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Blog Bestialmente Conhecido

ESPERA! Eu vou falar com a mãe dele

Fomos dar o dito “passeio do xixi” pelas redondezas. Mexer as pernas, passar pela secção de brinquedos do ‘Tinente, comprar algumas coisitas para o jantar. Enfim, coisa miúda de vidinha caseira.

No ‘Tinente o senhor segurança achou que lhe estava a fazer fornicoques o piqueno estar a experimentar o sofá de exposição e eu, que não estou para me chatear em dias de tranquilidade, disse-lhe que íamos andando até ao jardim.

Não sei bem como é que se espera que uns sofás de vendam só pela experimentação ocular, mas se essa é condição sine qua non, eu dispenso.

Estamos a falar de um estabelecimento frequentado maioritariamente por clientes sénior, que jogam valentes cartadas em dias de chuva com os befes sentados nas cadeiras da pastelaria do espaço a troco de 4 copos e água bem cheios faxavore!, e por fluxos extremos de chefes e chefas de família que têm o jantar para fazer. Há sempre 2 seguranças, os do turno de dia são sempre grandes matulões, lamento a comparação, mas parecem-se sempre armários de 4 portas. Os de final do dia, parece que tinham sido comidos pelos primeiros, franzinos que só eles.

Deve querer dizer que a mitragem da minha zona só ataca das 09 às 18, nada de horas extra para a gandulagem.

 

Vai daí e ontem, num tédio só, o senhor segurança achou que o que o maior delito era mesmo uma criança de 3 anos estar sentada num sofá de exposição.

Certo!

Pena que não ponham os olhos nos gatunos que roubam os brinquedos das caixas deixando o cartão que o bonequito segue no bolso. Mas bom, questões existenciais de moimeme.

 

Seguimos tranquilos para o jardim.

 

Duas voltas no escorrega, Sôtor identifica um menino a brincar com um carrinho amarelo na areia. Vai ter com ele.

 

Sôtor – Empresta-me o teu carro.

Miúdo que não sei o nome – (nada)

(à falta de resposta vira-se para o adulto mais próximo com o qual tem confiança, ou seja, eu)

Sôtor – Eu quero o carro dele.

Eu – Tens aqui o teu, o menino precisa do dele.

Sõtor – Mas eu quero o dele.

Eu – Mas ele também o quer.

Sôtor (para o Miúdo que não sei o nome) – Toma! Ficas com os meus brinquedos (eram 2) e eu brinco com o teu. Trocamos.

Miúdo que não sei o nome – (encolheu-se e nada)

Eu – Sôtor, o menino quer brincar com as coisas dele. Deixa o menino. Brinca com o teu carro.

 

(mais 3 insistências, parecia um daqueles vendedores agressivos, já tinha posto ao colo do Miúdo que não sei o nome os brinquedos dele e tudo)

 

Eu – Já vimos que o menino não quer trocar. Brinca com as tuas coisas. Já chega desta conversa.

Sôtor – ESPERA! Eu vou falar com a mãe dele.

 

No período de 30 segundos em que eu fiquei estupefacta a olha para ele, esta criatura-que-eu-trouxe-ao-mundo foi mesmo ter com a mãe do outro miúdo e disse-lhe:

- Ó mãe, diga-lhe lá para ele me emprestar o carro.

 

Eu morri de vergonha ao mesmo tempo que podia cair para o lado de riso não fosse estar de cócoras.

A senhora não sabia onde se enfiar. Riu-se.

 

Foi falar com a mulher 2 vezes, DUAS!

 

Lá falei com ele, fartou-se daquilo e fomos para outro sitio.

 

Contexto: Está habituado e ensinado para partilhar. Insistimos bastante com ele. Não gosto de egoísmos, ainda que os saiba naturais no ser humano e especialmente em crianças que estão a aprender. Gosto que saiba emprestar, trocar, e brincar sem se chatear com as outras crianças. Gosto disto tudo mas também não quero que seja um panhonha que empresta tudo e fica sem nada. É uma linha difícil às vezes, mas que deve ser ensinada. Por isso, para ele, é a coisa mais natural chegar, colocar os brinquedos dele à disposição e que os outros façam o mesmo. Mas, nem todas as crianças são assim (NEM TÊM DE SER!). É esta ultima parte que ele não aceita muito bem.

 

Fica para mim a capacidade estonteante que este meu filho tem de fazer 2 coisas: resolver problemas (ou tentar, vá!); deixar-me a fazer figura de “que raio de educação dá esta ao puto?” perante outros pais.

 

Para os que pensem esta última pergunta, apresso-me a responder: uma educação com liberdade mas com limites bem definidos. Uma com liberdade de pensamento para que ele nunca pare de procurar as soluções, nunca se foque nos problemas e consiga sempre ver o melhor da vida (ou sempre que possível, que eu também não sou dada a frases de pôr do sol). Uma educação em que ele é livre de tentar desde que seja educado e respeitador do outro.