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Blog Bestialmente Conhecido

Supernanny, mommy blogs e campanhas da Dodot: não é tudo a mesma coisa

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Melhor que uma boa polémica e uma excelente fonte de mal dizer, é uma super polémica que dá para desenrolar como um novelo e criar uma espécie de poli-polémica em torno de coisas que não me parecem ter nada que ver umas com as outras.

Antes de continuar, quero apenas dizer que doravante passarei a referir-me à Supernanny como Chupér-Nénny, porque acho que é muito mais cómico e muito mais interessante.

A outra coisa que quero acrescentar é que me recuso a considerar a Chupér-Nénny como psicóloga, porque, sendo esta a minha área de formação e conhecendo em detalhe as obrigações de um profissional para com o seu paciente, não me parece que esta senhora esteja a trabalhar no melhor interesse das crianças visadas.

Dito isto prossigo com a minha dissertação de hoje.

 

Ora pois que a poli-polémica levantada tem que ver com a exposição que os pais dão às criancinhas. Algumas pessoas acreditam mesmo que expor as fragilidades de crianças e postar fotos de crianças com roupas novas é tudo a mesma coisa: a exposição da sua imagem, no sentido mais negativo da coisa.

Não é. Lamento informar, mas não é.

Há exposição da imagem da criança, mas uma tem repercussões na sua vida e outra é esquecida no dia seguinte.

Uma mãe postar uma foto sorridente, na praia, com os seus rebentos de 2 e 3 anos, não leva a que essas crianças sejam alvo de chacota na escola.

Passar na TV nacional imagens de um miúdo com cerca de 7 anos a mandar-se para o chão, a gritar com a mãe; de uma adolescente passada aos gritos, de uma mãe desesperada e de um pai passivo que não ajuda a mãe. Isso vai fazer com que aqueles miúdos sejam alvo de chacota, senão mesmo de bullying.

E porquê?

Muito simples.

Já alguém, porventura ouviu falar de um miúdo que era o mais cool e o mais forte da escola que era gozado e vitima de bullying? Provavelmente não. As crianças que sofrem com esta praga (porque para mim o bullying é uma espécie de praga que se pega, começa com um a fazer e depois juntam-se os outros e toda a gente molha a sopa) são, por regra, crianças frágeis, com lares desagregados, crianças que não têm as bases fundamentais de integração, que têm medo de se defender, cujos pais não têm como ou não sabem como defende-los.

 

Eu fui vitima de gozo (na minha altura não havia bullying) por uma miúda idiota que andava na mesma escola que eu. Eu era uma menina da mamã, sempre arranjadinha com as minhas saias de pregas e os meus totós, não contava em casa o que se passava porque a minha mãe estava gravemente doente e eu não queria arranjar-lhe mais um problema, mais uma preocupação. Por isso aguentava.

Ela era franzina, eu era bem encorpada, podia ter-lhe arreado umas porradas, mas ela dizia que a prima (mais velha que eu) me esperava lá fora com os amigos e me deixava em coma.

Passei por esta situação 1 ano.

No ano seguinte um primo veio estudar para a mesma escola que eu. Era um puto rebelde e já tinha sido expulso de todas as escolas da freguesia dele. Quando souberam que ele era meu primo e, especialmente, quando ele avisou que partia os dentes a quem se metesse com a prima, eu passei a ser a maior.

Nesse dia percebi que não interessa quem somos, importa quem conhecemos.

Nunca mais sofri com este mal.

 

Estes miúdos, que participam para os conselhos da Chupér Nenny veem toda a sua vida exposta, para eles não há sequer um amigo imaginário que possam inventar com vista a deixar os outros com algum receio.

Nada.

Mais.

Os miúdos que fazem mal aos outros de forma gratuita são, naturalmente, miúdos mal formados. São crianças e adolescentes que não receberam os valores corretos lá em casa, são os filhos dos energúmenos que encontramos no trânsito, das mal educadas que passam à frente na fila de supermercado, são os sobrinhos das tias que acham que gravidez não é doença e não dão prioridade a grávidas e velhinhas.

Estes adultos, que dão o seu nefasto exemplo a crianças e adolescentes, vão ser os primeiros a tecer observações em casa, não se coibindo de chamar nomes ofensivos aquelas crianças, aos seus pais. São os mesmos que resolviam tudo com duas lambadas.

Esses comportamentos reforçam - para os filhos que seguem as suas pisadas - a ideia de que podem fazer e dizer o que quiserem a quem lhe pareça mais frágil.

 

Isto não é a mesma coisa que um miúdo aparecer a sorrir com a mãe numa praia.

 

Para além disso, e pegando na comparação feita com os blogs e as campanhas publicitarias, por regra as crianças que aparecem nos blogs de mães são mais pequenas, ainda longe de serem "abarcadas" por esta coisa do bullying. Depois, uma coisa é uma criança com 3 anos e outra é uma criança com 7, com 8, com 12. São momentos diferentes do desenvolvimento.

Mas para a Chupér Nanny esta exposição não faz mal, qual quê, as crianças precisam de regras e de rotinas.

E eu concordo que sim.

Mas giro era que a senhora desse conselhos sobre essas regras e rotinas, sem ser preciso ver uma criança a ser arrastada como um animalzinho para dentro de uma casa de banho, enquanto lhe tentam arrancar as roupas do corpo. Tudo com a naturalidade de uma câmara à porta da casa de banho para expor tudo direitinho.

 

Mas é claro que o canal televisivo também só quer ajudar: então temos pais a pedir para retirar imagens, temos uma miúda a sofrer na escola, mas a SIC não arreda pé! Estamos aqui perante um canal que sim senhor!, tem o interesse das crianças e o seu bem estar na sua principal lista de prioridades.

 

Esta exposição negativa não é a mesma coisa que um miúdo aparecer um uns ténis novos da converse para o blog da mamã.

Ou acham mesmo que é?

 

As mesmas pessoas que hoje dizem que é tudo a mesma coisa são as que criticam que nos mommy blogs os miúdos são sempre perfeitos, ou seja, são as que gostavam que se contassem as desgraças e as desavenças para ser tudo mais "real".

 

A exposição que os pais fazem da imagem dos filhos é outro tentáculo deste polvo. Tudo serve para se dizer alguma coisa.

Os filhos fazem parte da vida dos pais, enquanto são pequenos os pais gostam de tirar fotos com eles e mostrar aos amigos. Antigamente, quando não havia redes sociais as pessoas andavam com fotos dos filhos nas carteiras para mostrar aos amigos e família. Impingiam os albuns de fotos quando apareciam para almoçar lá em casa. Hoje publicam nas redes sociais.

O meu pai, sempre que encontrava um amigo, sacava da carteira para mostrar as fotos mais recentes, onde estava incluída a minha. Eu não gostava, mas nunca me passou pela cabeça dizer ao meu pai: ou tiras isso da carteira, porque é a minha imagem, ou vou por-te em tribunal porque me estás a expor.

 

Os miúdos, quando começam a ter idade para não gostar, dizem que não querem e os pais, se forem pessoas normais, não obrigam. Ponto.

 

Ah mas as mamãs dos blogs ganham dinheiro com a imagem dos filhos!

A sério que entramos por aí? Se é ideal, não, não é! Se deve ser dada oportunidade à criança de escolher se quer participar?  Claro que sim. Mas não é a mesma coisa que mostrar as suas fragilidades.

Vou contar outra história.

A minha mãe era costureira, trabalhava por conta própria e precisava de criar coisas que as pessoas quisessem comprar. No carnaval, em conjunto com as irmãs (também costureiras) criavam fantasias de carnaval espampanantes. Como o carnaval era maioritariamente gozado pelas crianças, a minha mãe, todos os anos me fazia uma fantasia maravilhosa. Depois, uma semana ou duas antes do carnaval, pela altura da festa da escola, fazia por que nos parodiássemos pela nossa área de residência para que as senhoras endinheiradas quisessem mandar fazer o mesmo fato para as filhas e para as netas.

Eu detestava. Não por ter de andar assim vestida, sempre fui palhaça. Mas porque outras pessoas iam ter um fato igual ao meu.

Tinha escolha? Não. A minha mãe mandava e o Carnaval era altura de fazer bom dinheiro.

O que eu ganhava? Às vezes roupa nova, outras vezes sapatos, outros uma boneca e às vezes nada.

A minha mãe abusava da minha imagem? Não. Até que se criou essa noção, mesmo que se fale de uma campanha da Dodot, nunca tinha sequer feito essa pergunta a mim mesma.

Se houvesse redes sociais na altura eu estaria, sem margem para duvida, em todas as páginas com roupa feita pela minha mãe.

Havia mal nisso? Não.

 

Porque as minhas fragilidades eram geridas em casa. Às minhas birras havia um aviso, bem perto da minha orelha: "em casa falamos!". E falávamos, uma vezes ouvia umas coisas, outras sentia umas nalgadas bem assentes no rabo.

 

As crianças não são propriedades dos pais. Mas fazem parte de uma família. Com as coisas que se dizem, qualquer dia uma mãe perde o direito de sequer falar de um filho, porque pode estar a violar os seus direitos. Tenham dó!

Os pais sempre falaram dos filhos, sempre vangloriaram os seus feitos, sempre gostaram de mostrar as suas fotografias. Ainda me lembro do dia em que a minha mãe, orgulhosa, mostrou à então namorada do meu irmão mais velho (hoje minha cunhada) uma foto do futuro marido, com uns 6 ou 8 meses, em pelota, com um fio de outro, deitado em cima de um cobertor com motivos da selva.

Hoje a moda são crianças embrulhadas e dentro de cestas, antigamente era isto.

O meu irmão não aparenta ter qualquer trauma por causa disso.

Lá em casa fazemos pouco dele por conta desta foto e ele diz: "ah essa maravilhosa foto". E pronto, passou.

 

Aqui há tempos vi um programa onde tinham ido desencantar as crianças que faziam parte da publicidade de marcas como a Milupa e a Cerelac, todas estavam orgulhosas de ter participado e nenhuma mostrava indícios de ter sofrido na escola porque tinha aparecido na TV a comer Cerelac.

Acham mesmo que é isso que vai acontecer com os miúdos visados neste programa da SIC?

Eu penso que será mais difícil.

 

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