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Blog Bestialmente Conhecido

Esta forma de acreditar que se sabe como a vida deve ser vivida

Convencionou-se que a vida é para ser vivida de uma determinada forma. Querer mais, uma casa maior, roupas mais caras, a promoção no emprego, o carro a 120 meses que faz os amigos pensar que se está mesmo bem na vida, as viagens para conhecer o mundo, porque é interessante conhecer outras culturas e tirar fotografias da praxe ao pé dos monumentos e das praias paradisíacas. Conhecer as culturas é como quem diz, porque com 5 noites num hotel de 4 estrelas - na loucura 5 - não há cultura que se conheça. Há hábitos que se podem presenciar, quem sabe confirmar o que já dizia no livro de viagens, o que já tinha sido contado pela Margarida que lá vai ano sim, ano não. 

Mas recomenda-se, porque a vida é curta e há que conhecer o mundo. Ver os sítios com os nossos próprios olhos, e confirmar que a fotografia que vimos no screen saver não é uma montagem.

A vida é para ser vivida, dizem. Mas não de acordo com a forma de cada um. Não. Tem de ser neste método que se definiu algures no tempo e no espaço, sem juízes nem decisores, por imposição quiçá ancestral, universal ou astrológica.

Quem não quer tudo isto só pode ser obtuso, porventura limitado. Sem visão de vida e do futuro. Alheio ao irrefutável estado de consciência de que tudo vai acabar mais cedo ou mais tarde, e de que ninguém sabe quando o nosso dia chega. Um triste prognostico de vida vaticinado ao arrependimento. Porque é isso que vai acontecer. Um recurso humano desperdiçado. Um dia vai perceber que a vida podia ter sido roupas caras, promoções, casas lindas e resorts. Mas já vai ser tarde.

Pobre alma.

Paz ao seu fim.

Às vezes dou comigo a querer o mundo. As casas, as viagens, as promoções, as frustrações (they are part of the game) que elas trazem, as roupas caras. Mas outras vezes. Muitas outras vezes, quero apenas o menos possível. Estar nos sítios que gosto, onde me sinto em casa, sem pressões, sem pontos para picar no mapa, sem a lista de afazeres e as coisas para fazer antes de morrer. Parece que com a lista andamos sempre com a morte às costas. Para quê? A gaja já está sempre à perna.

Sem casas que dão despesas astronómicas. Sem frustrações dispensáveis.

Só a ida diária para o trabalho.

Na loucura a possibilidade de trabalhar a partir de casa. Fazer alguma coisa por alguém que precise mais do que eu. Passar as tardes de fim de semana na praia do costume. Sem nada para fazer. 

Deitar-me sem a preocupação de inventar novidades para o dia seguinte. 

Às vezes planeio dias cheios para todos. E o meu professor sensato, do alto dos seus 3 anos de experiência, diz-me "vamos mas é para casa mamã". 

Outras vezes levantamos-nos com tempo para esticar o esqueleto e espreguiçarmos-nos como os gatos. Tempo para ler as noticias e ver um episódio novo da Patrulha Pata. Passeios mais curtos com direito a sesta na cama fofinha de casa.

O conforto do que é nosso.

Hora e meia no parque de diversões ao pé de casa. O tempo de sair e ir para casa sentarmo-nos a descansar no sofá encostados um ao outro.

Nesses dias a vida parece-me muito mais.

Uns dias acho que sou como a água, moldo-me a qualquer cenário, e encontro sempre uma forma para contornar as minhas barreiras.

Outras vezes estou certa de que sou feita de madeira, como o tronco de uma árvore, razão direta do meu nome. Às vezes sinto que as raízes são fortes e longas. Que estão inculcadas no chão. Que não querem arredar pé. Porque não há viagem como a minha, no meu lugar, com os afetos que me calham, com as pessoas que fazem o meu mundo, as paisagens mais importantes do meu dia.