acamou ao 2018, como se o ano fosse um par de sapatos que tem de ganhar jeito ao corpo).

Deu para remediar a avaria da máquina de secar, mas este ano já não precisamos dele.

Quando foi entregar o aparelho à compradora viu-se grego para lhe dar troco, não havia uma única loja que lhe trocasse 10 Euros por duas de 5 Euros. Só à quinta loja e com a ajuda da rapariga é que conseguiu a troca.

Fez-me lembrar uma história.

A minha mãe sabia delegar responsabilidades como ninguém, quando aprendíamos a ler a escrever o básico ia-nos dando tarefas mais complexas para ver se ficávamos atentos, se eramos responsáveis. Um dia, quando fomos ao antigo Pão de Açúcar na Cova da Piedade – hoje já não existe, foi demolido e deu lugar a um terminar de autocarros – a minha mãe deu-me 500 Escudos para ir trocar à papelaria, tinha entrado em vigor à pouco tempo aquela coisa de os carrinhos precisarem de moeda e a minha mãe não tinha moedas de 100 ou de 50 Escudos.

Entro na papelaria e peço educadamente à senhora para trocar, numa atitude pedante a pessoa diz-me que não tem de trocar nada, que tivesse trazido moedas de casa.

Parei a olhar para a moeda. Para a senhora eu estava a parecer meio atrasada, na minha cabeça estava a engendrar-se uma solução que me garantisse que trocava a nota e não me metia em chatices.

- Então quero comprar uma pastilha Gorila se faz favor.

Aquela decisão requereu coragem, muita coragem. Eu não estava autorizada a gastar o dinheiro com doces, tinha apenas de trocar o dinheiro. Mas o valor era tão baixo, que decidi arriscar, deixado para trás as eventuais consequências. Aprendi nesse dia que queria dar uma lição áquela pessoa que estava a tratar-me incorretamente só mesmo porque eu era uma criança.

- Não me vais pagar com 500 Escudos pois não?

- Vou e a senhora vai dar-me troco, porque tem de me dar troco.

A tipa enfureceu-se e deve ter-me desejado as maiores pragas. Quando saí cá para fora enchi o peito, esta já tinha aprendido que não se metia comigo, faltava era explicar à minha mãe que tinha comprado um doce sem a autorização dela.

Quando lhe contei encheu-se de orgulho, afinal de contas, sem gastar praticamente dinheiro nenhum ensinei uma adulta que não fazia pouco de mim.

 

Cada vez estou mais parecida com o meu pai. A minha vida são histórias.

 

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