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Blog Bestialmente Conhecido

Então quando é que dão um irmão ao puto?

Quando namoramos com alguém há algum tempo, já apresentámos à família, até já comprámos casa ou já juntámos os trapos; quando parece que a coisa é para ser séria a pergunta que se impõe sempre é: então quando é que casam?

Não é se querem casar, se gostariam de casar, se pensam em casar, o que pensam do casamento, ou se estão felizes assim, sem festas de vestidos brancos e papillons. Não, é sempre para acontecer restando saber quando.

Toda a minha gente o pergunta. É como se fosse uma espécie de pergunta de elevador mas para pessoas mais próximas.

Depois casam e a malfadada passa a ser: então e filhos?

Não é se querem filhos, se está a correr bem, se têm planos conjuntos.

Filhos. É o único passo aceitável.

Se um casal, depois de 1 ou 2 anos de casamento ainda não tem herdeiros começam-se a orçamentar razões: um deles não consegue, ela anda a fazer tratamentos, ela é muito independente e não se quer ver agarrada a filhos, ele é muito infantil, discutem demasiado e já houve alguém que soubesse que ela foi passar uns dias a casa dos pais (mesmo que não tenha ido). Contam-se pelos dedos de uma mão - e não são precisos todos - as pessoas que se inibem de fazer conjeturas e ditar novelas com as vidas alheias.

 

Eu tratei de todos os assuntos de uma só vez. Planeámos o casamento em Janeiro (ninguém soube), engravidei em Maio, soube em Junho que estava grávida, casámos em Julho e em final de agosto comunicámos a toda a gente que tínhamos casado e que íamos ser pais.

 

A diferença deixa as pessoas sem palavras. A certeza de que somos meio estranhos. A mim deu-me o descanso de fazer as coisas à minha maneira.

 

Chegamos então à terceira pergunta da praxe: para quando mais filhos?

Não é se queremos. Para quando o próximo? É isso, sempre o quando, nunca o se.

Quando temos um filho com 3 anos as pessoas começam a pressionar para que venha mais um. Se temos algum apoio são ainda mais incisivas. Porque temos muita sorte de ter os avós para ajudar, por isso podemos sempre fazer como os Gremlins e orientar uma cria por ano.

Tudo o resto é acessório.

Para os outros, que estão de fora. Porque a vida dos outros é sempre fácil de gerir.

 

Não deixa contudo de ser engraçado que, quando alguém anuncia um terceiro filho se encontre uma manifestação de surpresa acoplada com as perguntas e observações também mais batidas que o catano: a vida deve estar a correr bem, três porra!, mas os segundos são gémeos?, devem estar a ganhar bem, se dois já é difícil imagino com 3. Ou seja, como sempre, na vida dos grandes gestores de vida alheia há um numero certo e uma hora ideal para fazer tudo. Pena que não apareça escrita num livro. 

 

Importa contudo fazer a diferença entre quem brinca e quem fala a sério. Eu não sou dada à deixa do casamento, talvez porque não goste de casamentos, mas já mandei a "agora é começar a fazer filhos pá!", claro que o faço com quem estou à vontade e com quem confio que sabe que estou a fazer pouco da situação.

Até porque as pessoas quando se põem com esta conversa não sabem em que momento da vida estão os outros, não sabem se até o querem mas não estão a conseguir, e por isso não sabem que às vezes causam dor em quem já está magoado por ver um sonho por realizar.

 

Nunca gostei que me fizessem estas perguntas de algibeira. Sim de algibeira. Uma coisa é uma pessoa amiga, próxima, que sei que gosta de saber de mim. Se essa pessoa me pergunta se não estou a pensar em casar, fá-lo num contexto mais intimo, em que não estejam mais 10 pessoas a assistir à minha resposta, e fá-lo porque quer genuinamente saber de mim. Nos outros cenários a pessoa faz a pergunta para não ficar calada, para atirar para o ar, desconsiderando por completo o incomodo que pode causar.

Vamos pegar num exemplo. Um casal que está junto há bastante tempo mas as coisas têm estado tremidas, é algo que não tem de ser do conhecimento de todos, e e algo que pode gerar incomodo.

O mesmo acontece com um casal que esteja a tentar ter filhos, se quer manter essa dificuldade para si - eu sei, as pessoas tendem a achar que se tem de partilhar tudo (não têm!!!) - vão ficar incomodados com a pergunta.

 

Eu tive momentos em que me incomodei. Depois fui aprendendo a borrifar-me e agora, que me deparo frequentemente com a 3ª maldita tenho já resposta pronta:

 

Estou a pensar dar-lhe uma playstation aos 5. Um cão de grande porte - que possa lidar com as suas brincadeiras mais brutas - logo que nos mudemos para uma vivenda. Um gato pela mesma altura. O novo Patrulheiro da Patrulha Para quem sabe para o Natal. Mas um irmão é coisa que não está nos planos e até ver o futuro parece-me brilhantemente delineado apenas com um filho. Até porque os pais devem ter filhos porque querem ser pais, não porque os filhos querem irmãos. Pelo menos na minha cabeça é assim: Todos os filhos devem resultar de um desejo carregado de amor dos pais (sejam homem e mulher; homem e homem; mulher e mulher; seja que tipo de casal for, valendo o mesmo para famílias mono-parentais) de ter um filho, seja o primeiro ou o décimo.

 

E porquê? Para os mais curiosos.

Não esperei anos para engravidar, ao contrário do que pensei que pudesse acontecer. Mas tive uma gravidez difícil de de alto risco, como eu nunca julguei possível.

Vomitei-me durante 4 meses. Enjoei coisas que ainda hoje não consigo comer. Antes dos 5 meses já ficava sem fôlego em qualquer circunstancia e rapidamente tive de lidar com contrações que me obrigavam a estar escarrapachada no sofá como se fosse uma amiba.

A cesariana não foi tão simples quanto eu pensava e a minha ligação com esta criatura foi mais intensa do que eu estava à espera.

Não me consegui tornar na mãe sensata e sempre com os livros certos na ponta da língua que julguei. Vou aprendendo a descomplicar as coisas conforme aparecem e percebi que a melhor coisa que tenho a fazer é deixar os livros na prateleira.

É claro que há muitas dicas úteis, mas para a maior parte dos casos é preciso confiar na nossa forma de pensar e naquilo que sabemos dos nossos filhos. Nos livros os miúdos parecem sempre iguais. Na realidade são muito diferentes, porque não há duas pessoas iguais, mesmo que sejam gémeas.

Porque me entristeço todos uns dias um pouco com a vida que tenho e com a falta de tempo que dela resulta para que eu possa ser uma mãe mais dedicada, mais presente, que ensina com tempo, com detalhe.

Depois recupero e penso que a vida é como é e para a frente é que está o caminho.

O meu miúdo tem uma energia infindável e eu não me imagino a passar por outra gravidez destas enquanto corro atrás desta criatura duracell.

Não consigo cozinhar na minha cabeça como é que conseguiria absorver os momentos importantes de ambos. Assusta-me profundamente perder ainda mais deste e não registar nada de um próximo.

Por isso a resposta é: provavelmente nunca. Porque na maior parte dos dias consigo chegar a um equilíbrio com este. A gravidez já lá vai, o tempo é escasso mas eu ainda o estico para estar todos os dias. 

Aos poucos vou conseguindo ser pessoa também, vou organizando e reorganizando os dias para que me permitam ser pessoa e mulher sem ter de estar sempre com o fato de mãe vestido. Momentos pequenos, minutos, que me permitam respirar, fazer algo por mim e estar mais satisfeita comigo e com a vida o que resulta numa pessoa mais satisfeita e disponível para o seu filho muito ativo.

Por hora a vida é assim. Estamos organizados na nossa desorganização.

E estamos muito bem assim.

 

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