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Blog Bestialmente Conhecido

Uma família, dois ninjas

Temos brincadeiras só nossas.

Ao final do dia compensamos o tempo que estamos longe um do outro.

Eu estou sempre desejosa de sentir o cheirinho dele - enquanto ainda é "cheirinho" um dia vai ser a sebo de gajo crescido - e ele pergunta por mim logo ao entrar.

Começam as brincadeiras. Só algumas para desanuviar o dia e não ser só tarefas, tarefas, tarefas.

Quando faço eu o jantar brinca com o pai ou pega nos brinquedos e vem ter comigo à cozinha.

Quando o pai faz o jantar somos os 2 crianças.

Sou ama e parceira de crime, tudo numa mãe só.

Uma das nossas brincadeiras favoritas é ser ninjas. Não andamos á batatada. Longe disso. Detesto violência. Imitamos posições de Karaté e dizemos "watáááááááá!".

Andamos pela casa desta forma.

- Mãe faz de ninja.

E eu...

- Watáááááááá!

E ele...

- Watáááááááá!

E eu....

- Filho ninja!

E ele...

- Mãe ninja!

E eu...

- O pai também é ninja.

E ele...

- Não é não. O pai é o pai.

 

Porque nesta casa há, pelo menos, um crescido.

Por isso, se estavam preocupados podem descansar, as crianças estão sempre a ser supervisionadas. E o pai, esse esta sempre seguro...com  ninjas sempre ao dispor...

Watáááááá!

 

É verdade. Mentimos ao puto!

Quando pensamos em ser pais ninguém nos informa das realidades mais cruéis. A parentalidade no geral é bastante simples. Os pais (ou alguns deles vá!) deixam a educação para as mães, “eu jogo à bola terças, quartas, quintas e sábados, é a nha menher que trata das coisas dos putes!”. (quem não conhecer pais assim que meta a mão no ar!) As mães, tem de olhar para a maternidade como o cálice sagrado da vida.

Pariu, logo vive para cuidar.

 

Tem calma, pondera, lê livros diversos de puericultura, decora o quarto, compra roupas com 2 estações de avanço, faz os cadernos das crianças, dá banho ao Tózé e à Amélinha e fica radiante quando o pai os leva ao jardim para que ela possa varrer a casa descansada ou fazer aquela limpeza do mês onde bota cortinados para baixo e pulveriza com lixívia os cantos à casa.

 

Ninguém explica às mulheres que não deve ser assim. E ninguém elucida os homens que ser pai é limpar rabos e também, não é só levar à bola e dizer que o Quinzinho remata como ninguém.

 

Aliás, as próprias mulheres (as mães) são muito culpadas (desculpem-me senhoras, mas é verdade), porque se os putos querem um nenuco para aprender a limpar o rabo a um boneco, desviam logo a atenção para uma caçadeira de canos cerrados que esguicha água, não vá a cria ficar efeminada e ser gozada pelos outros machões de 3 e 4 anos porque tem um nenuco para brincar.

Os putos interiorizam isso, crescem, tornam-se homens e, quando as mulheres lhes pedem para limpar a fralda aos putos saem-se com pérolas como esta: “para quê, ele vai cagar outra vez!?”

 

(isto não tem que ver com o ponto geral, foi uma introdução que se me apeteceu por contas cá de umas coisas que me andam a fazer fornicoques e sobre as quais falarei mais adiante nesta vida)

 

Moimeme, pessoa que, antes de estar grávida de 5 meses, julgava que puericultura tinha que ver com pecuária e que era algo afeto à criação de porcos e seus similares, quando decidi que traria uma cria ao mundo seria para dividir afazeres com seu pai. Afinal de contas foi uma aposta 50-50, eu dei o óvulo, ele deu o espermatozoide. Cada um participou voluntariamente com a sua célula reprodutora, pelo que, toda a gente tem de pôr as mãos na massa.

 

Nesta altura, em que descobri os grandes livros de puericultura, encontrei muita coisa, mas em lado nenhum explicavam que os putos entram pela casa de banho adentro quando uma pessoa está no trono ou a sair do banho em pleno inverno fazendo os pulmões de uma pessoa encolher-se até ao tamanho de duas nectarinas. Ninguém explicou que os putos passam as noites a acordar a querer coisas, que invadem as camas dos pais, que dão lambadas aos progenitores. Ninguém esclarece de forma inequívoca que a pessoa vai passar anos da sua vida a ver series de televisão às escondidas como se pertencesse à máfia. Ninguém informa que a pessoa se torna bilingue falando com seu esposo em inglês para que o puto não entenda que estão a planear ver aquele filme enquanto o gajo dorme a sesta.

 

Enfim, ninguém assume que para ser pai ou mãe, mantendo a sanidade mental é fundamental que nos tornemos mentirosos patológicos.

 

Isso mesmo: mentirosos patológicos.

 

Não saltes em cima da cama Luís Miguel que partes a clavícula e passas o resto da vida entrevado.

Queremos apenas que tire os ténis borrados de cima da cama e que não volte a faze-lo. Pretendemos também evitar o esbardalhamento e o eventual partir de braço, mas sabemos que temos de aumentar o risco para a coisa funcionar.

 

Não andes nessa parte do parque porque há bichos cá em baixo. Tens de ser maior.

O puto quer meter-se no meio das cordas e odespois fica todo enlameado e corre o risco de partir uma pernas. Uma pessoa diz o que for preciso.

O puto diz que não tem medo dos bichos.

Uma pessoa arremessa: Desces nesse escorrega Alberto Afonso e eu juro que chegamos a casa e dou todos os teus brinquedos. Minimanismo on your ass, tou-te a dezer!

 

A pessoa precisa de descansar porque tem as olheiras pelos joelhos, cérebro em caca e já se começa a babar um pouco do lado direito da boca, a pessoa precisa de encaminhar o puto para a casa de um familiar. Tios, primos, avós.

 

Vai daí e aparece um feriado. Até que a criança entre para a escola e aprenda o que é um feriado os pais podem sempre dizer que é um dia como outro qualquer, mas que, por estar um tempo agradável há mais gente na rua e há também lugar a algumas comemorações onde se canta em loop musicas de Zeca Afonso.

 

Pode dar-se o caso de, por exemplo, uns quaisquer pais se vestirem como se fossem para o trabalho, levarem a criança para os avós, prometerem ir buscar mais cedo porque iam sair mais cedo e ir para casa arrumar roupa e babar em frente à televisão.

 

Pode acontecer.

 

Por exemplo com pessoas normais e honestas como nós lá em casa.

 

Descansámos, babámos em frente ao ecrã, vimos um This is us e outro filme que parecia divertido mas que me fez chorar como o caraças no fim. Arrumámos coisas. E eu fui buscar Sôtor mais cedo, sentindo a necessidade de justificar as minhas jardineiras e a t-shirt que trazia vestida com outra mentira, “a mãe veio mais cedo e ainda foi a casa trocar de roupa!”. Ele não perguntou, mas só para me adiantar.

 

É isto…

 

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A melhor resposta de sempre

Tenho 3 irmãos. Todos mais velhos que eu.

O mais novo dos 3 fez 41 anos na segunda-feira.

Liguei-lhe ao final do dia para dar os parabéns, para dois dedos de conversa, para saber como vai a vida no geral. O que é certo é que o tempo passa a correr e quando damos conta passa um mês que não nos falamos. Fica sempre no subconsciente aquela máxima de que as más noticias correm depressa, por isso deve estar tudo bem.

 

Atendeu-me. Estava em casa. Aliás tem estado em casa de baixa há umas 2 semanas e tal. Problemas na coluna. Tem vindo a arrastar ao longo dos anos problemas de costas que, com a idade e o desgaste a que se sujeita no trabalho, não melhoram. Vai na volta lá tem de ficar uns dias de cama. Vai na volta e lá anda a fazer fisioterapia.

Desta vez não tinham sido só dores, ficou com um braço “preso”, praticamente imobilizado. Tudo a acrescentar à dor.

 

O que vale é que nesta família de gente meio chalupa tudo serve para rir e fazer pouco dos percalços da vida, por isso, em vez de nos focarmos na chatice que tem sido, lá me esteve a contar que foi ao posto de saúde para ser visto pelo médico (tudo como se fosse uma espécie de anedota). Que o mandaram fazer um TAC e que, por indicação do médico, foi marcar uma consulta para ser visto o mais rápido possível.

Para garantir que conseguia ser atendido foi ao que chamam no SNS de “consulta aberta”, nesse dia o médico está de plantão e é certo que os pacientes conseguem ser atendidos.

Chega ao posto e pede para marcar consulta. A senhora da secretaria olha para ele, vê que tem um envelope na mão:

Senhora da Secretaria (doravante “SDS”) – Isso são exames?

Rui – São.

SDS – São para mostrar ao médico?

Rui – São para mostrar a UM médico.

SDS – Se forem para mostrar ao doutor não pode marcar uma consulta aberta!

Rui – Olhe, então veja lá se me consegue marcar uma fechada!

 

Desfizemo-nos a rir. Claro que teve de explicar à senhora que os exames não eram para aquela consulta e larailailai. Mas, para a postura e as questões estava mesmo a pedir.

 

Ele contava esta história e eu lembrava-me de uma muito mais antiga.

O meu irmão Rui sempre teve o dom de dar as respostas certas no melhor dos timings. Eu sou muito diferente, as respostas ideais ocorrem-me sempre cerca de 5 a 10 minutos depois da situação.

 

Eu devia ter os meus 6 ou 7 anos. Tinha ido brincar para a casa da vizinha que tinha um filho da mesma idade que eu, o João. Isso acontecia muitas vezes e, quando chegava a hora de ir para casa jantar um dos meus irmãos ia chamar-me.

Todos lá em casa tinham tarefas, e a dele, que era o mais novo dos mais velhos, era ir chamar-me à casa da vizinha.

Bateu à porta, a vizinha viu que era ele e chamou-me, estávamos já a ir embora…

 

Vizinha do andar de baixo (doravante “VDADB”) – Ó Rui, desculpa lá, deixa a vizinha fazer-te uma pergunta.

Rui – Diga vizinha.

VDADB – Vocês têm dinheiro no Banco?

Rui – Como assim?

VDADB – Tinha perguntado à tua irmã se ela tinha dinheiro no Banco. Sabes é que o Joãozinho tem uma conta com dinheiro no Banco, perguntei à tua irmã mas ela não me sabia responder.

Rui – Ahhh, já entendi. Sim vizinha a minha irmã tem dinheiro no Banco, não é todos os dias, mas tem.

VDADB – Como assim?

Rui – Então, é simples, quando ela diz que quer ter dinheiro no Banco, nos puxamos de um banco de cozinha, pomos lá umas moedas e ele tem dinheiro no Banco.

VDADB – (incrédula)

 

Ainda hoje me recordo desta conversa, a melhor resposta de todos os tempos. A vizinha, metida a esperta porque tinha herdado umas terras no Minho, achava que era especial, mas como a inteligência não vem em metros quadrados por herança….danou-se.

 

O puto tem imaginação fértil #1

Em 3 anos tenho tido provas irrefutáveis de que o miúdo é constituído por 80 % genes da mãe e apenas 20 % genes do pai.

Hoje tive mais uma prova.

Estava a prepara-lo para ir ao penico.

- Mãe, vou levar os meus 2 aviões.

(não, eu não levo aviões quando vou à casa de banho...não tenho aviões)

 

Diz que é um piloto e persiste em mandar os aviões ao chão. Explico-lhe que se for um piloto que despenha aviões não terá muita empregabilidade. Não estou certa de que tenha entendido.

 

Pousa os dois aviões e, antes de se sentar diz-me:

- Quero contar uma história. Era uma vez os meus 2 aviões que iam a voar muito e iam para a selva, depois ficaram sem bateria e caíram no mar, estavam a ir ao fundo e depois apareceu o avião verde para os salvar. O avião verde é a Mira dos Super Wings.

 

Imaginação não lhe falta. Isso é certo. Saí à mãezinha, meu rico menino!