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Blog Bestialmente Conhecido

Dinheiro

Estamos próximos do final do mês, temos mais uma época festiva que convida ao gasto das nossas parcas possibilidades e a mim cabe-me dizer o que penso do dinheiro.

 

O dinheiro é uma espécie de enguia híper-escorregadia, na medida em que uma pessoa sente que lhe toca mas mantém contacto durante apenas uma fração de segundo, o gajo contorce-se, larga uma qualquer gosma que o reveste e, ainda que nos esforcemos naquela manobra que se assemelha à pessoa que está a puxar uma corda, não agarramos o maldito.

 

É a única coisa que se gasta mais depressa que a água.

 

10 para isto; 20 p’aquilo; 25 p’ó outro; 19,99 para mais aquela coisa que ficou do mês passado; 98,33 para as mercearias; 0,20 para aquela fissura entre o banco do condutor e a consola central do carro; e quando damos por nós já só há 2 pacotes de batatas fritas na despensa.

 

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Fui comer ao Avillez e não tirei foto

Antes de mais importa esclarecer que fui comer a um restaurante do José Avillez, mas foi a um espaço que inclui a palavra “cantina”. Não fui ao Belcanto e na minha experiência não se incluem estrelas Michelin, até porque, para além da agressão que seria para a minha carteira – e consequentemente para a minha conta bancária – poderia trazer problemas emocionais graves ao meu cônjuge, que, privado de 3 dígitos do seu saldo ficaria a balouçar-se para a frente e para trás, como fazem as crianças sempre que querem acalmar-se de uma qualquer frustração mal resolvida.

Acresce que não saberia certamente comportar-me num espaço de tamanha elegância e com elevado numero de talheres.

Feito que está este esclarecimento sinto que posso prosseguir.

 

Na semana passada conversámos sobre a hipótese de sôtor passar um dia de fim de semana com os avós para que pudéssemos descansar. Isto de ter um emprego a tempo inteiro, de ser cliente de filas de trânsito a tempo inteiro, de ser cozinheiros a tempo inteiro, de ser fadas do lar a tempo inteiro, de ser encantadores de cães a tempo inteiro e – last but not least – pais a tempo inteiro, tem as suas repercussões no ser humano. Do tipo de uma pessoa às vezes se esquecer de que planeta faz parte e porque motivo caminha na terra e se afoga na água.

 

Assim combinámos que na sexta o pequeno dormia nos avós; nós aproveitávamos para chegar a casa e fazer de conta que éramos amibas sedentárias e atirarmo-nos para cima do sofá, vegetando e babando para o ecrã (exercício que muito aprecio mas do qual tenho sido privada nos últimos anos).

No sábado, após uma certa luta com as impurezas do lar prosseguiríamos para Lisboa com vista a um repasto diferente.

 

Demos connosco a caminho da Cantina José Avillez, que tinha aberto há pouco mais de uma semana e que, fazendo jus à nossa experiência com a Taberna no Avillez, garantiria uma experiência de papinha bem boa num ambiente descontraído de simpatia e bom trato.

 

(restava saber se o pudim de azeite também fazia parte do menu – elevadas expectativas – para que a experiência fosse completa).

 

Deixámos o carro no parque do Largo de Camões e descemos a rua a caminho do Terreiro do Paço. Nós e mais 1225245245 alemães, russos, libaneses, americanos, suecos, franceses, chineses, coreanos, espanhóis, austríacos e 4 alentejanos.

Chegámos ao espaço, percebemos que estava cheio mas vimos de fora que havia, pelo menos, uma mesa para dois vaga. Vamos acreditar que não está reservada.

Chegámos à porta e, ao lado de uma senhora tremendamente simpática, estava uma cara que costumo ver no ecrã, a mesma para a qual reclamo sempre que diz que as batatas fritas boas são confecionadas com azeite a 160º e depois a 180 graus, pensas que eu tenho duas fritadeiras cá em casa ou quê!? Este gajo…, é o que normalmente me sai da boca, seguido por: gostava de saber quem é que lava a loiça lá na casa deste tipo! Ele é que não deve ser, tanta taça, tanta panela, raios o partam!. Note-se que é por isso que gosto de ir aos restaurantes do Avillez, não tenho duvidas de que a comida é de chorar por mais, mas dá-me uma canseira tremenda só de pensar em replicar em casa.

 

Era o José Avillez em pessoa, ali à minha frente.

 

E agora vamos ver uma coisa: o restaurante é dele, o espaço é dele, os empregados respondem a ele, e a quem acham que eu perguntei onde me ia sentar?

À senhora que estava ao lado, claro! Pareceu-me idiota que o homem – que tem certamente mais do que fazer – ali estivesse para nos receber. Disse-lhe um bom dia como que não está certo ainda de estar a falar para uma pessoa ou se era um cartaz em ponto grande.

 

(fico sempre meio idiota quando encontro malta da TV na rua, não sei de hei de dizer bom dia – porque eu os conheço – se deva ignorar, se que faça. É estranho, ou eu sou estranha, adiante…)

 

Ficámos numa mesinha mesmo ao canto – tal como eu adoro, por mim, doravante, sempre que lá for vou querer aquela mesinha, ali mesmo ao canto – fomos atendidos com tremenda simpatia por toda a gente e comemos muito bem. Era o primeiro dia de Cozido à Portuguesa, foi-nos apresentado pelo funcionário, mas eu segredei-lhe eu não gosto de cozinho, e fiz aquele trejeito de boca ao lado como quem lança um ups!.

O Nuno comeu um bitoque – queria saber se o Avilez era homem para mandar para a mesa um bitoque tradicional sem uma pitada de coentros em cima - eu pedi bacalhau com broa e alheira (uma verdadeira delicia).

De sobremesa comemos:

Eu – Toucinho do Céu.

Nuno – Pudim de azeite com ananás.

 

Provei as duas sobremesas, ambas uma delicia, mas tenho a dizer que nenhuma bate o pudim de azeite da Taberna. Trocámos umas ideias simpáticas com o senhor que nos atendeu, ele com preferência pelo pudim de azeite com ananás por ser mais húmido, eu com preferência pelo de azeite sem ananás por ser mais seco. Acordo: ambas de chorar por mais.

 

Durante a refeição as senhoras do prédio ao lado iam tomando conta das atividades, com os seus olhares zangados e inquisidores. Um pombo gordo subiu a um segundo andar em voo e dissecámos a vida daquele animal. Ter-se-ia entregue à comida por algum desgosto de amor, estaria no segundo andar para saltar e esbardalhar-se no chão. Não era certo que as asas aguentassem.

Escrutinámos a forma de estrelar ovos da cozinha, tão redondos, tão centrados. Só podiam ter um truque com uma forma. Não comi o meu, deu-me pena comer uma coisa tão bem feita (a mesma pena não se me abateu com a sobremesa).

Espreitámos pratos alheios e prometemos voltar para este e para aquele. Eu adorei os azulejos da casa de banho (só para deixar essa nota que importa de sobremaneira).

 

A conta não foi avultada, pudemos ver o Avillez a vergar a mola, pobre coitado, em vez de já estar a gozar proventos de tanta casa aberta, ali andava ele a ajeitar mesas para os camones e os avecs.

 

Comemos bem, rimos, demos gargalhadas e não tirámos fotografias. Nem aos pratos, nem à comida, nem aos azulejos da casa de banho, nem ao José Avillez, nem à porta a ver se apanhávamos o José Avillez no fundo, nem à porta sem o José Avillez. Peguei no telefone para ver as horas e nada mais que isso.

 

Foi uma delicia, por tudo e porque foi só para nós.

 

(não sou critica gastronómica, gosto da comida do Avillez e por isso gosto de ir aos espaços dele. Aguardo um convite do próprio para ir ao Belcanto, porque de livre iniciativa não há porta moedas que aguente. Aconselho vivamente que lá façam uma visita).