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Blog Bestialmente Conhecido

A TPM não é para meninas

Para os mais leigos TPM significa Tensão Pré Menstrual.

Para as mulheres - na sua grande maioria - significa um conjunto de sentimentos, de estados e alma e de condicionantes físicas alheias à sua vontade.

Para outras mulheres, as que foram abençoadas com um ciclo hormonal dos Deuses, é uma desculpa das outras mulheres para terem mau feito e fazerem cara de enjoadas.

Para alguns homens uma incógnita.

Para outros um chavão machista para atirar às mulheres sempre que estas têm um argumento melhor que o seu, sempre que a saia traçada não lhe passa cartão, sempre que a mulher é mais capaz e isso constitui um capar metafórico da sua masculinidade inflamada.

Para uma franja do mercado masculino, aqueles que têm massa encefálica em quantidade superior a 30 %, é uma condição que - Graças a Deus - não os afeta, porque a genética lhe deu testículos em vez de ovários. Estes agradecem a sorte que tiveram, e compreendem que às mulheres cabe uma realidade mais terrena, de contacto com a dor e as inflamações do corpo. Que faz parte da condição feminina e que isso não interfere com as capacidades da mulher, sendo idiota e descabido usar o chavão do "deve estar para te aparecer o período", num esgrimir de argumentos.

 

Porque a TPM existe, e malha o corpo da mulher, e remexe com os seus estados de alma, fazendo pouco do seu bem estar. 

O corpo fica mais frágil, mais sensível, menos capaz, menos propenso para o que tem de ser, desgostoso e cansado até para o que gosta. 

Há uma corrente elétrica que passa pelo corpo, um mau estar injustificado, uma angustia para que termine aquilo que nem se sabe ter começado. É ter fome de leão de manhã e ser incapaz de comer duas uvas à tarde. São os enjoos, os cheiros que incomodam só às vezes, as dores de cabeça, o corpo pesado, a falta de paciência, o assassinato do humor, a inflamação do sarcasmo, as respostas secas e diretas, resultado da impaciência e da profunda vontade de estar deitada, debaixo das cobertas à espera que tempos melhores venham ao de cima.

E sentir que o melhor sitio do mundo seria uma gruta com acesso à TV por cabo. Ver o This is us, a Anatomia de Grey, revisitar todas as temporadas do Sexo e a Cidade e acabar a ver Kardashians atrás de Kardashians. Porque: estas não devem ter TPM, nem menstruadas as gajas ficam, de certeza. Já devem ter arranjado alguma pílula dourada p'as gajas.

É ter vontade de comer porcarias, baldes de pipocas, caixas de chocolates. É a culpa quando os acabamos. É uma certa sensação de dormência ansiosa e persistente.

É ser capaz de ultrapassar os dias com todas as frustrações apesar do mau estar.

É sentir o corpo incapaz para o que devemos e mais incapaz ainda para o que normalmente queremos fazer.

É a pele que fica pior, fazendo-nos rogar pragas ao dinheiro gasto em cremes bons e que afinal não fazem assim tanto efeito.

É o ouvir das outras sortudas a contar as suas mil mezinhas: da avó, da tia, da mãe, da cunhada, da curandeira que conheceram em Curitiba (num dia de sol passado nas férias de verão - começam sempre com o "quando fui ao Brasil, conheci lá uma mãe de santo...", o resto é mato), da vizinha do terceiro esquerdo e do raio que me parta.

É sorrir e dizer que vamos experimentar, mas saber que merda nenhuma ajuda. Ajuda a genética, ajuda a sorte, de resto....

É o piorar depois de ter filhos. Porque os ovários depois de terem sido úteis resolveram passar a chatear, por enfado, porque são otários, porque não gostam de ver os outros quietos, porque acham que isto devia ser como os coelhos e procriar enquanto há óvulos, ou não sei o quê.

É o culminar com a dor já conhecida no baixo ventre, o derradeiro cansaço, para algumas a dor de cabeça, a enxaqueca, o enjoo, o dia sem fome, uma cruz no calendário.

A TPM não é para meninas.

Mas também não é para mulheres de barba rija. Porque isso quereria dizer que era para mulheres rijas como homens, e esses, são na maioria uns choninhas sem estofo para aguentar esta empreitada cíclica. Imposta pelo corpo, aquém da nossa vontade.

É a realidade de muitas mulheres, que, não sendo melhores que aquelas mais sortudas, têm de andar com M grande, para aguentar as condições do corpo, os comentários idiotas e machistas - proferidos pela boca de homens e de mulheres - que já não causam mossa de tão batidos que são, é uma capacidade de enfrentar os dias com mais convicção e perseverança porque a ignorância alheia também desgasta, suportando a fadiga e o cansaço, a vontade de entrar para a gruta e só sair de lá 20 Dirty Dancings e quatro baldes de pipocas doces depois.