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Blog Bestialmente Conhecido

Por um serviço de estética silencioso

Fui pela primeira vez a uma esteticista devia ter os meus 16 anos.

Desde então já perdi a conta ao numero de esteticistas das quais fui cliente, mas tenho a certeza absoluta que é exatamente o mesmo numero de esteticistas aos quais deixei de ir.

Podia ter sido por mau serviço, por me terem deixado a cramalheira sem sobrancelhas, por me terem depilado em demasiado ou deixado matas de pelo onde devia haver pele lisa. Por se queixarem de ser só canelas e elas a querer depilar perna completa.

Mas não. Não me queimaram, não me arrancaram pelos a mais nem pelos a menos.

 

Excetuando uma moça que mudou de área de residência (para minha grande infelicidade), deixei de ir a todas pelo mesmo motivo: falam demais para o meu gosto.

 

Detesto conversa de circunstância, detesto ter de falar de tempo e da novela das nove, detesto fazer conversa para encher chouriços em qualquer circunstância, mas repudio ainda mais ter de ser alvo de entretenimento vazio quando me estão a infligir dor. Eu não quero ser entretida quando estou em sofrimento. Sou como os animais irracionais, gosto que me deixem com o meu sofrimento em paz, a ultrapassar aquele momento da forma que o meu cérebro o consegue aceitar. Procurando auto convencer-me de que existe um motivo racional, válido e proveitoso para eu estar 15 minutos a arrancar pelos da minha cara, sofrendo por cada pilosidade extraída e repetindo o processo com uma periodicidade inferior a 1 mês.

 

Quando me sento para ser "arranjada" quero que o momento acabe depressa, não quero saber da vida da pessoa, de como chegou ao trabalho, do que vai almoçar, do que pensa dos sons que a rodeia, se demora a comer ou se come mais rápido que um dragão do komodo atrasado prá missa. Quando a conversa entabulada vai para lá do "o que é que vamos fazer hoje?!" eu começo a sentir um aperto forte no peito, o corpo endurece e a agonia é palpável na minha garganta.

 

As coisas ficam ainda piores quando me querem vender produtos que eu não quero.

Nota importante: eu não acredito que haja um creme (nem mil) que façam com que a fronha que recebi para enfrentar o mundo fique igual à da Charlize Theron, pelo que não me moam a carola. Se eu quiser comprar 25 cremes para barrar a tromba e iludir a mente de que fico mais nova e fresca, eu pergunto por eles. Até lá, não me massacrem o crânio com informações que eu já conheço e muito menos com a ênfase de todos os defeitos da minha cútis. Não é perfeita nem há de ser.

EU JÁ SEI!

 

Dito isto, decidi começar a ir às senhoras da linha. Aquilo parece uma espécie de malabarismo que envolve um cruzamento de costura com arte manual e dentária. Uma ponta da linha em cada mão, um pedaço na boca e, após vários movimentos estranhos elas conseguem extrair pelos e pelos da cramalheira de uma pessoa.

Fica sempre bem (tirando aquela vez em que a moça estava ainda a aprender e me sacou uns pedaços de chicha também. acontece!).

 

Gosto de lá ir porque o trabalho é sempre bem feito e porque, como raras vezes é a mesma pessoa e elas têm um tempo curto para cada cliente, nunca há muita conversa.

O é que vai ser?

Vai ser isto?

E siga pa bingo!

 

Hoje calhou-me uma moça com carências de desabafo. Ela falava e eu sorria por fora e implorava por dentro que me deixasse estar.

Não suporto aquela coisa de pim, pim, pim, sabe que este fim de semana vai chover outra vez, pim, pim, pim. Eu em agonia. Está um barulho estranho aqui hoje, pim, pim, pim, não estou habituada a este barulho, pim, pim.

 

Por isso enquanto estava em sofrimento duplo, causado pela dor física e pela dor mental; ocorreu-se-me que devia ser criado um sistema de senhas com opção sobre a forma de atendimento. Uma pessoa chega, tira a senha e recebe três opções:

a) Com conversa.

b) Conversa mínima.

c) Silêncio total.

Dessa forma a esteticista já sabe como garantir que dá à cliente o que esta procura, e a cliente sabe que vai ter um serviço à sua medida.

 

Para mim opção c) como é evidente.

 

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