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Blog Bestialmente Conhecido

Um acordo tão simples

No domingo combinei com ele. O rapaz dos acordos. Vou buscar-te quando sair do trabalho e vamos juntos ao continente ver os brinquedos.

Gosta genuinamente de ir ao Continente ver a secção de brinquedos. Faz perguntas, quer saber as diferenças entre o que faz uma coisa e a outra. Inventa histórias para os bonecos que não tem e diz que um dia vai comprar este e aquele, enfim, todos.

Não faz birras por não trazer brinquedos, não finca pé e fica tão contente com um carrinho de 1 € como com uma miniatura da Patrulha Pata.

Foi uma coisa que aconteceu de forma gradual, às vezes vamos com ele à Toys ur Us ver brinquedos, muitas vezes durante a semana vai com o avô ao Continente comprar alguma coisa para o almoço ou só ver as modas. É uma forma de dar um passeio perto de casa e de não ficar fechado em casa quando está mau tempo.

O que é facto é que, como está habituado a ir às grandes superfícies, a ver os brinquedos e a sair de lá de mãos a abanar, não faz finca pé de nada e não há lugar a birras, o pior que já aconteceu foi ele querer continuar a “ver” um brinquedo, que é o mesmo que dizer, a brincar com os bonecos de exposição, e nós termos de nos ir embora.

 

Combinei com ele. Fiz um acordo. Era domingo, fomos fazer as compras, fomos brincar ao jardim e tínhamos de ir para casa. Havia tarefas para concluir porque a semana de trabalho estava à porta.

Aceitou o acordo.

 

Ontem não consegui sair a horas. Fiquei retida para tratar de uma questão que chegou mesmo em cima da minha hora de saída. Quando cheguei ao carro o Nuno disse-me que tínhamos de ir pela Vasco da Gama, o dobro dos quilómetros. Quando há acidente em cima da Ponte 25 de Abril o tempo de chegada a casa é indeterminável.

 

Conseguimos chegar ainda era de dia, o jardim perto de casa estava mesmo como eu gosto, repleto de crianças a brincar, os mais pequenos com os pais ou os avós, pessoas a correr, a secção de exercício cheia, donas de casa reformadas a apanhar banhos de sol, a esplanada do café cheia de gente que aproveitou um bom fim de tarde para beber uma cervejinha ou um sumo ao ar livre.

 

No meio do jardim lá estavam, a fazer preparativos para rumar a casa: Sôtor, a avó, o avô e o Boris (o cão ultra esgrouviado).

 

O Nuno parou o carro do outro lado do jardim, eu saí e ele foi para casa fazer o jantar.

 

Quando o chamei nem pareceu reconhecer-me. Foi uma alegria tão grande que parece que susteve a respiração por 2 segundos.

 

- Mãe, nem parecias tu com os óculos na cara!

 

Um abraço do tamanho do mundo. Sentido.

 

- O que é que a mãe te prometeu ontem?

- Que íamos ao Tinente.

- Então vamos.

 

E fomos. Os avós seguiram para casa. E nós fomos pelo jardim.

 

Estava tão feliz que parecia que tinha ganho o Euromilhões. É fantástico como as crianças ficam completas com tão pouco. Quando é que perdemos isto? Quando é que, na nossa cabeça, a vida nunca chega, é sempre preciso mais, mais e mais?

 

Conversou, contou o dia, disse-me que tinha emprestado um brinquedo a um menino que estava a chorar e que o menino se tinha acalmado por isso.

 

De vez em quando suspirava, um inspirar fundo de quem controla a excitação.

 

Fomos a pé ao Continente. Vimos os brinquedos. Comprámos pequeno almoço para o dia seguinte. Comentámos tudo o que havia. Ganhou um bolo de arroz (do qual comeu menos de um terço). Conversámos de regresso.

Encontrámos a Camila e cumprimentámos a vizinhança.

 

Passou todo o serão mais calmo. Mais satisfeito. Como se tivesse recebido a dose de atenção que precisava para estar tranquilo.

 

Eu fui deixando para trás o dia desgastante que tive. O mau humor foi dando lugar aos risos a cada história que ele me contava. Dei por mim sem me aperceber das horas.

 

Chegámos a tempo de jantar.

 

Hoje de manhã acordou satisfeito. Perguntou se ia para os avós ou ficava em casa. Chorou porque ia para os avós. Tratam-no como um príncipe, mas o colo da mãe e do pai são o colo da mãe e do pai.

 

Fizemos um acordo. Vou fazer de um tudo para o ir buscar outra vez. Para irmos ao Continente ver os brinquedos.

 

Porque o Continente pouco importa, os brinquedos de pouco contam. É o tempo que passamos juntos, sem pensar em mais nada. É isso que ele mais quer. E é isso que mais me encanta.

 

Anotações, desabafos e memórias de uma mãe

Sobe as escadas de mão dada e tenta sempre galopar 2 degraus de cada vez. Tem as pernas curtas de uma criatura de 3 anos, mas mesmo assim tenta. Se não o estiver a segurar, cai. Aviso-o a cada lance de escadas. E são muitos, porque são 3 andares. Tenta em todos, mesmo depois de eu ralhar, mesmo depois de eu abrir os olhos a dizer “NÃO!”

Chego à porta de casa mais esgotada pelos avisos que pelos degraus que acabei de subir.

 

Pede-me água. Dou-lhe o copo dele. Todo XPTO que custou o mesmo que um serviço de copos. Tudo para que tenha duas abas e não entorne. Estou a tentar apontar algumas remediações para o trabalho, preciso que se entretenha a brincar ou a ver um episódio de desenhos animados. Começo a ouvir água a correr. Verteu a água toda em cima do armário da sala, mesmo ao lado da televisão. Corro para remediar. Ralho. Ele diz-me: mãe fica contente! E eu fico zangada comigo, porque tenho aquela cara de anjo a pedir-me para estar contente e eu estou danada porque ele está a fazer asneiras umas atrás das outras. Pergunto-lhe porque fez a asneira, esclarece: estava a fazer uma poça para o Rocky ir ao fundo.

Uma brincadeira que não se coaduna com a manutenção de bens de gente adulta.

 

Vai para o quarto, chama por mim, não vou à primeira e ouço um estrondo, derramou uma das gavetas grande de bugigangas que tem lá em casa. Brinquedos espalhados pelo soalho todo. Respiro fundo.

 

Vem ter comigo à cozinha. Quer ajudar com o jantar. Diz que se vai sentar na mesa da cozinha. Peço que espere, vou já ajuda-lo. Quando olho para trás já está sentado.

Respiro fundo.

 

Pede uma tarefa. Naquele momento não tenho para lhe dar.

Pede pão com queijo.

Dou-lhe.

Quando volto a olhar fez uma espécie de obra de arte com a comida.

Ralho. Não se brinca com a comida.

Tem sede. Pede água no copo do Mickey.

Dou-lhe.

Bebe três golos e, quando me volto para a frente, o copo tem um "acidente". Caiu e o chão está cheio de água. O pai acabou de chegar com os cães da rua e ajuda a limpar. Peço que fique sentado e quieto para não pategar o chão. Insiste que tem de descer.

 

Vai buscar todos os brinquedos e espalha-os na entrada da cozinha. O Nuno olha para o lado e vê que acabou de encher a malga de água dos cães com carrinhos. Ralha com ele.

Jantamos.

Faz mil acordos para se esquivar ao prato. Acabamos com 2 gomas se comer tudo sem refilar.

Come as gomas.

Vai para o chão.

 

Eu vou arrumar coisas para o dia seguinte. O Nuno trata da loiça.

Dou com ele aos saltos em cima da cama com os ténis todos sujos. Ralho com ele.

 

Como gosta de ajudar com as tarefas convenço-o a vir ajudar-me a apanhar e estender roupa. Enquanto estou a tirar a roupa do estendal, ele transforma uma mola numa tenaz e está a tirar a roupa da cesta “para passar” e a minha blusa vermelha já está cheia de pelos dos cães. Ralho com ele.

 

Vai para o banho. Mil voltas para lavar os dentes. Quer ver os armários todos antes de entrar para a banheira. Peço-lhe que fique no tapete anti derrapante. Passa o duche todo a tentar passar-se para fora do tapete. Ralho com ele.

Fico irritada por estar sempre com ralhetes.

 

Vamos para a cama, uma guerra para limpar o nariz.

 

Estou esgotada ao final do dia.

 

Sei que não é por causa dele. Que são as minhas semanas intermináveis, com problemas de trabalho que arrasto comigo, preocupações que não são dele, um cansaço que ele não entende.

 

Recosto-me na cama e primeiro ocorre-me a pergunta que toda a gente faz: então quando é que tens outro?

NUNCA!

 

Depois sinto-me triste e culpada, há certamente alguma coisa que eu estou a fazer mal, porque raio ralho com ele tantas vezes. Devia ter mais paciência, ser mais tolerante.

 

Depois penso na minha mãe. Como por vezes não compreendia que ela estivesse irritada. Como é possível que agora, aos quase 35 a compreenda como nunca. É que nós pais andamos a um ritmo, e os nossos filhos, se tudo estiver a correr bem, andam a outro. Não de debruçam sobre as preocupações que nos apoquentam.

 

Quando eu nasci, em 1983, a minha mãe ficou mais assoberbada do que já estava.

Lá em casa havia um adolescente com 13 anos (na altura era apenas um miúdo, não havia estes conceitos); um pré-adolescente com 10 anos (também não havia este conceito); uma criança com 6 (este conceito mantém-se); e uma bebé acabada de nascer. A somar, a minha mãe ajudava a criar as minhas duas primas, com 5 e 7 (creio eu?!) anos, respetivamente.

Não era só dona de casa. Trabalhava a tempo inteiro por conta própria a partir de casa.

A casa onde cresci estava sempre imaculada e organizada. Podíamos comer do chão se preciso fosse.

 

O meu irmão mais velho colocou a fasquia alto. Era um miúdo pacato e cresceu para ser um adulto pacato. Focado na resolução de problemas, metido com a vida dele, de fácil trato e com amigos por todo o lado. Nunca deu problemas à minha mãe. Depois nasceu o meu segundo irmão. Para provar que da mesma árvore há vários frutos, andava sempre metido em alhadas. Com 3 anos era o terror de casa. Todos pensavam que havia um cão que atacava o galinheiro até terem descoberto que ele se fechava lá dentro com as galinhas e lhes arrancava as penas. Oferecia porrada ao meu pai em defesa do meu irmão mais velho e, com os seus 8 anos tornou-se o tipo mais temido da praceta. Uma tarde, um grupo de miúdos roubaram a bicicleta de um amigo dele. Quando ele chegou para jogar à bola o outro chorava. Ele disse-lhe apenas: espera aqui que eu resolvo isto! E resolveu. Ninguém sabe como nem porquê, mas ele voltou com a bicicleta sem uma única arranhadela. Foi expulso de 3 escolas e bateu num superior quando foi para a tropa. Apesar disso era quem estava sempre preocupado para defender a família toda e os irmãos. Quem se metesse connosco, aí, aí!

O meu irmão mais novo totalmente diferente dos outros dois. Um miúdo excecionalmente inteligente, sensível, e com alguns problemas de saúde. Os meus pais foram chamados à escola, queriam que o metessem numa escola privada ou que pusessem os papeis para que o avançassem uns anos. Era demasiado inteligente e tinha demasiada informação para ir para a 2ª classe, devia saltar pelo menos um ano. O Ministério não aceitou. Não havia dinheiro para um colégio privado. Continuou a escola e, como muitos que estão acima do que lhes está a ser ensinado, perdeu interesse pela escola.

Nasci eu. Obesa, num parto para lá de difícil. Fechada. Desconfiada. Menina metida com os seus assuntos. Teimosa para lá do razoável. Desabrochei depois de entrar para a escola, onde encontrei o meu mundo nos livros, nas letras, nas palavras. Fui a única que fez a escola toda. A única que se formou. Mas isso a minha mãe já não viu.

 

Nestes momentos volto a ser miúda e compreendo a impaciência da minha mãe, a mesma que eu tenho agora. Compreendo que ele não entende da mesma forma que eu não entendia e adapto-me. Adapto-me sempre que consigo, a essa falta de conhecimento que ele deve ter.

Dou a mão ao meu filho e a outra à minha mãe. Vejo 3 gerações, a dele, a minha e a dela. Compreendo-a hoje e espero que ele, um dia, seja também capaz de me compreender a mim.

A vida, um dia mais tarde, vai explicar-lhe porque nem sempre é perfeito.

O acordo

Tudo é uma negociação na vida de Sôtor.

Arriscaria a dizer que há verdadeiros homens de negócios que não fecham tantos acordos como esta pequena peste de 3 anos.

 

Para almoçar: sai acordo.

Para jantar: sai acordo.

Para ir à quinta das bolas: sai acordo.

 

Acordo para trás e acordo para a frente, lá vamos explicando ao rapaz que se tiver bons comportamentos as coisas que gosta têm maior probabilidade de acontecer.

 

Sim, eu sei que a vida se encarregará de lhe provar que não é bem assim, que nos podemos comportar como os maiores anjos e andar sempre a levar pancada da direita e da esquerda. Mas…o trabalho dos pais é mesmo este, fazer com que os filhos tenham princípios e sejam pessoas de caracter, que percebam que deve ser assim porque é a coisa certa a fazer, mas, até que tenha idade para compreender o conceito de forma mais complexa, é importante que apreenda que as coisas certas têm um resultado positivo.

 

Na terça feira não apanhámos muito transito e consegui chegar a casa a tempo de fazer um programa de 20 minutos da elíptica. Como ainda dava tempo tomei um banho à Quercus (dentro do espectro dos 5 minutos) e vesti uma roupa de andar por casa para o ir buscar ao caminho. O avô vinha do jardim direto para nossa casa com o piqueno artista.

Despacharam-se mais depressa e eu ainda estava de toalha na cabeça quando tocaram à campainha.

 

Para remediar a coisa, e porque precisava de lhe comprar o anti-histamínico que me passou na ideia à hora de almoço, perguntei-lhe se queria vir comigo ao Continente comprar as gotas.

 

Passeio? Alguém falou em laréu?

 

Para esta criatura qualquer motivo é um bom motivo para sair de casa.

 

Disse-me:

- Queo. Vamos vê os binquedos e depois vamos compá a comida.

 

Fui secar o cabelo e ele foi ter com o pai à cozinha. Ouvi-o dixer ao pai.

- Temos um acodo. Eu e a mãe. Pimeiro vemos os binquedos e depois compamos a comida. Temos um acodo.

 

E eu:

- Temos sim senhor!

 

Quando descemos encontrámos o avô outra vez, vinha a caminho da nossa casa porque lhe faltou trazer algumas coisas da criatura maravilha.

 

O avô pergunta onde ele vai e Sôtor…

 

Sôtor - Vamos ao tinente. Temos um acodo!

Avô – Aí sim! E que acordo é esse?

Sôtor – Amanhã conto, hoje nã poxo! Adeus avô!

 

E assim ficou. Tinha um acordo, da espécie secreto e o avô apenas podia saber no dia seguinte, não podia perder tempo.

 

Fomos até ao continente a falar. Ele fala ainda mais do que eu, o rapaz tem sempre conversa. É uma delicia. Fomos com tempo. Conversámos sobre os nossos dias, vimos os bonecos, comprámos o medicamento, voltámos com o ritmo dele, mais tranquilo que o meu, que passa o dia a toque de caixa. Eu deixei-me levar pelo compasso daquela coisa pequenina que segurava pela ponta da mão. Só o ouvia a ele, o dia estava ameno e aqueles 30 minutos lentos souberam melhor que mil horas.

 

São fins de dia que valem a pena e que dão algum brilho ao cinzento que ficou para trás.

 

E se eu o for levar à faculdade?

Assustam-me todas as coisas do Universo quando toca a Sôtor meu rico filho. Diria que até a espessura do chão que ele pisa me causa alguma preocupação. Se cai, se bate com a cabeça, se se arranha, se se magoa, se anda à bulha, se bate em alguém, se alguém lhe bate, as pessoas más do mundo, as noticias que deixei de ler porque me tiravam o sono, a independência dele, o dia em que vai para a escola, o dia em que mude de escola, o primeiro amor, a mulher que lhe parte o coração, o curso que escolha, ou se não escolhe curso, se tem bons professores, ou maus, se cai de bicicleta, se vai nadar para alto mar, se lhe batem no carro, se conduz muito depressa….

 

Tudo, literalmente tudo o que se possa imaginar. Seja mais premente, seja num futuro que está demasiado longe.

 

É idiota bem sei, mas é assim que a minha cabeça funciona.

 

Hoje de manhã a caminho do trabalho falávamos de uma colega que estava em casa porque terá comido umas ameijoas estragadas.

 

Nuno – Vamos lá a ver se ela hoje já está melhor. Não se brinca com intoxicações alimentares com marisco!

 

Eu – Sim, é bom que tenha juízo, porque isso não se resolve com cházinho!

 

(ontem o Nuno mandou-lhe uma mensagem a perguntar se estava melhor e se já tinha ido ao médico, respondeu que o filho estava a chegar e que lhe ia fazer um chá.)

 

Parei um bocado a pensar nas minhas coisas…

 

Eu – Olha lá, que idade tem o M.? Já vai sozinho da escola para casa? (o horror espelhado no meu semblante!!!!!)

 

Nuno – Deve ter uns 17 anos e creio que sim, estavas à espera de quê?

 

Eu – Não estou preparada que Sôtor faça essas viagens sozinho com essa idade. Vou continuar a ir leva-lo à escola e a ir busca-lo…

 

Parei para pensar….

 

Eu – Achas que era muito estranho que eu o levasse e o fosse buscar já na faculdade?

 

(estranhamente esta era uma pergunta verdadeira)

 

Nuno – Não! E se o levares ao trabalho e o fores buscar à saída também não! Ó mulher tem mazé juízo!

 

(ninguém me entende…)

 

Inapta para o silêncio

Já não ia ao Porto sozinha há cerca de 5 anos.

A ultima vez que lá estive foi há mais ou menos 3 meses, na sequência de uma formação na PBS, cheguei ao final do dia, jantei no shopping, tive a formação e vim-me embora. Ou seja, nem estive no Porto, estive num edifício que fica no Porto. Foi um dia leve, tranquilo, partilhado com colegas do norte e com colegas de Lisboa. O Nuno também foi. Por isso tive companhia. E quando trazemos connosco alguém que ajuda a compor os nossos dias tudo se suporta com outra tranquilidade.

 

Antes disso, a ultima vez que estive no Porto foi em Outubro de 2014. Estava grávida de 5 meses e qualquer coisa, e, apesar dos contratempos e dos avisos continuei a achar que a minha vida não precisava de se ajustar nem 1 milímetro ao facto de estar grávida. Tinha uma barriga maior que antes, não via os meus pés, mas de resto tinha de ser igual.

Tinha saído de Lisboa às 7 da manhã, tinha acordado às 5, fiz mais de 300 km's para norte, subi escadas, estive de pé, entretive pessoas, falei com colegas, fiz sala, voltei a fazer mais de 300 km's de regresso. Cheguei quase às 22 da noite. Comigo tinha levado uma queimadura séria na perna direita, adquirida em dotes culinários que correram mal, porque lá está, estava grávida "mas não estava inválida".

No dia seguinte acordei à hora de sempre, fui trabalhar como noutro dia qualquer, por frações de segundo não me estatelei a meio de uma formação com 10 pares de olhos fixados em mim.

Mandaram-me para casa de baixa e com a indicação de que se o juízo não se apoderasse de mim, eu ia ficar num quarto de hospital até a médica entender.

Ajustei a minha vida. Ajustei a minha forma de pensar.

 

Agora tinha de ir, já tinham passado demasiados anos que não ia ao Porto, que não reunia presencialmente com colegas, que não ia às instalações. 

Sei que são apenas 300 km's, que dá para ir e vir no mesmo dia, mas é preciso que o dia seja útil, e é sempre mais útil ficando mais tempo. Mas com um filho pequeno as coisas são mais complicadas e com a ajuda das tecnologias é possível ir adiando.

Propus-me o objetivo de ir ao Porto por conta até ao final do primeiro trimestre deste ano. Estava tudo pronto para ir no final do mês de Março, mas por motivos de agenda não foi possível. Agendei para a primeira semana de Abril.

Na sexta-feira Santa fiquei com gripe, no sábado estava pior, no domingo não estava melhor e na segunda e terça fiquei a trabalhar a partir de casa para ver se garantia melhoras. Sabia que tinha esta viagem para fazer e não me apetecia adiar de novo, reagendar tudo. Para além disso já me tinha comprometido com mais de 30 pessoas que ia, e agora desmarcar...não podia ser...ia nem que estivesse a cuspir uma parte do baço.

 

Na quinta feira quando saí de casa ainda não tinha voz decente, parecia que estava a trabalhar com um microfone com pilhas gastas e de vez em quando a coisa falhava.

Para lá tive companhia, a conversa encurtou o tempo e fez parecer com que o afastamento se tornasse menos evidente.

Das 15 às 18 falei ininterruptamente. Quando desliguei a goela parecia que tinha as cordas vocais dormentes. Os meus pés estavam um caos. Pensava ter escolhido os sapatos mais confortáveis que tinha, afinal de contas só tinha vontade de os deitar fora. 

Para melhorar, à confiança, não levei mais calçado nenhum.

Esperta.

Cheguei ao hotel com energia a mais. Aquela energia ressacada de quem tem demasiada adrenalina no corpo, mas está para lá de esgotada. Faltavam os cães de um lado para o outro, o miúdo a querer coisas, a azafama do jantar, o deitar ás 23 para desmaiar na cama.

Tenho colegas de trabalho que dizem que férias só se for com 3 semanas seguidas. Uma semana para ressacar do trabalho, uma semana para ter férias, e uma semana para preparar o corpo para a frustração do regresso. Ou seja precisam de 3 semanas de ausência para ter uma de férias.

Penso que eu sou assim quando me ausento, preciso de tempo para a cabeça e o corpo se habituar ao silêncio.

 

Fui jantar ao shopping e tentar encontrar uns ténis para comprar. A andar parecia um caniche a caminhar sobre pedras quentes. Encontrei um único par de ténis que gostei, estilo casual, que serviriam perfeitamente para usar em escritório. Os únicos que gostei, os únicos que não havia no meu numero.

Decidi que tinha de aguentar a dor.

Voltei para o hotel, não consegui ler os documentos que tinha levado, a cabeça estava demasiado acelerada. Não consegui ler uma página do livro. Não tinha vontade.

Li uns posts de alguns blogs. Escrevi um pouco, porque me relaxa sempre. E esperei, esperei para receber noticias de casa.

 

Sei que parece idiota, não fui para o Afeganistão, não estive em estado de guerra, fui ao Porto. Mas 300 km's parecem 30.000 mil quando deixamos pela primeira vez um filho para trás. Porque a cabeça pensa em tudo o que pode acontecer e eu não estou ali ao lado para acudir. E sim, estava o pai. Mas eu estava sozinha com a minha cabeça e a minha cabeça tem demasiada vontade própria.

Acho que por ter perdido a minha mãe ainda em miúda tenho determinados receios, sei que às vezes os pais não estão presentes em todos os momentos da vida dos filhos, porque a vida pode ser cruel. E apoquenta-me pensar que perco momentos da vida do meu filho, não sei que mais me podem ser roubados, se vou vê-lo acabar um curso, se vou vê-lo casar-se, ou encontrar a pessoa dele. Se vou estar para o ajudar com a primeira casa.

Imagino-me a viver esses momentos com ele, mas ninguém sabe o que a vida nos guarda. E eu sei isso melhor do que ninguém.

É por isso que dias afastados me causam alguma angustia, porque há sempre qualquer coisa para viver com ele que eu não quero perder.

Tolice, eu sei. Eu sei.

 

Ligaram era quase 22. Estavam bem dispostos, um dia de pai e filho. Um serão de sonho para a minha sogra, só ela, o marido, o filho e o neto. Megera 300 km's a norte.

Falei com os 2. Bem dispostos. Vi o vídeo que me mandaram. Fiquei mais descansada.

Vi televisão até mandar a minha mão desligar o ecrã e ir dormir.

 

O silêncio era aterrador.

 

Mas não vou mentir, soube bem ter o comando para mim sem negociar mais um Ruca, poder ver TV até mais tarde sem ter de me levantar mais cedo. Ter a noite toda para mim sem ninguém me dar pontapés e lambadas.

Ainda assim acordei no mesmo canto em que me deitei. Parece que o corpo já não sabe dormir com espaço. Aninha-se, reza para não cair cama abaixo e rebentar com a cremalheira na mesa de cabeceira e quando adormece entrega para Deus.

 

Na sexta de manhã cheguei cedo. Preparei as coisas e falei das 9 às 12, quase sem parar. Saí a correr para ir apanhar o comboio. Apanhei uma molha, comi uma sandes de panado que parecia ter litro e meio de óleo no panado. Tentei afogar o panado num sumo. Entrei no comboio e depois de me sentar, de respirar fundo, foi preciso mais de meia hora para parar de achar que o comboio estava a ir demasiado devagar. Tinha quase 3 horas de viagem pela frente e queria que passassem em 30 segundos.

É fantástico como o tempo pode ser cruel, tão célere quando estamos felizes, tão penosamente lento quando estamos numa espécie de aflição.

 

Cheguei a Lisboa ainda não eram 17 da tarde. Comi um gelado gigante sentada na ponta de um banco do Vasco da Gama. Eu, a trólei, a mala do PC e um cone de baunilha com uma flor de gelado. 

Li, pela primeira vez em dois dias. Esperei pala minha boleia. Os pés estavam cheios de dores, mas parecia que doíam menos que no dia anterior.

 

Cheguei a casa para um abraço apertado. Para um "mãe tive tantas saudades tuas!".

Foi tudo o que era preciso.

E a vida continuou com a azáfama dos dias normais. Uma maravilha.

 

Queo medir o meu centímetro

A gripe passada entre pessoas do mesmo lar é como uma corrida de estacas coxa. O elemento A trás o vírus, passa o primeiro dia mal, passa ao elemento B no final do primeiro dia. No segundo dia o elemento A já mostra progresso enquanto que para o elemento B ainda está tudo a começar.

Tem sido assim cá em casa.

Na sexta-feira sôtor apareceu com gripe, ao final do dia eu já estava assim-assim, no sábado acertou-me em cheio e hoje é para mim o segundo dia. Algumas melhoras mais ainda com dores de corpo, garganta inflamada e as vias respiratórias numa lástima. Eu agarrada à estaca a ver se não a passo ao elemento C (o pai).

A parte boa é que sôtor já está melhor. A parte menos agradável é que eu ainda não estou a 100% e por isso ainda me arrasto pela casa.

Esta manhã tomou pequeno almoço connosco, feliz e contente e depois correu para o quarto. Mãe intimada a participar. Mãe com os olhos ainda semi-cerrados, mãe com dores no corpo, mãe ranhosa.

Confiados 2 livros à mãe para ler histórias em voz alta, apesar de ter a garganta numa triste condição e estar aflita para conseguir falar.

No meio da distribuição de tarefas para a manhã de brincadeira diz-me:

- Mãe, lembras-te do dia em que mediste o meu centímetro.

(para ele, medir o centímetro, é saber quanto mede. como a frase acaba sempre em tantos-e-tantos centímetros, ele diz que vai medir o centímetro)

- Lembro-me.

- Queo medir o meu centímetro outra vez.

- Está bem. 

(lá o medimos)

- Já estou quexido?

- Ainda não estás crescido, mas já estás maior.

Esta pressa que as crianças têm de ser grandes, se soubesse o que sabemos depois de sermos "crescidos", garanto que se encolhiam a cada medição.

 

Maria Madalena das lamurias

Sou assumidamente uma choninhas. Sou aquela pessoa que, quando tem uma gripe se queixa de tudo e encontra a calamidade em qualquer espirro. 

Melhor. Vou reformular.

Eu era assumidamente uma choninhas. Era aquela pessoa que, quando tinha uma gripe se queixava de tudo e encontrava a calamidade em qualquer espirro.

Deitava-me no sofá a vegetar, com lamurias de "aaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiii a minha vida, aaaaaaaaaaaiiiiiii o meu nariz, aaaaaaaaaiiiiiii a minha garganta". Dezenas e dezenas de lenços de papel à minha volta e filmes repetidos ou programas de lixo na TV.

Tudo mudou. Musdasti? Podem perguntar. Não, o miúdo mudoumi.

Agora a Maria Madalena das lamurias é ele.

Eu tenho de ter forças para tomar conta dele, para lhe dar colo, para atender aos seus pedidos porque, por mais que o pai queira ajudar há coisas para as quais ele me quer só a mim. Como se o mimo da mãe fosse uma espécie de placebo que tem efeitos mais fortes que um anti-biótico forte.

Tirando aquela parte chata de ele não conseguir fazer o sono descansado, de ter o pingo no nariz, das dores no corpo que certamente tem, tal como eu tenho; tirando essas coisas que nos preocupam, tento desconstruir o que tenho em mãos e fazer pouco do que é possível. Felizmente, ele também.

Somos duas Marias Madalenas, mas pelo menos temos sentido de humor.

O nariz está sempre a pingar e ele ainda não se sabe assoar como os adultos. Ainda não sabe e a verdade é que a mãe contando como medicamento, pode fazer por ele. A receita para aniquilar a gripe são: muitos líquidos, Ben-U-Ron, anti-histaminico e mimo da mãe. Fundamental. 

Por isso anda pela casa em lamento e de vez em quando vem atrás de mim:

- Mãe tenho o nariz sujo-aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! - snif.

Tudo é seguido por um "aaaaaaaaaaaaaaaa!", snif. Mãe lê uma s'tória tenho o nariz sujo-aaaaaaaaa!, snif; Mãe queo mais ógute tenho o nariz sujo-aaaaaaaaa!, snif. E o tipo goza com isto. 

Para qualquer lado que vai há um "aaaaaaaaa!" snif!

Eu para aqui ando de robe polar, com os meus lenços sujos no bolso esquerdo e os dele no direito - que é para não haver mistura de microives...

Ainda assim, certo como ele ser um vadio que só quer andar na boa-vai-ela, assim que tomou o medicamento, apesar de estar quase a cair para o lado, com os olhos semi-cerrados, todo ranhoso e com o corpo maçado; assim que apanhou o remédio bucho abaixo, disse-me:

- Mãe, agoa já podemos ir pa caja do tio 'uis?

- Não filho.

- Poquê-aaaaaaaaaaa!? snif.

- Porque tu estás doente e a mamã também.

- E o pai?

- O pai não está doente.

- Então podemos ir?! snif.

Ele pode estar a cair para o lado, com febre, com dores, com o nariz a cair, o que for, o que interessa é ir, vadiar, passear, laréu. 

Definitivamente não nasceu para ser bicho de gaiola.

 

 

Nota: enquanto escrevo - fugi de ler mais histórias porque estou a perder a voz e não me convém nada estar a esforçar mais a garganta - ele quis sentar-se ao colo no pai, a escrever no PC do pai. Com o teclado externo (desligado, note-se!) ele tecla à mesma velocidade que eu. Diz-me: Olha mãe, tou a fazê um tabalo como tu!).

 

O meu superpoder

É feriado e estou a pé desde as 5:45.

Sôtor espirrou um numero considerável de vezes ontem à noite, digamos que as suficientes para hoje de madrugada não estranharmos que estivesse lamurioso.

Levantou-se com o nariz entupido era 5:45, queria colo, queria ir para a sala, queria ver a Patrulha Pata.

Fomos.

Ambos meio dormentes, ele tremendamente cansado, a testa um bocadinho quente e o nariz a pingar. Conseguimos convence-lo a comer alguma coisa e a tomar o anti-histamínico.

Eram 6:30 (mais coisa menos coisa, adormeceu ao colo do pai). Olhámos um para o outro e soubemos que não era hora de voltar para a cama, ainda acabávamos os dois com uma neura.

Sôtor dormiu ao meu colo - para ter a cabeça bastante levantada - enquanto, às 6 e tal da manhã, víamos um episódio do This is Us.

Pensei muito, rendi-me outra vez, e acabei - como sempre - com lágrimas na cara. 

Sôtor foi para cama. Eram 7 e qualquer coisa e nós começámos a ver um filme. Às 10, quando o conseguimos acordar já tínhamos no bucho 1 filme inteiro e 1 episódio do This is Us.

Nunca antes na minha vida....

O anti-histamínico e o descanso fizeram milagres, os mimos deram o aconchego final. Há 1 hora que me anda a perguntar onde é que vamos à tarde e que planos temos para o dia.

A mim só me ocorre que eu vou dormir, não sei como é com ele.

 

Enquanto escrevo está a fazer corridas e delegou no pai a incumbência de fazer bolas de sabão para ele rebentar.

 

Antes de me sentar para escrever disse-me:

- Mãe, anda fazer bolas de sabão pa mim.

Eu levantei-me e pus o braço direito no ar, disse-lhe:

- Sou uma super heroína.

Responde-me:

- Não, não és! És só a mamã.

Eu...

 

Sôtor, o osteopata?

Domingo é dia de natação. Vai a família toda: pai, mãe e filho. Com os filhos podem entrar na piscina o pai ou a mãe – excluindo épocas festivas em que a “prendinha” são 45 minutos de brincadeira para todos. Nós escolhemos ir à vez, uma semana vou eu com ele, outra vai o pai. Assim ambos gozamos a experiência e ele aprende a estar na água e a fazer os exercícios com os dois.

 

Como vamos pai e mãe, como ele é uma criança muito ativa e para fazer aquilo a que se chama “dividir o mal pelas aldeias” sempre optámos por repartir tarefas: aquele que vai com ele para a piscina veste-se enquanto o outro trata de vestir sôtor (uma tarefa de significativa envergadura, é preciso dizer). Acabada a aula, um vai tomar banho, o que ficou de assistente trata de secar sôtor e voltar a vestir.

Tudo organizado e bem oleado desde os 6 meses de idade.

 

Mas…

 

Há duas semanas o Nuno fui fazer a meia maratona, eu fiquei com sôtor em casa e combinei comigo mesma que, se estivesse bom tempo íamos à piscina os dois, caso contrário ficávamos em casa (caso não se lembrem foi o fim de semana da tempestade Gisela e caiu água a dar com um pau).

Ficámos em casa.

Sozinha com os meus pensamentos – porque o pequeno estava mergulhado nos seus episódios da Patrulha Pata – dei comigo a matutar que era importante começarmos a fazer o circuito todo de piscina sozinhos com ele. Podia voltar a ser preciso por alguma razão e não estávamos de todo preparados para uma tarefa de tamanha esquizofrenia.

Combinámos então que no fim de semana seguinte íamos começar a fazer isso: quem ia com ele vestia-o, vestia-se, ia à piscina, dava banho, vestia-o e vestia-se. Só de pensar já uma pessoa fica cansada.

Calhou ao Nuno.

Mas, nesse fim de semana houve um contratempo e ficou adiado para domingo passado.

Calhou-me a mim.

 

Tomei um valente pequeno almoço, sabia que não ia à guerra mas acabaria essa manhã mais apta para qualquer cenário de calamidade. Se o meu sistema nervoso resistisse, resistiria a qualquer coisa.

 

Entrámos. Optei por vestir o meu fato de banho primeiro. Assim ficava eu ao frio e não ele.

- Mãe vamos, vamos, vamos, vamos, vamos…

E arrancou em direção à piscina vestido, colete de penas e gorro na cabeça, eu com meio fato de banho vestido, a tapar-me com uma mãe, descoberta com a outra, um chinelo no pé ou outro ao pé do banco. Apanhei-o a tempo.

- Mamã, apanhaste-me.

- Pois apanhei.

- Mamã, vens comigo à piscina?

- Sim.

- O que é isto?

(começou a vasculhar a mala: era o champô)

- É o champô, deixa estar na mala.

- Para que serve?

- Para lavar o cabelo.

- Posso abir?

- Não!!!!!

Já estava a desenroscar a tampa e pronto para espalhar champô por todo o lado. Tirei-lho. Eu ainda não estava vestida, faltava uma alça. Já arfava.

Correu para a porta. Fugiu com o champô. Voltou a tentar “desviar” um frasco da mala.

- Olha, vai-te esconder nos cacifos, não queres?

Todos os miúdos gostam de brincar a esconder-se nos cacifos. E as mães normalmente não se importam….é evidente o porquê, enquanto lá estão não estão a correr em direção à piscina com tudo vestido.

 

Chegou a vez dele.

Mil perguntas depois, lá estava vestido e a caminho da piscina.

 

PISCIIIIIIIIIIIIIIIINAAAAAAAAAAA!

 

(sim ele adora a água)

 

Quando chegámos a turma já estava a preparar-se para ouvir as instruções do professor. Consegui ouvir uma parte, a outra foi abafada por: vamos dar saltos mãe, boraaaaaaa, vamos saltar, vamos saltar, merguuuuuuuuuulhos!

E eu: sheeeeeee, vamos ouvir o Paulo; temos de ouvir; não estás a prestar atenção; presta atenção; a mãe tem de ouvir…

Fiquei com mais ou menos uma noção do que era para fazer, é o que normalmente acontece, vou vendo o que os outros apanharam e vou atrás...que remédio (todos temos de fazer isso porque os miúdos estão em completo êxtase). 

 

A aula correu com a satisfação habitual com os exercício feitos e os momentos de gozo profundo em que ele decide fazer pouco de mim, como quando lhe peço que suba as escadas com cuidado, sem saltos nem correrias – com vista a evitar o esbardalhamento – e o tipo se põe de gatas e diz: de-va-ga-ri-nho!

 

Quando a aula acabou não estava pronto para sair, queria fazer parte da aula seguinte e eu tive de o arrancar da piscina.

Tinha chegado a hora de ambos irmos tomar banho.

 

Na minha mente tocou o “Eye of the Tiger” e eu estava decidida a levar a minha avante. Sôtor pela mão, fomos buscar as toalhas e o champô. Chegámos aos chuveiros e ele decide que a água que havia no chão era uma excelente fonte de brincadeira, queria deitar-se no chão, chapinhar. Por pouco não ficou encharcado em água, ele e o robe turco.

Eu ali, a segura-lo com uma mão, a segurar as toalhas debaixo do braço e com o outro a tentar pendurar as ditas no cabide de entrada para o chuveiro. É nessa altura que ele dá um salto e, usado todo o peso do corpo, se lança para o chão, eu fiz tanta força para o segurar que senti os músculos do lado direito do peito ganir. Foi um esticão e peras. Juro que vi estrelas, luas, planetas e inclusivamente duas galáxias próximas.

 

Ultrapassei a dor, dei-lhe banho e passei-me por água. Se fosse pôr champô na minha cabeça havia a forte probabilidade de, quando eu olhasse para onde ele estava, apenas constar um espaço vazio porque ele tinha: ou fugido de volta para a piscina, ou ido ter com o pai todo nu e molhado.

Fui vesti-lo.

Mil perguntas, uma bolacha Maria e chegou a vez de eu me vestir enquanto ele cirandava por ali.

(nestes momentos não é de estranhar se alguém vir uma mãe a vestir as calças na cabeça e a camisola nas pernas, a pessoa não consegue estar descansada a fazer o que tem de fazer com o mínimo de atenção...é frenético)

Não me apercebi a principio, mas um dos bancos estava com um parafuso em falta, então a ripa que segurava estava solta. Ele, em pandilha com outra miúda, decidiram andar a alçar aquilo. Objetivo: que ela – que estava na extremidade oposta – se desequilibrasse e malhasse no chão. Ou isso ou algo mais simples – dificultar a vida da mãe dela. Sou capaz de jurar que todos nascem com esta em mente: ver até onde a gaja vai! E para isso vou carregar nos botões todos...hehehehehe...

Sotôr acabou com o superwing confiscado.

 

Ambos vestidos, cabelos secos e mala arranjada, saímos cá para fora.

Eu tinha os olhos vidrados, como quem acaba de sair de uma situação traumática. Ele estava na boa e o Nuno estava com tanta pena de mim que era palpável.

 

Parte boa disto tudo, o esticão que ele me deu fez com que a dor que ando a sentir há mais de um ano desaparecesse. Foi como se eu tivesse um nervo com um nó e aquele esticão o tivesse desfeito. O miúdo para além de médico, piloto e humorista ainda vai ser osteopata, tá visto!

 

Atão diz que foi dia do pai – parte II (o sucedido)

Não tenho jeito para comemorações, datas especiais, surpresas e coisas de tais. Não me organizo para festas de aniversários, dia de natal ou dia de coisas várias (pai, mãe, avós, árvore, robalo, o que for). Gosto de saber que há datas comemorativas, mas depois faço pouco uso delas.

Isto acontece maioritariamente porque sou uma pessoa com pouco tempo no geral, e falta de horas no dia em particular.

 

Trabalho ao lado de um dos maiores centros comerciais do país, passei à porta das lojas com as bugigangas do dia do pai todos os dias, pensei que tinha de ir comprar alguma coisa de todas as vezes e ontem, Dia do Pai, percebi que ainda não tinha comprado nada.

A vantagem de trabalhar no mesmo edifício que o maridão é que não nos podemos queixar de que não temos tempo para nós, para conversarmos. Almoçamos juntos quase todos os dias, vamos para o trabalho juntos e voltamos para casa da mesma forma. A desvantagem é que para fazer uma surpresa é do caraças.

 

Ontem disse-lhe: calhas a ir almoçar mazé c’os amigos e eu tinha feito uma coisa diferente.

 

Há que imputar alguma desta culpa no outro, como é bom de ver.

 

Adiante com a coisa, disse-lhe palavras bonitas, de como é bom pai, de como o miúdo só o manda ir aspirar porque sabe que ele para além de uma magnifica pessoa é também um excelente ajudante na manutenção do saneamento do lar. Essas conceções fofinhas que deixam uma pessoa deleitada e capaz de dizer: olha, com essas palavras nem preciso de prenda.

 

Dito isto pusemos mãos à obra e toca de ir comprar chocolates para os velhotes. O pai dele e o meu.

 

Saímos à hora certa e zarpamos para casa de Augustinho (também conhecido como eu pai).

 

- Viemos só numa corridinha, nem vamos sentar, é Dia do Pai, vim dar-te um beijinho e deixar este miminho.

- E eu vim desejar um Bom dia do Sogro! – arremessa o Nuno.

- O teu irmão também já cá esteve. Trouxe-me uma daquelas que eu gosto. – E piscou o olho.

 

O que quer dizer duas coisas: a prenda do meu irmão era melhor que a minha; e era uma garrafinha de material de qualidade.

 

- Deu-me uma garrafinha de vinho do Porto!

- A sério?! Eu trago chocolates, que levam coco e RUM. Tudo coisas que tu gostas! Três em um. Pumbas!

 

Raios parta ao velho que gosta de uma pinga de qualidade.

 

Ficou feliz com a visita e nós ainda com mais um velhote para ver e um puto para estar com o pai.

 

O Nuno larga-me perto de casa, vai dar a prenda ao pai e buscar o filho. Eu “ia passear os cães”. Estava já com as coisas preparadas para fazermos alguma surpresa para oferecer ao pai mas o raça do miúdo larga-se-me numa birra descomunal. Era segunda feira, ninguém gosta de segunda feira, e ele tinha-se levantado mesmo muito cedo.

 

Acalmados os ânimos lá o convenci a irmos para o quarto. Preparámos em conjunto dois chapéus de policia. Um para o pai. Outro para ele. Tiraram a foto lado a lado.

O melhor pai, para o melhor filho.

 

Eram 22:00 da noite e ainda se salvou o dia do pai.

 

Porque eu posso ser uma nódoa nas festividades, uma tristeza nas surpresas, um zero à esquerda nos trabalhos manuais. Mas brilho no improviso.

 

 

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