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Blog Bestialmente Conhecido

Vida de mãe incompetente é assim...

Sôtor dorme 50 % da noite da cama dele.

Adormece na nossa cama. Depois de ouvir uma história, de comentar os nossos livros e de tentar arranjar temas de conversa para galhofa em vez de sono.

Nos dias mais cansativos adormece rápido e o pai vai pô-lo na cama.

Por regra, a meio da noite, recebemos um pedido de acolhimento. Tentamos que fique na cama dele, mas estamos tão cansados e cheios de sono que entramos na atitude “que se lixe, mais noite menos noite” e o miúdo lá arranja um bocado de espaço no meio dos pais.

Já sei: somos uns irresponsáveis que estão a criar o novo king jong un da Margem Sul. Vai oprimir pessoas com gargalhadas e injuriar inocentes com piadas. Uma desgraça. Para os que já viram o novo programa da Nanny cool e aprenderam coisas até se lhes arregalam os olhos e se lhes arrepanham as pálpebras a ler isto. Meu Deus os riscos comportamentais que esta criança corre.

Expôr os defeitos de uma criança na TV nacional é como o outro, agora dormir na cama dos pais, isso é que não!

ESCUTEIROS! Ainda se fosse na droga!

Adiante que já se faz tarde e a hora de almoço é curta.

 

De manhã levantamo-nos com pezinhos de lã para nos despacharmos. Vamos tomar o pequeno almoço, tratar das coisas essenciais às pessoas asseadas e voltamos ao quarto para nos vestirmos.

Quando há tempo deixo a roupa já arranjada do dia anterior. Quando não me lembrei lá ando a pescar combinações no guarda vestidos com a ajuda da lanterna do telemóvel.

 

No Domingo, final de fim de semana, logo com algum descanso no lombo, consegui deixar a saia e a camisola de gola alta que ia vestir. À segunda feira é dia de muito frio no escritório e eu tenho de estar agasalhada porque sou uma pessoa que sofre com o frio.

É uma espécie de condição médica.

Quando vesti a camisola senti qualquer coisa estranha no pescoço. Palpei a camisola por dentro e estava do lado certo. Tinha de me despachar. Era cedo e eu estava com neura. Devia estar com comichões porque não me apetecia sair de casa com frio.

Passei o dia a coçar o pescoço, cheia de impressões.

 

Ao fim da tarde, depois de ter passado o dia a esticar a gola da camisola dou conta pedaço de tecido. Era a etiqueta. A camisola estava vestida ao contrário e tinha estado assim o dia todo.

Não dei conta das vezes que estive em frente ao espelho na casa de banho.

Ninguém me avisou.

Nem o meu marido que almoçou comigo.

 

Tentei ajeitar a gola um pouco para fazer de conta que era mesmo assim.

O que vale é que aquilo que mais me vê durante o dia é o ecrã do computador.

 

Focus Cátia son, focus….

focus.jpg

 

 

O meu pai é um engenheiro autodidata das mais modernas tecnologias.

Sempre o foi.

Criou um método infalível para resolver quaisquer questões, que podem ir da falta de contacto de um fusível dentro da TV à falta de rede de um telemóvel. É sempre o mesmo método e raras vezes falha.

Quando este método já não funciona, normalmente o equipamento está pronto para ir pró lixo.

E muito simples: basta levar a mão que lhe der mais jeito o mais atrás possível, exercer o máximo de força que conseguir e arrear uma valente pantufadona no equipamento.

É um movimento que impõe respeito e repara.

Aquele objeto passará a respeitar-nos para todo o sempre, seja pela nossa conduta, seja por medo de apanhar outra vez.

Tenho muito presente a imagem do meu pai a reparar a TV antiga lá de casa, daquelas que pareciam uma caixa gigante e pesavam toneladas.

 

Quando estou com falta de concentração tenho vontade aplicar a mim mesma este método. Para ver se volto a ter sinal na pinha e se me ligo ao que mais importa.

 

Arre que isto à segunda é muito difícil….

 

O meu filho à solta numa grande superfície de bens de desporto

Estávamos a caminhar para a porta de entrada e disse-nos:

- Lá dento queo andá xójinho!

- Tá bem filho, lá dentro a mãe deixa-te ir sozinho. - respondo eu já meio a soar profusamente porque sei o que me espera.

Passamos a segunda porta, pouso-o no chão, ergue o braço direito e corre enquanto grita:

- Bichicletaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

À frente aparece-me uma miúda saída de não sei onde, quer bloquea-lo, ele ignora-a, ela decide ser mais incisiva e empurra-o. Meto-me ao barulho:

- Ó amiguinha, empurrões não!

Faz-me sempre uma certa confusão esta coisa de aparecerem crianças vindas do nada em grande espaços comerciais, sem pais, irmãos, avós, nenhum acompanhante com idade que se apresente. Faz-me lembrar os jogos de computador, deve dar pontos ou coisa que o valha.

Ultrapassada a criatura-perdida-de-mãe-lá-atrás-que-nem-chamou-a-filha-à-atenção porque alguém lhe deve ter ensinado que os outros é que a têm de educar; sôtor monta-se na primeira bicicleta com rodinhas que encontra. Já está a tentar encaixar os pés nos pedais e diz-me:

- Falta-me o capichete!

Lá vou eu buscar um capacete, lá ouço outra vez que aquele não é o que ele gosta mais.

Anda para trás e para a frente duas vezes - empurrado pelo pai porque ainda não sabe andar de bicicleta - e salta lá de cima. Quer experimentar mais três ou quatro "bichicletas" e quando lhe digo que a profissional é para crescidos passa à secção seguinte. Arranca em modo Bolt e diz: 

- Vamos ao meu xitio pifiido!

Que é a secção de fitness onde estão os kettlebels, os pesos livres e as passadeiras. Tenta levantar todos os pesos, informa que são mesmo pesados e lança-se para as passadeiras. Sobe e desce todas elas e depois chama-me, aponta para os botões e para as ranhuras no painel das passadeiras de corrida e diz-me:

- Mãe põe aí uma mieda!

Quando acabo de lhe explicar que aquilo não é o carrossel de um supermercado arranca na direção contrária, enquanto corre diz-me:

- Vamos ao meu xitio pifiido!

Que é a secção das bolas. Quando o alcanço já está a lançar a primeira para ser apanhada. O objetivo dele é atirar todas as bolas para o fundo da loja. O nosso é tentar impedir que passemos - nós os crescidos - mais de um quarto de hora a apanhar bolas à vez. Eu vou apanhar uma e o pai fica com ele, assim que acaba de o repreender ela lança outra bola, arranca o pai e eu estou a chegar. Não pode ficar sozinho, porque da ultima vez que isso aconteceu, por 2 segundos não estava ninguém logo ao lado - estava no ângulo de visão - ele arrancou e já estava com uma cana de pesca na mão, quase a enfiar um anzol na boca de um velhote que estava a escolher isco. 

Ultrapassada a secção das bolas começamos a apressar-nos para a saída. Eu já estou em fraqueza e preciso de passar na zona das barras energéticas. Gastei tudo o que tinha. Tiro duas ou três e ele diz-me:

- Que é isso mãe?

- São barras de chocolate?

- Quero...

- Então temos e ir pagar.

Quando lhe digo isto arranca em voo picado para a caixa enquanto grita:

- PARARIIIIIIII!

Quando chegamos à fila já estou quase a desfalecer, a moça da caixa pretende informar-me dos pontos que tenho, ao que parece estou quase a receber um vale de 6 Euros. Sorrio, não sei se me aguento até à saída.

Adoro ir à "Detaton" é sempre muito "divitido".

 

Ainda há menos de 100 anos...

Há aproximadamente 36 anos uma senhora de nome Maria José, conhecida por todos como Zé, foi despedida da fábrica de costura para a qual trabalhava fazia anos. Há mais de 3 meses que a fábrica não pagava ordenados, mas na classe baixa, em que o vencimento de cada mês fazia falta para pôr comida na mesa, era uma calamidade perder o emprego. Por isso as pessoas mantinham-se a trabalhar, na esperança de que tudo se resolvesse.

A fábrica acabou por fechar. O proprietário colocou todos os seus bens no nome da ex-mulher. Os empregados ficaram sem emprego, sem os últimos meses de ordenado e sem indemnização.

A Zé decidiu que não podia continuar assim e decidiu começar a trabalhar por conta própria.

Tinha então 3 filhos, havia de ter mais uma menina havia de cuidar também das duas sobrinhas que moravam no mesmo prédio.

Mestre perfeccionista no seu oficio depressa granjeou uma mão cheia de clientes. Trabalho não lhe faltava. 

Um dia apareceu uma cliente que se chamava D. Isabel, queria saber se a Maria José aceitava costurar para ela, disponibilizava-se a pagar extra por isso, se fosse o caso.

A D. Isabel era uma senhora negra a quem as costureiras recusavam fazer roupa pelo tom de pele.

A guerra colonial não tinha acabado há anos suficientes....havia muito racismo. Muito tratamento desigual. As palavras "preto", "negro" e "retornado" eram usadas à boca cheia com o intuito claro de ofender e rebaixar.

A Maria José esclareceu que costurava para pessoas honestas e que pagassem a horas, se eram mais escuras ou mais claras pouco importava, a cor do dinheiro era verde e pessoas dessa cor não conhecia nenhuma.

Começou naquele dia uma boa amizade.

A Maria José era a minha mãe. A D. Isabel era uma das pessoas mais doces e de melhor conduta que alguma vez conheci.

 

A minha mãe não permitia que se chamassem nomes aos outros. Não se usava a palavra "preto" porque ela tinha uma conotação negativa e para a minha mãe isso não fazia sentido.

Aprendi com ela que as pessoas se avaliam pelos seus comportamentos e pela sua conduta, a cor de pele que trazem consigo nada acrescenta à equação, e só pessoas ignorantes eram capazes de agir dessa maneira.

A minha mãe tinha a quarta classe e trabalhava deste o dia em que acabou de fazer o ensino primário.

Não precisou de se julgar um génio para saber que pessoas são pessoas, independentemente da sua cor.

 

A D. Isabel transformou-se numa das melhores clientes. Pagava a horas, dava boas gorjetas e trazia muito trabalho.

Mas havia um problema: a minha mãe tinha duas clientes de nome Isabel, e nós - que abríamos a porta e informávamos quem estava a subir enquanto a minha mãe preparava tudo para a prova da roupa - tínhamos de saber destingir.

Então informou-nos:

- Para destingirem entre uma Isabel e a outra, dizem-me que esta é A D. Isabel, que é uma senhora de cor.

Hoje dir-se-ia que quando alguém se refere a uma pessoa negra como "pessoa de cor" é alguém que está a reprimir um certo racismo. Mas isso é porque as pessoas não viveram ou assistiram ao momento em que uma pessoa insulta outra apontando-lhe a cor da sua pele.

Ou isso ou já se esqueceram de como era a vida em Portugal há 40 anos.

A minha mãe não era uma economista formada no estrangeiro. Não tinha lido mil livros nem pensado filosoficamente na questão. Queria apenas que os filhos soubessem que era possível descrever alguém usando uma caracteristica sua, como qualquer outra, sem usar uma palavra que lhe soava a insulto.

Que fosse tão linear como destinguir as 2 D. Ana que haviam: ou era a loira ou era a outra.

 

Quando conhecemos a D. Isabel ela tinha uma vida muito confortável, pagava bem e dava boas gorjetas. Foi cliente da minha mãe enquanto viveu financeiramente desafogada e quando lhe passou a faltar o pão para a mesa.

Tinha uma valente vivenda e era proprietária de 2 ferro velhos.

Depois os filhos envolveram-se na droga e ela perdeu tudo o que tinha com negócios organizados pelos dois.

Já não fazia fatos caros. Pedia alguns arranjos.

Em tempos dava gorjetas tão grandes quanto o valor do trabalho.

Depois passou a levar o arranjo com um "uma mão lava a outra D. Isabel, já foi para mim, hoje sou eu para si, nunca me esqueço".

 

Com a minha mãe aprendi a respeitar os outros por aquilo que são e como se comportam: se são respeitadores, honestos e educados, devem ter o mesmo de mim. Sejam brancos, pretos, ciganos, romenos, americanos, com barbas longas, carecas, zarolhos, o Presidente da Republica ou a senhora da limpeza.

 

Ontem à tarde vi este filme e lembrei-me da D. Isabel. Lembrei-me de como as coisas eram nesta nossa terra há tão pouco como trinta e tal anos.

É aterrador que há menos de 100 anos estivéssemos a pôr um homem na lua e na terra ainda houvesse uma casa de banho separada para pessoas com uma cor de pele mais escura.

 

Este filme está magnifico. Um desempenho extraordinário das 3 atrizes que representam estas maravilhosas mulheres que foram um marco para mudar mentalidades.

3 mentes brilhantes.

3 corações de coragem.

Um rasgo de sorte.

E a oportunidade de encontrar um homem que, à  semelhança da Maria José, avaliava as pessoas pelo seu comportamento e pela sua conduta, não dando valor à cor de pele que traziam consigo.

 

 

 

 

Apontamentos da vida sobre coisas que pouco importam aos outros (2)

O meu pai é um homem feito de memórias, às vezes acho que a vida dele se alimenta das memórias de um passado de que não quer abrir mão. As decisões menos boas que ainda o atormentam, os azares que lhe calharam, os momentos que viveu em sítios que preserva na sua memória intactos como no dia em que os viu pela última vez.

Às vezes organizo um ou ourtro passeio com ele, não o faço tantas vezes quanto gostaria, mas gosto de o levar a sítios que conheceu bem, espaços que já não visita há mais de vinte anos, aqueles que continua a descrever como se tivessem ficado intactos na história, alheios à evolução e à corrosão do tempo. É frequente que a caminho nos presentei com todas as histórias lá passadas, lembra-se das pessoas e dos nomes dos restaurantes, fala no presente, como se aquelas pessoas ainda hoje estivessem sentadas na mesma mesa a comer um almoço farto. É assim que as recorda.

Quando chegamos vejo no seu olhar um misto de suspresa e desgosto, a surpresa de quem conhece uma terra nova, tão diferente daquela que um dia soube como a palma da sua mão; desgostoso porque as ruas e as pessoas que ainda vivem no seu presente já não existem ou estão envelhecidas pelo tempo.

Tudo lhe traz memórias passadas e eu sempre fiz pouco disso. “Ó Augustinho lá estás tu, isso foi há quantos anos? Essa história é mais velha que eu sei lá…”

E ele conta-a na mesma.

“Que é que queres?, são as minhas histórias, pá! Se não falo destas falo do quê?!”

Com a idade vou-lhe dando razão, vou compreendendo que as memórias nos compõem mais do que pensamos. As recordações fazem parte da nossa vida presente porque alimentam aquilo que somos.

 

Há uns dias o Nuno vendeu um aparelho de secar a roupa que tínhamos comprado o ano passado (falo como quem ainda está em 2017 e não se acamou ao 2018, como se o ano fosse um par de sapatos que tem de ganhar jeito ao corpo).

Deu para remediar a avaria da máquina de secar, mas este ano já não precisamos dele.

Quando foi entregar o aparelho à compradora viu-se grego para lhe dar troco, não havia uma única loja que lhe trocasse 10 Euros por duas de 5 Euros. Só à quinta loja e com a ajuda da rapariga é que conseguiu a troca.

Fez-me lembrar uma história.

A minha mãe sabia delegar responsabilidades como ninguém, quando aprendíamos a ler a escrever o básico ia-nos dando tarefas mais complexas para ver se ficávamos atentos, se eramos responsáveis. Um dia, quando fomos ao antigo Pão de Açúcar na Cova da Piedade – hoje já não existe, foi demolido e deu lugar a um terminar de autocarros – a minha mãe deu-me 500 Escudos para ir trocar à papelaria, tinha entrado em vigor à pouco tempo aquela coisa de os carrinhos precisarem de moeda e a minha mãe não tinha moedas de 100 ou de 50 Escudos.

Entro na papelaria e peço educadamente à senhora para trocar, numa atitude pedante a pessoa diz-me que não tem de trocar nada, que tivesse trazido moedas de casa.

Parei a olhar para a moeda. Para a senhora eu estava a parecer meio atrasada, na minha cabeça estava a engendrar-se uma solução que me garantisse que trocava a nota e não me metia em chatices.

- Então quero comprar uma pastilha Gorila se faz favor.

Aquela decisão requereu coragem, muita coragem. Eu não estava autorizada a gastar o dinheiro com doces, tinha apenas de trocar o dinheiro. Mas o valor era tão baixo, que decidi arriscar, deixado para trás as eventuais consequências. Aprendi nesse dia que queria dar uma lição áquela pessoa que estava a tratar-me incorretamente só mesmo porque eu era uma criança.

- Não me vais pagar com 500 Escudos pois não?

- Vou e a senhora vai dar-me troco, porque tem de me dar troco.

A tipa enfureceu-se e deve ter-me desejado as maiores pragas. Quando saí cá para fora enchi o peito, esta já tinha aprendido que não se metia comigo, faltava era explicar à minha mãe que tinha comprado um doce sem a autorização dela.

Quando lhe contei encheu-se de orgulho, afinal de contas, sem gastar praticamente dinheiro nenhum ensinei uma adulta que não fazia pouco de mim.

 

Cada vez estou mais parecida com o meu pai. A minha vida são histórias.

 

Um esqueleto em castanholas

Lidar com o avançar da idade tem sido para mim um verdadeiro desafio. Não que tenha medo de ficar com rugas, mas porque o lombo se me começa a encarquilhar e a ganhar problemas nas articulações e nos ligamentos e a desenvolver artroses e outras coisas de nomes estranhos que fazem a estrutura ranger com clima frio.

As horas que passo sentada não ajudam e os nervos acabam com tudo.

Vai daí e decido marcar uma massagem na clínica que fica em frente à minha casa. Pelo que havia compreendido o rapaz faz osteopatia - ou seja estala ossos - e faz massagens boas, de maneira que me pareceu uma ideia supimpa ir lá ver se o tipo me alinhava a estrutura.

Esperei um mês para conseguir vaga e, considerando a dificuldade em ter uma consulta, fui confiante que aquilo ia ser uma experiência para mudar a minha vida.

Pois então chego e o rapaz faz-me algumas perguntas: se tenho alergias, se já tinha feito acupuntura, se já tinha feito massagens, se tinha algumas queixas.

A ultima pareceu-me redundante, porque uma pessoa ou anda ao engate, ou é muito zelosa, ou então só quer que um tipo lhe estale os ossos se estiver à rasca com dores. Digo eu.

Começo a desenvolver o rol de maleitas e a meio já a pessoa me está a mandar despir e deitar. Deve ter pensado que pouco havia a fazer pelo que mais valia começar logo.

Tiro a roupa necessária, deito-me com a cara enfiada naquele buraco das marquesas de massagem (que não são nada confortáveis, fico sempre tensa) e sinto uma picada. A pessoa que estala ossos desatou a espetar-me agulhas de acupuntura no lombo à grande e à francesa. Quando parou eu devia pareceu uma boneca de vodu. Põe-me lá uma coisa que fazia calor e diz-me até já, se fosse preciso de alguma coisa para chamar.

Aguentei-me até que toca uma sineta qualquer, aparece outro moço que me pergunta se já fiz choques. 

Choques?! Fo...Mas que me...Não!

- Não! - respondo - Que raio é isso? - pergunto assustada intrigada.

- Ligamos aqui uns cabos pequeninos a algumas das agulhas e isto dá algum choque. É bom para os músculos.

Explicou-me que tinha se sentir alguma coisa e o meu cérebro só ouviu que eu tinha de aguentar, já que me tinha metido naquela imbróglio...

Não passou muito tempo aparece novamente o massagista, tira os choques, tira as agulhas e vai de começar a massajar-me o lombo. Nada de delicadezas, apertou-me com a estrutura como quem afaga um boi antes de ir para a praça de touros, momentos houve em que senti na garganta um pulmão a querer evadir-se.

Em modo ato continuo, despachada que estava a sova massagem, pergunta-me se já tinha feito ventosas. Eu que sabia o que eram ventosas mas o meu lombo nunca tinha contactado com nenhumas. Vamos pôr algumas, disse-me. Duas ou três, pensei eu.

Quando parou de me pespegar ventosas - bolas de vidro do tamanho de um punho de mão pequena que fazem vácuo e sugam a chicha - as minhas costas tinham bolas que chegasse para escrever o meu nome completo. Era pôr umas luzes por dentro e parecia Natal no Chiado. Perguntei-lhe:

- Isto é para ficar muito tempo.

- 10 minutos.

- Dois?

- Não, dez!

- Não me aguento com isto 10 minutos.

É que aquela porra doí.

Lá alargou algumas ventosas e eu fiz-me rija para aguentar o suplicio. Passaram-se os 10 minutos, apareceu para me tirar aquila bodega e para me esclarecer que as minhas costas iam ficar com umas bolas vermelhas por alguns dias. Eu que sim senhor.

(e ficaram com uma bolas em sangue pisado por mais ou menos 3 dias, se os gajos da Zara me apanhassem sem roupa faziam-me o escalpe para costurar uma saia)

Como quem está a viver um momento encantado dos filmes da Disney, entra o quebra-ossos. Diz para me deitar de barriga para cima e quer saber se já alguma vez fiz osteopatia. Explico que ossos a estalar só nos filmes do Steven Segal, coisa que me causava algum medo porque nessas magnificas películas aquilo corria sempre mal para o gajo que tinha os ossos estalados.

O rapaz tentou gentilmente tranquilizar-me dizendo que parava antes que eu me finasse e sem eu dar conta TAU!, estalou-me o pescoço em 2 sítios.

Depois disso segui-se o resto da coluna. Parecia que tinha a espinha em festa.

Acabadas as castanholas foram-me colocadas umas fitas coloridas nas costas, ao que parece são boas para suportar os músculos. Eu cá só senti uma impressão do catatau porque aquilo arrepanha as peles e as carnes.

Já eu estava a querer dar o cava vem com uma caixinha para o pé de mim.

Não satisfeito veio pôr-me sementes de mostarda na orelha esquerda.

- Para que é isso? - perguntei, para mim mostarda é um condimento, em brincos nunca me ocorreu usar.

- Faz bem, liga com alguns nervos importantes. Estou aqui a pôr uma também para ajudar com a ansiedade...

- Uma semente?! Deixe estar, a menos que tenha a planta toda duvido que faça efeito.

Saí de lá com poucas intenções de voltar e a recomendação de me inscrever no pilates para ganhar músculos nas costas.

Se estou melhor?

Não, até me doem mais as costas, pelo que para a próxima vou fazer uma massagem de chocolate ao Benfica que foi a melhor coisinha que já me ofereceram pelos anos.

 

Entrámos em 2018...à nossa maneira...

 

 

A comemoração de datas especificas causa-me alguma angustia, uma espécie de pressão para que tudo corra bem, mesmo aquilo que eu não tenho como controlar. 

A entrada num ano novo não é exceção, afinal de contas todos queremos entrar com o melhor pé, que os 12 meses que se avizinham sejam repletos de coisas boas e que as menos agradáveis se contem com os dedos de uma mão. De preferência sem usar os dedos todos.

Festas de arromba também não são exatamente o meio onde eu brilho. Muita gente, muita confusão, muito barulho, são coisas que eu dispenso. Nunca foram o meu forte porque, aparentemente, terei nascido uma já velhota ranzinza, mas hoje em dia, que caminho de facto para velhota, são cada vez menos a minha praia.

Vai daí e no 31 decidimos fazer umas compras para a semana, assim como quem gere a vida como se não estivéssemos no último dia do ano.

Decidi conduzir. Conduzi muito pouco em 2017 e foi uma espécie de resolução antecipada começar logo no final do ano a ser motorista de mim mesma.

No espaço de sensivelmente 7 km quase atropelei uma senhora com idade para ter juízo. Atirou-se literalmente para cima do carro, travei a milímetros. Depois, a metros de casa um tipo com uma berlingo entrou em contra-mão na minha faixa e quase desfez a frente da minha carrinha. Para ele foi normal, sorriu e acenou, eu fiquei com o coração a boca. Posso dizer com algum nível de certeza que senti a minha aorta na faringe.

Receei ter gasto as minhas fichas de sorte para esse dia e tentei agir com cautela.

Esqueci-me com isso que Sôtor nem sempre age com cautela e estou certa de que gastei a ultima fichazita quando ele, a correr pela casa, quase partiu uma perna.

Estava a ser um dia de emoções.

Por isso às oito e pouco da noite eu já tinha o pijama vestido e o maridão foi pelo mesmo caminho.

Não há melhor roupa de reveillon do que um belo pijama polar.

Jantamos e colocou-se a questão: sôtor ia dormir ou ficava para passar a meia noite?

Ele decidiu. Aparentemente sono zero, disposição 1000. 

Este puto é um festivaleiro, não sei mesmo a quem é que ele sai.

Por isto a minha festa de reveillon foi passada a: jogar à apanhada, jogar às escondidas, construir coisas em plasticina e ver a Patrulha Pata.

Quando chegou a meia noite estávamos com as passas prontas para os crescidos e uma flute de espumante. De parte algumas passas para o pequeno.

Lá me tentei dedicar a comer as passas e a pedir os meus 12. O pequeno, para surpresa de todos adorou as passas, comeu as dele e quis ir às do pai.

Então e dormir?

Depois de ouvir o fogo de artificio e de achar que ia haver uma tempestade e que por isso era melhor chamar a Patrulha Pata, lá foi vestir o pijama.

Era uma da manhã quando adormeceu.

Ontem foi um dia lento. Como eu gostava que os dias fossem todo o ano.

Levantámo-nos já era dia. Tivemos tempo para dizer olá devagar. Tomámos o pequeno almoço e eu preparei sopa para o almoço.

Almoçámos as sobras e o pequeno dormiu a sesta sem protestar. 

Vimos um filme.

Fomos passear ao jardim em Setúbal, ver os barcos a transportar carga e imaginar o que trazem lá dentro.

O pequeno saltou, pulou, andou de escorrega até se cansar, brincou com outro menino com uma naturalidade que eu nunca tive.

Despediu-se de nós porque precisava de ir comprar uma coisa ao shopping:

- Adeus mãe! Adeus pai. Vou ficar aqui à espera do autocarro da escola para ir ao shopping comprar o Patrulheiro Autocarro!

(nós cara de: o que raio se passa aqui?! Hummm!? Já nos manda embora! Tá bonito)

Voltámos já estava escuro mas ainda não eram horas para dizer que era de noite.

Corri e meditei.

Tomei um banho e relaxei porque hoje ainda não era dia de trabalho.

Jantámos o resto dos restos e ficámos contentes por começar o ano sem desperdício.

E pronto, num abrir e fechar de olhos estamos num ano novo, entrámos nele à nossa maneira, temos um calendário por estrear, mais 12 meses para tentarmos ser melhores e trabalharmos para cumprir os nossos projetos e sonhos. 

Não fugindo ao cliché de dizer que: se houver saúde e sorte, o resto logo que arranja!

Um Bom 2018 para todos nós! Venham daí esses 12 meses!

(e em 2019 vou dar um mergulho de mar...ando há tempos a pensar nisso....)

 

 

Apontamentos da vida sobre coisas que pouco importam aos outros

O meu pai é um tipo caricato. Faz lá os seus raciocínios sobre a vida. Bebe os seus 7 golos de água quando se levanta, apenas acende o cigarro depois do primeiro café com um biscoito de manteiga, despede-se sempre com a mesma frase, uma espécie de superstição que lhe diz que se ontem correu bem assim, não mexas.

O meu pai não passa à porta de estabelecimentos que lhe causaram algum desprazimento, opta por passar para o outro passeio, dessa forma escusa-se ao bom dia hipócrita e ao contacto com quem não lhe agrada.

Cada vez mais me pareço com o meu pai, atravesso para o outro lado, ponho-me na parte mais afastada do passeio, evito a rua dos estabelecimentos que causam sofreguidão e disforia. O mesmo vai para as pessoas.

Estou assim, cada vez mais parecida com o meu pai. Ou então é o caminhar para os 40, que me deixa instável e com parca paciência para as politiquices do dia-a-dia.

 

 

Que se crie um mundo maravilha...

... chegou a Alice.

 

Um filho é o expoente máximo de felicidade, é o condutor de um amor irracional e incondicional, incapaz de ser explicado por meras palavras.

Ontem nasceu uma princesa muito desejada, ela jamais será capaz de imaginar quanto. Todo o amor que irá sentir não chegará para perceber o que significa para um Hugo e uma Sílvia que trouxeram ao mundo a mais bela das Alices.

Ontem cumpriu-se um sonho e o mundo ficou melhor.

Queridos amigos, que a vida vos sorria sempre, que as fraldas não cheirem tão mal quanto isso, que a princesa não seja dada a birras e que as vossas noites de sono não se tornem mais curtas.

De outra forma lembrem-se sempre: o amor supera tudo!

 

Que se crie um mundo maravilha.

Chegou a princesa Alice.

E já há um Coelho à espera dela!

 

Nota para os pais: digam à miúda que a sogra manda um grande beijinho.

Conselho para a princesa: se os pais disserem que a prenda de Dezembro é pelos anos e pelo Natal manda-os à fava!