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Blog Bestialmente Conhecido

As mães não sabem o que querem….

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Quando ainda não era mãe, e parava para pensar em como seria no dia em que esse momento chegasse, tinha um milhão de certezas.

Ia ser medianamente assertiva, o miúdo ia para a escola logo aos 6 meses, porque as crianças com os avós ficam mimadas e precisam de conviver com os seus pares, não ia desatar a chorar quando o deixasse aos cuidados da educadora e nunca me afligiu a ideia de deixar um filho com uma perfeita desconhecida.

As coisas eram o que eram e eu, pessoa prática e que despacha coisas diversas, ia gerir a maternidade como uma espécie de brisa porque tinha uma ideia clara de como as coisas se haviam de passar.

 

Quando o pequeno nasceu, a ideia de o deixar com 6 meses, pequeno e indefeso, aos cuidados de uma pessoa que eu não conhecia começou a atormentar-me.

Por isso convidei os meus sogros a mudar-se do Alentejo para Lisboa para que cumprissem um único propósito: tomar conta do neto.

Não fazia sentido ter ciúmes da minha sogra. Eu era a mãe e o meu filho sabia disso.

Não foi preciso um mês para perceber que me incomodava a ideia de a minha sogra estar mais tempo com o meu filho do que eu. Começou a preocupar-me a possibilidade de aquele ser, tão meu, tão mais meu do que eu própria me pertenço, pudesse, sequer de forma remota, gostar mais da avó do que de mim.

O tempo foi-me tranquilizando. Todas as manifestações de carinho que tem comigo e a alegria com que me recebe, a par com o abraço que se acompanha com um sentido “estou tão contente por te ver mãe!”, apaziguaram a caixinha vermelha que trago ao peito.

 

Nos primeiros tempos que ficava com os avós não havia choros nem tristezas. Depois, quando começou a perceber que os pais iam fazer alguma coisa sem ele, começou a pedir que ficássemos, que fossemos todos passear, que estivéssemos sempre com ele.

Fomos-lhe explicando que os pais tinham de trabalhar. Foi percebendo e hoje fica com os avós sem dizer nada. Ou melhor, às vezes lá esclarece: “vá, vão lá tabalar!”.

 

A primeira vez que o vi chorar porque não queria que o deixasse fiquei com o coração partido. Queria ligar para o trabalho e dizer que não ia, não trabalhava até o meu menino dizer que estava bem, que eu podia ir.

Agora que essa fase passou percebi que me afeta que ache normal que eu vá embora horas a fio.

Uma espécie de “então caraças, afinal não tens saudades da mãe”.

Volta aquele receio de que venha a gostar mais dos avós que de nós. Afinal de contas eles dão-lhe muito mais tempo que os pais.

Zango-me comigo, afinal de contas quero-o independente ou dependente?

Acho que queria uma espécie de medida intermédia que nem eu sei bem qual era.

 

Suspiro quando está sempre a chamar-me para brincar. O pai está sempre no banco de suplentes. Tem oportunidade de descansar. Depois chama pelo pai porque prefere fazer uma brincadeira com ele e a minha cabeça pensa “olha, está a começar a perceber que a mãe é uma tola e que o pai é muito mais fixe!”

Um dia isso vai acontecer.

Eu sou uma pessoa destrambelhada, tola, que fala pelos cotovelos, tendencialmente infantil e que tem a mania que tem graça. Nos dias maus sou uma trombuda da pior espécie, abuso do sarcasmo bem ácido e tenho pouca paciência.

Para ele sou sempre a primeira, a segunda desaparece quando ele está.

É claro que ralho, e que me descabelo, especialmente quando anda a correr pela casa e corre o risco de abrir a cabeça contra a quina de uma mesa. Afinal de contas ainda no outro dia me caiu em voo picado, ficando completamente estatelado no chão, porque tinha tropeçado num edredão.

 

Ontem chamou-me para brincar, no meio da brincadeira explica-me as regras:

- Mãe, tu vais tabalar pa ganhar dineio. Eu fico em casa shojinho. Tá bem!?

E eu pensei com os meus botões que tinha estado o dia todo fora e agora ele queria brincar a eu ainda ir trabalhar outra vez.

Tonteira. Eu sei.

 

Hoje acordou às 6:20 da manhã, a primeira coisa que me disse foi:

- Vá, vamos para os avós!

Ainda pedi que confirmasse, ele esclareceu:

- Vamos para os avós. Vai-te vistiri.

 

E eu a pensar no que é que eu estou a errar, para o meu rico menino, às 6 da manhã, acordar com vontade de estar nos avós em vez de dizer “bora lá ficar em casa mãe!”.

Custa-me esta coisa de me sentir a passar para segundo plano.

Ele vai fazer 3 anos.

E atormenta-me a ideia de que um dia, se tudo correr bem, ele vai ser um homem independente, que, com muita sorte, me liga uma vez por dia e vai ter a vida dele. Independente da minha.

 

Na minha cabeça crio a ideia que há um mundo de mães que pensa assim, faz de conta que pertenço a uma espécie de gangue com um certo grau de psicose normal nesta coisa dos filhos. Preciso de acreditar que há mais como eu, quase tanto como os astronautas precisam de acreditar que há vida noutros planetas.

 

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