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Blog Bestialmente Conhecido

Team gone crazy

Uma diz que tem Alzheimer mas que o médico não acredita.

A outra já nem sabe as estações em que entra, nem as que sai. Atende o telefone e não conhece a voz das pessoas com quem fala.

Há um que está notoriamente na andropausa. Cheio de calores, seguidos de arrepios e com uma irritabilidade sensivel pra caraças.

Há mais um que tem o carro feito em merda e os nervos em frangalhos.

Eu já canto "Crashing through the snow, in a one horse open sleigh..."....estamos em março....e a letra está mal...

 

Tá bonito tá.

 

Só tenho uma dúvida?

Lar ou casa cor de rosa da Avenida do Brasil.

 

Pelo menos continuamos juntos. Dão-nos os comprimidos de manhã e à tarde. Fazemos de conta que as caixas de cereais são os nossos portáteis e nem damos por ela.

 

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Chamemos-lhe terapia

Não tenho tempo. É o queixume mais frequente. Seguido do não tenho dinheiro para isto e para aquilo. Não tenho o corpo que queria. Esta barriga que não desaparece, que não fica lisa, que não fica sarada, trabalhara, um tanque de lavar roupa. O exercício que não faço na conta idealizada. A casa que não é maior. Que não tem jardim, piscina, canteiro de flores, muro alto e pinheiro sempre pronto para o natal. A casa que é num andar alto sem elevador. Os sacos que carrego. O trânsito que apanho todas as manhãs. O gasóleo que esta cada vez mais caro. Os carros elétricos que são o futuro mas que custam os olhos da cara e suspeito que o do cú também. O ordenado que podia ser mais alto. Muito mais alto, diga-se. A quantidade de trabalho que me atropela. As limpezas da casa que me deprimem. Não nasci para fazer limpezas. Detesto limpar. Limpo porque não gosto de viver numa pocilga. Limpo porque não me aparece lá uma fada para dar conta do recado. Detesto arrumar. Não entendo aquela ideia de que é catártico. É cansativo. E tenho sempre tudo para fazer: máquinas de roupa para lavar, depois secar (filho da puta do tempo, sei que a Cristas dirá que isto é Deus a resolver a seca, mas eu não tenho alfaces para regar, tenho camisolas para secar e quero ser egoísta, quero sol, não chuva), o chão para aspirar sempre cheio de pelos dos cães, o chão para limpar das porcarias que vêm agarradas aos sapatos, do que cai no chão, da sujidade que aparece não sei onde, sem ser convidada, cabra da sujidade. As camas para fazer, a casa de banho para limpar, as refeições para cozinhar, os brinquedos do miúdo que estão sempre espalhados por toda a parte, raios os parta, que parece que passo a vida com o cu a apontar para o céu. Nunca devo é a acertar com ele virado pra lua, que se assim fosse já me tinha saído o segundo prémio do Euromilhões, eu investia numa lavandaria daquelas de bairro e só lá ia buscar as moedas ao fim da tarde. Era vida de passeio, livros e ginásio todódia. As roupas que ganham borboto tão depressa, que ficam gastas das lavagens. A roupa nova que é cara e eu que nunca compro que chegue. Os sapatos altos que são mais bonitos mas não dão jeito para a vida de labuta. Esta cara deslavada que nunca ganha uma cor por força da maquilhagem. Mas eu não sei usar as pinturas, nem no papel nem nesta fronha a que chamo de minha tromba. Este cabelo que não tem por onde se lhe pegue. Para ficar de jeito tem de levar espuma, de outra forma pareço Michael Jackson em principio de carreira. Diz que seca as mexas. E quando lhe ponho cremes caros não noto a diferença. Raios me partam mais aos genes, será que na árvore genealógica não havia um indiano a quem eu pudesse ter herdados os folículos capilares. Isso é que era. Era a tez morena, sempre com aquele brilho de quem acabou de estar duas semanas nas Maldivas e os cabelos negros, sedosos e longos, uma coisa de meter inveja. A merda do tempo que não ajuda, que chove e faz trânsito e não apetece sair de casa. Este tempo deprimente só serve para entristecer e bradar aos céus. Mais nada.

 

Há semanas assim, dias assim, momentos em que só me ocorrem as coisas que não tenho. As que nunca vou ter (nunca vou ser a Gisele da Margem Sul); as que muito provavelmente nunca vou ter (aquela mansão com piscina e court de ténis e ginásio com vista para o jardim e muros altos e canteiros com flores arranjadas por um gajo que percebe do assunto); as coisas que nunca vou ser (uma pessoa calma e normal que acha que tudo se resolve). Há momentos em que só me apetece entregar à tristeza, fechar-me em casa, fingir que o mundo não existe, deitar-me à espera que as dores nas costas passem e ver series, umas atrás das outras até deitar pixéis de ecrã pela retina.

Um saco de compras cheio de comida de plástico e uma caneca de chá sempre quente só para não parecer tudo mau.

 

Acordo e ainda de olhos fechados penso nestas coisas. Raios me partam! Podia ser daquelas pessoas super otimistas que estão sempre muita confiantes de que tudo vai correr bem.

 

Nos dias bons tenho os meus queixumes, as coisas que quero e olho para eles como objetivos a concretizar, acredito que estão lá à frente e é tudo uma questão de tempo. Que a vida tem coisas boas e más, que fazemos pouco das que sabemos que nunca vamos ter e vivemos com o resto.

 

Nos dias maus o que está em falta pesa mais. E eu preciso de terapizar a minha mente, de me lembrar de tudo o que tenho, dos mais pequenos pormenores, de me fazer entender que afinal, só mesmo afinal, as coisas até não estão assim tão tortas.

 

Que tenho tempo para ver o meu filho todos os dias ao final do dia (tirando raríssimas exceções). Que o dinheiro vai chegando para o que é preciso. Para pequenos luxos. Para que não falte nada do que é essencial. Para que se possa fazer algumas coisas por prazer. Que a barriga está para aqui, mas que não é uma bola de banha, que isto com um fato de banho apertadinho, daqueles que fazem um forcing aos órgãos, a coisa até passa despercebida na praia. Que a maior parte da minha vida é passada vestida, e que a barriguinha que havia de ir com o diabo que a carregue está sempre debaixo das mantas. Não aquece nem arrefece. Que eu não vou para Miss t-shirt molhada, nem para modelo, pelo que até nem está pior assim. Que a casa fica lá no alto mas proporciona exercício grátis. Às vezes indesejado, quando vou às compras (por exemplo), mas grátis. E como eu gosto de uma coisa grátis. Que é lá no alto mas é espaçosa, que até tem espaço para os livros todos (e são muitos), para o miúdo ter um quarto para ele, para correr e brincar quanto lhe apetecer. Que a chuva veio mas não é para ficar. Que na Tugalia faz mais sol que chuva, que isto daqui a nada está um solinho a bater-se-me nas fuças e tudo passa. Que não consigo secar a roupa lá fora mas tenho a sorte de ter máquina de secar. Que não fico com a roupa em fila de espera como acontecia com a coitada da minha mãe. Que o cabelo cá está, que apanhado não fica pior. Que se safa com a espuma, que até nem é pior para emoldurar a carantonha que tenho, que tem mais a ver com o meu espírito desgrenhado que um cabelo liso e certinho. Que a cara já teve melhores dias. Tempos houve que não parecia que precisava de maquilhagem. Mas agora com as olheiras a ficar mais fundas era bom que aprendesse. É bom lembrar que posso. Basta ter aquela coisa que é querer e posso arranjar maneira de fazer umas aguarelas neste meu focinho deslavado e com cor de lixívia por conta das saudades do sol.

Que hoje é sexta feira. Todas as semanas têm um fim. Que se seguem ciclicamente de dois dias de descanso, ou pseudo-descanso, que há coisas que posso tentar fazer para que esses dois dias sejam melhores. Mas pelo menos não estou fechada num escritório, a ver a chuva lá fora, a saber que vai ser uma viagem filha da puta para me meter em casa ao final do dia, que tenho o jantar para fazer e que é preciso deitar cedo porque no dia a seguir começa tudo outra vez. Às 6 de novo.

 

Podia ser mais, podia ser melhor, mas vai havendo saúde (mesmo que eu às vezes não me acredite) – por mais miserabilista que isso possa parecer – o que é bom, vão havendo uns contos de reis para o gasto, vão havendo uns minutos de tempo para estar com os que mais amo, para fazer algumas – poucas – coisas que gosto, para escrever estes textos desconexos.

E existem aqueles que amo, poder abraça-los suplanta tudo o que de mau cada dia tem.

E enquanto for assim, já é bastante bom.