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Blog Bestialmente Conhecido

Até hoje só conheci liberdade

A minha mãe contava que se falava em segredo em casa. Que as opiniões não se davam em viva voz. Que se sussurrava com medo dos vizinhos, nunca se sabia quando havia um da PIDE na porta ao lado. Não era preciso ter opiniões comunistas, bastava ter opiniões diferentes das do vizinho. Bastava que o vizinho não gostasse.

Esse, mais tarde ou mais cedo, havia de fazer uma queixa, havia de manobrar palavras e histórias para penalizar aqueles de quem não gostava.

As pessoas não tinham só medo do regime. Tinham medo umas das outras.

 

Na escola primária a Maria Helena contou-nos uma história que nunca mais esqueci. A história da sua amiga, a quem vou chamar de Manuela, uma vez que não sei o seu nome verdadeiro.

 

Manuela tinha sido mãe há pouco tempo. Era uma mulher bonita e agradável, todos gostavam dela. A vizinha, mulher sem filhos, azeda e mal aceite pela forma como se impunha aos outros, detestava ouvir o bebé da Manuela a chorar. Um dia bateu-lhe à porta:

- Se não o calas eu arranjo maneira do teu marido ir para os calabouços da PIDE.

- Mas o meu marido não fez nada.

- Dizes tu. Eu tenho ouvido as conversas dele à noite. Tenho visto elementos do partido a vir cá a casa. Tenho presenciado muita coisa que não está correta.

- Mas isso não é verdade.

- Dizes tu. Eu acho é que se não calas esse bicho que tens em casa, tudo isto passa a ser verdade.

A Manuela teve de encontrar uma solução. Saia de casa quando o bebé chorava. Viveu um tormento até ao dia em que a vizinha não podia inventar mais histórias e fazê-la sofrer arrolada a uma mentira.

 

Eu nunca conheci outra coisa que não fosse a liberdade de ser e dizer o que bem entendesse. De poder falar a bandeiras despregadas sem que alguém me pudesse punir por isso.

Não sei o que é viver num regime de silêncio e agradeço a este dia por isso. Agradeço a todos os que o levaram a cabo. Sem ele este blog não era possível. Onde digo o que penso, o que sinto.

Para mim, que nasci em 1983, o 25 de abril fez com que estas histórias fossem só isso: histórias. Pertencem ao passado. E é lá que devem ficar.

 

Não sei viver sem liberdade, não conheci outra coisa, mas preocupo-me. Aos poucos preocupo-me com a direção da nossa sociedade. Os nossos pais andaram à trolha para que nós fossemos livres, para que a liberdade de expressão fosse uma realidade e vejo que hoje, a nossa geração tende a castrar. Censura as palavras e as opções dos outros. Isso é evidente na forma como se criticam as opiniões, não são contestadas com outras opiniões, diferentes argumentos, há uma vontade imperativa de silenciar. E é isso que me preocupa.

 

Este dia representa a liberdade de todos termos uma opinião, seja ela qual for, e é fundamental que esta geração, assim como as gerações vindouras, que só conhecem a liberdade, a compreendam e a levem a cabo, tendo sempre presente que todos têm direito a ser livres de expressar a sua opinião, com debate sim, mas sem censura, sem o desejo cada vez mais forte de calar e abafar quem pensa de forma diferente.

 

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