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Blog Bestialmente Conhecido

Preciso de colinho da mamã

Não sou uma pessoa de contacto físico. Nunca fui.

Fico sempre constrangida quando sei que vou encontrar aquela pessoa que não passa sem um segurar de braço, uma palmada nas costas, dois beijos demasiado repenicados.

Não sou de abraços, ou pelo menos não de qualquer maneira. Admiro as pessoas que são libertas fisicamente, que distribuem abraços como quem dá maçãs.

Não sou assim.

Sempre fui contida nesta demonstração de afetos físicos.

Aquela pessoa amiga, aquele colega de trabalho, que se aproxima por detrás da nossa cadeira e, mesmo antes de começar a falar pousa as mãos nos nossos ombros. O meu corpo fica tenso e percebo que os meus nervos entram em modo shut down, recursos limitados até que a pessoa siga à sua vida.

 

Sou diferente no meu mundo. Em casa. Com o Nuno. Tornei-me numa pessoa peganhenta e afetuosa num nível que eu não acreditava imaginável. Somos daqueles casais nojentos, de beijos, de abraços, e braço dado, de mãos dadas. Um cliché de cumplicidade intelectual, física e arriscaria um espiritual também. Seja lá o que isso for.

 

Quando soube que ia ser mãe soube que ia ser uma mãe chata, peganhenta, e por momentos tive medo que ele fosse como eu, uma criança distante, pouco dada a afetos.

 

Felizmente é meigo, afetuoso e adora um abraço.

 

Mas as palavras têm uma magia própria, demonstram uma vontade, uma intenção, tocam sem tocar, é essa a sua magia. Não exagero quando digo que o que mais me emociona são as palavras do meu filho, as coisas que me diz, como as diz.

 

Gosto de palavras. Nas sentimentais, safo-me melhor quando escritas. Se tiver de as dizer ficam-se como que entaladas na garganta, custam mais a sair. Encontro formas e contornos para esta nossa língua formal.

 

Rendo-me quando me pede um abraço. Rendo-me quando me diz que "só te queo dá um béjinho e um abaço mamã!". Rendo-me, entrego os pontos e esqueço que subiu para cima da minha cama com os ténis sujos de lama do jardim.

 

Hoje chamou-me quando eu estava a arrumar umas coisas na cozinha. O pai foi lá, não precisava de nada.

Terminei o que tinha para fazer. Fui à sala, sentei-me ao lado dele:

- Precisas de alguma coisa filho?

- Preciso de colinho da mamã.

E eu derreti-me. Como sempre. 

Dei-lhe o colo que ele quis. Cheirei-o, porque tenho esta coisa de cheirar o meu filho, como as lobas, como as leoas. Aquele cheiro a pão quente com manteiga. O mesmo que um dia dará lugar ao cheiro de um homem, quando o meu menino já não for o meu menino. Quero gravar esta aroma a ferro quente na minha mente. Para nunca esquecer.

Ficámos ali 10 minutos.

A determinada altura não sei quem dava colo a quem, se era eu a ele se ele a mim.

 

Leva com cuidado

Domingo - natação.

Acordou outra vez às 7:45 e começou a chamar por mim. 

Deus é fim de semana, convence-o a dormir mais um pouco!

Nada. Ele continuou.

Ficámos na ronha do levanta - não levanta mais quase meia hora.

 

É a magia do fim de semana: ter tempo para o nada.

 

Levantam-nos com toda a calma, pressas à parte. Não existem.

 

Preparamo-nos para a piscina e para ir às compras a seguir. Ele anda a correr pela casa com o carrinho de compras.

- Olha, queres ouvir uma proposta?

Digo-lhe.

- Hum?

- Se te portares bem deixo-te levar o teu carrinho de compras quando formos ao supermercado. O pai leva um carrinho e tu levas o teu. Que te parece?

- Queo!

- Então vamos.

 

Preparo tudo, agarro no carro de compras de brincar e ele diz-me:

- Leva isso com cuidado que é para não o deixares cair. Pode patir-se!

....

😩

....

😕

...

(Gargalhadas entre o pai e eu...abafadas...mas gargalhadas)

 

Concluí com um:

- Tá bem filho. Fica descansado.

 

Mas...mesmo antes de abrir a porta ainda me alertou de novo:

- Não te esqueças! Leva isso com cuidado!

 

Onde é que já se viu....meio metro de gente...