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Blog Bestialmente Conhecido

Alô! É da Austrália…

Quando me perguntam de onde sou gosto de responder que sou um pouco de vários sítios. Fui buscar a minha tenacidade e perseverança aos genes nortenhos da minha mãe. Gente de Viseu que se viu arrastada para Lisboa a meio do século passado. No interior havia fome e pouco trabalho, na capital não havia muito mais condições, mas pelo menos havia trabalho para os pais e para os filhos.

Sim, os meus tios, as minhas tias, a minha mãe, todos começaram a trabalhar com 10 anos.

Na mesa onde comiam 10, comiam 11 e há mesa havia mais de 21 cabeças para alimentar. Entre filhos e sobrinhos. Os filhos de uma irmã que morreu em tenra idade. O pai quis seguir com a vida dele e a minha avó decidiu cuidar dos sobrinhos.

Sim, era o mesmo tempo em que havia meia dúzia de sardinhas para todos, as crianças comiam os lombos e a mãe comia as cabeças, “porque eram a parte mais saborosa”.

Sabemos lá nós alguma coisa da vida.

Fui buscar a meu tom de pele mais moreno ao Alentejo. A costela que herdei do meu pai.

Uma realidade diferente da minha família materna. Um principio de vida em Luanda. Um regresso porque o filho mais velho (o meu pai) havia sido mordido por uma formiga venenosa e queriam tirar a perna à criança. A minha avó pegou em tudo, enfiou a família num barco e regressou a Portugal.

Nasci em Almada. Num hospital que já nem funciona.

Passei a vida no Seixal e consegui acabar a minha adolescência sem meter pés no Ginjal.

Uma vergonha.

 

A minha mãe tinha sobrinhos de todas as idades, alguns quase da idade dela. De entre todos os sobrinhos que tinha no norte havia os que tinham emigrado. A vida em Portugal era difícil e quem queria mais tinha de deixar a terra para trás.

Parece que estou a falar do nosso país há 3 ou 4 anos, mas não, foi há quase quarenta.

Ao fim ao cabo o ciclo vai-se repetindo.

 

Uma das sobrinhas foi viver para Sidney.

Vinha cá uma vez de 5 em 5 anos, mais coisa menos coisa. Passava uma temporada, visitava tios e primos, trazia lembranças.

Lembro-me perfeitamente de “os primos da Austrália” nos virem visitar, de contarem que na terra deles havia cangurus e eu querer que me levassem. De o meu irmão me dizer que as tarântulas se escondiam nos sapatos e eu desistir de ir num ápice.

 

Depois de a minha mãe ter falecido perdemos o contacto. Nunca soube se tinham voltado para cá. Ou se preferiam a vida de ozzies lá na terra dos cangurus.

 

Na terça-feira recebo um pedido de amizade no Facebook de uma senhora com idade para ser minha mãe. Acontece-me às vezes receber pedidos de amizade de pessoas que não conheço. Elimino.

Normalmente tento perceber se pode ser alguém que conheça, mas que não esteja a reconhecer na foto.

Então entrei no perfil da pessoa e vejo que uma tia e vários primos eram seus amigos, olho para a localidade de residência e vejo: Sidney.

Penso: não me digas! Só podia ser.

Aceitei.

Recebo uma mensagem a perguntar se eu sei quem é.

Digo-lhe que sim.

Diz-me que somos primas.

E eu que sei, que me lembro perfeitamente da família dela e dos filhos e de que uma das pessoas tinha deixado de comer coelho.

 

Na altura, eu devia ter uns oito anos, e a filha dessa prima tinha a mesma idade que eu, como gostava muito de coelhos passou a recusar-se a come-los. Lembro-me que deve ter sido das minhas primeiras questões existências: devia ou não continuar a comer carne de coelho?

 

Depois da minha ultima mensagem ligou-me.

Nem sabia bem se havia de atender, era estranho voltar a falar com alguém ao fim de 26 anos.

Pensei: vamos ver no que isto vai dar…se parecer estranho, pelo menos não me vai convidar para beber café….

 

Atendi.

Falámos um bocado. Ela já tem os filhos crescidos. Já tem 6 netos. O filho mais novo que eu nunca vi vai para o Iraque (e eu espero que corra tudo bem).

Agora que tem tempo e uma ferramenta que agiliza os contactos (o facebook) decidiu começar a procurar as pessoas de família, saber como estão, falar em português, porque gosta e é tão raro.

 

Gostei daquele bocadinho.

Acima de tudo porque é alguém de quem sempre tive boas memórias. E esses, vale sempre a pena recordar.

 

Foi uma daquelas coisas que altera o dia por completo, porque chego a casa e posso dizer: nem imaginas o que me aconteceu hoje?

E não, não foi uma buzinadela no transito, não encontrei um idiota numa fila de supermercado, não apanhei uma camada de nervos, não perdi nem parti nada; recebi uma chamada da Austrália. Quem diria, hã!?

 

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