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Blog Bestialmente Conhecido

Pomada do dragão

Corria o ano de dois zero e quinze, eu tinha sido mãe, tinha passado o maior momento de jubilo da minha vida. Tinha-me dedicado à necessidade de melhorar a minha condição física para cuidar do meu filho. Mas estava-me borrifando para o meu volume corporal.

(ou fingia que estava porque a ocitocina é melhor que a morfina e o mundo parece-nos muito mais cor de rosa do que realmente é. isso e as noites bem dormidas, os dias sem stress, enfim...)

Regressei ao trabalho. Tive um pequeno colapso nervoso em resultado do stress, das poucas horas de sono, da mudança brusca e de passar a ver o meu filho menos de duas horas úteis por dia.

A empresa para que trabalho ia mudar de instalações e eu, bem eu sou daquele tipo de pessoas que têm as luvas de boxe sempre prontas: para o que der e vier, para as bolas curvas, I just won't go down without a fight. Vai daí e decidi que me devia inscrever num ginásio.

As novas instalações eram (são) coladas a um Centro Comercial, e eu, bem eu podia capitalizar a minha hora de almoço e fazer mil coisas.

E fiz.

Durante quase um ano esforcei-me por ir ao ginásio, durante a hora de almoço, por, pelo menos 30 minutos.

Os treinos eram curtos, despachados, e muitas vezes sem o aquecimento necessário.

Eu, que também acho que consigo fazer sempre mais qualquer coisa do que é suposto (porque tenho uma voz na minha cabeça que diz que não consigo e, como sou do contra, mesmo com a minha própria pessoa, quero provar que consigo – make or brake).

Vai daí e, um dos dias, numa maquineta de abdominais, uma espécie de uma cadeira onde pomos aos ombros umas alças que devem ficar seguras com as mãos e fazer de conta que estamos a levantar uma mochila dos navi seals, dei cabo da musculatura toda.

Eu, armada em esperta e com os abdominais da Carolina Patrocínio em mente, decido por mais peso.

Já me custava mas...

Só mais 5 vezes.

E foi aí que senti uma dor lancinante na parte superior do meu peito, concretamente do lado esquerdo.

Parecia que tinha sentido o músculo a rasgar.

Desconsiderei.

(é verdade, eu, a hipocondriaca, desconsiderei. Porque sou negligente com questões musculares, de pele, sou, é o que é. Porque tudo o que não cause o falecimento imediato ou breve eu adio)

Então no dia a seguir – eu a dar uma de confiante – fiz o quê?

Fui ao ginásio outra vez. Treinei outro grupo muscular mas estava cheia de dores.

A coisa alastrou. Começou a apanhar-me as costas. Custava-me a respirar e eu comecei a ficar assustada. Quando me deitava não me doía nada e por isso era fácil compreender que estavam músculos, tendões e seus companheiros ao barulho.

Tive de parar.

De contra-vontade, mas teve de ser.

Ao fim de uma semana quis reconheçar.

As dores voltaram em força. Eu comecei a ficar frustrada porque não sentia melhoras e, atendendo à zona que apanhava estava sempre em dor.

(ainda por cima, com uma criança pequena que quer colo a toda a hora, a área aleijada não recuperava.)

Começou a ser difícil conduzir. Porque a força que era preciso fazer para mexer o volante com a mão esquerda causava-me dores.

Não ajudava o facto de estar à secretária 8 horas por dia, com más posições e a escrever todo o dia.

(a minha vida é computador sempre, sempre, sempre. É o meu trabalho)

Tive de parar com o ginásio. Deixei mesmo semanas. Comecei a ficar melhor mas não passava na integra.

 

No meu trabalho, com alguma frequência são oferecidas sessões de massagens nas instalações. Há uma massagista que está no gabinete médico, traz a sua cadeira de massagens e nós lá vamos 20 minutos aliviar as dores no lombo.

Eu, pela primeira vez, inscrevi-me e fui.

Falei com a terapeuta sobre as minhas dores.

Disse-me que trabalhava com medicinas alternativas e que havia uma pomada muito boa que se podia comprar em lojas de produtos naturais. Era uma pomada chinesa, com um cheiro um bocado intenso, mas que, ao fim de algumas aplicações as pessoas demonstravam estar melhores.

Que recomendava aos seus clientes.

Eu, peguei no nome da dita e fui rumo ao Celeiro.

Esgotada. É muito procurada e dura pouco nas prateleiras. Disse-me um dos funcionários.

Rumo à Terra Pura. Tem sorte, temos uma embalagem, isto voa das prateleiras. É muito bom, mas olhe que o cheiro....digamos que é melhor pôr em casa...”

 

Eu, que estava carregada de dores, com o braço todo apanhado, capaz de ir a um curandeiro para me aliviar daquele mal, assim que chego às instalações enfio-me na casa de banho e vai de barrar o braço.

O cheiro a mentol e outra coisa qualquer que dá odores a casas funerárias começa a apoderar-se do espaço.

Sacudo-me que nem uma maluca.

Objetivo: ficar com a pomada e deixar o cheiro na casa de banho.

Achava eu que a coisa já estava mais tranquila, sigo para o meu lugar. Passo por uma serie de colegas e faço aquele ar de quem diz que está um odor mesmo estranho no ar “não achas?”.

Sento-me e informo:

- Sim, cheira mal. Sim, sou eu. Não quero falar sobre isso.

O meu ego e a minha reputação ficaram afetados para todo o sempre, mas as dores, naquela momento, reduziram bastante.

No dia seguinte uma colega – que tem mais à vontade comigo – chama-me:

- Lha lá, ontem andaste barrada nalguma coisa estranha?

... por acaso sim…

- É pá é que aqui o coiso-e-tal dizia-me “a coisa passou aqui e cheirava a coentros com uma intensidade que não se aguentava…mas eu até gosto de coentros”.

Lá expliquei a situação.

 

Escusado será dizer que não voltei a usar a pomada no trabalho.

 

Quando preciso ponho em casa e deixo o banho mesmo para o momento antes de deitar, porque o cheiro é terrível, desentope qualquer via obstruída.

Esta semana tenho andado outra vez com dores.

Nunca mais fiquei boa da mazela que arranjei (problemas de idade) e quando faço exercícios mais arriscados fico aflita. Por isso tive de me barrar.

O meu filho, rapaz que interpreta tudo menos sonhos, deu-me um abraço forte e disse-me:

- Hummm mãe, cheiras a ananás!

 

E pronto, aquilo leva mentol que se farta mas as pessoas cheiram coentros e ananás.

A mim cheira-me a algo negativo, mas é um “tem de ser”. Recomendo vivamente. Para uso DOMÉSTICO (se têm algum brio com a vossa reputação).

 

 

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(Este maravilhoso espaço de entretenimento tem conta no facebook e também arreia texto e imagem no Instagram. Ainda não segues?  Shame on you...)