Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blog Bestialmente Conhecido

Meu amor, ainda és tão pequenino...

 

Numa semana em que se falou tanto de crianças, de educação, da falta dela, de pais - uns bons, outros piores, ou talvez apenas diferentes.

Numa semana de tantas opiniões.

Vou resumir a minha a esta música.

Isto com mais amor, mais 10 segundos de tempo, 1 caneca de paciência, uma pitada de ralhetes, meia dúzia de caras feias, umas gargalhadas, muita relativização e um punhado de exemplos. São coisa para ajudar nisto de criar os filhos.

Por hoje amor e encher de beijos.

A minha música para este fim de semana, da autoria da brilhante Luísa Sobral.

 

Kong Fu ganga

Gaja que é gaja quando compra uma calça de ganga quer com ela fazer boa figura. Ou isso ou procura uma coisa barata para fazer de pré-panos em casa. Aquele trapo mal enjorcado que se usa para as limpezas e para despejar o lixo.

Vai daí e a gaja entra na loja que vende o artigo pretendido e procura o que está na moda, que, de acordo com os meus parcos conhecimentos pode ser:

Temos a calça de ganga boyfriend jean

Que é aquela calça de ganga que tem um corte adaptado para o maridão, pela largura das ditas será sempre um grande calmeirão: alto e largo. A cintura fica larga, nas ancas sobra pano e depois espeta-se com um cinto. Assim um bocado naquela de fazer de conta que dormimos ontem lá em casa e como o vestido era muito formal ele nos emprestou dois trapos para meter em cima, assim confortáveis e que fazem de nós mulheres sensuais, porém desarranjadas e que não querem saber porque já têm um grande machão consigo.

 

Temos a calça de ganga com remendos

Que é aquele artigo que parece que a pessoa esteve num acidente de mota grave mas só a roupa ficou aleijada. As mais estranhas são as que vêm mesmo com um pedaço de tecido pendurado, qual estropiado em estado pré-coma. Esta calça pode ser encontrada na versão super larga, ali próxima do boyfriend jean, que pretende dar a ideia que foi o namorado que emprestou as calças de ganga depois de ele ter tido uma acidente de mota grave. A outra hipótese é o skinny jean, que é aquela calça de ganga tão justa que mais parece um legging mas cheio de buracos e farrapos.

 

Temos a calça de ganga de cintura descaída

Que é aquela calça onde a pessoa quando se agacha, se a blusa não for comprida, fica com a asa delta à vista.

 

Temos a calça de ganga com a cintura subida

Que é aquela calça de ganga que tem tanta cintura que a calça acaba mais ou menos no esófago, mesmo ali abaixo das marias. A ideia é esmifrar a organlhada de maneira a parecer que a pessoa tem uma cintura de vespa. Mesmo que os órgão se mantenham em sofrimento.

 

Detalhado que está um espetro relativamente vasto das macro categorias de calças de ganga deparamo-nos com um problema no momento da aquisição e posterior utilização pós lavagem.

Este obstáculo não se coloca para as calças de ganga que parecem ser 4 números acima do da pessoa, mas concretamente nas calças que se querem justas e firmes em torno do pernil da elemento que adquire.

 

Ora pois que a gaja dirige-se à loja e pretende comprar uma calça de ganga justa, quer aquela que arredonda a nalga e dá a impressão de que debaixo daquele trapo está um par de glúteos que Sim Senhor!, vai daí e pede apoio ao funcionário da loja para saber se a calça é bicha para dar de si, ou se se mantém rijinha.

O funcionário explica que, após utilização é normal que dê um pouco de si, afinal de contas o tecido sempre tem alguma elasticidade, pelo que o melhor é comprar o número mais justo, para que depois não fiquem laças. Ali a criar bolsas no rabo, daquelas que parecem umas babas estranhas, resultando no trágico cú de velha.

Por isso a pessoa pega nas calças apertadinhas e entra no provador, enfia a primeira perna, tudo encaminhado, encaixa a segunda e começam os problemas, há uma estranha barreira criada pelas ancas alavancada pela largura da coxa. É nesse preciso momento que se iniciam as manobras de Kong Fu. A pessoa agarra forte do cós da calça, exercício a duas mãos e, enquanto puxa com força para cima dá um pontapé com a perna direita. Repete o exercício com a esquerda. Arreia forte na parede do provador, sopra o cabelo das ventas e continua o esforço. Inspira para ganhar balanço e expira tudo ao pontapé. Bora lá!, tá quase. A pessoa dá tudo até apertar o ultimo botão. Compreende que tem apenas 25 % dos pulmões ocupados com oxigénio e tenta perceber se é possível manter-se vivo dessa forma.

Confirma-se. Adquire o bem.

Nos primeiros dias que usa consegue brilhar por onde passa, afinal de conta a calça já de acomodou ao lombo e tudo corre pelo melhor.

Depois as calças vão para lavar.

E há um dia de manhã em que a gaja fica com as calças pela zona das ancas. Dá-se um momento de falta de reconhecimento do bem. Depois compreende o sucedido e inicia o processo.

Agarra-se a duas mãos, faz força e…pontapé pá direita. Descansa. Pontapé pá esquerda. Recupera. Sopra, Grita um “Yiiiiaaaaa!”, para dar mais vida ao momento.

É o chamado Kong Fu Ganga, em que a calça é sempre a derrotada e quando assim não é, lá vai a auto-estima da gaja pelo cano.

 

Conversas de pendura

Estávamos a sair do Eixo Norte Sul e o Nuno pega no telemóvel para ver não sei o quê:

Eu: Deixa o telemóvel, estás a conduzir.

(pousou o telemóvel)

Ele: Este bocadinho é a direito.

Eu: Mas pode aparecer um animal, por exemplo...uma raposa...

Ele: Ou uma galinha...

Eu: Ou uma galinha...(confirmo)

Ele: Porque é muito comum encontrar galinhas na Segunda Circular.

Eu: Olha, podia ser uma galinha a correr atrás de uma raposa e a gritar "vais comer os ovos é o caralho! volta pó tê monte!", e a raposa atravessava louca pela estrada porque estava acagaçada de medo da galinha.

Ele: Porque na aldeia as raposas comem as galinhas, mas nas cidades as galinhas já são informadas.

Eu: Precisamente.

 

E é assim que se viaja comigo a pendura. Com muita dica de condução. Introduções à natureza e emancipação de animais. Para não falar no desenvolver de capacidades cognitivas e de fala.

Quem ficou agora com vontade de fazer uma viagem comigo para o Porto e volta?

 

crazy-chicken-clipart-16.jpg

 

 

As palavras também fazem cócegas

...

- Ai, cruzes, credo! – disse o Sr. Nervoso…

- Ahahahahahahahahaahhah (gargalhada alta e sonora) cuzes, quedo, cuzes, quedo. Otavez mãe! Lê otavez….

...

 

É assim que se passa a leitura da história à noite.

 

Gosto de ler. Gosto de livros. Gosto de lhes pegar, de folhear, de sentir o cheiro, do mundo desconhecido que está dentro daquelas página. Deslumbra-me a capacidade de alguém juntar um conjunto de palavras umas às outras e conseguir criar um mundo paralelo na minha cabeça. A história desenrolasse à minha frente, abusando da minha própria imaginação. Fará parte de mim para sempre.

Os livros fazem-nos pensar, fazem-nos rir, entretem-nos nos momentos mais chatos, ajudam-nos a ultrapassar dificuldades e dão-nos a conhecer o maior numero possível de: palavras.

Como diria o Ricardo Araújo Pereira: acho que gosto de palavras. Do poder que podem ter. Conseguem fazer chorar, fazer rir e podem ter um impacto que causa mais dor do que um murro na cara.

Criam um sentimento sem que tenhamos fisicamente de tocar alguém.

É essa a força das palavras.

 

Estava ainda grávida e lia em voz alta para pequeno sôtor. Tinha lido algures que me conseguia ouvir e queria que se habituasse, lá está, a palavras.

Quando ele nasceu, recordo-me de o colocar na espreguiçadeira e sentar-me à frente dele a ler em voz alta. Ele muito atento.

Com poucos meses de vida as crianças não conseguem ainda assimilar uma história, mas aprendem a gostar de ouvir histórias. Sem saberem cresce o prazer de ouvir palavras.

Li livros inteiros – meus – para ele.

 

Quando começou a ter tamanho suficiente, fui-lhe perguntando se queria ler uma história para dormir. Importa que seja algo que lhes dê prazer, e não uma obrigação. Isso é o que os professores se veem obrigados a fazer nas escolas (e faço notar que os professores não o fazem de propósito mas têm de cumprir o seu papel e blablabla…só mesmo para evitar mal entendidos…).

Agora, com quase 3 anos não vai dormir sem ler uma história e, como é algo que gosta tanto, se eu ameaço que não há história porque se está a portar mal, orienta logo o comportamento.

 

Gosta de me ouvir ler, gosta que lhe faça perguntas sobre a história, mas acima de tudo gosta das palavras. Particularmente das que são diferentes do seu léxico de dia a dia, em especial aquelas que o fazem rir.

Quando tem uma história nova com palavras que ainda não conhecia, pequenas expressões, quer ler todos os dias a mesma. Às vezes duas semanas seguidas. Ri imenso com as palavras que mais gosta, pede para repetir.

Para mim é um encanto. Ainda que às vezes esteja cansada e à beira de cair para o lado….

 

O livro que estamos a ler agora tem, a páginas tantas, a empressão “cruzes, credo!”, e ele ri como se alguém lhe estivesse a fazer cocegas. Acho que nos quatro andares do prédio toda a gente o consegue ouvir.

E é delicioso.

 

Lá está, se não fossem as palavras, como é que eu escrevia esta história para me lembrar daqui a 20 anos….

 

Às 5 da manhã não é justo...

O karma é tramado.

Ontem publiquei um texto sobre pais e filhos. Sobre as fragilidades. Sobre como temos de compreender que os miúdos têm de fazer as suas patetices e como temos de os entender.

Hoje, por volta das 4 horas e 50 minutos da madrugada, estive por um fio para retirar tudo o que disse.

 

Eram cerca de 4 e meia da manhã ouvimos:

- Pai! Mãe!

O pai foi lá, e deu para eu ouvir no nosso quarto.

- Queo ir pá cama do pai e da mãe…

Aquela hora e com aquele nível de desgaste não debatemos, arranjamos espaço para ele.

Chega à cama e mal os costados tocam nos lençóis já está a dizer:

- Queo bebê leitinho.

Lá foi o desgraçado do pai – que está com uma carraspana em cima - buscar leite morno.

Eu dou-lhe o leite, porque tudo na vida daquela criança tem um circuito.

Bebe o leite e mergulha de cabeça na cama.

Menos de 10 minutos depois abre os olhos e começamos neste diálogo:

- Vamos buscar o patulheiro autocarro…

(queria ir ao Continente comprá-lo….faltavam 20 minutos para as 5 da manhã e aquele boneco só o vai ver se o Cristiano Ronaldo lho quiser comprar porque é uma porcaria de um carro que custa 120 €. Respira que esta foi à Saramago e quase me aleijou o bolso)

- Dorme…

- Posso estacioná o veliculo do Maschal debaixo da tua mofada?

- Não. Dorme…

- Posso estacioná otos veliculos debaixo da tua modafa?

- Não. Dorme…

- Posso pô a mina cabeça na tua mofada?

- Podes.

Nisto abarbatasse de tal forma à almofada que eu fiquei com 10 % (ou seja a ponta da fronha) e ele ficou com a almofada toda.

Continuou:

- Mãe, a Patulha Pata vai ajudá!

- Dorme…

- Podemos ir busca o Patulheiro autocarro?

- Não é muito caro…dorme…

- É muito caro?

- Sim. Dorme.

- Posso…

(interrompo-o)

- Não tarda nada voltas para a tua cama. Abarbatas-te a minha almofada e estás aí que é só rebeubeubeu e a mamã tem de dormir filho. Vai dormir, amanhã falamos…

Passado um bocado adormeceu…e acabou por sair de cima da almofada.

 

Agora vejamos uma coisa, quando eu decidi ter filhos deram-me várias informações, por exemplo:

Que ia chorar – check

Que ia fazer birras – check

Que ia apresentar fraldas que pareciam cenários de crime mas em cocó – check

Que eu quase ia morrer com o cheiro – check

Que o quarto ia parecer um cenário de guerra 10 minutos depois de eu ter ganho 3 bicos de papagaio nas costas, ali debruçada a apanhar tralha para o manter arrumado – check

Que eu ia acordar de madrugada para falar da porra da Patrulha Pata – NÃO!!!! Não há check para isto.

E eu sou uma pessoa que precisa do seu sono.

 

Bom. Por enquanto por aqui me arrasto, a sentir quase uma espécie de stress pós traumático quando vejo a publicidade dos desenhos animados nos cartazes da NOS.

 

Um bom dia para as pessoas que, do alto da sua vida maravilhosa, puderam dormir a noite sem ser interrompidos.

 

Este post é para a Ângela Pimenta…

imagesWADMX8I9.jpg

 

…e um pouco, ou talvez muito, para todas as pessoas que leem as minhas baboseiras.

 

Este exercício de escrever todos os dias tem que se lhe diga. Há dias em que tinha o que dizer de manhã à noite e seria capaz de escrever mil textos. Vale-me o bloco de apontamentos, onde tiro as minhas notas, porque a cabeça já não é o que foi em tempos. Outros dias é mais difícil, parece que a cabeça está perra e que não há uma única fagulha de uma ideia que saia cá para fora.

Como tenho sempre qualquer coisa para dizer, estes dias de silêncio são mais esporádicos.

 

Escrevo por prazer, para manter a cabeça ativa e para me convencer de que a vida pode ser mais qualquer coisa do que o pica o ponto e arruma as tralhas e limpa a casa e faz o jantar.

A vida pode ser um faz de conta em que eu escrevo uns textos e até os publico num espaço para quem quiser ler. A mente quase acredita que escrevo uma espécie de crónicas. Olha pa mim.

 

O número de visitas diário é poucochinho ao lado dos espaços mais badalados. Há dias em que nem chego aos 3 dígitos, em que ninguém demonstra gostar, em que ninguém comenta. Nesses dias fico com a impressão de que escrevo só para mim. E penso que sou uma totó de andar a investir o meu tempo em escrevinhanças.

Digo para mim: isto sou só eu, e o marido, uma prima, três colegas de trabalho, a Marta, a Joana que lá passa de vez em quando, o Mário, a Ângela….

…e dou comigo a perceber que, apesar de ser uma pé rapada disto da escrita, há pelo menos uma dezena de pessoas que até gosta disto.

 

Ou lê, vá...gostar se calhar também demais...

 

Podemos questionar a sua sanidade mental? Podemos.

 

Quando andamos nisto de escrever num espaço publico, em que partilhamos opiniões, peripécias de família e até lamechices, é bom saber que há quem leia e se entretenha com aquilo que nós nos divertimos a fazer.

É isso que me faz escrever todos os dias e não assim, de quando em vez.

 

Há uns meses, tinha eu outro blog, decidi que não tinha vida para isto de escrever, então fechei o espaço. Depois fiquei com saudades, ou isso ou o bichinho da escrita que falou mais alto. Decidi voltar.

Um dia, vou ao final do dia ver o ponto de situação do espaço, ver se tinha comentários para aprovar e essas coisas quando dou com 3 ou 4 comentários da Ângela Pimenta.

Estava contente por eu voltar a escrever e a “pôr a leitura em dia”.

 

A Ângela nem sabe nem sonha como me soube bem ler aquilo.

 

A Ângela não sabe, nem sonha, que quando me ocorre que devia mas é fechar isto, é um dos primeiros nomes que me lembro.

 

Hoje a Ângela esteve aqui no barraco novo. Comentou alguns posts e deixou um comentário para o qual nem tenho palavras agradecer. Depois, como tenho 2 mãos esquerdas e não sou canhota.....

Não sei o que aconteceu, mas apareceram-me 2 comentários para validar, iguais, e eu, procurando não duplicar a aprovação, eliminei 1. Desapareceram os 2. Fiquei apenas com o texto do comentário no e-mail de alerta que recebi.

Transcrevo-o agora.

E como não posso voltar a aprovar, respondo aqui, num post que nem chega a ser digno de tantos elogios.

Respondo um obrigada e um “se é para ser elogiada vou-me embora!”, como diria o RAP.

 

Obrigada Ângela, "mulher do nuorte", e que goste sempre...

Que eu cá guardo o comentário para quando não me der na telha escrever.

 

Cátia: Sigo-a há algum tempo e comento sempre que me apetece (algumas vezes vá) e quando não comento não significa que não goste. Às vezes não tenho nada a dizer. Este texto, que li de olho aberto e com uma facilidade tremenda, é um grande tema, algo que me toca pessoalmente por ter um filho de 16 meses. E que bem escrito está! Este mundo dos Blogs é uma injustiça. Deveria ser lida por milhares de pessoas!!! Mas adiante!! Concordo na íntegra, repito, na íntegra, com cada palavra escrita ou como foi escrita. Claro que a minha concordância não vem aqui acrescentar nada. Simplesmente para dar uma festinha na cabeça que lhe indica que não está só neste mundo de pais (im)perfeitos e filhos (im)perfeitos. Sou uma dessas, e daquelas que, quando provocada consegue responder para libertar o stress da comparação, da opinião, do palpite, do bitaite (sou do Norte né?), da voz da sabedoria de anos e anos a palpitar por esse mundo fora. Obrigada pelo seu texto. A sério! Vou guarda-lo para sempre, para dias de maiores incertezas e aporrinhações! Beijinhos

 

Vida de mãe incompetente é assim...

Sôtor dorme 50 % da noite da cama dele.

Adormece na nossa cama. Depois de ouvir uma história, de comentar os nossos livros e de tentar arranjar temas de conversa para galhofa em vez de sono.

Nos dias mais cansativos adormece rápido e o pai vai pô-lo na cama.

Por regra, a meio da noite, recebemos um pedido de acolhimento. Tentamos que fique na cama dele, mas estamos tão cansados e cheios de sono que entramos na atitude “que se lixe, mais noite menos noite” e o miúdo lá arranja um bocado de espaço no meio dos pais.

Já sei: somos uns irresponsáveis que estão a criar o novo king jong un da Margem Sul. Vai oprimir pessoas com gargalhadas e injuriar inocentes com piadas. Uma desgraça. Para os que já viram o novo programa da Nanny cool e aprenderam coisas até se lhes arregalam os olhos e se lhes arrepanham as pálpebras a ler isto. Meu Deus os riscos comportamentais que esta criança corre.

Expôr os defeitos de uma criança na TV nacional é como o outro, agora dormir na cama dos pais, isso é que não!

ESCUTEIROS! Ainda se fosse na droga!

Adiante que já se faz tarde e a hora de almoço é curta.

 

De manhã levantamo-nos com pezinhos de lã para nos despacharmos. Vamos tomar o pequeno almoço, tratar das coisas essenciais às pessoas asseadas e voltamos ao quarto para nos vestirmos.

Quando há tempo deixo a roupa já arranjada do dia anterior. Quando não me lembrei lá ando a pescar combinações no guarda vestidos com a ajuda da lanterna do telemóvel.

 

No Domingo, final de fim de semana, logo com algum descanso no lombo, consegui deixar a saia e a camisola de gola alta que ia vestir. À segunda feira é dia de muito frio no escritório e eu tenho de estar agasalhada porque sou uma pessoa que sofre com o frio.

É uma espécie de condição médica.

Quando vesti a camisola senti qualquer coisa estranha no pescoço. Palpei a camisola por dentro e estava do lado certo. Tinha de me despachar. Era cedo e eu estava com neura. Devia estar com comichões porque não me apetecia sair de casa com frio.

Passei o dia a coçar o pescoço, cheia de impressões.

 

Ao fim da tarde, depois de ter passado o dia a esticar a gola da camisola dou conta pedaço de tecido. Era a etiqueta. A camisola estava vestida ao contrário e tinha estado assim o dia todo.

Não dei conta das vezes que estive em frente ao espelho na casa de banho.

Ninguém me avisou.

Nem o meu marido que almoçou comigo.

 

Tentei ajeitar a gola um pouco para fazer de conta que era mesmo assim.

O que vale é que aquilo que mais me vê durante o dia é o ecrã do computador.

 

Lé chon se á abané...

acagaçada.png

 

 

Estava eu descansada da minha vida, ali forte a ler documentos cruciais à minha vida de trabalho, e vai de sentir o chão a mexer-se com vontade própria.

- Ó não-sei-quantas deste conta disto filha, ou fui só eu?

É que às vezes acho que as coisas se dão, porque sou uma caguinchas, e não se passou nada.

Todos confirmaram o abanico menos o chefe, metido com a sua vida achou que estávamos a mangar com ele.

Liguei para casa a saber se alguém tinha sentido alguma coisa, rico filho estava no jardim a dar à perna de um lado para o outro nem se apercebeu de nada.

No Correio da Manhã não tardou a saber-se que o epicentro foi em Arraiolos com uma magnitude de 4.9. E ao fim de poucos minutos já lá havia um reporter. (às vezes tenho medo...parece que estão sempre entre nós...)

Caramba, se menos de 5 se sente tão bem, se isto se me abana como no Japão estamos feitos ao bife. Mas atenção que não houve baixas de pessoas, animais ou objetos.

Durante a hora de almoço já houve quem esclarecesse que os gatos conseguem pressentir terramotos, a minha colega do lado esclareceu que se ouve barulho antes.

Para ir beber o cafezinho à rua fiz as viagens de elevador com um certo tefe-tefe, mas depois enchi-me de coragem e lembrei-me que nos filmes a malta que lerpa sempre são os medrosos histéricos. Os heróis ultrapassam tudo estoicamente e nunca mostram um semblante acagaçado.

Estou a tentar manter esse estado mental para ultrapassar a tarde.

E farei os possíveis nos próximos dias para convencer os RH e o meu chefe de que a melhor coisa para a empresa é adquirir um gato. Fariamos como com o peixinho dourado do Colégio e cada colaborador fica com o gato um fim de semana.

Por enquanto...

...ainda que ache que o melhor era preventivamente evacuarem Lisboa, que assim preveníamos baixas num cenário de catástrofe e eu adiantava as coisas para o jantar.

 

 

O meu filho à solta numa grande superfície de bens de desporto

Estávamos a caminhar para a porta de entrada e disse-nos:

- Lá dento queo andá xójinho!

- Tá bem filho, lá dentro a mãe deixa-te ir sozinho. - respondo eu já meio a soar profusamente porque sei o que me espera.

Passamos a segunda porta, pouso-o no chão, ergue o braço direito e corre enquanto grita:

- Bichicletaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

À frente aparece-me uma miúda saída de não sei onde, quer bloquea-lo, ele ignora-a, ela decide ser mais incisiva e empurra-o. Meto-me ao barulho:

- Ó amiguinha, empurrões não!

Faz-me sempre uma certa confusão esta coisa de aparecerem crianças vindas do nada em grande espaços comerciais, sem pais, irmãos, avós, nenhum acompanhante com idade que se apresente. Faz-me lembrar os jogos de computador, deve dar pontos ou coisa que o valha.

Ultrapassada a criatura-perdida-de-mãe-lá-atrás-que-nem-chamou-a-filha-à-atenção porque alguém lhe deve ter ensinado que os outros é que a têm de educar; sôtor monta-se na primeira bicicleta com rodinhas que encontra. Já está a tentar encaixar os pés nos pedais e diz-me:

- Falta-me o capichete!

Lá vou eu buscar um capacete, lá ouço outra vez que aquele não é o que ele gosta mais.

Anda para trás e para a frente duas vezes - empurrado pelo pai porque ainda não sabe andar de bicicleta - e salta lá de cima. Quer experimentar mais três ou quatro "bichicletas" e quando lhe digo que a profissional é para crescidos passa à secção seguinte. Arranca em modo Bolt e diz: 

- Vamos ao meu xitio pifiido!

Que é a secção de fitness onde estão os kettlebels, os pesos livres e as passadeiras. Tenta levantar todos os pesos, informa que são mesmo pesados e lança-se para as passadeiras. Sobe e desce todas elas e depois chama-me, aponta para os botões e para as ranhuras no painel das passadeiras de corrida e diz-me:

- Mãe põe aí uma mieda!

Quando acabo de lhe explicar que aquilo não é o carrossel de um supermercado arranca na direção contrária, enquanto corre diz-me:

- Vamos ao meu xitio pifiido!

Que é a secção das bolas. Quando o alcanço já está a lançar a primeira para ser apanhada. O objetivo dele é atirar todas as bolas para o fundo da loja. O nosso é tentar impedir que passemos - nós os crescidos - mais de um quarto de hora a apanhar bolas à vez. Eu vou apanhar uma e o pai fica com ele, assim que acaba de o repreender ela lança outra bola, arranca o pai e eu estou a chegar. Não pode ficar sozinho, porque da ultima vez que isso aconteceu, por 2 segundos não estava ninguém logo ao lado - estava no ângulo de visão - ele arrancou e já estava com uma cana de pesca na mão, quase a enfiar um anzol na boca de um velhote que estava a escolher isco. 

Ultrapassada a secção das bolas começamos a apressar-nos para a saída. Eu já estou em fraqueza e preciso de passar na zona das barras energéticas. Gastei tudo o que tinha. Tiro duas ou três e ele diz-me:

- Que é isso mãe?

- São barras de chocolate?

- Quero...

- Então temos e ir pagar.

Quando lhe digo isto arranca em voo picado para a caixa enquanto grita:

- PARARIIIIIIII!

Quando chegamos à fila já estou quase a desfalecer, a moça da caixa pretende informar-me dos pontos que tenho, ao que parece estou quase a receber um vale de 6 Euros. Sorrio, não sei se me aguento até à saída.

Adoro ir à "Detaton" é sempre muito "divitido".

 

Ainda há menos de 100 anos...

Há aproximadamente 36 anos uma senhora de nome Maria José, conhecida por todos como Zé, foi despedida da fábrica de costura para a qual trabalhava fazia anos. Há mais de 3 meses que a fábrica não pagava ordenados, mas na classe baixa, em que o vencimento de cada mês fazia falta para pôr comida na mesa, era uma calamidade perder o emprego. Por isso as pessoas mantinham-se a trabalhar, na esperança de que tudo se resolvesse.

A fábrica acabou por fechar. O proprietário colocou todos os seus bens no nome da ex-mulher. Os empregados ficaram sem emprego, sem os últimos meses de ordenado e sem indemnização.

A Zé decidiu que não podia continuar assim e decidiu começar a trabalhar por conta própria.

Tinha então 3 filhos, havia de ter mais uma menina havia de cuidar também das duas sobrinhas que moravam no mesmo prédio.

Mestre perfeccionista no seu oficio depressa granjeou uma mão cheia de clientes. Trabalho não lhe faltava. 

Um dia apareceu uma cliente que se chamava D. Isabel, queria saber se a Maria José aceitava costurar para ela, disponibilizava-se a pagar extra por isso, se fosse o caso.

A D. Isabel era uma senhora negra a quem as costureiras recusavam fazer roupa pelo tom de pele.

A guerra colonial não tinha acabado há anos suficientes....havia muito racismo. Muito tratamento desigual. As palavras "preto", "negro" e "retornado" eram usadas à boca cheia com o intuito claro de ofender e rebaixar.

A Maria José esclareceu que costurava para pessoas honestas e que pagassem a horas, se eram mais escuras ou mais claras pouco importava, a cor do dinheiro era verde e pessoas dessa cor não conhecia nenhuma.

Começou naquele dia uma boa amizade.

A Maria José era a minha mãe. A D. Isabel era uma das pessoas mais doces e de melhor conduta que alguma vez conheci.

 

A minha mãe não permitia que se chamassem nomes aos outros. Não se usava a palavra "preto" porque ela tinha uma conotação negativa e para a minha mãe isso não fazia sentido.

Aprendi com ela que as pessoas se avaliam pelos seus comportamentos e pela sua conduta, a cor de pele que trazem consigo nada acrescenta à equação, e só pessoas ignorantes eram capazes de agir dessa maneira.

A minha mãe tinha a quarta classe e trabalhava deste o dia em que acabou de fazer o ensino primário.

Não precisou de se julgar um génio para saber que pessoas são pessoas, independentemente da sua cor.

 

A D. Isabel transformou-se numa das melhores clientes. Pagava a horas, dava boas gorjetas e trazia muito trabalho.

Mas havia um problema: a minha mãe tinha duas clientes de nome Isabel, e nós - que abríamos a porta e informávamos quem estava a subir enquanto a minha mãe preparava tudo para a prova da roupa - tínhamos de saber destingir.

Então informou-nos:

- Para destingirem entre uma Isabel e a outra, dizem-me que esta é A D. Isabel, que é uma senhora de cor.

Hoje dir-se-ia que quando alguém se refere a uma pessoa negra como "pessoa de cor" é alguém que está a reprimir um certo racismo. Mas isso é porque as pessoas não viveram ou assistiram ao momento em que uma pessoa insulta outra apontando-lhe a cor da sua pele.

Ou isso ou já se esqueceram de como era a vida em Portugal há 40 anos.

A minha mãe não era uma economista formada no estrangeiro. Não tinha lido mil livros nem pensado filosoficamente na questão. Queria apenas que os filhos soubessem que era possível descrever alguém usando uma caracteristica sua, como qualquer outra, sem usar uma palavra que lhe soava a insulto.

Que fosse tão linear como destinguir as 2 D. Ana que haviam: ou era a loira ou era a outra.

 

Quando conhecemos a D. Isabel ela tinha uma vida muito confortável, pagava bem e dava boas gorjetas. Foi cliente da minha mãe enquanto viveu financeiramente desafogada e quando lhe passou a faltar o pão para a mesa.

Tinha uma valente vivenda e era proprietária de 2 ferro velhos.

Depois os filhos envolveram-se na droga e ela perdeu tudo o que tinha com negócios organizados pelos dois.

Já não fazia fatos caros. Pedia alguns arranjos.

Em tempos dava gorjetas tão grandes quanto o valor do trabalho.

Depois passou a levar o arranjo com um "uma mão lava a outra D. Isabel, já foi para mim, hoje sou eu para si, nunca me esqueço".

 

Com a minha mãe aprendi a respeitar os outros por aquilo que são e como se comportam: se são respeitadores, honestos e educados, devem ter o mesmo de mim. Sejam brancos, pretos, ciganos, romenos, americanos, com barbas longas, carecas, zarolhos, o Presidente da Republica ou a senhora da limpeza.

 

Ontem à tarde vi este filme e lembrei-me da D. Isabel. Lembrei-me de como as coisas eram nesta nossa terra há tão pouco como trinta e tal anos.

É aterrador que há menos de 100 anos estivéssemos a pôr um homem na lua e na terra ainda houvesse uma casa de banho separada para pessoas com uma cor de pele mais escura.

 

Este filme está magnifico. Um desempenho extraordinário das 3 atrizes que representam estas maravilhosas mulheres que foram um marco para mudar mentalidades.

3 mentes brilhantes.

3 corações de coragem.

Um rasgo de sorte.

E a oportunidade de encontrar um homem que, à  semelhança da Maria José, avaliava as pessoas pelo seu comportamento e pela sua conduta, não dando valor à cor de pele que traziam consigo.