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Blog Bestialmente Conhecido

Vamos lá falar de compras, novas colecções e coisas que eu não entendo

Ando a precisar de melhorar o meu guarda roupa. Trocando por miúdos e deixando os rodeios para outra circunstância, tenho alguma necessidade de substituir os trapos carregados de borboto que planam no meu guarda roupa por peças decentes que entrem na categoria de roupa e não de trapos de limpar o chão.

O RAP diz que a roupa dele de andar por casa são pré-panos. Essa roupa é a minha do dia a dia.

Tenho de mudar isso, pensei cá com os meus botões.

Vai daí e fui a uma loja que deve ter coisas boas - afinal de contas é detida por um dos homens mais ricos do país vizinho, ou por um dos países vizinhos (as coisas agora estão um pouco confusas) – mas que ainda assim continuam a estar dentro do meu precário budget.

Por azar entro pela secção masculina e fico com a sensação de ter acabado de entrar numa loja de casamentos no Centro de Luanda. Só em fotos de casamentos Angolanos é que eu vi roupa de homem com tanta cor, tanta fivela, tanto dourado, tanto apontamento. Aquilo dá para ter o gajo em casa e mesmo com as luzes apagadas saber onde ele anda. A peça que mais me marcou foi um blusão de cabedal com desenhos muito semelhantes a uma forra de sofá que a minha mãe fez para o sofá lá de casa quando decidimos ter um cão. Faço notar que isso foi há mais de 25 anos e que só usou esse tecido porque uma cliente desistiu de o usar. (Provavelmente tinha-o comprado bêbeda e quando lhe passou a cadela, envergonhada, entregou aquela trampa à costureira para que fizesse o que lhe desse na real gana com aquilo. Era para ir para o lixo, mas depois acendeu-se uma luz e deu para perceber que para levar com pelos de um rafeiro estava uma beleza).

Passei à secção da roupa de senhora e deparo-me com um mar de veludos.

Detesto veludo.

De qualquer cor e feitio.

Tive em miúda um vestido justo de veludo. Comprei-o na esperança de que um dia aquele vestido justo, curto e de alças me havia de fazer uma mulher sensual. Nunca emagreci o suficiente para que o vestido cumprisse o milagre, ainda assim foi indumentária de 2 casamentos. Momentos de que não me orgulho e dos quais há provas (aquelas fotos lindas que tiramos sempre com os noivos, todos de contra vontade e sempre com fome porque estamos há 2 horas de pé à espera para almoçar).

Continuo a percorrer aquela savana de peças estranhas e passo ao compartimento seguinte.

A primeira coisa com que dou são uns tamancos, uma espécie de sapatos muito estilo vocalista da banda Prodigy, solas altas e com múltiplas cores. Nem vou falar da versão em verniz porque me causou algumas tonturas e não lhe consegui dedicar o tempo necessário. Depois desta maravilha esbarro com um blusão de penas em veludo. Ou seja pior do que um Duffy, é uma espécie de Duffy em veludo. É o mesmo que vestir um sofá dos anos 70. Uma pessoa corre o risco de estar na fila das finanças e uma comparsa se nos tentar sentar no lombo porque não reparou que o sofá tinha cabeça. Cores: bordeux e verde coco-com-spirulina.

A esperança, que não é a ultima a morrer mas está quase a entregar os pontos, pede-me que continue.

Daqui encontro uns sapatos que me fazem lembrar o Hugh Hefner mas em calçado. Não sei se aquilo eram umas pantufas, um chinelos, umas alpercatas ou lá o que eram. De uma coisa tenho a certeza, eram muito estranhos e tipo, feios.

Às páginas tantas dou com o Nuno a olhar incrédulo para uns sapatos, segurava-os na mão e estava prestes ao desmaio; eram umas samarras rasas com uma fivela de lado. Disse-me: “a minha avó Hilda foi a enterrar com uns sapatos destes!”. Não sei se pense que a moda é uma bosta, se era a velhota que era muito à frente. De qualquer forma nunca mais vou conseguir olhar para aquilo com outros zólhos. E para todo o sempre, quando voltar a entrar naquela loja vou pensar: esta é a loja que vende sapatos iguais aos que a avó do meu marido calçou quando morreu.

Como se a motivação já não estivesse um caco a caminho de um corredor de saída para me salvar dou com uma espécie de sapatos com meias agarradas. Porquê? Que raio de ideia é essa de calçar sapatos de bico com fivela, calçando por baixo uma espécie de peúga canelada? Não entendo. Juro que não entendo. Que é aquilo? Se é para poupar vão ao engano, porque os sapatos são mais caros por ter lá as peúgas agarradas e depois há a questão do asseio, como é que lavam as meias? Não dá. Nem quero imaginar o cheiro a Roquefort que há de estar no quarto da pessoa que comprar aquilo, semana e meia depois da aquisição.

Estamos no inverno e há sapatos de frente aberta, daquele tipo de calçado que é mesmo útil em época invernosa e para brincar nas poças. Adoro olhar para os pés das pessoas e descobri quem calça aquela meia de vidro por baixo – para não enregelar os dedos – a fingir que está de pé nú. Novidade: não está! Conseguimos ver a meia de vidro, de outra forma só se tiver uma membrana brilhante entre os dedos. 

Antigamente havia roupa de inverno e roupa de verão, agora - provavelmente para lidar com aquela gente que se queixa do calor no verão e do frio no inverno, como se as temperaturas fossem uma porra de uma novidade em cada estação - criam-se peças em crochet e com apontamentos de lã para o verão e no inverno, onde esses tecidos devem ter o seu esplendor, espetam com peças meio abertas nas costas e sapatos com tiras atrás e buracos à frente. Depois, para não finar de frio nem ganhar frieiras nas falanges dos dedos grandes dos pés inventam modas de calças peúgas caneladas debaixo de sapatos de bico pintados a verniz.

Continuo com a minha demanda e dou com um vestido preto com umas pérolas espalhadas. A única coisa que me ocorre é a imagem do ator que fez de hobbit no Senhor dos Anéis, aquele fato preto cheio de sensores para apanhar os movimentos.

Estou quase a sair da loja, já tapada de ansiedade e com os nervos em frangalhos. Decido respirar fundo e fazer um resumo simples. Se eu quiser comprar roupa nova este inverno tenho de escolher entre:

 

- Coisas de pelo falso. 

(que não me desagradam na totalidade, andar ali, a parecer uma ursa parva parda)

- Pérolas, muitas pérolas em todo o lado.

(em tempos só havia pérolas para quem tinha dinheiro. agora elas estão ao alcance de qualquer um, é como o camarão, antigamente só se comia em festas porque era caro como o raio e agora até no Vitaminas faz parte da salada mais barata)

- Tamancos.

(não tenho nada a acrescentar sobre estes. a própria palavra faz o trabalho)

- Sapatos que já veem com peúgas.

(um fenómeno que não se explica. a primeira vez que vi alguém calçar peúgas em sapatos de saltos foi num vídeo da Cristina Aguilera em que ela fingia - note-se que fingia - que era do gueto, agora, ao fim de quase 10 anos é moda. tá certo!)

- Sapatos que pessoas que já faleceram levaram quando faleceram.

(medo, muito medo)

- Sapatos com saltos tão finos que andar na rua é um exercício de palitar a calçada.

(excelente para quem ainda não arranjou os dentes. eu, depois do dinheiro que gastei no Maló não me atrevo.)

- Blusões de penas que são muito semelhantes aos sofás que os nossos pais compraram na sua primeira casa.

(correndo o risco de ver um tipo com 120 quilos sentar-se em cima das nossas omoplatas enquanto espera que chamem a senha 126 nas finanças.)

 

Começo a ansiar pelo dia em que se inventa uma farda branca como naquele filme da ilha e assim não há cá confusões. É que isto enche-me de um stresse e de ansiedades que não imaginam. Ou isso ou tenho de contratar uma stylist para me dizer o que vestir porque isto está a tornar-se muito desgastante.

 

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