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Blog Bestialmente Conhecido

As palavras também fazem cócegas

...

- Ai, cruzes, credo! – disse o Sr. Nervoso…

- Ahahahahahahahahaahhah (gargalhada alta e sonora) cuzes, quedo, cuzes, quedo. Otavez mãe! Lê otavez….

...

 

É assim que se passa a leitura da história à noite.

 

Gosto de ler. Gosto de livros. Gosto de lhes pegar, de folhear, de sentir o cheiro, do mundo desconhecido que está dentro daquelas página. Deslumbra-me a capacidade de alguém juntar um conjunto de palavras umas às outras e conseguir criar um mundo paralelo na minha cabeça. A história desenrolasse à minha frente, abusando da minha própria imaginação. Fará parte de mim para sempre.

Os livros fazem-nos pensar, fazem-nos rir, entretem-nos nos momentos mais chatos, ajudam-nos a ultrapassar dificuldades e dão-nos a conhecer o maior numero possível de: palavras.

Como diria o Ricardo Araújo Pereira: acho que gosto de palavras. Do poder que podem ter. Conseguem fazer chorar, fazer rir e podem ter um impacto que causa mais dor do que um murro na cara.

Criam um sentimento sem que tenhamos fisicamente de tocar alguém.

É essa a força das palavras.

 

Estava ainda grávida e lia em voz alta para pequeno sôtor. Tinha lido algures que me conseguia ouvir e queria que se habituasse, lá está, a palavras.

Quando ele nasceu, recordo-me de o colocar na espreguiçadeira e sentar-me à frente dele a ler em voz alta. Ele muito atento.

Com poucos meses de vida as crianças não conseguem ainda assimilar uma história, mas aprendem a gostar de ouvir histórias. Sem saberem cresce o prazer de ouvir palavras.

Li livros inteiros – meus – para ele.

 

Quando começou a ter tamanho suficiente, fui-lhe perguntando se queria ler uma história para dormir. Importa que seja algo que lhes dê prazer, e não uma obrigação. Isso é o que os professores se veem obrigados a fazer nas escolas (e faço notar que os professores não o fazem de propósito mas têm de cumprir o seu papel e blablabla…só mesmo para evitar mal entendidos…).

Agora, com quase 3 anos não vai dormir sem ler uma história e, como é algo que gosta tanto, se eu ameaço que não há história porque se está a portar mal, orienta logo o comportamento.

 

Gosta de me ouvir ler, gosta que lhe faça perguntas sobre a história, mas acima de tudo gosta das palavras. Particularmente das que são diferentes do seu léxico de dia a dia, em especial aquelas que o fazem rir.

Quando tem uma história nova com palavras que ainda não conhecia, pequenas expressões, quer ler todos os dias a mesma. Às vezes duas semanas seguidas. Ri imenso com as palavras que mais gosta, pede para repetir.

Para mim é um encanto. Ainda que às vezes esteja cansada e à beira de cair para o lado….

 

O livro que estamos a ler agora tem, a páginas tantas, a empressão “cruzes, credo!”, e ele ri como se alguém lhe estivesse a fazer cocegas. Acho que nos quatro andares do prédio toda a gente o consegue ouvir.

E é delicioso.

 

Lá está, se não fossem as palavras, como é que eu escrevia esta história para me lembrar daqui a 20 anos….