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Blog Bestialmente Conhecido

Caiu a pique

A minha mãe era extremamente zelosa.

Capaz de prever todos os cenários, delinear estratégias, delimitar espaços sem sequer precisar da ajuda de um desenho. O que os filhos dos outros faziam era lá com os outros, o que os filhos dela faziam era assunto dela.

Mesmo assim, e por estranho que possa parecer nós conseguimos partir cabeças, braços, esfolar joelhos mil vezes e andar sempre cravejados de nódoas negras.

Hoje, olhando para trás nem sei como foi possível que isso acontecesse, com tanto zelo, como é que conseguíamos arranjar margem para nos esbardalharmos.

Há uns anos, se me perguntassem diria que quando uma criança cai temos de agir com naturalidade, não a assustar, não nos assustarmos. É normal.

Agora, que sou mãe, gostava de almofadar o planeta para ver se o miúdo não se me esbardalhava quando os pés lhe falham.

 

Transformei-me na minha mãe, tento prever cenários (de hoje até à faculdade), delimitar espaços (só não ponho fitas como o CSI) e delineio estratégias para o que pode ser feito (quando ele vai ao parque de diversões seria de imaginar que eu e o Nuno somos membros dos serviços secretos...). Só ainda não ganhei olhos na parte de trás da cabeça, porque ela tinha, estou certa disso.

 

Ontem comprei-lhe umas bugigangas. Umas surpresinhas de sexta feira. Coisa pouca - e útil - para dizer adeus à semana.

Passei na Tiger (mestre em bugigangas de todos os géneros) e comprei-lhe uma escova de dentes nova (adora escovas de dentes mas isso é todo um outro post), uma cabeça de coelho que serve para tapar a escova de dentes e uma ampulheta para contar o tempo que ele está a lavar os dentes.

Quis experimentar logo.

Correu para a casa de banho e fez o habitual. 

Sentou-se em cima do tampo da sanita, como se fosse uma cadeira. Gosta de me ficar a ver a preparar a escova enquanto fica a fazer caretas para o espelho grande.

Eu, como consigo vê-lo o tempo todo pelo espelho sinto que tenho os tais olhos na nuca.

Viro-me, explico-lhe como funciona a ampulheta e estendo-lhe a escova.

 

Numa fração de segundo, não percebi como e, sinceramente, acho que ele também não, o miúdo cai-me a pique lá de cima. Teve tempo de pôr as mãos à frente, mas bateu com a cabeça na mesma.

Foi mesmo ali, nas minhas barbas. Não consegui perceber o que raio aconteceu.

Chorou. Ficou com um valente galo.

Eu engoli os meus medos, a minha vontade de desesperar e mantive-me calma. Disse que estava tudo bem, que um galo ia cantar logo à noite (era o que a minha mãe dizia). Dei-lhe um beijinho no galito - que ficou bem tapado pelo mar de caracóis que ele tem. 

 

O Nuno chegou a casa, tinha saído para ir passear os cães. Olhei para ele como se um tsunami tivesse entrado em nossa casa.

- É só um galaro!

- Achas que pode ter partido a cabeça por dentro? Por fora não há sangue...

- Tem juízo!

 

Passei o resto do serão a tentar aferir os sinais vitais e consciência do pequeno, apurar se havia algum desvio de normalidade que requeresse debandar em direção às urgências, sitio no qual iriam envolver a sua cabecinha de caracóis em gaze, tal como nos desenhos animados. Eu ia ser interrogada pelo médico sobre onde estava, o que estava a fazer e porque motivo não tinha evitado tamanho desastre.

 

(Este maravilhoso espaço de entretenimento tem conta no facebook e também arreia texto e imagem no Instagram. Ainda não segues?  Shame on you...)