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Blog Bestialmente Conhecido

Reeducação alimentar – o primeiro choque frontal com a balança

As expectativas estavam altas. Uma semana a pão de centeio, queijo com baixos níveis de gordura, sopa sem batata, zero açúcares e uma peça de fruta ao dia indiciariam que a pessoa alvo de tamanha tortura gastronómica teria perdido, um mínimo de, vá, 2 quilitos. Para quem nada se importa com o que come, uma semana de comida parecida poderia não ter qualquer impacto; mas para mim, que gosto de uma chichinha com molho, de umas batatinhas fritas, de um polvinho à lagareiro assim bem regadinho de azeite e alho, de um arrozinho de pato (tudo assim em inho para parecer mais fofinho e menos calórico), é um desafio.

Não posso dizer que tenha passado fome, porque não passei. A nutricionista garantiu que eu comesse vezes que cheguem ao longo do dia para me sentir saciada e sem quebras de açúcar. Mas iogurtes naturais sem adicionar uma única colherzita de mel, uma geleia de frutos vermelhos…..aiiiiiii….

Valeram-me os iogurtes de soja naturais da Alpro, que são menos azedos e que se mantém numa taxa de açúcares inferior a 5 gramas por cada 100 gramas.

 

Assim na sexta-feira estava esperançosa. Sem sentir grande coisa de diferença, aliás até me sentia mais inchada do que o habitual, mas estava esperançosa (porque a esperança é a última a morrer, afinal de contas!). Há que ter em conta que até tenho andado a beber água que chegue para as minhas células se terem precavido com coletes salva vidas, não vá haver alguma espécie de enchente. Devem estar a pensar que estou a encher as barragens do lombo. Só pode. Passar de 0,1 litros/dia para 1,25 litros/dia, é coisa para deixar uma célula confusa.

 

A consulta de acompanhamento estava marcada para o final do dia. Chego e sou logo atendida. No gabinete, tanto a Sr. Graça do secretariado, como a Dra. Margarida são uns amores. Uns amores em forma e ali bem esguias numas calças que presumo ser um 34, mas um doce, qualquer uma delas.

 

Entro e dedicamos tempo às questões, queixumes e dúvidas.

 

A minha primeira questão era essencial: durante quanto tempo teria de viver em provação? Quando é que iria ver fundo ao tacho dos legumes e dos bifes grelhados?

Uma pessoa sabe que é para mudar a sua alimentação, que é suporto ser uma coisa que não é temporária, é para a vida, como o matrimónio. Mas, tal como o matrimónio, aparentemente, também a reeducação alimentar é uma coisa que se tem de contrair, o que, pela palavra “contrair” não indicia que seja uma coisa saborosa. Ou seja, à semelhança do que acontece com o casamento, também aqui há a sua dose de peúgas pretas na cesta de roupa branca, mas em formato de pão escuro e iogurtes adoçados com o apoio do imaginário de cada um.

 

Como é óbvio foi-me esclarecido que o objetivo era encontrar uma alimentação equilibrada para mim, que eu pudesse manter para a vida, conhecendo melhor o meu corpo, o que me faz bem, o que não me faz tanto bem, e que tipo de “crimes” gastronómicos é que posso cometer para não andar em yo-yo, mantendo um peso estável e sentindo-e saudável.

Ou seja, a nutricionista teve de ter para comigo a mesma abordagem que tenho com o meu filho de 3 anos quando ele quer comer o pacote inteiro das gomas e só podem ser duas. Eu explico de forma racional, e no fim, ele diz "mas eu queo!".

 

Com as palavras da nutricionista quase ganhei um novo alento e me imaginei, nos meus cinquentas, seca e gostosa, já podre de rica nessa altura, a passear-me nas praias do Havai envergando um biquíni com pouco de tecido e de uma marca astronomicamente cara que ainda não inventaram (afinal de contas ainda me faltam uns 15 anos para os 50….  pensando bem, já só me faltam 15 anos para os 50…..  (gritos no meu cérebro, confusão e recusa a aceitar a verdade….no fim acalmia)).

 

Tiradas mais algumas dúvidas quanto ao plano alimentar, chegou a hora de subir para a balança. Confesso que quando a nutricionista me deu uma espécie de volante para eu segurar e e pediu para subir para a maldita, enquanto os números se acertavam, pude jurar que ouvia a música de suspense do Biggest Loser, e depois, ao contrário do que acontece na primeira semana de acampamento dos gordos, que largam ali 5 e 10 quilos de cada vez, eu perdi a estonteante quantia de 300 gramas. Isso mesmo, nem um cabrão de um quilo.

 

Primeiro a negação.

A merda da balança tem de estar errada. Aquilo deve ter falta de pilhas. Só pode. Ou deve estar a fazer mal a contagem.

 

Depois a procura de motivos.

É do casaco, de certeza que este casaco pesa muito. Não, não é do casado, é das cuecas, bem me pareceu quando peguei na embalagem que este algodão era mais pesado. Se calhar devia ter ido à casa de banho antes de me pesar. Por acaso estava aflita para fazer xixi, é esta água toda que me esta a lixar. Vou pedir para ir vazar a bexiga e já volto.

 

O aceitar da realidade.

Não perdi peso. Não é do casaco. Não é do mijo. Não é das calças, mas é do cu equ ainda está grande. Há qualquer coisa que não está a funcionar, eu anotei tudo o que comi e há alguma coisa que não está a dar certo.

 

A revolta.

Que se foda isto! Se é para estar gorda que seja a comer o que me apetece. Gorda a comer bolos e gorda a comer queijo fresco e iogurtes sem açúcar, voto na gorda lambuzada de croissant. Vou cagar para isto. Vou comer o que me apetece.

 

Ouvir quem sabe.

Ao que parece todos os corpos reagem de forma diferente, e, aparentemente, o meu não reage como o da Gisele Bunchen, pelo que tenho de dar tempo ao tempo. Pelas medidas, pela resposta da máquina e pelas contas da nutricionista, o meu corpo – que tem a mania que é esperto e está, evidentemente, em negação face a tudo isto – decidiu começar por perder líquidos, ou seja, reduzir a retenção de líquidos que tinha. Por outras palavras, abriu a escotilha da barragem e agarrou-se à chicha. Eu, olhei profundamente para o meu interior e pensei: mas eu quero é perder sólidos, suas células ignóbeis!

A nutricionista explicou-me que às vezes pode demorar 2 e até mesmo 3 semanas para o corpo se acomodar às alterações e começar a perder o peso. Que até lá devia ajustar as quantidades de fibra porque, como eu já havia indicado, quando as como em excesso o meu organismo não funciona bem e incha.

Porque o organismo desta menina acha que não é plebe, que deve ser alguma espécie de chiqueza, porque a maioria das pessoas tem de comer fibra para que tudo seja regular. Aqui a menina tem de comer fibra de forma comedida para não inchar como um balão de feira. Uma espécie de porquinha presa por um cordel.

 

Saí de lá com cara de quem era capaz de arrear umas porradas em qualquer coisa. Fiquei de neura até à manhã do dia seguinte, mas suportei a minha neura acompanhada por uma saladinha pouco temperada e um bifinho de peru grelhado.

 

No sábado – o dia que guardei para a minha cheat meal – fui buscar um valente de um jesuíta que papei saboreando cada dentada, com vista para o Tejo, no jardim ao lado da Fundação Champalimaud (e consegui escrever este nome sem erros e sem ajudas, estou orgulhosa de mim!)

O puto – que às vezes me dá a ideia que parece que é filho da Isabel Silva com o Salgueiro – fez-me andar a correr atrás dele e a subir e descer escadas como uma alucinada, pelo que, me pareceu que merecia mais 2 miniaturas de pastel de feijão. Deglutido o último, despedi-me da caixa de prazer com um “até para a semana” e agora vamos ver como corre.

É segunda, ontem já não houve refeição livre e estou nesta de me comportar como uma menina crescida até sexta para ver como corre.

 

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