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Blog Bestialmente Conhecido

...mas nunca me esqueci de ti...

Quando acordava já estavas a pé há horas. Já tinhas cortado três fatos e alinhavado dois vestidos.

- Despacha-te, hoje vamos à Senhora da boutique.

E eu despachava-me. A nossa casa sempre foi quente e o sol enchia as assoalhadas de luz.

Só sei viver em casas com luz. De resto tudo me parece ofuscado, e as luzes artificiais não contam.

- O que é que queres vestir?

- Pode ser o vestido das flores?

- Pode. Leva os ténis brancos que ficam mais bonitos.

E tu arranjavas-te. A tua saia traçada, as tuas sandálias de salto alto, em cunha, porque descer a calçada portuguesa da rua principal era um martírio. A tua blusa creme de cetim o teu colar de pérolas. Numa mão o saco com a roupa arranjada, debaixo do outro a carteira, presa entre o tronco e o interior do braço.

Não havia telemóveis naquele tempo e para ir à vila visitar uma cliente não era preciso mala de ombro.

Arranjavas-me o cabelo em canudos. Demorava tempo. Mas naquela altura o tempo era diferente e os ponteiros do relógios passavam com outra paciência.

- Mas não são só arranjos? – perguntava-te.

Quando eram arranjos um de nós podia entregar, não era preciso que descesses a rua principal até à avenida para entregar roupas de pequenos arranjos a clientes.

Mas havia dias assim, em que nos preparávamos de manhã, em que saíamos para ir ao centro da vila. Em que eu me arranjava com a vestido que gostava mais, em que te arranjavas como a senhora que sempre foste, em que caminhávamos como quem ia à bica, mas na verdade íamos apenas bater perna no centro da vila. Dizer olá às clientes que eram amigas, voltar para casa a tempo de preparar o almoço. Eu passava as tardes entre brincadeiras, livros e os mesmos filmes de sempre. Tu trabalhavas até depois do jantar.

Ensinavas-me a tirar pespontos das roupas prontas, aquelas costuras incorretas feitas à mão com linhas velhas e coloridas, a preparação antes de costurar tudo na Singer.

 

Visitávamos a Adelaide nas fotografias, víamos o que de bonito lá havia, ela elogiava-te e dizia que linda estava a tua menina. Dali seguíamos para entregar os arranjos, falar com a D. Odete ou D. Otília, já não me lembro bem. Aquela que pagava bem, certo, a horas e que dava gorjetas maiores que o preço da encomenda. Às vezes lá trazia eu uma roupa nova, da coleção anterior, a senhora feliz porque me tinha feito feliz, as netas já não gostavam das roupas de boutique. Tu grata e eu alegre. Para mim só havia roupa costurada por encomenda, em casa, feita na Singer. Roupa de boutique era novidade.

Seguíamos para o mercado, comprar algum peixe para o jantar. Cumprimentávamos a peixeira amiga, aquela cujo nome já não me recordo. Conversavas um bocado. E seguíamos viagem.

Ultima paragem na casa da Marizé. Coitada sempre convencida que as vizinhas lhe mandavam mau olhado para casa. Sempre fechada numa casa escura, a gastar rios de dinheiro em eletricidade, porque as janelas e as varandas estavam tapadas com cobertores.

Não tinha amigas porque toda a gente a achava choné. Tu gostavas dela. Eu gostava que o genro dela trabalhasse na Olá e adorava trazer gelados de todos os tipos e feitios para casa.

“Manda cá a menina que tenho cá tantos que já não me cabem na arca”, ligava ela às vezes para dizer. E eu descia à vila de mãos vazias. Voltava com sacos para refrescar a família toda.

Às vezes íamos beber um café com a Marizé, outras apressávamo-nos para fazer o almoço.

 

Sempre de braço dado, com coisas para contar. As que eu aprendia na escola. As que eu lia nos livros. As que tu sabias que eu devia aprender. As que eu não queria entender e tu insistias em explicar.

 

Eram assim os nossos dias de Primavera, de principio de verão, quando ainda não havia praia, quando os dias eram longos e quentes, quando havia trabalho para fazer e nós tínhamos que nos entreter. Quando não havia televisão com 300 canais, a internet estava a anos de distância e os computadores eram caixotes brancos que custavam uma fortuna, destinados a pessoas com cursos especializados e que sabiam escrever coisas em ecrãs pretos com letras verdes. Em que os livros eram sempre em papel, os quadros da escola em ardósia e não havia alergias ao giz. Em que anotávamos as aulas nos cadernos com canetas de várias cores, em que a tabuada de decorava e as contas de faziam de cabeça.

Eram assim os nossos dias de Primavera, de principio de verão, quando eu ainda era uma menina que não sabia que o mundo podia ser mau, quando tu eras saudável, quando eu e tu éramos nós. Quando eu acordava com a certeza de que estavas sentava na tua Singer a fazer algo de maravilhoso. Como sempre.

Quando víamos a novela “Felicidade” e falávamos sobre os personagens como se os conhecêssemos desde sempre.

 

Faz hoje 22 anos que desapareceste da minha vida. Faz hoje 22 anos que soube o que era sentir dor, uma dor profunda, lancinante, sem que ninguém me tivesse tocado.

Não sabia que era possível sentir dor física sem que algo fosse arremessado contra mim.

Foram muitos os anos em que recordei esse dia. O dia do adeus, o dia com que nunca me conformei, o dia da partida inesperada, o dia em que foi definitivo. Não voltavas mais.

O dia em que se tornou estranho entrar em casa, abrir a porta e esperar ouvir a tua voz. Mas ser recebida pelo vazio.

Ainda hoje, quando abro a porta de casa, 22 anos depois, sou capaz de te ver, a máquina de costura na varanda – o teu escritório improvisado – banhada pelo sol, tu sentada na Singer a costurar mais um fato.

- Então como foi a escola?

E eu contava. Contava-te o meu dia em pormenor. Ou pelo menos as coisas que eu achava que te devia contar.

 

Durante 19 anos o mês de Fevereiro foi o mês cinzento da minha vida. Não conseguia sentir alegria. O peso era muito negativo. Depois o teu neto nasceu no dia 10 de Fevereiro. Logo em fevereiro – pensei eu – de todos os meses do ano. E o dia mais feliz da minha vida nasceu em Fevereiro.

Já não consigo sentir a mesma tristeza neste mês.

E sei que o percebes.

Por vezes senti que devia estar triste. Que devia sentir o peso deste mês, deste dia.

Mas hoje sei que não é o dia que faz diferença. São todos os momentos em que tenho saudades de ti. Aqueles em que me fazes falta. Os que desejava partilhar contigo.

Os que se perderam há 22 anos.

 

Decidi terminar este ciclo. Parar de recordar o dia do adeus. Quero recordar os dias felizes, os que passámos juntas, aqueles em que me ensinaste o que sei hoje, as manhãs que passeávamos na vila, as manhãs passadas na praia, as visitas às clientes, as tardes a conversar enquanto costuravas.

 

Como na música do Rui Veloso, bato a porta devagar, olho só mais uma vez, e vejo como é bonita a avenida das nossas avenidas.

As águas mansas dos nossos dias, como é frágil a memória e como é forte a saudade.

Como a sorte e a sina ditaram as nossas vidas.

Como com uma mão cheia de nada é possível construir uma vida.

 

E por tudo isto, por tudo o que foste e és para mim, nunca me esqueci de ti.

Nunca me esqueci de nós.

Nunca me esqueci dos momentos bons.

Dos nossos sorrisos, das gargalhadas, das conversas.

Nunca me esqueci de ti. Nunca me esquecerei. E são estas memórias, de manhãs de primavera, de fatos maravilhosos, de conversas deitadas fora, de princípios e de ensinamentos. São essas as memórias que vão fazer com que o teu neto te conheça tão bem como se passasse as tardes contigo.

Só tenho pena que nunca te possa dar um beijo.

Mas escuta.

Nunca me esqueci de ti.

Nunca me esqueci de nós.

Porque caminhas comigo em todas as decisões da minha vida.

 

Para ti. Para nós. Rui Veloso e “Nunca me esqueci de ti”.

 

 

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