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Blog Bestialmente Conhecido

Anotações, desabafos e memórias de uma mãe

Sobe as escadas de mão dada e tenta sempre galopar 2 degraus de cada vez. Tem as pernas curtas de uma criatura de 3 anos, mas mesmo assim tenta. Se não o estiver a segurar, cai. Aviso-o a cada lance de escadas. E são muitos, porque são 3 andares. Tenta em todos, mesmo depois de eu ralhar, mesmo depois de eu abrir os olhos a dizer “NÃO!”

Chego à porta de casa mais esgotada pelos avisos que pelos degraus que acabei de subir.

 

Pede-me água. Dou-lhe o copo dele. Todo XPTO que custou o mesmo que um serviço de copos. Tudo para que tenha duas abas e não entorne. Estou a tentar apontar algumas remediações para o trabalho, preciso que se entretenha a brincar ou a ver um episódio de desenhos animados. Começo a ouvir água a correr. Verteu a água toda em cima do armário da sala, mesmo ao lado da televisão. Corro para remediar. Ralho. Ele diz-me: mãe fica contente! E eu fico zangada comigo, porque tenho aquela cara de anjo a pedir-me para estar contente e eu estou danada porque ele está a fazer asneiras umas atrás das outras. Pergunto-lhe porque fez a asneira, esclarece: estava a fazer uma poça para o Rocky ir ao fundo.

Uma brincadeira que não se coaduna com a manutenção de bens de gente adulta.

 

Vai para o quarto, chama por mim, não vou à primeira e ouço um estrondo, derramou uma das gavetas grande de bugigangas que tem lá em casa. Brinquedos espalhados pelo soalho todo. Respiro fundo.

 

Vem ter comigo à cozinha. Quer ajudar com o jantar. Diz que se vai sentar na mesa da cozinha. Peço que espere, vou já ajuda-lo. Quando olho para trás já está sentado.

Respiro fundo.

 

Pede uma tarefa. Naquele momento não tenho para lhe dar.

Pede pão com queijo.

Dou-lhe.

Quando volto a olhar fez uma espécie de obra de arte com a comida.

Ralho. Não se brinca com a comida.

Tem sede. Pede água no copo do Mickey.

Dou-lhe.

Bebe três golos e, quando me volto para a frente, o copo tem um "acidente". Caiu e o chão está cheio de água. O pai acabou de chegar com os cães da rua e ajuda a limpar. Peço que fique sentado e quieto para não pategar o chão. Insiste que tem de descer.

 

Vai buscar todos os brinquedos e espalha-os na entrada da cozinha. O Nuno olha para o lado e vê que acabou de encher a malga de água dos cães com carrinhos. Ralha com ele.

Jantamos.

Faz mil acordos para se esquivar ao prato. Acabamos com 2 gomas se comer tudo sem refilar.

Come as gomas.

Vai para o chão.

 

Eu vou arrumar coisas para o dia seguinte. O Nuno trata da loiça.

Dou com ele aos saltos em cima da cama com os ténis todos sujos. Ralho com ele.

 

Como gosta de ajudar com as tarefas convenço-o a vir ajudar-me a apanhar e estender roupa. Enquanto estou a tirar a roupa do estendal, ele transforma uma mola numa tenaz e está a tirar a roupa da cesta “para passar” e a minha blusa vermelha já está cheia de pelos dos cães. Ralho com ele.

 

Vai para o banho. Mil voltas para lavar os dentes. Quer ver os armários todos antes de entrar para a banheira. Peço-lhe que fique no tapete anti derrapante. Passa o duche todo a tentar passar-se para fora do tapete. Ralho com ele.

Fico irritada por estar sempre com ralhetes.

 

Vamos para a cama, uma guerra para limpar o nariz.

 

Estou esgotada ao final do dia.

 

Sei que não é por causa dele. Que são as minhas semanas intermináveis, com problemas de trabalho que arrasto comigo, preocupações que não são dele, um cansaço que ele não entende.

 

Recosto-me na cama e primeiro ocorre-me a pergunta que toda a gente faz: então quando é que tens outro?

NUNCA!

 

Depois sinto-me triste e culpada, há certamente alguma coisa que eu estou a fazer mal, porque raio ralho com ele tantas vezes. Devia ter mais paciência, ser mais tolerante.

 

Depois penso na minha mãe. Como por vezes não compreendia que ela estivesse irritada. Como é possível que agora, aos quase 35 a compreenda como nunca. É que nós pais andamos a um ritmo, e os nossos filhos, se tudo estiver a correr bem, andam a outro. Não de debruçam sobre as preocupações que nos apoquentam.

 

Quando eu nasci, em 1983, a minha mãe ficou mais assoberbada do que já estava.

Lá em casa havia um adolescente com 13 anos (na altura era apenas um miúdo, não havia estes conceitos); um pré-adolescente com 10 anos (também não havia este conceito); uma criança com 6 (este conceito mantém-se); e uma bebé acabada de nascer. A somar, a minha mãe ajudava a criar as minhas duas primas, com 5 e 7 (creio eu?!) anos, respetivamente.

Não era só dona de casa. Trabalhava a tempo inteiro por conta própria a partir de casa.

A casa onde cresci estava sempre imaculada e organizada. Podíamos comer do chão se preciso fosse.

 

O meu irmão mais velho colocou a fasquia alto. Era um miúdo pacato e cresceu para ser um adulto pacato. Focado na resolução de problemas, metido com a vida dele, de fácil trato e com amigos por todo o lado. Nunca deu problemas à minha mãe. Depois nasceu o meu segundo irmão. Para provar que da mesma árvore há vários frutos, andava sempre metido em alhadas. Com 3 anos era o terror de casa. Todos pensavam que havia um cão que atacava o galinheiro até terem descoberto que ele se fechava lá dentro com as galinhas e lhes arrancava as penas. Oferecia porrada ao meu pai em defesa do meu irmão mais velho e, com os seus 8 anos tornou-se o tipo mais temido da praceta. Uma tarde, um grupo de miúdos roubaram a bicicleta de um amigo dele. Quando ele chegou para jogar à bola o outro chorava. Ele disse-lhe apenas: espera aqui que eu resolvo isto! E resolveu. Ninguém sabe como nem porquê, mas ele voltou com a bicicleta sem uma única arranhadela. Foi expulso de 3 escolas e bateu num superior quando foi para a tropa. Apesar disso era quem estava sempre preocupado para defender a família toda e os irmãos. Quem se metesse connosco, aí, aí!

O meu irmão mais novo totalmente diferente dos outros dois. Um miúdo excecionalmente inteligente, sensível, e com alguns problemas de saúde. Os meus pais foram chamados à escola, queriam que o metessem numa escola privada ou que pusessem os papeis para que o avançassem uns anos. Era demasiado inteligente e tinha demasiada informação para ir para a 2ª classe, devia saltar pelo menos um ano. O Ministério não aceitou. Não havia dinheiro para um colégio privado. Continuou a escola e, como muitos que estão acima do que lhes está a ser ensinado, perdeu interesse pela escola.

Nasci eu. Obesa, num parto para lá de difícil. Fechada. Desconfiada. Menina metida com os seus assuntos. Teimosa para lá do razoável. Desabrochei depois de entrar para a escola, onde encontrei o meu mundo nos livros, nas letras, nas palavras. Fui a única que fez a escola toda. A única que se formou. Mas isso a minha mãe já não viu.

 

Nestes momentos volto a ser miúda e compreendo a impaciência da minha mãe, a mesma que eu tenho agora. Compreendo que ele não entende da mesma forma que eu não entendia e adapto-me. Adapto-me sempre que consigo, a essa falta de conhecimento que ele deve ter.

Dou a mão ao meu filho e a outra à minha mãe. Vejo 3 gerações, a dele, a minha e a dela. Compreendo-a hoje e espero que ele, um dia, seja também capaz de me compreender a mim.

A vida, um dia mais tarde, vai explicar-lhe porque nem sempre é perfeito.

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