Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Blog Bestialmente Conhecido

Maternidade 1980 vs Maternidade 2018

A minha rica mãezinha, que criou 4 filhos, 2 sobrinhas (a part-time enquanto a minha tia trabalhava) e o filho meio estranho de uma vizinha (tenham dó, eu era pequena e o puto era mesmo assim estranho e arrancava o papel de parede com as unhas); teria uma coisa a dizer às paranoias de maternidade perfeita dos dias de hoje: bardamerda mais isto! Deem mazé uma carcaça à criança.

Que a minha mãe era uma senhora, mas, acima de tudo também era uma mulher pragmática e objetiva, não tinha tempo para conversas da treta, nem para circunstâncias mal explicadas.

 

Fruta sem casca; uvas sem grainhas; crianças com 3 nomes (um flagelo, como é que a criança fica a saber que vai levar uma galheta se não é chamada pelos 2 nomes próprios? Eu, quando ouvia "Ó Cátia FilipAAAAA" já sabia que ia enfardar uma, ou que tinha fortes probabilidades vá, se fosse chamada segunda vez comia mesmo); bolos sem glúten; prébióticos; iogurtes adaptados; leite sem lactose; vitaminas; dar abraços a árvores; sentimentos sobre sentimentos (no tempo da minha mãe a educação não tinha sentimentos, havia: a) educação sem contacto físico - tudo corria bem; b) educação com contacto físico - alguma a gente tinha feito). Hiperatividade. Personalidade. Argumentação e negociação. Quê?! Tá tudo doido. Isto não havia. Grupos de mães nas redes sociais; mães atletas e mães balofas; fotografias de mães à porta do ginásio e partilha entre as amigas, conhecidas e o mundo em geral. Cerelac e maminhas.

 

Vamos lá abordar cada grupo destas temáticas com vista à sua magnanime desconstrução.

 

Fruta sem casca e uvas sem grainhas

Em 1980 se alguém queria comer uma maçã sem casca é porque na verdade lhe estava mesmo à apetecer uma laranja, qu'é-isto! A casca da maçã papava-se toda. A criatura queria uma fruta sem casca é porque lhe apetecia uma fruta cuja casca não se podia comer. Tipo uma banana ou uma laranja.

As uvas compunham-se por pele (aquela que se agarra ao céu da boca de uma pessoa), uma gosma gelatinosa e grainhas. Se a piquena criatura não gostava do todo, também não papava as partes, a menos que já tivesse destreza e competências para fazer a cirurgia à uva de forma independente. De outra forma era porque na verdade, o que lhe apetecia, era uma laranja ou uma banana.

Havia apenas fruta, o conceito de biológico era uma cena que levaria as pessoas a dizer "hã?! Qu'é-isso pá?! De que merda tás tu a falar?!"

Em 2018 a fruta para ser comida com casca tem de ser amukinada, que é o mesmo que dizer que se demolha por 15 minutos num liquido diluído em água, que cheira a lixívia que tresanda. Gasta-se 5 € numa garrafa, quando se podia demolhar em água com vinagre que vai dar ao mesmo e custa menos de 1€.

A maçã tem de ser de produção biológica, plantada e apanhada por um português, ensacada por uma quinta de renome com um selo que diz que é "BIO".

As uvas podem ser comidas com casca, mas a grainha tem de sair porque pode impactar com o apêndice da criança e mãe que é do século XXI cuida e quer saber mais.

Se a criança deseja a uva sem pele, a mãe, para evitar o trauma e potenciais 5 anos de terapia da cria, procede ao descascamento irritante de 25 uvas por refeição.

 

Crianças com 3 nomes (e outras com mais de 6)

Em 1980 as crianças tinham sempre 4 nomes. Ponto. Dois nomes próprios, um para ser chamado e para usar no dia a dia, o segundo para saber que, quando aparecia colado ao primeiro era porque ia levar um abre-olhos. Depois tinha o ultimo apelido da mãe e o ultimo do pai. Feito.

Hoje as crianças, ou têm 3 nomes, como o meu; ou têm mais de 6.

Eu, como detestava ter segundo nome não o dei ao meu filho. Não podia estar mais arrependida. Sempre que o quero chamar à atenção, porque está a fazer bosta asneira, falta-me sempre ali qualquer coisa.

Depois há quem peque por excesso. "Ai quis dar também o apelido da minha mãe, que já vinha da minha bisa e que tem muito significado na minha terra, não quis privar o Manuel Maria disso. Depois, o Artur, pensou que também queria adicionar o apelido da mãe, afinal de contas é uma forma de mostrar o amor que tem à mãe". A somar a esta desgraça o nome próprio da criança nunca fica por um.

 

Bolos sem glúten, prébióticos, iogurtes adaptados, leite sem lactose, vitaminas

Em 1980 não havia glúten porque as pessoas não sabiam o que isso era. Sabiam o que era fome. Agora glúten, nem por isso. Pelo que pouco há a acrescentar. O leite vinha das vacas e comer fruta era bom, especialmente laranjas no Inverno, mas desde que fosse de manhã ou à tarde. 

Em 2018....uiiiiii! E dizer que se comprou um bolo de arroz ao puto. Expulsão direta dos grupos de mães. PUMBA! Rua!

Eu compreendo que a saúde dos nosso filhos é a coisa mais importante, mas, pessoas de Deus, ser crianças é comer bolos, gomas, chocolates, é ter dores de barriga, é ter os pais a gritar à noite porque se não lavam os dentes os monstros das caries lhes vão devorar os dentes.

No outro dia a minha prima contava-me de uma conhecida cujo filho não estava autorizado a comer açúcar. O puto foi para a praia com a família toda, a criançada a divertir-se, a tia compra bolas de berlim para todos e os pais, do nada, sacam de um pacotinho de cenouras para dar ao puto. Todos a enfardar bolas de berlim, cheias de açucar e carregadas de doce de ovo, ali forte, e o puto, TUMBAS! nas cenouras!

Uma felicidade.

Estas pessoas leem os rótulos todos e os filhos já sabem o que significam todos os E's antes de aprenderem a escrever o nome. 

O que é engraçado, sem ter gracinha mesmo nenhuma, é que em 1980 o numero de crianças com cancro não era mais alto do que hoje. O que também é engraçado, sem ter gracinha nenhuma, é que as pessoas não sabiam o que era ansiedade, as crianças não tinham stress, quer dizer, a menos que aparecessem para jantar com os ténis novos todos cagados de lama e aí as mães punham-lhes stress nos lombos, de outra forma nada.

Não havia visitas regulares ao psicólogo, nem se falava de hiperatividade. 

 

Dar abraços a árvores e sentimentos sobre sentimentos

Em 1980 as mães berravam com os putos, a criançada ajudava com as tarefas de casa por que era a sua obrigação - contribuir para um lar minimamente arrumado. Eu, se não deixava as bonecas no sitio antes de almoçar, antes de lanchar, antes de sair para passear e antes de deitar, levava um orelhudo e não havia conversas. Ponto. Era assim porque era assim e era da mesma maneira para os putos todos. As mães que não exigiam isso eram uma espécie de devassas do lar "mais cedo ou mais tarde haviam de colher os frutos de deixar que os filhos fossem mandriões!".

Em 2018 negociamos com os miúdos. Compramos quadros com os meses e colocamos bolinhas (verdes, amarelas e vermelhas) coadunadas com o comportamento da criança. Oferecemos estrelas por fazerem o mínimo e ganham prémios por cima da semanada ou da mesada. Quando fazem bosta asneira as mães falam com as crias com vista a compreender se há algum desvio comportamental que tenha de ser abordado com um técnico especializado, ou seja a psicóloga da mãe que a ajuda a atingir todo o seu potencial (enquanto mãe).

Nos fóruns próprios trocam-se dicas de como se pode motivar a criança para esta atingir o seu potencial e escolher os comportamentos bons em detrimento dos maus.

Resultando, ocasionalmente, em situações como esta a que assisti:

Uma mãe dondoca dizia para seu rebento, que estava a carregar efusivamente em todos os botões do elevador (eram 13 andares e paramos em todos):

- José Maria não carregue aí!

O puto PIMPA! PIMPA!

- José Maria não carregue aí!

O puto PIMPA! PIMPA!

Pela quita vez a tipa flipou..

- Carregas aí outra vez Zé e levas uma lamparina! Que merda pá! Nunca ouves!...Agora venha para o pé da mamã! 

E o Zé foi.

 

Hoje os sentimentos das crianças são tratados como se fossem uma tipologia rara de condição que tem de ser estofada com o melhor revestimento. Mas depois, o que invariavelmente acontece é que se põem tantos paninhos quentes que os putos não ficam preparados para a vida. E as mães atingem o limiar de loucura por tentar suportar tudo como se "fosse normal para a idade".

São abraços a árvores. Um abraço em vez de uma bolacha, porque o primeiro é glúten free e não devemos comprar a criança com comer.

 

Grupos de mães nas redes sociais

Em 1980 não havia redes sociais, havia uma coisa a que as pessoas chamavam de comunidade. As vizinhas falavam entre si, as irmãs contavam as experiências umas às outras. As cunhadas, se não fossem umas cabras que se batiam pela validação da sogra, ajudavam com dicas. Ter filhos era uma coisa relativamente instintiva e os poucos perigos efetivos as pessoas identificavam por bom senso. Os outros iam aprendendo com a experiência dos outros.

Em 2018 as pessoas fazem cursos, workshops e pós-graduações em maternidade. Cria-se gangs nas redes sociais sob pretexto do apoio e das trocas de ideias. Mas na verdade não é isso que acontece, estes fóruns servem, invariavelmente, para doutrinar as novas mães numa nova tipologia concreta de maternidade. Pode ser a da amamentação, a do PALEO, a do cru, a do fururu, a do nhecnhenhce, não interessa, cada um dos grupos tem uma corrente de pensamento (ou de falta dele) e deve ser seguido por todas as pessoas que aderiram ao grupo. Se assim não for, são excomungadas com as invariáveis desgraças que acontecerão a seus filhos, fruto dos seus pecados com as papas, as mamas ou o raio que me parta. Este é um dos maiores flagelos. Nunca estive inscrita em nenhum e hoje, com o meu puto com três anos estou certa de que se me metesse nisso estava na casa das doidas em menos de nada.

 

Mães atletas e mães balofas; fotografias de mães à porta do ginásio e partilha entre as amigas, conhecidas e o mundo em geral.

Em 1980 a Maria Amélia não ia ao ginásio, em primeiro lugar porque as senhoras, a ir fazer exercício, era aquelas aulas de aeróbica, em que vestiam licras e davam saltos à la Jane Fonda; depois porque o mulherio, assim que sabia que estava de esperanças, começava logo a enfardar à grande, porque se havia oportunidade de ficar balofa era esse e ninguém devia implicar (a comer por 2, naturalmente); acresce ainda que seria estranho, a Maria Amélia tirar uma foto em calção licra à porta de onde quer que fosse e depois, com a foto impressa na mão, andasse a mostras às amigas. 

Imagino o cenário. Estas, dependendo dos gostos, pegariam na foto e escreviam no verso.

És uma inspiração . #gomom #noexcuses #agoravoufazerojantar

Essa barriga está bué musculada. Não gosto de ver. (unlike) #nãotiresmaisfotos #treinamenos

Isto não acontecia porque estar gravida não era "uma cena", as grávidas não tiravam todos meio descascadas, e as pessoas tinham mais que fazer.

O ginásio das senhoras do meu bairro era a casa. Limpar, cozinhar, subir 3 e 4 andares com sacos de mercearias às costas. Ninguém achava que isso era demais até a mulher parir. Nem no dia a seguir a ter a criança. Era a vida normal.

Se as mulheres não pudessem fazer isso, as outras tinham pena delas. Coitadas, não estava a correr bem.

Em 2018 a gravidez é uma cena sensível. Se uma mulher agarra num haltere de 3 quilos vêm as doidas dizer que a criança vai nascer vesga por causa do peso.

Em 2018 há mães balofas adoradas por aceitar o seu corpo. Há mães musculadas adoradas por aceitar o seu corpo. E há grupos de pessoas que, sem razão aparente, estão contra as duas. 

 

A TV e os gadgets

Em 2018 não havia box, não havia smartphones nem tablets. A única tablete que uma pessoa conhecia era da Regina, feita de chocolate e bem boa. 

As mãe tinham muito que fazer, os putos passavam as tardes a brincar nas pracetas porque ninguém tinha medo dos mau-maus a cada esquina. O trafico de crianças, de órgãos e a pedofilia eram temas que não batiam à porta das pessoas em todos os minutos. E éramos todos mais felizes assim.

As mães não impunham tempos para os miúdos verem televisão porque não precisavam. O que passava na TV que fosse suficientemente apelativo aos putos era tão pouco e dava a horas tão especificas que os próprios miúdos não tinham interesse em ver.

Em 2018 há box, os miúdos podem escolher o que querem ver e quando querem ver. Neste contexto, das duas uma: ou o puto tem TV própria e vê o que quer, quando quer; ou só está autorizado a ver TV aos sábados, das 11 às 13, mais do que isso não pode ser porque deturpa a mente e inviabiliza um seu brilhante desenvolvimento. Tudo depende da corrente que cada um segue. Imagino que neste segundo caso, se ligue o ovo de cozinha, aquele que serve para contar o tempo e que, quando aquela porra apita a TV vai para off, esteja um episódio no meio, mesmo a acabar ou no inicio. Consumido o tempo previsto a criança vai fazer "coisas para a mente" tipo workshops.

 

WTF?!

Eu tenho 35 anos e acho que nunca fiz um workshop na vida, a menos que sejam coisas pagas pelo trabalho. Devo mesmo ser uma triste.

Há gente cujos putos fazem um mínimo de 3 workshops ao ano, só para o penico são 2, um para aceitar o objeto e outro para compreender que este serve para libertar o cocó, sendo isso uma coisa boa.

 

Eeeeee, é isto que tenho para dizer neste dia da mãe. Espero que, sejam mães de 1980 ou mães de 2018, que tenham um dia espetacular com as crias (piquenas ou criscidas).

 

Feliz dia da mãe

 

Gostaram deste post? Favoritem!  Têm coisas para dizer? Comentem!  Acham que era giro para outros lerem? Partilhem! 

 

  • 11 comentários

    Comentar post