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Blog Bestialmente Conhecido

Espelhos

Todos os objetos da minha casa se refletem a si mesmos. Nenhum copia a minha imagem. Bani-os, os malditos. Aqueles que se assemelham a cinzento mas vivem de imitar quem passa, quem tem essência. Quão triste será para o objeto saber-se vazio de si mesmo, conhecer que a sua essência depende da existência de outros. Viver para os criticar, para lhe impor diferenças, para o relembrar do que não se coaduna com o sonho, das cores que não combinam aos olhos, mas que noutra circunstância, sem a sua censura teriam o prazer de conviver em conjunto.

Parti-os a todos. Fartei-me da sua ditadura. Do espelhar de uma imagem que não reconheço em mim. Fatiguei-me que me relembrasse das minhas imperfeições, que vincasse as noites mal dormidas, que fizesse imperar uma tristeza persistente de não coincidir com os padrões deste mundo que olha primeiro, filtra com o seu preconceito de estereotipo, depois – quem sabe – conhece.

Sou o que me vejo quando olho em meu redor, as cores combinam com a minha disposição, se a roupa me permite respirar é porque me serve e se me serve, se me faz sentir tudo aquilo que quero sentir, então é a roupa que devia vestir. Deixei de comparar a perfeição do meu rosto com a dos outros. Aquilo que me vejo de olhos fechados é o que sou, tantas vezes destronado com o acender da luz perante o desgramado.

O telefone tocou, era horas de acordar, no guarda fatos ainda lá estavam os retângulos desprovidos de vida própria, os que me refletem. Lembram-me que aquilo que vejo de dentro é diferente do que reflito nas suas telas. E eu combinei as cores como o maldito ditou.

 

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