Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blog Bestialmente Conhecido

Então e esse Natal?

Podia dizer: passou-se, mais ou menos como nos outros anos. Mas a verdade é que não foi bem assim.

Quando temos filhos pequenos o Natal ganha uma magia diferente. Por eles e através da alegria deles, há um reviver da fantasia de natal.

É não é!?

Podia ser. Se o meu filho não fosse a cópia chapada da sua mãe.

 

A consoada foi passada em minha casa. Presentes: sogros, marido (era o que mais faltava que não estivesse), filho e Augustinho (também conhecido como pai).

O Augustinho, homem sempre à frente, decidiu arranjar uma prenda extra para o neto, e, em vez de a embrulhar e entregar à filha, por sua vez mãe do neto que ainda devia acreditar no Pai Natal, para que esta a escondesse. Não. Decidiu coloca-la em cima da mesa da cozinha. Não demorou 5 minutos para o miúdo dar conta de um camião da policia.

Passei 20 minutos a explicar-lhe que não era certo de que a prenda fosse para ele e que não podia reivindicar todos os brinquedos que via.

Assim fiz até o Augustinho aparecer e dizer:

- Claro que é para ti, para quem mais havia de ser!? - colocando-me a mim, enquanto mãe e pessoa que forma um ser humano para a vida numa excelente condição.

Nesse preciso momento havia de sentir a primeira sensação de que o RAP tinha razão: a melhor ceia de Natal é com desconhecidos, os de sempre já sabemos o que a casa gasta.

O miúdo põe-se doido com o brinquedo e chegam os meus sogros. O puto vai ter com os avós e esclarece:

- O meu avô Augusto deu-me esta prenda! Olhem!

O meu sogro começou a ficar agitado porque também queria ver o neto abrir uma prenda sua.

Para apaziguar ansiedades tive uma ideia: eu garantia ao pequeno que se ele comesse a sopa toda o Pai Natal vinha mais cedo. Para isso, depois de a sopa estar comida ele tinha de ir para a cozinha com os avôs para que o Pai Natal pudesse sentar-se ao pé da lareira, a comer as bolachas que lá deixámos e a beber o seu copinho de leite, enquanto consultava o seu caderno de bom comportamento.

O rapaz, filho cético de sua mãe desconfiada, não se afiançou nem um segundo. Comeu a sopa a contragosto e foi para a cozinha com ar de quem achava que aquela palhaçada não tinha ponta por onde se pegue.

Claro que não ajudou o Augustinho dizer: “para com isto porque ele não está a acreditar nesta merda!”, sempre no mais alto nível de pedagogia.

Recebo indicações do Pai Natal que os presentes estavam colocados (ou seja o Nuno ficou a tratar de tudo e a falar com o Pai Natal para argumentar a favor do filho, quase parecia um episódio de uma serie de advogados), saímos para a sala e Sôtor não se quis acreditar com tanta caixa para abrir. Coitadinho, depois de ganhar o Super Wings achou que já nem ganhava mais nada. Quando lhe entrego o presente maior com a prenda que anda a pedir há perto de 6 meses, acho que a criança ia desmaiando.

Esteve entretido com as coisas dele nas 2 horas seguintes.

 

Criança entretida e velhotes apaziguados porque o neto já tinha as prendas fomos ao bacalhau.

Tal como previ o Augustinho estava satisfeito depois de chuchar a terceira espinha, possivelmente por conta da quantidade de azeite que pôs no prato – fiquei nitidamente com a noção de que o bacalhau ia voltar à vida e começar a nadar bruços. A minha sogra estava cheia antes de o bacalhau chegar ao prato e pediu para pôr mesmo muito pouco porque comer muito lhe dá azia de noite ou lá o que é.

Eu botei abaixo 2 copos de tinto que me deixaram logo mais alegre e até parece que pedi tangerinas aos meus sogros, porque eles apareceram lá em casa no 25 a alegar que eu tinha dito que queria que me trouxessem um saquinho.

 

Antes da meia noite estavam os velhotes a caminho de casa e eu a ver a Patrulha Pata, tentando desesperadamente convencer o meu filho que a noite de Natal também serve para dormir.

 

No dia 25 sôtor acordou feliz de sua vida, deserto de pegar nos brinquedos outra vez. Inicialmente não queria ir almoçar à casa do meu irmão, mas lá aceitou quando soube que o primo também ia.

Chegámos todos à mesma hora e o que aconteceu a seguir foi aquilo a que chamo: uma tourada.

O meu sobrinho tem mais 9 anos que o meu filho, mas juntos parecem ter mais ou menos a mesma idade. O pequeno é terrível e convence o outro desgraçado a fazer as coisas à maneira dele.

Nisto pressionou o primo a despachar-se a comer, tentou saquear todas as batatas fritas do prato do primo, porque eu lhe tinha dito que só comia mais batatas se comesse chicha também, correu pela casa e até partiu uma arte de um dos brinquedos que lhe deram.

A determinada altura despediu-se de mim e do pai, disse que ele e o primo iam ficar a brincar na casa do meu outro irmão – tio dos dois. Foi quando o ouvimos gritar para o primo: “anda Duarte, vamos partir a casa toda!”, e gritava esta alarvidade satisfeito da vida dele.

Os crescidos, por mais que tentassem controlar aquilo, partiram-se a rir. Como é que uma coisa daquelas que ainda nem fez 3 anos tem aquela pica toda.

Estava a ser impossível "desliga-lo".

O meu irmão já dizia: "o puto não tem off?!" - e ria-se que nem um perdido.

Quando finalmente o conseguimos agarrar para se despedir de toda a gente, acalmou-se mas quis que o primo viesse viver connosco. Expliquei-lhe que não era possível, o primo tem escola. Aceitou.

Estávamos nós já no carro, a passar ao lado do portão da casa do meu irmão, tentando fazer os últimos adeus quando ele grita para o primo:

- Duarte, VAI PARA A ESCOLA!

Como quem avisa, não vens brincar é bom que vás estudar.

Adormeceu ao fim de 5 minutos.

 

E foi assim, o meu Natal foi o meu filho, ele e as histórias dele. É tão bom registar para não esquecer.

 

E se eu disser que gosto do Natal...

Natal.jpg

 

O Natal é das crianças e de todos aqueles que mantém alguma infantilidade, como eu.

É dos que gostam das musicas, das fitas, das árvores com bolinhas. Dos que sonham com o dia em que vai nevar pouco depois da ceia, mesmo vivendo nos trópicos. Dos que vibram com a Mariah Carey e o All i want for christmas is you, quando toca no carro cantam aos altos berros e dançam como umas malucas. O Natal é dos que secretamente ainda acreditam que, se calhar um dia, pode aparecer um velho de barbas para deixar na meia uma chave para uma casarona na Quinta da Marinha. Sete quartos e quatro casas de banho. Um quintal com espaço para dinossauros.

O Natal é daqueles que reclamam porque o Centro Comercial está cheio mas deixam sempre as prendas para a ultima da hora. É dos que prometem todos os anos fazer listas e depois acabam a comprar em cima do joelho. É dos que dizem que este ano não vão dar prendas às tias da terra porque estão fartos de oferecer chocolates de 1,99€, mas acabam sempre por passar no corredor e achar que o preço está mesmo bom. Dizem para si mesmos: “tadinha da minha tia Clotilde, gosta tanto de um chocolatinho…olha é só mesmo pelo gesto, para dizer que me lembrei!”, e carregam com sete caixas de chocolates baratos no meio da tralha para a consoada. Bacalhau, couves, batatas, grão, azevias, broas de milho (que parecem adornos porque nunca existiu uma pessoa que as comeu), guardanapos com desenhos de azevinho, quinze garrafas de tinto, sete envelopes para as prendas dos sobrinhos que recebem em dinheiro e sete caixas de chocolates.

O Natal é dos que prometem não comer tantas filhoses* e ainda menos coscorões, mas que depois de atracam à mesa e puxam a travessa para si.

O Natal é dos que garantem que só vão comprar prendas para a criançada e depois aparecem com um pijama novo para o marido e recebem dele umas pantufas. Coisas de velhos casados há mais de 2 anos. Malta com os seus trinta e tal anos. Os que começaram a dizer com assustadora frequência: "aí que estou cada vez mais parecida com a minha mãe!"; dele espera-se que esteja parecido com o pai.

O Natal é a piela que os tios, os pais e os avós apanham. A mesma que os filhos e sobrinhos vão apanhar daí a uns anos. A tia que bebe um cheirinho e rica logo rosada. 

Natal é a noite de consoada com todos os que nos dizem algo, até aqueles que nos dizem que os queremos estrangular a maior parte do ano.

O Natal é dos que recebem peúgas de raquete e cuecas. É dos que reclamam que mais valia não receber nada. É dos que dez anos mais tarde ainda têm as mesmas meias porque são as mais quentinhas, ali puxadinhas para cima com as calças do pijama enfiadas lá dentro. Não há corrente de ar que entre debaixo dos lençóis.

O Natal é a bica de petróleo na Noruega, com a quantidade de bacalhau que exportam para Portugal. É a desgraça do cabrito no dia 25. Dele e das dez garrafas de tinto que se vazam num abrir e fechar de olhos.

É a fatalidade da cintura da tia, da prima, da sobrinha, da irmã e da pessoa. Até o cão tem de andar a ração sem gordura nos primeiros quinze dias de Janeiro.

“É Natal! Uma filhós não lhe há de fazer mal!”, dizemos. Certos de que por ser Natal o cão não cega com diabetes. Afinal de contas é uma época mágica.

Natal é a notinha no envelope para a sobrinha mais velha. É o “compra uma coisa que gostes”, apesar da quantia mirrada.

O Natal é dos que lembram aqueles que partiram, os que fazem falta todo o ano, mas que tinham um lugar especial ali à mesa. É dos que já não estão, dos que nos ensinaram o que sabemos hoje, das histórias hilariantes que deixaram e das frases que sempre disseram. Dos que lembramos com um copo de tinto a mais, primeiro rimos, depois viramos costas para limpar a lágrima porque somos fortes demais para lamechices, e voltamos a rir outra vez, sempre com a frase: "era mesmo assim, era!".

O Natal é das crianças e de quem quiser.

O Natal é de quem acredita no senhor das barbas e de quem acha que a rena de nariz vermelho é a maior.

O Natal é de quem acha que o velhote de vermelho é um embuste.

O Natal é dos que não gostam do Natal, dos que preferem esquecer a data, fechar os olhos e esperar que passe. É dos que dizem: "que se lixe o Natal". Dos que comem o bacalhau sozinhos. Uns porque a vida assim o faz, outros porque assim o preferem.

O Natal é de quem quer estar em casa a distribuir presentes. E é dos que saem antes da consoada para distribuir um prato de comida quente a quem tudo o que tem na vida é o ar que lhe enche os pulmões.

O Natal é de quem viaja porque não gosta das festas familiares e de trocas de prendas porque-tem-de-ser.

É dos forretas que compram as prendas a 26 para apanhar as promoções sempre com a desculpa que as filas estavam grande demais.

Hoje parei para pensar no Natal e cheguei à minha conclusão.

Eu gosto do Natal, durante muitos anos preferi não gostar, as faltas custavam-me mais que as presenças.

Mas hoje digo: eu gosto do Natal. Das filhoses (o plural é filhós, mas eu digo como aprendi como a minha avózinha que não sabia ler nem escrever), do bacalhau, de todos juntos à mesa com a toalha feia que a sogra ofereceu. De ouvir as musicas em repeat na rádio e nos Centros Comerciais, em quantidade bastante para me cansar e dizer: “já está, para o ano há mais”.

 

Um feliz Natal para todos.

Para os tradicionais e para aqueles que têm o melhor Natal de todos: perfeitamente imperfeito.

 

jingle bells, jingle bells

Queridos amigos e família,

 

Em resultado da atroz afluência de seres vivos - também conhecidos por pessoas - em lojas de toda a espécie, criando filas assustadoras, o que, a par com os meus elevados níveis de ansiedade, me causam graves ataques de pânico e impactam com o que aprendi nas aulas de anger management (em inglês é mais chique); este ano decidi delegar a compra e entrega de prendas num serviço antigo prestado pelo Pai Natal e suas renas. Mandei uma lista para o Polo Norte e referi todas as prendas que mais gostariam de receber (até inclui o Brad Pitt para a tia Clotilde - isto se é para pedir, quero o melhor para os que mais amo), afinal de contas, sabendo que é o velho que paga este ano pude dar prendas à grande. Vai ser à fartazana, é o que vos digo!

Mas há um senão, o cota diz que vai avaliar como é que vocês se têm comportado este ano, se baixam o tampo da sanita quando vão à casa de banho, se lavam bem os dentes, se fazem as tarefas domésticas, se pedem licença nas filas, se não dizem asneiredo, esse tipo de coisas que habitualmente exigimos aos miúdos, mas para as quais normalmente nos estamos a defecar.

Assim, se na noite de natal não aparecer nada da minha parte é porque vocês foram uns trastes este ano e não merecem nestum, o que, conhecendo-vos como conheço, é o mais provável.

 

Votos de um Natal fenomenal e se não ajudaram nenhuma velhinha a atravessar a estrada é provável que recebam um par de peúgas de raquete que, a bem da verdade, até são bastante boas.

 

Nota: Os céticos que decidiram achar que o Pai Natal é um embuste receberão também coisa nenhuma, porque a vida é para quem acredita na fantasia mágica do amor. Bonito hein!