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Blog Bestialmente Conhecido

Podia ser um problema grave, mas afinal...

Tenho 2 cães. Ou melhor, tenho dois animais que, após validação dos seus documentos de identificação sou forçada a admitir que pertencem à classe dos canídeos.

São pequenos, são irritantes, ladram a todos os vizinhos, às sombras dos vizinhos, à ideia de que apareça a sombra dos vizinhos, ao cheiro dos vizinhos, ou a qualquer árvore que se mexa na direção errada, detestam a presença de outros cães, gatos, ratos, lagartixas, coelhos, esquilos, minhocas, formigas e estou certa que extraterrestres também.

Um é todo preto a outra é toda branca.

Um não tem problemas físicos, mas compensa nos mentais. Tem medo de tudo, reclama com o seu próprio reflexo, aparenta estar alheado do universo e ainda não percebeu que para comer um pedaço de pão quando lho estou a dar não precisa de me tentar comer uma falangeta.

A outra tem problemas de atitude, mas mentalmente aparenta ser sã, em contrapartida está carregada de maleitas fisicas diversas: quistos no ouvido interno, alergias nas patas, problemas de pele e por aí em diante.

 

Há umas semanas noto que as patas desta desgraçada têm ficado piores, não conseguia perceber porquê, afinal de contas põe a pomada e o spray, toma os comprimidos e eu tenho cuidado com os snacks. Que raio, não me digam que a cadela tem de ir fazer tratamentos outra vez?

 

O horário mudou há poucos dias, agora ao final do dia, quando os passeio, consigo ver melhor o que "fazem" quando estou a apanhar. (sim porque eu sou daquelas pessoas asseadas que levam saquinhos ara apanhar os dejetos do cão)

Notei alguma diferença na cor. Vermelho.

Comecei a preocupar-me. Não parecia sangue, provavelmente tinha apanhado alguma coisa do chão, nada de especial, no dia seguinte iria ver melhor.

Dia seguinte, cor de vinho. Para sangue era estranho.

Mais um dia. Verde. Mas que raio se passa aqui?

 

Estávamos na sala e ouço um escarafunchar no quarto do miúdo, quando entro vejo a cadela dentro da tenda que ele lá tem. Não dei importância, os cães andam com ele para todo o lado.

Depois, vejo-a passar por mim sorrateira, de cabeça baixa...alguma coisa não estava bem. Deitou-se de costas para nós na cama que tem na cozinha e vai de mastigar.

E o que era?

Lápis de cera.

Eu preocupada. Podia ser um problema grave nos intestinos da bicha, mas afinal eram lápis de cera processados.

 

Eu bem que andava a estranhar que os lápis do miúdo eram cada vez menos, mas como ele os parte todos e desaparece com as coisas não pensei muito nisso.

Afinal havia outra, outra sacana de uma cadela que, depois dos rios de dinheiro e preocupações que me arranja, anda a mandar bandulho abaixo lápis de cera dos cheneses. Ainda bem que eu não comprei uma Caran d'ache ao puto, porque se fossem ia-lhe exisgir que ela os defecasse em forma de obra prima.

 

Ciclista vs gajo da bina

Atenção por favor: Antes de avançarmos quero deixar algumas notas para o leitor mais sensível: a) a autora do blog não se responsabiliza pelo tema, uma vez que foi escrito por sugestão de uma leitora, pelo que se não gostarem vão moer-lhe a cabeça a ela; b) a autora do blog gosta de chamar os bois pelos nomes sem o objetivo de melindrar ou ofender, pelo que se não há sentido pejorativo quando caracterizamos alguém como "magro", também não há sentido pejorativo quando dizemos "gordo", eu não vou dizer que uma pessoa loira é "aquela-rapariga-que-não-é-morena" por conta das anedotas totós que se contam de mulheres de cabelo amarelo.

Dito isto, prossigamos.

 

Nunca aprendi a andar de bicicleta, a minha mãe achava que eu já caia demasiadas vezes com os 2 pés no chão para arriscar pôr-me em cima de 2 rodas.

Toda a minha vida mantive um certo fascínio por bicicletas e por pessoas que conseguem fazer delas objetos úteis.

Este meu fascínio tem vindo a diminuir com o tempo e é tudo culpa da tipologia de pessoas que se dão aos prazeres do passeio em duas rodas sem motor.

 

Começou a tornar-se moda andar de bicicleta por toda a parte, ou melhor, pegou a moda do cycling (sim, moda, há 10 anos não se via tanta bicicleta na estrada, é mais ou menos como correr, enquanto foi apenas corrida, ninguém achava giro, quando passou a ser running, até os gorditos aderiram, especialmente aqueles que já tinham estado inscritos em 263 ginásios em todos os meses de janeiro (resoluções de fim de ano) e meses de abril (avizinha-se a época balnear)).

Ou seja, o que antigamente era o ciclismo - borring!!! - e agora é cycling ganhou todo um dress code e tudo é mais divertido. Para não falar que em pleno século XXI é extremely cool publicar o caminho percorrido na bina, para os amigos fazerem bueda likes e cenas...

De outra forma era só uma pessoa montada numa bicicleta a pedalar, sem ninguém lhe reconhecer o esforço e isso é tremendamente idiota.

Nesta senda é ver a malta montada nas suas binas de milhares de euros, com os seus capacetes cabeça-de-mosca e os seus calções cu-de-macaco. É vê-los felizes e contentes, bermas afora, pedalando e direção só-Deus-sabe-ao-quê-de-Expresso-chegavam-mais-depressa-e-com-preço-da-bina-dava-para-uma-porrada-de-viagens.

E é aqui, nas bermas dessas estradas nacionais afora, que importa identificar claramente os intervenientes que circulam pela selva de betão.

 

Temos o condutor de automóvel: que é o gajo do popó, à partida tem coisas para fazer - tipo tarefas que não conseguiu dar conta durante a semana porque tem de trabalhar - e que quer chegar a sítios dentro dos limites de velocidade permitidos.

Temos o gajo da mota, mas não vamos falar desse porque merece tempo de antena muito próprio e focado em si.

Temos o tipo perdido: que é o gajo que anda ali na berma da estrada, às vezes com uma camada (valente bebedeira) em cima, demasiado absinto de sexta para sábado, está a caminho de casa porque lhe fanaram o telemóvel e já não tem bago na carteira.

(não sei se já alguém apanhou um destes, mas é fantástico, nem eles sabem o que estão ali a fazer, parece que caminham em direção ao firmamento ou lá o que é)

Temos o ciclista: é o tipo que, habitualmente, tem a mesma largura que a própria bina, não sei se é porque passa muito tempo lá montado mas parece que já se fundem, o ciclista e a bina. Dá sempre a ideia que, depois de desmontar vai ficar na mesma posição, assim tipo de agachamento ou lá o que é. Aparenta carecer que lhes seja administrado, urgentemente, de forma intravenosa, um valente bitoque. Apresenta-se completamente apetrechado com todas as cenas do bina world, sabe bem para que servem os objetos e não receia usa-los. Na cabeça traz um capacete túnel-de-vento, na cara uns óculos-mosca, no tronco uma t-shirt cool de todas as cores menos amarelo, porque dessa forma seria catalogado como cagão na sua comunidade, na parte inferior uns calções cu-de-macaco que visam o não assamento da peida dos glúteos em resultado das horas em contacto com o selim. Nos pés uns sapatos lady gaga que servem para agarrar os pedais como ninguém.

E temos o tão esperado gajo da bina: frequentemente confundido com o ciclistas (especialmente e quase exclusivamente pelo próprio), o gajo da bina diferencia-se logo à partida pelo seu porte mais anafado. Tem sempre uma espécie de almofada abdominal - resultado dos treinos ao nível da imperial - e os calções, apesar de apresentarem a mesma proteção de peida de glúteos, no gajo da bina não aparentam fazer o tradicional cu-de-macaco, não sinhores!, aqui parece que observamos um homem adulto que decidiu nessa manhã proteger o befe com um penso Lindor da avó.

Ou seja, ao passo que o ciclista parece uma espécie de gazela-cu-de-macaco em duas rodas, o gajo da bina é um wannabe cansado que leva o lombo ao esgotamento quando chega à primeira subida, potencialmente sofrende de alguma incontinência urinária.

 

Definidas que estão as diferenças e as personagens desta história com cariz de sátira e exacerbação ao limite (nunca é demais deixar claro para não melindrar pessoas que não sabem fazer aquilo a que se chama de interpretação, Deus queira que não se dediquem ao ensino) passamos ao ponto fundamental: a convivência entre espécies.

 

O planeta é só um, e só Deus sabe que a estrada nacional é também só uma e tantas vezes estreita. A berma é larga e os ciclistas (a par com os gajos da bina) têm direitos que devem ser respeitados. Mas, com esses direitos vêm também os deveres e responsabilidades.

Não me aporrinha de todo - e estou certa que não aporrinha ninguém - que haja ciclistas na estrada, é um habito salutar que deve ser valorizado. Agora, o que não pode acontecer é que, porque as pessoas gostam de andar montadas numa bicicleta ao fim de semana, passem a achar que é tudo à vontade do freguês.

Por exemplo: desde quando é que os condutores dos carros vão na estrada lado a lado a conversar? Nunca, não podem, são multados e mesmo que não fossem não tinham interesse, se é para conversar vão os dois no mesmo carro ou, metem a conversa em dia quando chegarem à pastelaria.

O ciclista, na sua conduta corretíssima, ali vai na sua vida, pedalando forte para fazer os 134 km a que se propôs para esse sábado. Não quer conversa, quer pedalar, ajeita-se à berma ou vai no canto da estrada, quer estar na vida dele e não pretende importunar a dos outros. Já o gajo da bina tem outra agenda. O gajo da bina vai para o cycling pelo convívio, quer falar da bina que comprou, de quanto lhe custou, dos planos que tem para fazer uma porrada de quilómetros, do jantar de logo à noite e mais mil coisas que lhe podem ocorrer. O gajo da bina leva lanche e pedala em dor à mínima inclinação. Ou seja, o gajo da bina devia estar inscrito na hidroginástica com as velhotas da comunidade, que gostam de paleio, e não montado numa 'cicleta.

 

O ciclista, sabe que tem direitos, sabe que tem deveres, não incomoda e não quer ser incomodado.

 

O gajo da bina, antes sequer de a montar, já sabe que quem se meter com ele está fucked (sim, porque o gajo da bina está nisto pelo cycling e gosta de terminologia anglo-saxónica). O gajo da bina pedalou 1 mile e já está a mandar vir com o primeiro Opel Corsa que passa porque a estrada também é dos ciclistas e os carros têm de passar a metro e meio de distância. O gajo da bina vai pôr-se ao lado de outro gajo da bina e vão ali, a falar dos planos que não vão cumprir e das bicicletas que vão comprar para, mais cedo ou mais tarde, pendurar na garagem, enquanto fazem com que os automobilistas sofram. Olham para trás e, quanto mais desesperado está o condutor, mais devagar vai o gajo da bina. Porque o gajo da bina não tira prazer em andar de 'cicleta, o gajo da bina vibra em fazer com que os nervos dos outros fiquem em frangalhos.

 

Não param em sinais vermelhos, não abrandam em rotundas, porque os outros têm de dar prioridade aos gajos da bina. Agem como se fossem uma minoria ostracizada da sociedade, quando são os próprios que não cumprem com regras nenhumas.

O gajo da bina é aquele que um dia vai descobrir outro desporto de nome estrangeiro para o qual precisa de gastar uma pipa de massa - assim tem qualquer coisa que pode gabar aos amigos - muda de objetivos para estar em linha com o gang e mete a bina na garagem.

 

A nós, almas que penam com esta malta, resta desejar que descubram um novo rumo depressa e de preferência longe da vida dos outros.