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Blog Bestialmente Conhecido

E se eu disser que gosto do Natal...

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O Natal é das crianças e de todos aqueles que mantém alguma infantilidade, como eu.

É dos que gostam das musicas, das fitas, das árvores com bolinhas. Dos que sonham com o dia em que vai nevar pouco depois da ceia, mesmo vivendo nos trópicos. Dos que vibram com a Mariah Carey e o All i want for christmas is you, quando toca no carro cantam aos altos berros e dançam como umas malucas. O Natal é dos que secretamente ainda acreditam que, se calhar um dia, pode aparecer um velho de barbas para deixar na meia uma chave para uma casarona na Quinta da Marinha. Sete quartos e quatro casas de banho. Um quintal com espaço para dinossauros.

O Natal é daqueles que reclamam porque o Centro Comercial está cheio mas deixam sempre as prendas para a ultima da hora. É dos que prometem todos os anos fazer listas e depois acabam a comprar em cima do joelho. É dos que dizem que este ano não vão dar prendas às tias da terra porque estão fartos de oferecer chocolates de 1,99€, mas acabam sempre por passar no corredor e achar que o preço está mesmo bom. Dizem para si mesmos: “tadinha da minha tia Clotilde, gosta tanto de um chocolatinho…olha é só mesmo pelo gesto, para dizer que me lembrei!”, e carregam com sete caixas de chocolates baratos no meio da tralha para a consoada. Bacalhau, couves, batatas, grão, azevias, broas de milho (que parecem adornos porque nunca existiu uma pessoa que as comeu), guardanapos com desenhos de azevinho, quinze garrafas de tinto, sete envelopes para as prendas dos sobrinhos que recebem em dinheiro e sete caixas de chocolates.

O Natal é dos que prometem não comer tantas filhoses* e ainda menos coscorões, mas que depois de atracam à mesa e puxam a travessa para si.

O Natal é dos que garantem que só vão comprar prendas para a criançada e depois aparecem com um pijama novo para o marido e recebem dele umas pantufas. Coisas de velhos casados há mais de 2 anos. Malta com os seus trinta e tal anos. Os que começaram a dizer com assustadora frequência: "aí que estou cada vez mais parecida com a minha mãe!"; dele espera-se que esteja parecido com o pai.

O Natal é a piela que os tios, os pais e os avós apanham. A mesma que os filhos e sobrinhos vão apanhar daí a uns anos. A tia que bebe um cheirinho e rica logo rosada. 

Natal é a noite de consoada com todos os que nos dizem algo, até aqueles que nos dizem que os queremos estrangular a maior parte do ano.

O Natal é dos que recebem peúgas de raquete e cuecas. É dos que reclamam que mais valia não receber nada. É dos que dez anos mais tarde ainda têm as mesmas meias porque são as mais quentinhas, ali puxadinhas para cima com as calças do pijama enfiadas lá dentro. Não há corrente de ar que entre debaixo dos lençóis.

O Natal é a bica de petróleo na Noruega, com a quantidade de bacalhau que exportam para Portugal. É a desgraça do cabrito no dia 25. Dele e das dez garrafas de tinto que se vazam num abrir e fechar de olhos.

É a fatalidade da cintura da tia, da prima, da sobrinha, da irmã e da pessoa. Até o cão tem de andar a ração sem gordura nos primeiros quinze dias de Janeiro.

“É Natal! Uma filhós não lhe há de fazer mal!”, dizemos. Certos de que por ser Natal o cão não cega com diabetes. Afinal de contas é uma época mágica.

Natal é a notinha no envelope para a sobrinha mais velha. É o “compra uma coisa que gostes”, apesar da quantia mirrada.

O Natal é dos que lembram aqueles que partiram, os que fazem falta todo o ano, mas que tinham um lugar especial ali à mesa. É dos que já não estão, dos que nos ensinaram o que sabemos hoje, das histórias hilariantes que deixaram e das frases que sempre disseram. Dos que lembramos com um copo de tinto a mais, primeiro rimos, depois viramos costas para limpar a lágrima porque somos fortes demais para lamechices, e voltamos a rir outra vez, sempre com a frase: "era mesmo assim, era!".

O Natal é das crianças e de quem quiser.

O Natal é de quem acredita no senhor das barbas e de quem acha que a rena de nariz vermelho é a maior.

O Natal é de quem acha que o velhote de vermelho é um embuste.

O Natal é dos que não gostam do Natal, dos que preferem esquecer a data, fechar os olhos e esperar que passe. É dos que dizem: "que se lixe o Natal". Dos que comem o bacalhau sozinhos. Uns porque a vida assim o faz, outros porque assim o preferem.

O Natal é de quem quer estar em casa a distribuir presentes. E é dos que saem antes da consoada para distribuir um prato de comida quente a quem tudo o que tem na vida é o ar que lhe enche os pulmões.

O Natal é de quem viaja porque não gosta das festas familiares e de trocas de prendas porque-tem-de-ser.

É dos forretas que compram as prendas a 26 para apanhar as promoções sempre com a desculpa que as filas estavam grande demais.

Hoje parei para pensar no Natal e cheguei à minha conclusão.

Eu gosto do Natal, durante muitos anos preferi não gostar, as faltas custavam-me mais que as presenças.

Mas hoje digo: eu gosto do Natal. Das filhoses (o plural é filhós, mas eu digo como aprendi como a minha avózinha que não sabia ler nem escrever), do bacalhau, de todos juntos à mesa com a toalha feia que a sogra ofereceu. De ouvir as musicas em repeat na rádio e nos Centros Comerciais, em quantidade bastante para me cansar e dizer: “já está, para o ano há mais”.

 

Um feliz Natal para todos.

Para os tradicionais e para aqueles que têm o melhor Natal de todos: perfeitamente imperfeito.