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Blog Bestialmente Conhecido

Ainda há menos de 100 anos...

Há aproximadamente 36 anos uma senhora de nome Maria José, conhecida por todos como Zé, foi despedida da fábrica de costura para a qual trabalhava fazia anos. Há mais de 3 meses que a fábrica não pagava ordenados, mas na classe baixa, em que o vencimento de cada mês fazia falta para pôr comida na mesa, era uma calamidade perder o emprego. Por isso as pessoas mantinham-se a trabalhar, na esperança de que tudo se resolvesse.

A fábrica acabou por fechar. O proprietário colocou todos os seus bens no nome da ex-mulher. Os empregados ficaram sem emprego, sem os últimos meses de ordenado e sem indemnização.

A Zé decidiu que não podia continuar assim e decidiu começar a trabalhar por conta própria.

Tinha então 3 filhos, havia de ter mais uma menina havia de cuidar também das duas sobrinhas que moravam no mesmo prédio.

Mestre perfeccionista no seu oficio depressa granjeou uma mão cheia de clientes. Trabalho não lhe faltava. 

Um dia apareceu uma cliente que se chamava D. Isabel, queria saber se a Maria José aceitava costurar para ela, disponibilizava-se a pagar extra por isso, se fosse o caso.

A D. Isabel era uma senhora negra a quem as costureiras recusavam fazer roupa pelo tom de pele.

A guerra colonial não tinha acabado há anos suficientes....havia muito racismo. Muito tratamento desigual. As palavras "preto", "negro" e "retornado" eram usadas à boca cheia com o intuito claro de ofender e rebaixar.

A Maria José esclareceu que costurava para pessoas honestas e que pagassem a horas, se eram mais escuras ou mais claras pouco importava, a cor do dinheiro era verde e pessoas dessa cor não conhecia nenhuma.

Começou naquele dia uma boa amizade.

A Maria José era a minha mãe. A D. Isabel era uma das pessoas mais doces e de melhor conduta que alguma vez conheci.

 

A minha mãe não permitia que se chamassem nomes aos outros. Não se usava a palavra "preto" porque ela tinha uma conotação negativa e para a minha mãe isso não fazia sentido.

Aprendi com ela que as pessoas se avaliam pelos seus comportamentos e pela sua conduta, a cor de pele que trazem consigo nada acrescenta à equação, e só pessoas ignorantes eram capazes de agir dessa maneira.

A minha mãe tinha a quarta classe e trabalhava deste o dia em que acabou de fazer o ensino primário.

Não precisou de se julgar um génio para saber que pessoas são pessoas, independentemente da sua cor.

 

A D. Isabel transformou-se numa das melhores clientes. Pagava a horas, dava boas gorjetas e trazia muito trabalho.

Mas havia um problema: a minha mãe tinha duas clientes de nome Isabel, e nós - que abríamos a porta e informávamos quem estava a subir enquanto a minha mãe preparava tudo para a prova da roupa - tínhamos de saber destingir.

Então informou-nos:

- Para destingirem entre uma Isabel e a outra, dizem-me que esta é A D. Isabel, que é uma senhora de cor.

Hoje dir-se-ia que quando alguém se refere a uma pessoa negra como "pessoa de cor" é alguém que está a reprimir um certo racismo. Mas isso é porque as pessoas não viveram ou assistiram ao momento em que uma pessoa insulta outra apontando-lhe a cor da sua pele.

Ou isso ou já se esqueceram de como era a vida em Portugal há 40 anos.

A minha mãe não era uma economista formada no estrangeiro. Não tinha lido mil livros nem pensado filosoficamente na questão. Queria apenas que os filhos soubessem que era possível descrever alguém usando uma caracteristica sua, como qualquer outra, sem usar uma palavra que lhe soava a insulto.

Que fosse tão linear como destinguir as 2 D. Ana que haviam: ou era a loira ou era a outra.

 

Quando conhecemos a D. Isabel ela tinha uma vida muito confortável, pagava bem e dava boas gorjetas. Foi cliente da minha mãe enquanto viveu financeiramente desafogada e quando lhe passou a faltar o pão para a mesa.

Tinha uma valente vivenda e era proprietária de 2 ferro velhos.

Depois os filhos envolveram-se na droga e ela perdeu tudo o que tinha com negócios organizados pelos dois.

Já não fazia fatos caros. Pedia alguns arranjos.

Em tempos dava gorjetas tão grandes quanto o valor do trabalho.

Depois passou a levar o arranjo com um "uma mão lava a outra D. Isabel, já foi para mim, hoje sou eu para si, nunca me esqueço".

 

Com a minha mãe aprendi a respeitar os outros por aquilo que são e como se comportam: se são respeitadores, honestos e educados, devem ter o mesmo de mim. Sejam brancos, pretos, ciganos, romenos, americanos, com barbas longas, carecas, zarolhos, o Presidente da Republica ou a senhora da limpeza.

 

Ontem à tarde vi este filme e lembrei-me da D. Isabel. Lembrei-me de como as coisas eram nesta nossa terra há tão pouco como trinta e tal anos.

É aterrador que há menos de 100 anos estivéssemos a pôr um homem na lua e na terra ainda houvesse uma casa de banho separada para pessoas com uma cor de pele mais escura.

 

Este filme está magnifico. Um desempenho extraordinário das 3 atrizes que representam estas maravilhosas mulheres que foram um marco para mudar mentalidades.

3 mentes brilhantes.

3 corações de coragem.

Um rasgo de sorte.

E a oportunidade de encontrar um homem que, à  semelhança da Maria José, avaliava as pessoas pelo seu comportamento e pela sua conduta, não dando valor à cor de pele que traziam consigo.

 

 

 

 

Apontamentos da vida sobre coisas que pouco importam aos outros (2)

O meu pai é um homem feito de memórias, às vezes acho que a vida dele se alimenta das memórias de um passado de que não quer abrir mão. As decisões menos boas que ainda o atormentam, os azares que lhe calharam, os momentos que viveu em sítios que preserva na sua memória intactos como no dia em que os viu pela última vez.

Às vezes organizo um ou ourtro passeio com ele, não o faço tantas vezes quanto gostaria, mas gosto de o levar a sítios que conheceu bem, espaços que já não visita há mais de vinte anos, aqueles que continua a descrever como se tivessem ficado intactos na história, alheios à evolução e à corrosão do tempo. É frequente que a caminho nos presentei com todas as histórias lá passadas, lembra-se das pessoas e dos nomes dos restaurantes, fala no presente, como se aquelas pessoas ainda hoje estivessem sentadas na mesma mesa a comer um almoço farto. É assim que as recorda.

Quando chegamos vejo no seu olhar um misto de suspresa e desgosto, a surpresa de quem conhece uma terra nova, tão diferente daquela que um dia soube como a palma da sua mão; desgostoso porque as ruas e as pessoas que ainda vivem no seu presente já não existem ou estão envelhecidas pelo tempo.

Tudo lhe traz memórias passadas e eu sempre fiz pouco disso. “Ó Augustinho lá estás tu, isso foi há quantos anos? Essa história é mais velha que eu sei lá…”

E ele conta-a na mesma.

“Que é que queres?, são as minhas histórias, pá! Se não falo destas falo do quê?!”

Com a idade vou-lhe dando razão, vou compreendendo que as memórias nos compõem mais do que pensamos. As recordações fazem parte da nossa vida presente porque alimentam aquilo que somos.

 

Há uns dias o Nuno vendeu um aparelho de secar a roupa que tínhamos comprado o ano passado (falo como quem ainda está em 2017 e não se acamou ao 2018, como se o ano fosse um par de sapatos que tem de ganhar jeito ao corpo).

Deu para remediar a avaria da máquina de secar, mas este ano já não precisamos dele.

Quando foi entregar o aparelho à compradora viu-se grego para lhe dar troco, não havia uma única loja que lhe trocasse 10 Euros por duas de 5 Euros. Só à quinta loja e com a ajuda da rapariga é que conseguiu a troca.

Fez-me lembrar uma história.

A minha mãe sabia delegar responsabilidades como ninguém, quando aprendíamos a ler a escrever o básico ia-nos dando tarefas mais complexas para ver se ficávamos atentos, se eramos responsáveis. Um dia, quando fomos ao antigo Pão de Açúcar na Cova da Piedade – hoje já não existe, foi demolido e deu lugar a um terminar de autocarros – a minha mãe deu-me 500 Escudos para ir trocar à papelaria, tinha entrado em vigor à pouco tempo aquela coisa de os carrinhos precisarem de moeda e a minha mãe não tinha moedas de 100 ou de 50 Escudos.

Entro na papelaria e peço educadamente à senhora para trocar, numa atitude pedante a pessoa diz-me que não tem de trocar nada, que tivesse trazido moedas de casa.

Parei a olhar para a moeda. Para a senhora eu estava a parecer meio atrasada, na minha cabeça estava a engendrar-se uma solução que me garantisse que trocava a nota e não me metia em chatices.

- Então quero comprar uma pastilha Gorila se faz favor.

Aquela decisão requereu coragem, muita coragem. Eu não estava autorizada a gastar o dinheiro com doces, tinha apenas de trocar o dinheiro. Mas o valor era tão baixo, que decidi arriscar, deixado para trás as eventuais consequências. Aprendi nesse dia que queria dar uma lição áquela pessoa que estava a tratar-me incorretamente só mesmo porque eu era uma criança.

- Não me vais pagar com 500 Escudos pois não?

- Vou e a senhora vai dar-me troco, porque tem de me dar troco.

A tipa enfureceu-se e deve ter-me desejado as maiores pragas. Quando saí cá para fora enchi o peito, esta já tinha aprendido que não se metia comigo, faltava era explicar à minha mãe que tinha comprado um doce sem a autorização dela.

Quando lhe contei encheu-se de orgulho, afinal de contas, sem gastar praticamente dinheiro nenhum ensinei uma adulta que não fazia pouco de mim.

 

Cada vez estou mais parecida com o meu pai. A minha vida são histórias.