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Blog Bestialmente Conhecido

Estou num estado que não sei

Não sei de dispa o casaco se o mantenha vestido. Não sei se coma uma se coma duas. Olha, malhei quatro. Não sei se desça já as escadas, se espere mais um bocado. Se faça a salada ou lave a loiça de pequeno almoço. Se me sente, se ande um um lado para outro. 

Estou tão cansada que o cérebro já me parece dormente, como quando nos sentamos muito tempo em cima de uma perna e a circulação desiste de lá chegar. Não está a latejar, é uma espécie de turbulência lenta, acompanhada de uma compreensão vagarosa, com gestos pausados e lógica atrasada.

Não sei se me deite se me sente e aponte. Não se se jante se tome já banho. Não se se pare à janela a ver o pequeno a chegar se me sente a olhar para a televisão minuto e meio.

Não sei. Estou tão cansada que já não sei.

 

Atão diz que foi dia do pai – parte II (o sucedido)

Não tenho jeito para comemorações, datas especiais, surpresas e coisas de tais. Não me organizo para festas de aniversários, dia de natal ou dia de coisas várias (pai, mãe, avós, árvore, robalo, o que for). Gosto de saber que há datas comemorativas, mas depois faço pouco uso delas.

Isto acontece maioritariamente porque sou uma pessoa com pouco tempo no geral, e falta de horas no dia em particular.

 

Trabalho ao lado de um dos maiores centros comerciais do país, passei à porta das lojas com as bugigangas do dia do pai todos os dias, pensei que tinha de ir comprar alguma coisa de todas as vezes e ontem, Dia do Pai, percebi que ainda não tinha comprado nada.

A vantagem de trabalhar no mesmo edifício que o maridão é que não nos podemos queixar de que não temos tempo para nós, para conversarmos. Almoçamos juntos quase todos os dias, vamos para o trabalho juntos e voltamos para casa da mesma forma. A desvantagem é que para fazer uma surpresa é do caraças.

 

Ontem disse-lhe: calhas a ir almoçar mazé c’os amigos e eu tinha feito uma coisa diferente.

 

Há que imputar alguma desta culpa no outro, como é bom de ver.

 

Adiante com a coisa, disse-lhe palavras bonitas, de como é bom pai, de como o miúdo só o manda ir aspirar porque sabe que ele para além de uma magnifica pessoa é também um excelente ajudante na manutenção do saneamento do lar. Essas conceções fofinhas que deixam uma pessoa deleitada e capaz de dizer: olha, com essas palavras nem preciso de prenda.

 

Dito isto pusemos mãos à obra e toca de ir comprar chocolates para os velhotes. O pai dele e o meu.

 

Saímos à hora certa e zarpamos para casa de Augustinho (também conhecido como eu pai).

 

- Viemos só numa corridinha, nem vamos sentar, é Dia do Pai, vim dar-te um beijinho e deixar este miminho.

- E eu vim desejar um Bom dia do Sogro! – arremessa o Nuno.

- O teu irmão também já cá esteve. Trouxe-me uma daquelas que eu gosto. – E piscou o olho.

 

O que quer dizer duas coisas: a prenda do meu irmão era melhor que a minha; e era uma garrafinha de material de qualidade.

 

- Deu-me uma garrafinha de vinho do Porto!

- A sério?! Eu trago chocolates, que levam coco e RUM. Tudo coisas que tu gostas! Três em um. Pumbas!

 

Raios parta ao velho que gosta de uma pinga de qualidade.

 

Ficou feliz com a visita e nós ainda com mais um velhote para ver e um puto para estar com o pai.

 

O Nuno larga-me perto de casa, vai dar a prenda ao pai e buscar o filho. Eu “ia passear os cães”. Estava já com as coisas preparadas para fazermos alguma surpresa para oferecer ao pai mas o raça do miúdo larga-se-me numa birra descomunal. Era segunda feira, ninguém gosta de segunda feira, e ele tinha-se levantado mesmo muito cedo.

 

Acalmados os ânimos lá o convenci a irmos para o quarto. Preparámos em conjunto dois chapéus de policia. Um para o pai. Outro para ele. Tiraram a foto lado a lado.

O melhor pai, para o melhor filho.

 

Eram 22:00 da noite e ainda se salvou o dia do pai.

 

Porque eu posso ser uma nódoa nas festividades, uma tristeza nas surpresas, um zero à esquerda nos trabalhos manuais. Mas brilho no improviso.

 

 

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