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Blog Bestialmente Conhecido

O Capuchinho cor de laranja (vintage edition)

Todos os dias lemos uma história antes de ir dormir. É uma coisa que gostamos de fazer e que já faz parte das rotinas de final de dia. Muito sinceramente, para mim, das que mais gosto. Por regra, sendo eu a palhaça de serviço, mãe faz vozes, bicho que desencanta caretas e orquestra uma completa dança de sobrancelhas arqueadas, o leitura de histórias está conferida à mamã Cê Mê.

 

O problema é que as histórias são lidas muitas vezes, porque a criança ganha gosto por uma e depois outra e por vezes leio a mesma 15 dias seguidos (se não mesmo mais).

 

O Capuchinho vermelho já tinha sido suficientemente lido e estava na prateleira há uns meses valentes, mas, este fim de semana Sôtor considerou que estava na altura de a revisitar. E eu, enquanto lia a história percebia que hoje aquele belo conto da minha infância não faz qualquer sentido. Que, apesar da mensagem que passa ser boa, essa já não tem grande aplicabilidade nos dias de hoje.

 

Senão vejamos.

 

Em primeiro lugar já não se devia chamar de Capuchinho vermelho, porque o vermelho indicia uma tendência política e uma tendência clubística, logo dois temas cheios de não-me-toques, pelo que o melhor era escolher uma cor menos tendenciosa. Assim, e considerando as regras da moda em vigor, poderíamos seguir por um, suponhamos, cor-de-laranja. Orange is the new Red.

 

A história começa por uma menina que pega em sua cesta e vai – a pedido da mãe – levar lanche à avó que está doentinha em casa.

O primeiro motivo pelo qual já não faz sentido é porque se os vizinhos calhassem a dar nota disto chamavam logo a CPCJ para espetar com a miúda numa instituição libertando-a de uma mãe descuidada e inconsequente.

Depois, porque os miúdos não vão a parte nenhuma sozinhos antes dos 15. E mesmo quando vão – lá para aquelas matinés e ou lá o que é – os pais levam os putos ao sitio, vão busca-los à porta, e têm de ter sempre os telemóveis ligados, se possível com um tracking device para caso os putos se mexam dali saber exatamente onde estão. Eles ou quem lhes possa ter palmado o telemóvel.

Eu, por exemplo, quando penso no futuro, tenho a certeza de que gostaria de por um ship no cachaço do meu filho com vista a saber sempre onde ele está. Se alguém pensa que mo gama está bem enganado.

 

Mas vamos supor que a miúda até vai alegre e contente. Mato afora a apanhar flores.

Nos dias de hoje não ia parar para apanhar flores, porque com a poluição que se sente nem amargas se apanham, quanto mais um raminho de florzinhas. Depois, a Capuchinho, ao ver o lobo, famoso como é das histórias de encantar, pedia-lhe logo um autografo nas cuecas.

 

Mas vamos supor que a piquena Capuchino até ia pela floresta, que encontrava o lobo e que lhe dizia que ia à casa da avó (coisa pouco provável porque os putos hoje, a falarem com alguém, conhecido ou desconhecido é por Whatsap…pelo que…). E vamos ainda supor que o lobo ia até à casa da avozinha com vista a papar a velha.

Aqui temos dois cenários. Se a velhota for uma espécie de MILF, era bem capaz era que o lobo papasse a velha, mas não necessariamente como jantar. Era uma loucura de regabofe.

O outro cenário possível era a velhota até ter aspeto sénior, mas, na verdade, não ser tão frágil como se pensa. Uma velhota que se preze nos dias de hoje, com tempo livre e acesso à Universidade sénior, faz, pelo menos, kickboxing 3 vezes à semana, Muai Thai 2 vezes e corre 1 Iron Man a cada 6 meses. Pelo que assim que lá entrasse em casa o lobo levava pau naquele focinho como nunca antes.

 

Mas vamos entreter a ideia de que a velhota até é frágil e o lobo a papa. Deita-se na cama e entra a Capuchinho. Na história a menina parece sofrer de uma espécie de amnesia ou então é mais distraída que a tia Mizé, porque ainda há pouco tinha falado com o lobo e agora já não o conhece por conta da toca cor de rosa.

No século XXI a Capuchinho, perante a dúvida, sacava logo do I-PHONE, ia ao Instagram e comparava as fotos que tinha tirado com a avó na semana passada. Percebia, pela selfie que tirara com o lobo na mata, de que era ele ali, com o intuito de lhe pregar um cagaço e depois pespegar o vídeo no Youtube com vista a obter bueda visualizações no canal dele.

 

Mas vamos supor que a miúda não percebe que era o lobo e que lhe faz aquelas perguntas parvas todas.

Quando o lobo arrancasse atrás dela comia logo com um rotativo pela boca, Capuchinho Chuck Noris on the wolf’s ass. Porque criança que se preze tem no mínimo 4 atividades extra-curriculares, onde se incluem, naturalmente, 2 de artes marciais. O lobo estava, literalmente, fucked.

 

Mas vamos acreditar que o lobo ia mesmo comer a Capuchinho e que aparecia o caçador para lhe limpar o sebo.

O caçador saberia hoje que, ao espetar com um balázio no lombo do lobo poderia ver-se em problemas, por causa da presunção de inocência e outras merdas. Pelo que o melhor mesmo era dar-lhe um tranquilizante, chamar uma equipa especializada para tirar a velha e a miúda da pança do lobo e aguardar pela equipa de intervenção. Quando o lobo acordasse teria 3 psicólogos e um terapeuta espiritual à sua espera. Procurariam fazer com que o lobo passasse a aceitar o seu eu e a amar o que era. Fá-lo-iam entender que estava a canalizar a sua raiva para presas inocentes e que, sempre que pensasse em papar uma velha devia abraçar uma arvore, sentir o amor do Universo e ser feliz. Porque afinal de contas ser feliz é uma escolha, mesmo que se seja atropelado por um camião TIR com atrelado.

 

Fim.

 

Acho que o mercado de histórias infantis está a precisar de ser revisitado e eu conheço a pessoa certa para esse trabalho. Eu.

 

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