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Blog Bestialmente Conhecido

A filosofar a vida e os comportamentos que me enfadam

As variantes do comportamento humano ainda me entristecem (e é pena que assim aconteça), mas já não me surpreendem. O avançar da idade demonstra que, apesar do numero ilimitado de possibilidades, existe uma tendência cansativamente redundante nas escolhas e condutas de cada um.

 

Quando era miúda, devia ter os meus 15 anos, mudei de turma, ou melhor, como escolhi a área de ciências – recordo-me agora – fui parar a uma turma onde só conhecia uma ou duas almas. O resto dos colegas vinham de outra escola, não havia ensino secundário na área de residência deles, não tinham sido colocados na escola que gostavam e foram todos ali bater com os costados.

Todos se conheciam da escola anterior, vinham com preconceitos, com amores e dissabores bastante antigos.

Começou o processo de recrutamento. Todos queriam angaria o máximo de elementos para o seu grupo. As freaks queriam mais gente de t-shirts desbotadas que recusavam entrar no Mcdonald's e atiravam pedras a quem comia carne. As conservadoras, que iam à missa e faziam parte da catequese, queriam mais crentes. As que não se enquadravam nas freaks, não conseguiam ser tão boas alunas quanto as excelentes e viviam para canalizar as suas frustrações na relação que tinham com os demais pares, da necessidade de forma depreciativa sobre aquelas que mantinham notas altas e namorados em simultâneo, essas queria mais bocas para maldizer.

 

Nunca gostei de grupinhos. Gosto de grupos de pessoas. Mas não gosto de grupinhos. Daqueles em que me sinto parte de uma qualquer estrutura da qual eu constituo uma peça, não necessariamente insubstituível, mas que conta numero. Uma espécie de cabeça de gado.

Nunca gostei de andar a dar elogios ao desbarato, porque uma pessoa para merecer a minha atenção mais positiva tem de ser alguém a quem eu reconheço valor, e isso não acontece certamente só porque respira.

 

Recordo-me que nessa altura era muitas vezes abordada por diferentes colegas. A Maria que me elogiava pela forma como falava, a Cláudia que achava que eu era muito inteligente, a Judite que queria ir beber café para nos conhecermos melhor (eu era de certeza uma pessoa espetacular), e podia estar aqui até amanhã, a recordar pessoas atrás de pessoas que passaram pela minha vida.

Nunca me deixei iludir pela bajulação, porque a bajulação pede bajulação e eu, para além de não gostar de a receber, detesto ter de a dar. Não gosto de lambe botas e detesto que esperem isso de mim.

 

Com o tempo aprendi que estas pessoas querem dar-nos a sua atenção, fazer-nos sentir especiais, para que nós passemos a fazer parte do seu leque de seguidores. Como uma mãe pata que dá um pouco da sua atenção a cada patinho e que depois de eles aprenderem bem o caminho, depois de percorrerem sempre as suas pisadas, pode seguir para outras pastagens.

 

Encontro pessoas destas em todos os lados e em todos os cenários: na vida real, no dia a dia, nas redes sociais (aquela expectativa de troca de likes), nos blogs (aquela expectativa de troca de comentários, até que já há um grupo de seguidores simpáticos, fieis, consistentes, e depois já não vale a pena “dar mais conversa”). Fico sempre um pouco desconfiada sobre o que estas pessoas esperam da vida, se vivem para que os outros estejam a seus pés, as achem tão especiais, as queiram tanto. É o completo inverso do modo de vida que apregoam. Quanto mais se dizem independentes, fortes, “eu mais eu”, mas precisam que os outros lhes calcorreiem os passos, validando cada decisão, porque de outra forma as coisas perdem-lhes o sentido.

 

Permitam-me que pegue num exemplo aqui desta vila coaxadora. Sou uma ignorante em tudo o que é digital, vou aprendendo aos poucos isto e aquilo e dou comigo a descobrir coisas mil anos depois de os outros já o saberem até ao tutano do cansaço, por isso foi sem querer que me apercebi que, correndo o espaço de Leituras é possível selecionar posts como favoritos (que, sejamos francos, é o like da blogosfera sapo) – eu não fazia ideia disto, descobri sem querer – basta clicar na estrelinha que está no canto superior direito de cada post da secção de leituras. A estrelinha passa de vazia a dourada e plim!, a pessoa que escreveu tem um favorito.

Eu estranhava alguns favoritos que recebia porque, por mais rápido que a pessoa conseguisse ler, era preciso uma velocidade raio-x para ler, processar e favoritar com tamanha ganância. Quando isso me aconteceu – esse sem querer que trouxe conhecimento – percebi então o que se andava a passar. Não eram lidos os posts, eram postos favoritos com aquela premissa do “olha que eu gosto tanto do que tu escreves, vem lá agora adorar-me um bocadinho a mim”. Falhada a retribuição acabaram-se os textos bons, é que aparentemente nunca mais escrevi uma porra de um texto decente.

É curioso.

 

Eu também gostava de uma serie de coisas, que a minha escrita fosse adorada estratosfera afora, mas daí a recorrer a estratégias de marketing doméstico para obter validação para o meu contar de histórias…não fui talhada para isso.

Mais prefiro fazer como a outra: se tiver de chegar a algum lado, chego, as coisas ganham tração por si próprias.

 

Este tema do gosto-de-ti-vem-gostar-de-mim leva-me a outra questão: a necessidade que se presencia para obter a apreciação alheia sobre a vida que escolhemos ter.

 

Que sentido tem afinal a vida sem a validação alheia?

Para mim todo. Cada vez me cansam mais as redes sociais, a publicação de trechos triviais de vida, para quê? Para mostrar o quê? Que curiosidade é esta que faz interessar aos outros o que eu jantei? Quanto eu corri? Se apanhei os cocós dos cães ou se os deixei no jardim para estrumar? Que raio tem o mundo a ver com os sentimentos que tenho pelo meu filho? Porque seduz tanto as pessoas a partilha de fotografias dos restaurantes, das viagens? Parece que antigamente se escrevia numa árvore, com a ajuda de um canivete, tal-e-tal esteve aqui. Agora tira-se uma foto e vai de colocar nas redes sociais, para marcar que ali estivemos. Os outros a pôr os likes, mais porque querem likes de volta, porque têm pena de quem não tem likes, porque são amigos e têm de likar; do que porque de facto tiveram interesse naquela imagem.

 

Porque raio precisam as pessoas que os outros gostem delas? Porque precisam tão seriamente dessa validação?

Porque só essa necessidade de aceitação, de validação, de ser gostado, justifica o escrutínio no que é dito, a escolha astuta e fofinha das palavras, o cuidado nas histórias partilhadas. Se não é para o agrado dos outros porque não ser como se quer ser?

Porque se quer ser mais, porque se quer ser o centro das atenções. Porque existem objetivos para ser cumpridos e no fundo, todos querem ser os miúdos populares da escola, mesmo que já não tenham idade para isso.

 

Acho que é por isso que gosto de conhecer as pessoas em situações que lhe são adversas, é a melhor forma de lhe conhecer a natureza, está acionado o seu lado mais cru, não estão preocupados com a sua agenda: de ser os melhores, os maiores, os que têm mais seguidores, os mais adorados; estão preocupados, como qualquer outro animal, em sair daquela embrulhada.

 

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