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Blog Bestialmente Conhecido

Sequelas de fim de semana

Acordo às 5:38 porque alguém quer leite.

Na minha cabeça toca:

 

O carro do meu chefe tem um furo no pneu

O carro do meu chefe tem um furo no pneu

O carro do meu chefe tem um furo no pneu

Remendei-o com pastilha elásticaaaaaa.

 

Dei-lhe o leite.

Voltei a deitar-me.

 

O despertador tocou às 6:15.

Na minha cabeça:

 

O carro do meu chefe tem um furo no pneu

O carro do meu chefe tem um furo no pneu

O carro do meu chefe tem um furo no pneu

Remendei-o com pastilha elásticaaaaaa.

 

Parece um martelo pneumático musical para o qual não consigo encontrar o botão de off.

 

É a beleza da maternidade à segunda-feira.

 

Tomem lá para não dizerem que eu sou egoísta. Eu partilho praticamente tudo. Até traumas pessoas.

 

 

Sôtor, o sociável

Passa pela praceta e é mais conhecido que o Marcelo.

 

Cumprimenta a vizinha do cabeleireiro, espreita lá para dentro, responde às perguntas dela e ainda lhe manda um beijinho.

A vizinha, que é religiosa diz sempre: Benzádeus, rico menino! Que tenha sempre muita saúde!

 

Passa pela padaria e cumprimenta a senhora que faz o horário da tarde. Metade das vezes ganha um biscoito. Encanta sempre com os seus: “Bom dia, Boa tarde, Boa noite”, “Faxavore”, “Obigada”, no gatilho.

 

Vai confirmar que a carrinha branca ainda tem o pneu furado e avaliar a arreliação do possível dono. (porque a carrinha não sai do mesmo lugar vai para cima de 2 anos)

 

Segue para avaliar os carros que estão na praceta e encontra o vizinho do andar de baixo. Trocam umas ideias sobre os carros, o vizinho tenta convencer que o dele é melhor que o Fiat que Sôtor gosta, mas este não de deixa influenciar, mesmo que as portas do carro do vizinho impressionem porque deslizam para trás e para a frente com um toque na chave.

 

Quer ir à papelaria, ver as fotografias dos jornais e cumprimentar o vizinho. Já não temos tempo para isso, subimos os degraus de entrada do prédio.

 

Entretanto chega a vizinha do 1º frente. Ela e a Camila, uma pug super bem disposta que adora crianças.

- Mãe, a Camila, a Camila!

Voltou a descer, cumprimentou a Camila que o adora. Cumprimentou a vizinha, respondeu às perguntas dela.

Despachados da vizinhança conversamos sobre coisas da Patrulha Pata escada acima.

 

Não sei a quem esta criatura saiu tão sociável. Sou uma pessoa educada e correta, mas pelo-me com conversa de circunstância. Sim, sou daquelas pessoas que, quando ouvem vizinhos a descer as escadas, espera um pouco para não ter de estar ali, rebeubeubeu o dia, larailailai o sol, etudoetudoetudo a roupa para secar e o António Costa e o diabo a quatro.

Este piqueno, adora uma conversa, não se incomoda com uma convivência de encher chouriços.

E eu, que ando com ele pela mão, cá vou arranjando como me habituar....a custo...a custo...

 

Pode ser que no fim ainda tenha para aqui o próximo PR, nunca se sabe.

 

Temo que se um dia calharmos a encontrar o Marcelo, se prendam os dois à conversa e eu tenha de convidar o PR para viver cá em casa.

 

Quando a cabeça continua a pedalar ao fim de semana

Levanta de madrugada. Toma o pequeno almoço,. Veste. Trata do miúdo. Leva sacos para o carro. Deixa o filho nos avós. Vê o trânsito. Escolhe a ponte melhor. Faz-se ao caminho. Enerva-se. Chega ao trabalho. Entra em ansiedade. Tanta coisa para fazer que nem sei para onde me virar. Respiro fundo. Combato o stress (o que quer dizer que o arrumo a um cantinho para me conseguir concentrar). Distribuo as tarefas ao longo do dia. Rezo. Rezo para que não haja imponderáveis. Telefone toca. Uma pessoa quer isto. A outra quer aquilo. As pessoas querem, querem, querem, querem e aparentemente esquecem-se que os outros também têm tarefas suas para cumprir, curiosamente aquelas para as quais é pago. É um certo egoísmo infantil que encontro no meu dia a dia de trabalho e com o meu filho de 3 anos. O único que tem idade para isso. O dia acaba. Escolho a ponte outra vez. Chego a casa. Uns dias arrumo a casa. Outros pedalo na elíptica. Banho. O pequeno chega. Acabar o jantar. Jantar. Garantir que não me esqueço de comer e que o pequeno não se evade às colheradas. Brincar. Convencer de arrumar e estender roupa pode ser um jogo. Banho do mais pequeno. Avisos para não beber a água do banho. Avisos para não mandar água para fora da banheira. Avisos para sair da banheira. Avisos para estar quieto e deixar-se secar, pentear, pôr creme, vestir o pijama. Ler história. Dar leite. Deixa-lo dormir. Pegar num livro. Ter como objetivo 10 páginas e ler 3. Desmaiar na cama.

A seguir repetir tudo de novo.

 

À segunda doí muito. À terça já se sente alguma acomodação. À quarta o corpo já se ajustou. À quinta mostra algum cansaço. À sexta está de rastos mas já está a pedalar por habito e arranja energia para ultrapassar o dia. O sábado chega e os ritmos abrandam. Mas a cabeça já não está habituada. Quer o ritmo para o qual trabalhou para se ajustar. Produz mais energia do que o corpo precisa no momento. Remoí os problemas da semana, aqueles para os quais passei a semana a tentar arranjar solução. Há uma certa eletricidade que percorre o corpo sem saber de que se ocupar.

 

São assim os meus sábados. Ou parte deles. Depende da semana que tenho.

 

É como quando andamos muito tempo de bicicleta. Quando paramos e desmontamos a bina, parece que os músculos das pernas ainda estão a fazer as pernas rodopiar, apesar de estarmos parados,

 

Foi por isso que cheguei a duas magnificas sugestões. Uma delas rasga completamente com todos os conceitos internacionais, astrológicos e coise.

 

Primeira.

A semana de trabalho passa a ter 4 dias e o fim de semana 3. Trabalhar de segunda a quinta. Na sexta entrar numa espécie de célula de descompressão, no sábado descansar – o corpo já entendeu que está de folga. No domingo reinicia o ramerame de preparar a tola para mais uma semana de choque.

 

Segunda.

A semana passa a ter 8 dias.

 

Assim:

Segunda-Feira

Terça-Feira

Quarta-Feira

Quinta-Feira

Sexta-Feira

Recobro

Sábado

Domingo.

 

O efeito é o mesmo, as aqui o empregador tem o colaborador por 5 dias seguidos de trabalho e o empregado tem o dia de pré-descanso que anseia, o dia de descanso que precisa, e o dia de mentalização para se preparar.

Ora pensei lá nisto e digam-me se não é a melhor coisinha desde que foi inventada a roda.

 

O acordo

Tudo é uma negociação na vida de Sôtor.

Arriscaria a dizer que há verdadeiros homens de negócios que não fecham tantos acordos como esta pequena peste de 3 anos.

 

Para almoçar: sai acordo.

Para jantar: sai acordo.

Para ir à quinta das bolas: sai acordo.

 

Acordo para trás e acordo para a frente, lá vamos explicando ao rapaz que se tiver bons comportamentos as coisas que gosta têm maior probabilidade de acontecer.

 

Sim, eu sei que a vida se encarregará de lhe provar que não é bem assim, que nos podemos comportar como os maiores anjos e andar sempre a levar pancada da direita e da esquerda. Mas…o trabalho dos pais é mesmo este, fazer com que os filhos tenham princípios e sejam pessoas de caracter, que percebam que deve ser assim porque é a coisa certa a fazer, mas, até que tenha idade para compreender o conceito de forma mais complexa, é importante que apreenda que as coisas certas têm um resultado positivo.

 

Na terça feira não apanhámos muito transito e consegui chegar a casa a tempo de fazer um programa de 20 minutos da elíptica. Como ainda dava tempo tomei um banho à Quercus (dentro do espectro dos 5 minutos) e vesti uma roupa de andar por casa para o ir buscar ao caminho. O avô vinha do jardim direto para nossa casa com o piqueno artista.

Despacharam-se mais depressa e eu ainda estava de toalha na cabeça quando tocaram à campainha.

 

Para remediar a coisa, e porque precisava de lhe comprar o anti-histamínico que me passou na ideia à hora de almoço, perguntei-lhe se queria vir comigo ao Continente comprar as gotas.

 

Passeio? Alguém falou em laréu?

 

Para esta criatura qualquer motivo é um bom motivo para sair de casa.

 

Disse-me:

- Queo. Vamos vê os binquedos e depois vamos compá a comida.

 

Fui secar o cabelo e ele foi ter com o pai à cozinha. Ouvi-o dixer ao pai.

- Temos um acodo. Eu e a mãe. Pimeiro vemos os binquedos e depois compamos a comida. Temos um acodo.

 

E eu:

- Temos sim senhor!

 

Quando descemos encontrámos o avô outra vez, vinha a caminho da nossa casa porque lhe faltou trazer algumas coisas da criatura maravilha.

 

O avô pergunta onde ele vai e Sôtor…

 

Sôtor - Vamos ao tinente. Temos um acodo!

Avô – Aí sim! E que acordo é esse?

Sôtor – Amanhã conto, hoje nã poxo! Adeus avô!

 

E assim ficou. Tinha um acordo, da espécie secreto e o avô apenas podia saber no dia seguinte, não podia perder tempo.

 

Fomos até ao continente a falar. Ele fala ainda mais do que eu, o rapaz tem sempre conversa. É uma delicia. Fomos com tempo. Conversámos sobre os nossos dias, vimos os bonecos, comprámos o medicamento, voltámos com o ritmo dele, mais tranquilo que o meu, que passa o dia a toque de caixa. Eu deixei-me levar pelo compasso daquela coisa pequenina que segurava pela ponta da mão. Só o ouvia a ele, o dia estava ameno e aqueles 30 minutos lentos souberam melhor que mil horas.

 

São fins de dia que valem a pena e que dão algum brilho ao cinzento que ficou para trás.

 

Bestial #2

E quando uma pessoa, no meio da semana de cocó que está a ter lê uma coisa destas.

Mesmo no meio da desgraça consegue fazer alguém rir e recomendar para uma gargalhada!

É pá, rir não é o melhor remédio mas dá-me satisfação saber que consegui aliviar 10 segundos do dia de alguém com uma gargalhada. Se fizer isso por um tuga neste mar de 10 milhões ou lá o que é fico mesmo cheia de mim.

 

E a ideia da Vera com este "Passaporte para o fim de semana", estou roída de inveja...a ideia devia ter sido minha, muamuamuama...

 

O livreiro de Paris

Comprei porque o titulo me encantou. As possibilidades...um romance...Paris...

A capa...aí memórias.

O livro...

 

Este livro tinha tudo para dar certo. Uma boa capa, um título bastante atractivo para quem é apaixonado por livros e até uma contracapa resumida que chama à atenção. Tudo neste livro me chamou à atenção e tudo nele me pareceu ser um presságio para uma excelente leitura. Ora, tudo aconteceu ao contrário. Já há muito tempo que um livro não me desiludia tanto, já há muito que não me sentia traída pelas promessas de um bom livro. 

 

...exatamente isto...podia ter sido uma paixão tão bonita eu e este livro...mas foi uma desilusão.

 

Li este post e pensei...alguém me entende.

 

Catálogo de dias

Gostava muito de fazer uma introdução supimpa para este post, como aliás é meu apanágio, mas não dá.

 

Dias de nível 1 – Maravilhosos

 

São aqueles dias em que uma pessoa se espraia na areia ou numa espreguiçadeira à beira da piscina. Uma pessoa tem sempre na mão uma bebida colorida com chapelinho. A temperatura não é demasiado quente a ponto de despoletar uma quebra de tensão e não sopram aragens que derivam em pontadas nas costas e consequentes desarranjos pulmonares.

Não há emails, não há internet, o miúdo porta-se sempre bem, e responde com um “sim senhora!” sempre que lhe digo assim comás moças de Cascais “o menino faça como a sua mãe diz, sim?”.

 

Dias de nível 2 – Bons

 

Uma pessoa não está de férias mas está de descanso. O miúdo não anda a saltar por cima das camas ou dos sofás, os cães não arranjam intoxicações alimentares depois de comerem lápis de cera, a casa está milagrosamente arrumada. A pessoa não trouxe problemas de trabalho acachapados à ideia e as refeições são feitas no exterior com vista a não dar trabalho na confeção nem produzir loiça para lavar. A pessoa dorme, pelo menos 8 horas por noite e dá-se o milagre da célula adiposa quando a pessoa come tudo o que lhe dá na real gana, ao nível do enfrascamento em açúcar, sem que isso tenha consequência no peso do dia seguinte e sem que acabe o dia a ENO.

 

Dias de nível 3 – Razoáveis

 

A pessoa até tem de trabalhar, levantou-se cedo, mas não tem demasiadas preocupações. O dia segue sobre rodas. A criança faz as refeições como lhe é pedido e os cães largam menos pelo do que é habitual. Ou seja, estes dias estão limitados aos meses de Verão e Inverno. A pessoa consegue ter a casa mais ou menos arrumada e não há quaisquer sinais de problemas mecânicos com a viatura nem necessidade de arranjos no lar.

 

Dias de nível 4 – Merdosos

 

A pessoa apanha filas grandes para chegar ao trabalho, encontra energúmenos à razão de 3 por cada 5 quilómetros e vê-se à rasca para estacionar o carro quando chega ao destino. O trabalho começa a acumular e a pessoa percebe que terá de gerar o milagre da multiplicação clonistica para dar vazão a tanta coisa. Dorme poucas horas e tem umas olheiras do tamanho de um cacilheiro. A casa está em desarranjo e é preciso despachar 5 máquinas de roupa. A criança desafia e desdenha das refeições. As criaturas que ladram fazem chinfrineira em todos os passeios levando os nervos da pessoa ao esfrangalhamento quase total.

 

Dias de nível 5 – Do-cuarailho

 

A pessoa apanha trânsito todos os dias. Foge pela ponte que fica mais longe, duplica os quilómetros – logo a despesas em gasosa – e paga mais de portagem. Ainda assim chega no limite ao trabalho. Deixa o carro num buraco e percebe, ao tirar os sapatos de salto da bagageira, que qualquer coisa fez um corte no botim (ou isso ou que se esqueceu de trazer umas peúgas para calçar debaixo das botas). A pessoa volta a usar as suas armas de sedução – aka meias de compressão – e vê as suas possibilidades de indumentária condicionadas aos mínimos. Reza para que venha o verão mas chove sempre ao fim de semana. No trabalho não há mãos a medir no trabalho e nas viagens de ida e de volta faz apontamentos em folhas avulsas para não se esquecer de nada. Esquece-se sempre de qualquer coisa. A casa já viu melhores dias, a mesa do hall de entrada tem tanta tralha que lhe é impossível ver a cor. A Primavera começa e a cadela desfaz-se em pelo. Parece magia, não para de cair. O miúdo faz asneiras e dá conta da tola à pessoa e, a somar a isso, graças ao tempo que não se decide fica constipado. A criatura que a pessoa trouxe ao mundo acorda 5 vezes por noite e acaba na cama da pessoa, encostada à pessoa e a dar lambadas à pessoa a cada quarto de hora. A pessoa tem as olheiras até aos joelhos e sente uma espécie de náuseas que resultam do stress e da falta de descanso. Como se não bastasse uma puta de uma gripe que passou mas que deixou uma espécie de uma rinite que persiste em encher as vias respiratórias da pessoa com ranhoca.

 

 

Se não estivesse faz duas semanas a ultrapassar dias de nível 5 até teria escrito uma introdução supimpa para este post. Mas como isto vão para aqui dias do-cuarailho, lamento mas é o que se arranja.

 

Adeus e boa tarde

 

(aceitam-se mais categorias para o bestial catálogo aqui elencado)

 

A melhor resposta de sempre

Tenho 3 irmãos. Todos mais velhos que eu.

O mais novo dos 3 fez 41 anos na segunda-feira.

Liguei-lhe ao final do dia para dar os parabéns, para dois dedos de conversa, para saber como vai a vida no geral. O que é certo é que o tempo passa a correr e quando damos conta passa um mês que não nos falamos. Fica sempre no subconsciente aquela máxima de que as más noticias correm depressa, por isso deve estar tudo bem.

 

Atendeu-me. Estava em casa. Aliás tem estado em casa de baixa há umas 2 semanas e tal. Problemas na coluna. Tem vindo a arrastar ao longo dos anos problemas de costas que, com a idade e o desgaste a que se sujeita no trabalho, não melhoram. Vai na volta lá tem de ficar uns dias de cama. Vai na volta e lá anda a fazer fisioterapia.

Desta vez não tinham sido só dores, ficou com um braço “preso”, praticamente imobilizado. Tudo a acrescentar à dor.

 

O que vale é que nesta família de gente meio chalupa tudo serve para rir e fazer pouco dos percalços da vida, por isso, em vez de nos focarmos na chatice que tem sido, lá me esteve a contar que foi ao posto de saúde para ser visto pelo médico (tudo como se fosse uma espécie de anedota). Que o mandaram fazer um TAC e que, por indicação do médico, foi marcar uma consulta para ser visto o mais rápido possível.

Para garantir que conseguia ser atendido foi ao que chamam no SNS de “consulta aberta”, nesse dia o médico está de plantão e é certo que os pacientes conseguem ser atendidos.

Chega ao posto e pede para marcar consulta. A senhora da secretaria olha para ele, vê que tem um envelope na mão:

Senhora da Secretaria (doravante “SDS”) – Isso são exames?

Rui – São.

SDS – São para mostrar ao médico?

Rui – São para mostrar a UM médico.

SDS – Se forem para mostrar ao doutor não pode marcar uma consulta aberta!

Rui – Olhe, então veja lá se me consegue marcar uma fechada!

 

Desfizemo-nos a rir. Claro que teve de explicar à senhora que os exames não eram para aquela consulta e larailailai. Mas, para a postura e as questões estava mesmo a pedir.

 

Ele contava esta história e eu lembrava-me de uma muito mais antiga.

O meu irmão Rui sempre teve o dom de dar as respostas certas no melhor dos timings. Eu sou muito diferente, as respostas ideais ocorrem-me sempre cerca de 5 a 10 minutos depois da situação.

 

Eu devia ter os meus 6 ou 7 anos. Tinha ido brincar para a casa da vizinha que tinha um filho da mesma idade que eu, o João. Isso acontecia muitas vezes e, quando chegava a hora de ir para casa jantar um dos meus irmãos ia chamar-me.

Todos lá em casa tinham tarefas, e a dele, que era o mais novo dos mais velhos, era ir chamar-me à casa da vizinha.

Bateu à porta, a vizinha viu que era ele e chamou-me, estávamos já a ir embora…

 

Vizinha do andar de baixo (doravante “VDADB”) – Ó Rui, desculpa lá, deixa a vizinha fazer-te uma pergunta.

Rui – Diga vizinha.

VDADB – Vocês têm dinheiro no Banco?

Rui – Como assim?

VDADB – Tinha perguntado à tua irmã se ela tinha dinheiro no Banco. Sabes é que o Joãozinho tem uma conta com dinheiro no Banco, perguntei à tua irmã mas ela não me sabia responder.

Rui – Ahhh, já entendi. Sim vizinha a minha irmã tem dinheiro no Banco, não é todos os dias, mas tem.

VDADB – Como assim?

Rui – Então, é simples, quando ela diz que quer ter dinheiro no Banco, nos puxamos de um banco de cozinha, pomos lá umas moedas e ele tem dinheiro no Banco.

VDADB – (incrédula)

 

Ainda hoje me recordo desta conversa, a melhor resposta de todos os tempos. A vizinha, metida a esperta porque tinha herdado umas terras no Minho, achava que era especial, mas como a inteligência não vem em metros quadrados por herança….danou-se.

 

E se eu o for levar à faculdade?

Assustam-me todas as coisas do Universo quando toca a Sôtor meu rico filho. Diria que até a espessura do chão que ele pisa me causa alguma preocupação. Se cai, se bate com a cabeça, se se arranha, se se magoa, se anda à bulha, se bate em alguém, se alguém lhe bate, as pessoas más do mundo, as noticias que deixei de ler porque me tiravam o sono, a independência dele, o dia em que vai para a escola, o dia em que mude de escola, o primeiro amor, a mulher que lhe parte o coração, o curso que escolha, ou se não escolhe curso, se tem bons professores, ou maus, se cai de bicicleta, se vai nadar para alto mar, se lhe batem no carro, se conduz muito depressa….

 

Tudo, literalmente tudo o que se possa imaginar. Seja mais premente, seja num futuro que está demasiado longe.

 

É idiota bem sei, mas é assim que a minha cabeça funciona.

 

Hoje de manhã a caminho do trabalho falávamos de uma colega que estava em casa porque terá comido umas ameijoas estragadas.

 

Nuno – Vamos lá a ver se ela hoje já está melhor. Não se brinca com intoxicações alimentares com marisco!

 

Eu – Sim, é bom que tenha juízo, porque isso não se resolve com cházinho!

 

(ontem o Nuno mandou-lhe uma mensagem a perguntar se estava melhor e se já tinha ido ao médico, respondeu que o filho estava a chegar e que lhe ia fazer um chá.)

 

Parei um bocado a pensar nas minhas coisas…

 

Eu – Olha lá, que idade tem o M.? Já vai sozinho da escola para casa? (o horror espelhado no meu semblante!!!!!)

 

Nuno – Deve ter uns 17 anos e creio que sim, estavas à espera de quê?

 

Eu – Não estou preparada que Sôtor faça essas viagens sozinho com essa idade. Vou continuar a ir leva-lo à escola e a ir busca-lo…

 

Parei para pensar….

 

Eu – Achas que era muito estranho que eu o levasse e o fosse buscar já na faculdade?

 

(estranhamente esta era uma pergunta verdadeira)

 

Nuno – Não! E se o levares ao trabalho e o fores buscar à saída também não! Ó mulher tem mazé juízo!

 

(ninguém me entende…)