Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Blog Bestialmente Conhecido

Os filhos perfeitos que não temos

Tenham alguma paciência para mim hoje, que isto vai ser longo, não esperem!, vocês já estão habituados, isto aqui nesta chafarica é como com os livros dos JRS, é um bom rácio quantidade preço, barato à folha.

Vou falar de pais e filhos e depois de filhos e pais…pano para mangas…mas prometo que no fim há musica.

 

Como diriam os ingleses: bare with me just a little.

 

Ando nisto de estar viva há pouco mais de 34 anos e nunca encontrei um ser humano perfeito. Conheci gente que gosto, conheci gente que não gosto, gente a quem me apetecia arrear umas valente porradas; mas perfeição é coisa que este par de olhos nunca vislumbrou.

Faz-me crer que isto de ser perfeito está mais ou menos no mesmo patamar de realidade que os unicórnios, as fadas e as sereias.

Os chalupas e os bêbados de quando em vez lá dão por eles, mas a malta razoavelmente sã e completamente sóbria, nunca lhes pôs os glóbulos oculares em cima.

 

Muito se fala hoje da educação das crianças, da falta dela, do que é melhor e do que nunca deve acontecer. Toda a gente quer molhar a sopa porque é tema que tem assunto para dar e vender. Não há comprovações cientificas e por isso toda a gente pode alvitrar a sua tese.

Comummente, como devem ser educados os filhos dos outros, porque problemas de vida alheia resolvo eu bem.

Custam-me em particular os “instrutores” sem filhos. Pessoas que não fazem a menor ideia do que é criar um ser humano, mas que acham que têm a solução para todas as duvidas, até dos pais mais experientes.

Na berlinda estão sempre os maus comportamentos dos filhos (dos outros) e as más escolhas dos pais. A ocasional “no meu tempo levava umas lambadas” e o “se fosse comigo ia ver”. Mas na verdade não ia ver nada. Porque a maior parte das pessoas que conheço que prometiam, faziam e aconteciam, passaram a piar como canários roucos sem acesso a Mebocaína 6 meses depois de o primeiro filho nascer.

 

Antes de mais ter um filho é como jogar na lotaria. Podemos ganhar um grande prémio, como ficar na bancarrota. Pode ser mais fácil e melhor do que pensávamos, como pode ser mais difícil.

Quando eu andava na faculdade estudávamos Piaget, de forma muito sucinta Piaget acreditava que a influência exterior determinada a construção do indivíduo. Nunca gostei de Piaget porque não concordo com ele. Lá em casa éramos 4 filhos, os mesmos pais e a mesma educação. Todos temos formas diferentes de olhar para o mundo.

Há algo que pertence apenas à pessoa, e os mesmos fatores externos interagem com essas condicionantes de forma completamente diferente para cada individuo.

 

É por isso mesmo que há filhos maravilhosos que têm pais de merda. Histórias magnificas de sucesso.

E há pais fantásticos cujos filhos não se tornaram no que estavam à espera. Lembro-me de estar na faculdade e ter entrevistado um ex-toxicodependente com 40 anos, os pais eram tudo o que um filho podia querer, mas as influências, os amigos e a sua própria natureza ditaram que roubasse os pais, que os agredisse e que lhes tivesse destruído a vida.

 

São histórias de vida.

 

Por isso chateia-me esta permanente e incessante demanda em culpar ao pais. Se dão uma nalgada é uma desgraça, se não dão o miúdo fica mal educado.

É pá chega! As pessoas têm de olhar para dentro das suas casas e trabalhar para melhorar o que têm dentro das suas quatro paredes, em vez de ter sempre os olhos postos na tabanca dos outros.

 

Mas comecei com a perfeição e entretanto derrapei. Tenham calma, em principio vou chegar a qualquer lado.

 

Os miúdos querem-se perfeitos. Querem-se cheios de atividades extra curriculares para depois dizer aos colegas do trabalho como os miúdos são bons a tudo. Se não gostam têm de papar na mesma com aquilo, até porque o filho da Maria Amélia da Contabilidade faz e dá-se muito bem.

 

É suporto os miudos serem o que os pais não foram. Olhe-se para a quantidade de gente formada em temas que detesta. Os pais quiseram que tivessem o canudo - obviamente com a melhor das intenções - para que arranjassem, não um trabalho, mas um emprego. Para que pudesse estar à secretária todo o dia a ditar coisas e quem sabe um dia mandar em alguém.

Sim, porque neste nosso Portugal a carreira só levanta voo quando se manda em alguém.

 

E assim colocam-se as expectativas nos miúdos.

Não se lhes dá o acompanhamento necessário, não se conversa com eles, mas tiram-se fotos para pôr nas redes sociais e declarar o amor que não se diz ao ouvido antes de deitar.

 

Os miúdos revoltam-se com isto.

 

Os miúdos são umas pestes. Não prestam para nada.

 

Mas há motivos.

 

As crianças passam o tempo todo a desejar ser crescidas e quando lá chegam percebem que a vida não é nada do que estavam à espera. Os adultos só têm temas de merda.

As contas para pagar, o trabalho que detestam (na maioria), as maleitas de saúde, os miúdos que querem e querem e querem e a pessoa só queria estar descansada 5 minutos.

Então colocam-se os sonhos nos ombros dos filhos. A pessoa fracassou em tudo, mas aquele, aquele vai saber tudo e ter todo o acompanhamento necessário.

Mais ou menos como a promessa que se faz de ir ao ginásio no dia 31 de Dezembro. Parece tão real naquele dia, mas depois na prática é tudo tão mais complicado.

Vai daí e a criança ainda não largou as fraldas e o miúdo da Clarisse do arquivo até já limpa o rabo sozinho e tem menos 2 meses.

 

O filho da Joaquina só tira cincos e o idiota lá de casa mal passa a matemática.

 

Os sonhos começam a desvanecer.

 

A vida apressa os pais e os pais apressam os filhos: para aprender, para brincar, para crescer.

Pedem que se despachem a torto e a direito, tenham a idade que for, bufam: “ai filho, vá lá!” tantas vezes que as crianças já não sabem porque o estão a ouvir.

Eu sei, temos o jantar para fazer, o trabalho, os banhos, a casa, a roupa, os cães, os gatos e mais um par de botas. Têm lá agora vida para andar a jogar à apanhada.

Mas depois querem que os miúdos os ouçam, que se interessem, que brilhem.

 

Tudo o que os pais fazem é sempre pelos e para os filhos, e um dia, tal como os seus pais lhes disseram a eles e os avós disseram aos pais, um dia eles vão entender.

O quê, nem os pais sabem muitas vezes.

Por um motivo simples: fazem assim porque sempre se fez assim e quando passou a  haver maturidade para entender começou a faltar tempo para pensar.

Compram uma casa melhor, para eles.

Compram um carro mais caro, para eles.

As férias, são para eles.

São o bode expiatório para o tanto que os pais trabalham e é isso que se diz aos filhos: “temos de ir trabalhar para ganhar tostões”.

Não é por acaso que um dia acabem por achar que é para isso que os pais servem: para ganhar tostões.

 

Mas não é de propósito. As pessoas não queriam fazer assim. E os miúdos, no final das contas sabem que os pais não servem apenas para ganhar dinheiro.

 

Porque não há pais perfeitos.

Nem há filhos perfeitos.

Há educação.

Há algo intrínseco que apenas cada individuo consegue mudar.

E há a sorte que pode fazer toda a diferença.

 

Quando se está sempre a falar mal dos miúdos de hoje, quando se começa com a treta de que os miúdos agora não têm educação, importa lembrar que nós também já fomos miúdos e já fomos parvos. Para os nossos pais também foi esquisito lidar com os punks e freaks e piercings e coisas. Os putos de hoje também devem ter a oportunidade de errar.

Na loucura os pais podem optar por - e tenham calma, é só uma sugestão - falar com os miudos, explicar-lhes as coisas. Demonstrar porque é que está certo e porque é que está errado.

Mais ou menos o contrário do que aconteceu connosco porque eles agora têm acesso ao Google que lhes pode dar com uma serie de informação errada.

Na altura que éramos putos bastava que os pais dissessem: "é pá porque te estou a dizer pá!", e estava resolvido.

 

No fim, não fosse o tema da educação (ou falta dela) um nicho que alimenta muita coisa decide-se criar um programa para “resolver” - ou piorar (a ver) - a vida de miúdos que, obviamente, já não estão lá muito bem.

Programas que eu considero sensacionalistas e que expõem as fragilidades de uma criança.

Não vi, nem faço qualquer intenção de participar para o share de audiências. Também não vou bater no programa (acho que já foi dito mais do que suficiente), levanto apenas uma questão: estamos perante miúdos problemáticos, cujos pais já não sabem o que fazer com eles e consideramos, mesmo, que o melhor que há a fazer é expor todas as suas frustrações e fragilidades na TV generalista e em horário nobre?

A sério que achamos isto?

Como terá sido a segunda-feira na escola?

Terão sido gozados?

E daí por uma semana.

Será que não se vão sentir obrigados a fazer pior? Porque é óbvio que não têm as ferramentas necessárias para viver em sociedade.

Não se sentirão humilhados?

E será que a humilhação é a melhor forma de ensinar?

É apenas um pensamento de uma mãe que muito falha, com muitas imperfeições, mas parece-me que uma senhora super cool, com uns óculos de professora marota e ar de quem vai dar umas palmadas (não às crianças) mas aos papás mal comportados, não é a solução. Especialmente se acompanhada de câmaras.

 

Porque não há pais perfeitos.

Nem há filhos perfeitos.

Há educação.

Há algo intrínseco que apenas cada individuo consegue mudar.

E há a sorte que pode fazer toda a diferença.

 

O meu álbum favorito de todos os tempos é o Jagged little pill da alanis morissette. Na faixa 3 tema temos a musica Perfect, não é uma canção de amor como a do Ed Sheran, é sobre ser criança e o que se espera muitas vezes. Para quem é pai, para quem é mãe eu convido a ouvir, a olhar para os próprios defeitos (todos os temos) e perceber se às vezes é assim.

 

Sometimes is never quite enough
If you're flawless, then you'll win my love
Don't forget to win first place
Don't forget to keep that smile on your face

Be a good boy
Try a little harder
You've got to measure up
Make me prouder

How long before you screw it up
How many times do I have to tell you to hurry up
With everything I do for you
The least you can do is keep quiet

Be a good girl
You've gotta try a little harder
That simply wasn't good enough
To make us proud

I'll live through you
I'll make you what I never was
If you're the best, then maybe so am I
Compared to him compared to her
I'm doing this for your own damn good
You'll make up for what I blew
What's the problem, why are you crying

Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough
To make us happy
We'll love you just the way you are
If you're perfect

 

 

 

  • 17 comentários

    Comentar post