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Blog Bestialmente Conhecido

Stress e a corrida para apanhar o que ainda não está feito

Acordar a pensar no que há para fazer no emprego. Tanto que pode acontecer estar quase, mas mesmo quase, a pôr uma colherada de café no chá. Conduzir para o trabalho com as tarefas de casa em mente, o que é preciso comprar, o que as crianças precisam, para que irmãos é preciso ligar, não esquecer os aniversários, dar conta de que um aniversário foi ontem ou – ainda chegando a tempo – é hoje. Usar o Facebook para não esquecer os amigos nos seus dias especiais, afinal de contas sempre se recebe um alerta. Rogar pragas aos que se recusam a deixar lá a data de nascimento, raça de gente que quer mesmo que nos lembremos.

Chegar ao trabalho fora das horas previstas. Excomungar o trânsito e todos os outros seres humanos que têm o desplante de também habitar o planeta, quem é que esta gente pensa que é! A colocar-se nas filas e a roubar o nosso tempo?

Chegar ao trabalho e sentir o peito apertar com a atualização da caixa de e-mail. A cabeça a fugir para a futilidade. Usar listas no desktop, listas em papel, listas em agenda, alertas de Outlook, alertas via despertador do telemóvel, descarregar aplicações que ajudam à memória. Tudo para alertar e re-alertar para as tarefas por fazer. Aquelas das quais a mente teima em fugir.

Pensar em casa, pensar nos filhos, pensar no fim de semana, de como podemos organizar-nos para chegar mais cedo, ir àquele site e só mais àquele e já agora só mesmo a mais um, que é para ver se temos as boias todas que precisamos para as férias de verão que chegam já daqui a dois meses. Há que garantir tudo o que faz falta.

As saudades que temos dos filhos. A pena de não lhes dar mais atenção, de não gozar mais o momento. A culpa de não estar mais tempo presente, de não usufruir de todos os momentos. Mal os vemos crescer com esta vida de trabalho sempre fora de casa.

 

Voltar às tarefas. Ter os metade dos neurónios de colher de pau na mão, prontos a arrear umas porradas nos desgraçados que querem é ferias, que têm saudades dos filhos, que guincham pelo aconchego da cama. É para estar com atenção ao que se está a fazer. Pensar no almoço, pensar no lanche, pensar nas tarefas que há para fazer em casa e não esquecer de comprar courgettes para o jantar quando dermos um salto ao hipermercado naqueles 15 minutos que sobram depois de mandar abaixo o que está na marmita.

 

O dia acaba, toca uma campainha imaginária, aquela que está dentro da nossa cabeça e que badala forte e feio quando os olhos veem, ali no canto inferior direito do ecrã, a hora de ir para a outra vida, aquela onde acontecem as coisas que estivemos a pensar todo o dia. As que mais nos preocuparam.

 

Entramos no carro e pensamos no que ficou para o dia seguinte, aí meu Deus, isto amanhã tem de ser mesmo muito mais produtivo, mais foco, como dizem lá as moças do Instagram ou lá o que é aquilo.

 

E seguimos caminho, a cabeça ainda no trabalho, na Joaquina da Contabilidade que não mandou o ficheiro para o relatório, no Zé Manel da Logística que não arranjou o dossier que era preciso para organizar a papelada que está em cima da mesa, porque se aquela papelada se organizar toda a qualidade da nossa vida aumenta de sobremaneira, toda a gente sabe da importância de um bom dossier para a organização de vida do ser humano; da Clotilde das estatísticas que está cada vez mais antipática e só diz bom dia de quando em vez.

Deve pensar que tenho dividas com ela, vou deixar de a cumprimentar, que eu cá comigo é assim, ou me falam também ou eu não conheço. Que raio lhe fiz?

Bla-bla-bla. Rebeubeubeu e ali ficamos a remoer aquela ideia mais do que o cão a roer o osso. Não se sabe nada da vida de nenhum, mas todos temos uma ideia de como a vida deles devia ser.

 

A ansiedade cresce, o stress pesa, o que ficou por fazer, o que ainda há, a quantidade de trabalho que cresce e o tempo que não aumenta. Malvado.

 

Vamos buscar as crianças, querem atenção, são as mesmas de quem sentimos saudades. Mas agora estamos ainda enfiados nas folhas de Excel do trabalho, preocupados com o que ficou por fazer, com o que ainda há ali pendente, com os atrasos, os objetivos, as tarefas e as avaliações.

A criançada chama e a paciência é pouca, afinal de contas estamos a fazer o jantar, o arroz quase que se queimou e nós ainda enfiados no raio de relatório.

 

Mesa, jantar, lavar mãos, comer, lavar a loiça, não esquecer de estender roupa, de apanhar a outra, o Joãozinho que tem um trabalho de grupo na sexta-feira e a Matilde que traz outra vez exercícios para duas horas a martelar cadernos com equações e teoremas e conjugações verbais das quais não nos lembramos, afinal de contas ultimamente conjugamos mais vernáculo que verbos.

Abençoado Google.

 

Banhos, pijamas, dentes, cama.

 

Preparar mochilas, a roupa do dia seguinte, deitar, pegar no livro e pensar que não estivemos tempo nenhum de qualidade com os miúdos, que temos saudades das brincadeiras com eles, que eram giros com 2 e com 3 anos. Que passa depressa. Que amanhã vai ser diferente. Mas o relatório, amanhã logo de manhã temos de enviar aquele relatório, e “se a tipa da contabilidade não mandar o ficheiro vai ouvir das boas!”

 

Acordamos a pensar no que há para fazer no emprego. Tanto que pode acontecer estar quase, mas mesmo quase a pôr uma colherada de café no chá. Conduzir para o trabalho com as tarefas de casa em mente, o que é preciso comprar, o que as crianças precisam, para que irmãos é preciso ligar, não esquecer os aniversários….

 

Nunca estamos onde devíamos estar. É como se a cabeça estivesse sempre 2 horas adiantada ao corpo, a fazer as tarefas que ainda faltam, quando na verdade estamos ali, empacados no momento do que tem de ser feito. Preocupamo-nos com o que temos para amanhã, e pouca atenção damos ao que temos hoje, porque amanhã é uma preocupação que pode ser adiada…já a de hoje…está ali, a morder-nos os calcanhares.

 

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