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Blog Bestialmente Conhecido

Meu amor, ainda és tão pequenino...

 

Numa semana em que se falou tanto de crianças, de educação, da falta dela, de pais - uns bons, outros piores, ou talvez apenas diferentes.

Numa semana de tantas opiniões.

Vou resumir a minha a esta música.

Isto com mais amor, mais 10 segundos de tempo, 1 caneca de paciência, uma pitada de ralhetes, meia dúzia de caras feias, umas gargalhadas, muita relativização e um punhado de exemplos. São coisa para ajudar nisto de criar os filhos.

Por hoje amor e encher de beijos.

A minha música para este fim de semana, da autoria da brilhante Luísa Sobral.

 

Às 5 da manhã não é justo...

O karma é tramado.

Ontem publiquei um texto sobre pais e filhos. Sobre as fragilidades. Sobre como temos de compreender que os miúdos têm de fazer as suas patetices e como temos de os entender.

Hoje, por volta das 4 horas e 50 minutos da madrugada, estive por um fio para retirar tudo o que disse.

 

Eram cerca de 4 e meia da manhã ouvimos:

- Pai! Mãe!

O pai foi lá, e deu para eu ouvir no nosso quarto.

- Queo ir pá cama do pai e da mãe…

Aquela hora e com aquele nível de desgaste não debatemos, arranjamos espaço para ele.

Chega à cama e mal os costados tocam nos lençóis já está a dizer:

- Queo bebê leitinho.

Lá foi o desgraçado do pai – que está com uma carraspana em cima - buscar leite morno.

Eu dou-lhe o leite, porque tudo na vida daquela criança tem um circuito.

Bebe o leite e mergulha de cabeça na cama.

Menos de 10 minutos depois abre os olhos e começamos neste diálogo:

- Vamos buscar o patulheiro autocarro…

(queria ir ao Continente comprá-lo….faltavam 20 minutos para as 5 da manhã e aquele boneco só o vai ver se o Cristiano Ronaldo lho quiser comprar porque é uma porcaria de um carro que custa 120 €. Respira que esta foi à Saramago e quase me aleijou o bolso)

- Dorme…

- Posso estacioná o veliculo do Maschal debaixo da tua mofada?

- Não. Dorme…

- Posso estacioná otos veliculos debaixo da tua modafa?

- Não. Dorme…

- Posso pô a mina cabeça na tua mofada?

- Podes.

Nisto abarbatasse de tal forma à almofada que eu fiquei com 10 % (ou seja a ponta da fronha) e ele ficou com a almofada toda.

Continuou:

- Mãe, a Patulha Pata vai ajudá!

- Dorme…

- Podemos ir busca o Patulheiro autocarro?

- Não é muito caro…dorme…

- É muito caro?

- Sim. Dorme.

- Posso…

(interrompo-o)

- Não tarda nada voltas para a tua cama. Abarbatas-te a minha almofada e estás aí que é só rebeubeubeu e a mamã tem de dormir filho. Vai dormir, amanhã falamos…

Passado um bocado adormeceu…e acabou por sair de cima da almofada.

 

Agora vejamos uma coisa, quando eu decidi ter filhos deram-me várias informações, por exemplo:

Que ia chorar – check

Que ia fazer birras – check

Que ia apresentar fraldas que pareciam cenários de crime mas em cocó – check

Que eu quase ia morrer com o cheiro – check

Que o quarto ia parecer um cenário de guerra 10 minutos depois de eu ter ganho 3 bicos de papagaio nas costas, ali debruçada a apanhar tralha para o manter arrumado – check

Que eu ia acordar de madrugada para falar da porra da Patrulha Pata – NÃO!!!! Não há check para isto.

E eu sou uma pessoa que precisa do seu sono.

 

Bom. Por enquanto por aqui me arrasto, a sentir quase uma espécie de stress pós traumático quando vejo a publicidade dos desenhos animados nos cartazes da NOS.

 

Um bom dia para as pessoas que, do alto da sua vida maravilhosa, puderam dormir a noite sem ser interrompidos.

 

Os filhos perfeitos que não temos

Tenham alguma paciência para mim hoje, que isto vai ser longo, não esperem!, vocês já estão habituados, isto aqui nesta chafarica é como com os livros dos JRS, é um bom rácio quantidade preço, barato à folha.

Vou falar de pais e filhos e depois de filhos e pais…pano para mangas…mas prometo que no fim há musica.

 

Como diriam os ingleses: bare with me just a little.

 

Ando nisto de estar viva há pouco mais de 34 anos e nunca encontrei um ser humano perfeito. Conheci gente que gosto, conheci gente que não gosto, gente a quem me apetecia arrear umas valente porradas; mas perfeição é coisa que este par de olhos nunca vislumbrou.

Faz-me crer que isto de ser perfeito está mais ou menos no mesmo patamar de realidade que os unicórnios, as fadas e as sereias.

Os chalupas e os bêbados de quando em vez lá dão por eles, mas a malta razoavelmente sã e completamente sóbria, nunca lhes pôs os glóbulos oculares em cima.

 

Muito se fala hoje da educação das crianças, da falta dela, do que é melhor e do que nunca deve acontecer. Toda a gente quer molhar a sopa porque é tema que tem assunto para dar e vender. Não há comprovações cientificas e por isso toda a gente pode alvitrar a sua tese.

Comummente, como devem ser educados os filhos dos outros, porque problemas de vida alheia resolvo eu bem.

Custam-me em particular os “instrutores” sem filhos. Pessoas que não fazem a menor ideia do que é criar um ser humano, mas que acham que têm a solução para todas as duvidas, até dos pais mais experientes.

Na berlinda estão sempre os maus comportamentos dos filhos (dos outros) e as más escolhas dos pais. A ocasional “no meu tempo levava umas lambadas” e o “se fosse comigo ia ver”. Mas na verdade não ia ver nada. Porque a maior parte das pessoas que conheço que prometiam, faziam e aconteciam, passaram a piar como canários roucos sem acesso a Mebocaína 6 meses depois de o primeiro filho nascer.

 

Antes de mais ter um filho é como jogar na lotaria. Podemos ganhar um grande prémio, como ficar na bancarrota. Pode ser mais fácil e melhor do que pensávamos, como pode ser mais difícil.

Quando eu andava na faculdade estudávamos Piaget, de forma muito sucinta Piaget acreditava que a influência exterior determinada a construção do indivíduo. Nunca gostei de Piaget porque não concordo com ele. Lá em casa éramos 4 filhos, os mesmos pais e a mesma educação. Todos temos formas diferentes de olhar para o mundo.

Há algo que pertence apenas à pessoa, e os mesmos fatores externos interagem com essas condicionantes de forma completamente diferente para cada individuo.

 

É por isso mesmo que há filhos maravilhosos que têm pais de merda. Histórias magnificas de sucesso.

E há pais fantásticos cujos filhos não se tornaram no que estavam à espera. Lembro-me de estar na faculdade e ter entrevistado um ex-toxicodependente com 40 anos, os pais eram tudo o que um filho podia querer, mas as influências, os amigos e a sua própria natureza ditaram que roubasse os pais, que os agredisse e que lhes tivesse destruído a vida.

 

São histórias de vida.

 

Por isso chateia-me esta permanente e incessante demanda em culpar ao pais. Se dão uma nalgada é uma desgraça, se não dão o miúdo fica mal educado.

É pá chega! As pessoas têm de olhar para dentro das suas casas e trabalhar para melhorar o que têm dentro das suas quatro paredes, em vez de ter sempre os olhos postos na tabanca dos outros.

 

Mas comecei com a perfeição e entretanto derrapei. Tenham calma, em principio vou chegar a qualquer lado.

 

Os miúdos querem-se perfeitos. Querem-se cheios de atividades extra curriculares para depois dizer aos colegas do trabalho como os miúdos são bons a tudo. Se não gostam têm de papar na mesma com aquilo, até porque o filho da Maria Amélia da Contabilidade faz e dá-se muito bem.

 

É suporto os miudos serem o que os pais não foram. Olhe-se para a quantidade de gente formada em temas que detesta. Os pais quiseram que tivessem o canudo - obviamente com a melhor das intenções - para que arranjassem, não um trabalho, mas um emprego. Para que pudesse estar à secretária todo o dia a ditar coisas e quem sabe um dia mandar em alguém.

Sim, porque neste nosso Portugal a carreira só levanta voo quando se manda em alguém.

 

E assim colocam-se as expectativas nos miúdos.

Não se lhes dá o acompanhamento necessário, não se conversa com eles, mas tiram-se fotos para pôr nas redes sociais e declarar o amor que não se diz ao ouvido antes de deitar.

 

Os miúdos revoltam-se com isto.

 

Os miúdos são umas pestes. Não prestam para nada.

 

Mas há motivos.

 

As crianças passam o tempo todo a desejar ser crescidas e quando lá chegam percebem que a vida não é nada do que estavam à espera. Os adultos só têm temas de merda.

As contas para pagar, o trabalho que detestam (na maioria), as maleitas de saúde, os miúdos que querem e querem e querem e a pessoa só queria estar descansada 5 minutos.

Então colocam-se os sonhos nos ombros dos filhos. A pessoa fracassou em tudo, mas aquele, aquele vai saber tudo e ter todo o acompanhamento necessário.

Mais ou menos como a promessa que se faz de ir ao ginásio no dia 31 de Dezembro. Parece tão real naquele dia, mas depois na prática é tudo tão mais complicado.

Vai daí e a criança ainda não largou as fraldas e o miúdo da Clarisse do arquivo até já limpa o rabo sozinho e tem menos 2 meses.

 

O filho da Joaquina só tira cincos e o idiota lá de casa mal passa a matemática.

 

Os sonhos começam a desvanecer.

 

A vida apressa os pais e os pais apressam os filhos: para aprender, para brincar, para crescer.

Pedem que se despachem a torto e a direito, tenham a idade que for, bufam: “ai filho, vá lá!” tantas vezes que as crianças já não sabem porque o estão a ouvir.

Eu sei, temos o jantar para fazer, o trabalho, os banhos, a casa, a roupa, os cães, os gatos e mais um par de botas. Têm lá agora vida para andar a jogar à apanhada.

Mas depois querem que os miúdos os ouçam, que se interessem, que brilhem.

 

Tudo o que os pais fazem é sempre pelos e para os filhos, e um dia, tal como os seus pais lhes disseram a eles e os avós disseram aos pais, um dia eles vão entender.

O quê, nem os pais sabem muitas vezes.

Por um motivo simples: fazem assim porque sempre se fez assim e quando passou a  haver maturidade para entender começou a faltar tempo para pensar.

Compram uma casa melhor, para eles.

Compram um carro mais caro, para eles.

As férias, são para eles.

São o bode expiatório para o tanto que os pais trabalham e é isso que se diz aos filhos: “temos de ir trabalhar para ganhar tostões”.

Não é por acaso que um dia acabem por achar que é para isso que os pais servem: para ganhar tostões.

 

Mas não é de propósito. As pessoas não queriam fazer assim. E os miúdos, no final das contas sabem que os pais não servem apenas para ganhar dinheiro.

 

Porque não há pais perfeitos.

Nem há filhos perfeitos.

Há educação.

Há algo intrínseco que apenas cada individuo consegue mudar.

E há a sorte que pode fazer toda a diferença.

 

Quando se está sempre a falar mal dos miúdos de hoje, quando se começa com a treta de que os miúdos agora não têm educação, importa lembrar que nós também já fomos miúdos e já fomos parvos. Para os nossos pais também foi esquisito lidar com os punks e freaks e piercings e coisas. Os putos de hoje também devem ter a oportunidade de errar.

Na loucura os pais podem optar por - e tenham calma, é só uma sugestão - falar com os miudos, explicar-lhes as coisas. Demonstrar porque é que está certo e porque é que está errado.

Mais ou menos o contrário do que aconteceu connosco porque eles agora têm acesso ao Google que lhes pode dar com uma serie de informação errada.

Na altura que éramos putos bastava que os pais dissessem: "é pá porque te estou a dizer pá!", e estava resolvido.

 

No fim, não fosse o tema da educação (ou falta dela) um nicho que alimenta muita coisa decide-se criar um programa para “resolver” - ou piorar (a ver) - a vida de miúdos que, obviamente, já não estão lá muito bem.

Programas que eu considero sensacionalistas e que expõem as fragilidades de uma criança.

Não vi, nem faço qualquer intenção de participar para o share de audiências. Também não vou bater no programa (acho que já foi dito mais do que suficiente), levanto apenas uma questão: estamos perante miúdos problemáticos, cujos pais já não sabem o que fazer com eles e consideramos, mesmo, que o melhor que há a fazer é expor todas as suas frustrações e fragilidades na TV generalista e em horário nobre?

A sério que achamos isto?

Como terá sido a segunda-feira na escola?

Terão sido gozados?

E daí por uma semana.

Será que não se vão sentir obrigados a fazer pior? Porque é óbvio que não têm as ferramentas necessárias para viver em sociedade.

Não se sentirão humilhados?

E será que a humilhação é a melhor forma de ensinar?

É apenas um pensamento de uma mãe que muito falha, com muitas imperfeições, mas parece-me que uma senhora super cool, com uns óculos de professora marota e ar de quem vai dar umas palmadas (não às crianças) mas aos papás mal comportados, não é a solução. Especialmente se acompanhada de câmaras.

 

Porque não há pais perfeitos.

Nem há filhos perfeitos.

Há educação.

Há algo intrínseco que apenas cada individuo consegue mudar.

E há a sorte que pode fazer toda a diferença.

 

O meu álbum favorito de todos os tempos é o Jagged little pill da alanis morissette. Na faixa 3 tema temos a musica Perfect, não é uma canção de amor como a do Ed Sheran, é sobre ser criança e o que se espera muitas vezes. Para quem é pai, para quem é mãe eu convido a ouvir, a olhar para os próprios defeitos (todos os temos) e perceber se às vezes é assim.

 

Sometimes is never quite enough
If you're flawless, then you'll win my love
Don't forget to win first place
Don't forget to keep that smile on your face

Be a good boy
Try a little harder
You've got to measure up
Make me prouder

How long before you screw it up
How many times do I have to tell you to hurry up
With everything I do for you
The least you can do is keep quiet

Be a good girl
You've gotta try a little harder
That simply wasn't good enough
To make us proud

I'll live through you
I'll make you what I never was
If you're the best, then maybe so am I
Compared to him compared to her
I'm doing this for your own damn good
You'll make up for what I blew
What's the problem, why are you crying

Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough
To make us happy
We'll love you just the way you are
If you're perfect

 

 

 

Os filhos, os telemóveis e as encrencas em que nos metem

Ora muito bons dias.

tsitude?! Boa!

Então e eu?

Cá ando, com aquelas dores do costume e hoje a acrescer uma pontada de vergonha pelas situações em que me filho me coloca.

O meu maravilhoso rebento é uma criança tremendamente ativa e eu, pela hora de jantar sou uma mãe extremamente cansada. Ele quer correr pela casa toda. Eu quero sentar-me durante 10 minutos a comer uma bucha jantar, enquanto vejo um qualquer programa de decoração na TV.

Para que eu possa ter esses singelos 10 minutos tenho de o manter entretido e, manda-lo para o quarto brincar com as coisas dele não é opção, essencialmente porque com todas as horas que teve longe de nós quer atenção, em especial atenção da mãe, passando o todo a perguntar: “Já acabaste de comer, mãe?!”. O interrogatório de uma só questão começa, normalmente, antes mesmo de eu me sentar.

Vai daí e eu empresto-lhe o meu telemóvel. Normalmente vai sempre ao Youtube para ver os vídeos do homem aranha e do Hulk.

Ontem, depois de um dia de chuva e transito e trabalho e o diabo a sete, não foi exceção. Emprestei-lhe o telemóvel e comia a minha sopinha de espinafres biológicos (todo este post é para dizer que como sopa de espinafres biológicos) quando ouço o Nuno:

- O que é que estás a fazer? Dá cá o telemóvel.

Sem que nós estivéssemos a dar conta o pequeno estava a mandar por messanger uma todo nossa para todos os meus contactos. Conseguiu mandar para quase 30 pessoas. Entre os destinatários estavam o meu responsável do trabalho, a responsável do Nuno, a antiga responsável do Nuno, familiares, amigos, pais de amigos e ainda colegas de escola que já não vejo há quase 20 anos.

E que foto era?

Uma foto linda.

Quando eu e o Nuno fizemos 1 ano de casados achámos graça fazer uma montagem de fotos que tirámos nesse dia: nós abraçados, os dedos entrelaçados com as alianças, um beijinho com a lua atrás. Enfim, lamechices que fazem sentido quando se faz um ano de casado e ainda se está movido pela emoção de ter sido pais há menos de 6 meses.

Então foi essa montagem que seguiu para toda a gente.

Das pessoas que receberam a maravilhosa missiva recebi todo um pot-pourri de respostas...para as quais criei uma hierarquia para as que me fizeram rir mais.

Vamos ver? Bora lá!

  

Em 6º lugar ficam as pessoas que se borrifaram completamente para a foto.

Não disseram aí nem ui. Já sabem mais ou menos o que a casa gasta e, à partida, a menos que eu estivesse a ter algum acesso de paragem cerebral não estaria a mandar mensagem privada com uma foto daquelas para ninguém.

 

No 5º lugar estão os que perguntaram “isto é para mim?”.

Pessoas sensatas que quiseram apenas alertar numa espécie de: “se querias mandar para alguém parece-me que te enganaste!”.

 

No 4º lugar estão as pessoas que saíram do seu caminho para dizer que estamos lindos.

Ou seja é malta tão do bem que acha que eu, pessoa trombuda e circunspeta, com toda uma panóplia de redes sociais à disposição, havia enviado uma foto romântica por mensagem privada. Pessoas lindas….

 

No 3º lugar estão as pessoas que de facto pararam para nos dar felicidades.

Não sei o que raio lhes terá passado pela cabeça, mas pelos vistos acharam que nós andamos por aí, a uma terça-feira, a mandar fotos com montagens por mensagem privada. Não faço isso pessoas. Nunca. Melhores foram os que acharam mesmo que tínhamos voltado a casar. A sério? Com o mesmo homem. Que canseira….

 

No 2º lugar estão as que já sabiam quem tinha mandado a foto. E com estas escangalhei-me a rir.

Respostas como: “minha querida, acho que o teu príncipe está a bombar no facebook” e a minha favorita “estão lindos. Gosto de todas as fotos que o Ricardo me envia”, fizeram-nos partir a rir em casa. É gente que já está habituada a receber mensagens de meu filho e faz pouco disso. Gosto de gente desta.

 

A cereja no topo do bolo, a que leva o primeiríssimo prémio vai para o meu querido chefe. Homem sério e circunspeto que, após eu lhe ter mandado uma mensagem a dizer para desconsiderar a foto me disse “eu já tinha calculado”, quando lhe respondi que havia pessoas que tinham achado que tínhamos voltado a casar, deu-me a melhor resposta de todos os tempos “quando amamos, casamos todos os dias!”. AHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAHAHAAH. Fartei-me de rir. Claro que lhe respondi à altura com um “bla bla bla pardais ao ninho”.

 

E é isto. Estive mais de 30 minutos a explicar a pessoas que havia ocorrido uma situação de telemoveljacking feito por meu filho. Sendo aquela missiva o resultado de um equivoco.

Já sei que me vão dizer que as crianças não devem andar com os telemóveis e não lhe devia emprestar o objeto e ele devia saber estar quieto e rebeubeubeu e a Branca de Neve limpou a casa dos Sete anões e a Capuchinho Vermelho deu os queques a comer ao lobo quando fizeram um walk and talk pela floresta e tal e coise.

O que é certo é que uma pessoa está cansada ao final do dia e usa dos recursos que dispõe para que as coisas corram, se possível, a velocidade cruzeiro.

Algo que não aconteceu ontem, visto que bati de frente com este iceberg.

 

Pérolas da parentalidade (2)

Por hábito é o pai que o vai buscar. Eu vou adiantando o jantar ou passeando os cães.

Casas onde há mais tarefas que mãos para as fazer é assim....é preciso escalonar, dividir e tentar organizar.

Ontem, como tínhamos coisas para arrumar (com o aniversário do homem ao fim de semana relaxámos um bocado), pedimos ao meu sogro para trazer o artista ao final do dia.

Faltavam 5 minutos para as 20 quando desço as escadas, pareceu-me que era melhor alombar eu com o pequeno escada acima do que fazer um senhor com 70 anos - que passou o dia a levar uma esfrega do neto - carregar com ele.

Quando vejo o carro a chegar aproximo-me.

Assim que o tiro do carro diz para o avô:

- Vá, agora vai-te embora.

- Não digas isso ao avô, coitadinho. Dá-lhe um beijinho, um abraço e diz "até amanhã". - digo-lhe eu.

Deu o abraço. Deu o beijinho e disse-lhe:

- Vá agora vai para o teu carro e vai-te embora.

Se eu não soubesse que o avô sabe bem a peça que ali está ficava mais embaraçada. Assim...

 

Chegamos à porta do prédio e eu não consigo pôr o código da porta. Um dos números está meio avariado e por mais que o pressione não consigo que funcione.

Pouso o pequeno enquanto bufo e ele diz-me:

- O avô hoje disse "porra mais isto!".

- Aí sim, e quando foi isso?

- No caminho. O carro avaliou e ele disse. Tem de ir à ofichina.

Deve ter sido bateria outra vez. Afinal de contas o carro já é um clássico, há que lhe dar um desconto. Pensei com os meus botões.

Chego a casa e peço ao Nuno para ligar ao pai, ficar a saber se havia algum problema com o carro e se era preciso alguma coisa.

Resultado: com o frio que fazia o vidro embaciou demasiado e o velhote teve de parar para limpar o livro. Para o neto foi uma avaria.

 

Vamos brincar para o quarto enquanto o jantar se faz. Levanta uma espécie de uma passadeira almofadada que tem no quarto e avisa-me que construiu uma casa.

Finjo que bato à porta e ele diz-me:

- Quem é?

- É a mãe, podes abrir?

- Não vai tabalar pa ganhar dinheio.

WTF?!? Atão mas quê isto pá!?

Finjo que vou trabalhar e que volto. Bato à "porta" outra vez.

- Quem é?

- É a mãe filho. Voltei do trabalho. Podes abrir a porta?

(ele finge que abre)

- Posso entrar?

- Não, já aqui tá muita gente. Nã cabis.

E é para isto que eu te crio!?

 

À noite, antes de ir para acama foi tomar banho. Deixei-o a brincar na banheira pequena - onde ainda toma banho - a brincar com os bonecos enquanto eu fui arrumar a mala para o dia seguinte.

A determinada altura chama-me.

Ponho a cabeça dentro da casa de banho e ele diz-me com o maior sorriso possível:

- Olha o que eu fizei!

O que ele fizou foi encharcar o chão da casa de banho com água. 

Estava numa alegria só.

O que é que eu faço com um sacripanta destes!?

 

Sou...uma mãe com canela...

Eu devia estar no meu segundo ano de faculdade quando numa aula, já não me recordo de que cadeira, a professora decidiu contar a história das gémeas.

Pretendia com esta história demonstrar que o meio pode ter uma influência determinante no desenvolvimento de uma pessoa, e a forma como criamos esse meio, para crianças e adultos, pode definir o seu carácter bem como a forma como encaramos a vida e nos relacionamos com os outros.

Reza a história que algures nos Estados Unidos duas irmãs gémeas foram entregues para a adoção. Não sendo possível encontrar uma família que as acolhesse a ambas, foi tomada uma decisão tremendamente “inteligente”. Separaram as irmãs, tendo cada uma sido adotada por famílias diferentes.

Nenhuma das famílias sabia que a filha que adotada tinha uma irmã gémea e, para a pessoa que decidiu este destino era bastante evidente que jamais se encontrariam.

Anos mais tarde, um grupo de estudantes universitários teve acesso às fichas da associação que havia acolhido essas gémeas, procuravam demonstrar que apesar do passado dos pais biológicos, os filhos, se entregues a famílias equilibradas e coesas, podiam desenvolver-se para ser crianças felizes e adultos adaptados.

No meio deste estudo encontraram as pastas das irmãs gémeas e decidiram contactar as famílias para compreender como tinha sido o crescimento de cada uma.

Quando falaram com a primeira mãe, esta mostrou-se feliz com a sua filha tendo apenas um queixume. Tinha sido uma criança muito difícil para comer. A mãe tinha sofrido muito com isso. “Só queria comer coisas com canela”, dizia a mãe.

Quando falaram com a segunda mãe, que havia adotado a outra irmã o discurso foi similar, igualmente muito feliz com a sua filha. Sabendo da entrevista da mãe anterior perguntaram-lhe como tinha sido a alimentação da sua filha, se era uma criança difícil para comer.

A resposta da mãe foi simples: “Uma maravilha, comia de tudo e limpava o prato! Bastava pôr um nadinha de canela e ela comia tudo”.

 

Entendem?, tudo depende da nossa abordagem à vida.

 

A minha mãe faleceu quando eu ainda era miúda, pelo que fiquei com os seus exemplos mas muita coisa se perdeu pelo caminho. Por isso era para mim fundamental observar outros exemplos, construir na minha mente que tipo de mãe quereria ser, um dia que tivesse um filho.

Nesse dia decidi que seria uma mãe com canela. Daquelas que pondera bem as sua batalhas, que negoceia, que explica e que, se for preciso, põe um pequeno condimento para levar as coisas a bom porto.

 

Sôtor é um engraçadinho!

Habituado que está a que senhora sua mão - minha pessoa - lhe faça tudo, ontem, espraiado na minha cama disse-me:

- Mãe vamos buscar um leitinho!

E fomos, ele carregou o seu bonequinho de dormir (para os mais chiques, o seu doudou) e eu carreguei com os dois.

Trazemos o leite para o quarto, pouso a criatura de cabelos desgrenhados e diz-me, novamente estiraçado na cama:

- Mãe pega o menino!

- Não, vens tu sentar-te ao colo da mãe para beberes o leitinho. - digo-lhe eu.

- É muito mais divertido quando me pegas. - argumenta.

- Pois mas tu estás muito pesado e a mãe não consegue.

Levantou-se a custo. Sentou-se ao meu colo com cara de quem tem uma mãe incompetente e insolente.

Digo-lhe:

- Sabes o que era mesmo giro? Era tu beberes o teu leitinho sozinho.

Ele responde-me:

- Não consigo, estou muito pesado!

WTF.

A pulga já tem, definitivamente, catarro!

 

#toufeitaaobife

 

A delícia das pequenas coisas

Uma pessoa chega a casa depois de um dia de excremento. Acordar cedo depois de uma semana a levantar às 9 da manhã. Volta ao trânsito, ao trabalho, às tarefas, à pressão do que está por fazer e tem 25 mini ataques de pânico com tudo o que ainda há para acabar e já estamos em Dezembro.

Uma pessoa conversa consigo mesma 50 vezes para se convencer que tudo vai correr bem, ainda que metade dos neurónios se manifeste céptico quanto a esta realidade; como se a possibilidade de tudo acabar num cenário não-Tarantino fosse uma espécie de utopia sem sentido. Um qualquer pónei cor de rosa que só acontece no mundo encantado desenhos animados.

A pessoa prepara o jantar e ouve uma mão pequenina a bater à porta, abre e recebe um abraço, com ele a frase:

- Mãe tive tantas saudades de ti.

E o mundo fica melhor. E não acaba ali.

Senta-se no quarto com uma folha em branco, pega nos lápis que os tios lhe ofereceram e diz-me:

- Olha mãe, estou a fajê um zenho p'ó pai ficá feliz!

Tão bom. 

E é meu. 

Por agora.

Até crescer e uma lambisgoia o arrebanhar.

Mas ainda falta, esta minha mania de estar já a prever o futuro.