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Blog Bestialmente Conhecido

Esta coisa de rir e fazer rir

Fazer rir pode ser um lugar muito só. As pessoas olham para nós com uma certa imposição de “então, faz-me lá rir, pá! É para isso que aqui venho”. Essa imposição pesa, pesa porque nem sempre existe disposição para fazer rir. Aliás, muitas vezes não há qualquer vontade de rir sequer. Mas quem faz rir (ou quer fazer rir, vá!) também usa o humor como uma catarse individual e egoísta, para melhorar o seu dia, um momento, nem que seja para esquecer as trivialidades nefastas do dia a dia, quem sabe aquilo que corre mal e que lhe apetece guardar para si.

“Mais vale rir”, diremos.

Todas as pessoas têm direito a maus dias, mas quem faz rir, quem “tem sentido de humor”, perde, de alguma forma, esse direito que se não é, devia ser constitucional. Ou seja, o direito à liberdade para se sentir sem pachorra para arrancar uma gargalhada a alguém. Para estar sem paciência para falar de coisas, sejam elas quais forem. Sem o direito de poder ser sério, se assim entender.

Há uma espécie de jogo do sério, mas na vida real, em que quem faz rir parece perder, de alguma forma, uma parte da sua credibilidade, o que diz tem de ser sempre uma chalaça, quando não tem graça há sempre a avaliação do “ficou chato” que é como quem diz “hoje não me causaste entretenimento”. Tudo isto até ao dia em que se pisa os calos a alguém, nesse momento, no segundo concreto em que a piada não surte o efeito pretendido, invariavelmente pelas seguintes ordens de razão: mexemos com crenças, gostos e hábitos de alguém; fizemo-lo em relação a alguém que gostam. Nessa altura, quem faz rir ganha drasticamente uma seriedade que não procurava e passa a ser um pulha da sociedade. Um alvo para critica desmedida, ofensa ocasional e desdém, perdendo qualquer interesse tudo o que fez até esse momento.

Fazer rir é das posições mais ingratas que se podem encontrar. Primeiro porque é preciso ter uma opinião. E sabemos que ter opiniões hoje em dia, se não forem ao encontro das modas, está logo tudo estragado.

Fazer rir pode oferecer dos momentos mais gratificantes que podemos encontrar, arrancar uma gargalhada a alguém que está a ter um mau dia é uma espécie de prenda. Melhora o dia de quem se ri e melhora o dia de quem fez rir.

 

Mas para rir e fazer rir é sempre preciso a participação despretensiosa, descomplexada, não-paranoica e não-critica, de pelo menos 2 pessoas: a que ri e a que faz rir.

Isso nem sempre acontece.

 

Frustra-me ver que existem pessoas que se intitulam ao direito de definir aquilo sobre o qual podemos rir. Cada um sabe o que é que lhe arranca uma gargalhada, nem a própria pessoa sabe porque é assim, é. Ponto. Como um mistério não desvendado dentro da nossa cabeça.

Espanta-me que em pleno seculo XXI ainda se considere que há um tipo de humor certo. Parecem existir caixinhas imaginárias sobre temas que podem ter usados para rir e outros não. As mulheres estão a chegar ao poder (Ámen), a liberdade sexual já não é um tabu (Graças a Deus), mas o humor, esse ainda está nas trincheiras, um negro, outro alternativo, presumo que haja um branco e ainda o cor-de-rosa.

As pessoas que fazem humor têm de ter sempre as mesmas características e as exigências que lhe são feitas sempre iguais. Fazer rir independentemente da sua vontade porque quem gosta de fazer rir gosta sempre, cá agora problemas quotidianos a meter-se pelo caminho e escolher bem os temas em que se mete porque se a pata pisa a poça “está o caldo entornado”.

Por cima disso ainda tenho o direito de lhe dizer das boas se a graçola não me cair cá no goto como eu acho que devia.

 

Este provavelmente é mais um daqueles posts que nem são lidos até ao fim, como já me foi dito. Não fazem rir, não têm palhaçada imediata, pelo que, adiante.

 

Hoje não me apetece fazer rir, porque também eu estou assim um pedaço blhec cá para mim.

 

Ósculos e Amplexos

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