Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blog Bestialmente Conhecido

A filosofar a vida e os comportamentos que me enfadam

As variantes do comportamento humano ainda me entristecem (e é pena que assim aconteça), mas já não me surpreendem. O avançar da idade demonstra que, apesar do numero ilimitado de possibilidades, existe uma tendência cansativamente redundante nas escolhas e condutas de cada um.

 

Quando era miúda, devia ter os meus 15 anos, mudei de turma, ou melhor, como escolhi a área de ciências – recordo-me agora – fui parar a uma turma onde só conhecia uma ou duas almas. O resto dos colegas vinham de outra escola, não havia ensino secundário na área de residência deles, não tinham sido colocados na escola que gostavam e foram todos ali bater com os costados.

Todos se conheciam da escola anterior, vinham com preconceitos, com amores e dissabores bastante antigos.

Começou o processo de recrutamento. Todos queriam angaria o máximo de elementos para o seu grupo. As freaks queriam mais gente de t-shirts desbotadas que recusavam entrar no Mcdonald's e atiravam pedras a quem comia carne. As conservadoras, que iam à missa e faziam parte da catequese, queriam mais crentes. As que não se enquadravam nas freaks, não conseguiam ser tão boas alunas quanto as excelentes e viviam para canalizar as suas frustrações na relação que tinham com os demais pares, da necessidade de forma depreciativa sobre aquelas que mantinham notas altas e namorados em simultâneo, essas queria mais bocas para maldizer.

 

Nunca gostei de grupinhos. Gosto de grupos de pessoas. Mas não gosto de grupinhos. Daqueles em que me sinto parte de uma qualquer estrutura da qual eu constituo uma peça, não necessariamente insubstituível, mas que conta numero. Uma espécie de cabeça de gado.

Nunca gostei de andar a dar elogios ao desbarato, porque uma pessoa para merecer a minha atenção mais positiva tem de ser alguém a quem eu reconheço valor, e isso não acontece certamente só porque respira.

 

Recordo-me que nessa altura era muitas vezes abordada por diferentes colegas. A Maria que me elogiava pela forma como falava, a Cláudia que achava que eu era muito inteligente, a Judite que queria ir beber café para nos conhecermos melhor (eu era de certeza uma pessoa espetacular), e podia estar aqui até amanhã, a recordar pessoas atrás de pessoas que passaram pela minha vida.

Nunca me deixei iludir pela bajulação, porque a bajulação pede bajulação e eu, para além de não gostar de a receber, detesto ter de a dar. Não gosto de lambe botas e detesto que esperem isso de mim.

 

Com o tempo aprendi que estas pessoas querem dar-nos a sua atenção, fazer-nos sentir especiais, para que nós passemos a fazer parte do seu leque de seguidores. Como uma mãe pata que dá um pouco da sua atenção a cada patinho e que depois de eles aprenderem bem o caminho, depois de percorrerem sempre as suas pisadas, pode seguir para outras pastagens.

 

Encontro pessoas destas em todos os lados e em todos os cenários: na vida real, no dia a dia, nas redes sociais (aquela expectativa de troca de likes), nos blogs (aquela expectativa de troca de comentários, até que já há um grupo de seguidores simpáticos, fieis, consistentes, e depois já não vale a pena “dar mais conversa”). Fico sempre um pouco desconfiada sobre o que estas pessoas esperam da vida, se vivem para que os outros estejam a seus pés, as achem tão especiais, as queiram tanto. É o completo inverso do modo de vida que apregoam. Quanto mais se dizem independentes, fortes, “eu mais eu”, mas precisam que os outros lhes calcorreiem os passos, validando cada decisão, porque de outra forma as coisas perdem-lhes o sentido.

 

Permitam-me que pegue num exemplo aqui desta vila coaxadora. Sou uma ignorante em tudo o que é digital, vou aprendendo aos poucos isto e aquilo e dou comigo a descobrir coisas mil anos depois de os outros já o saberem até ao tutano do cansaço, por isso foi sem querer que me apercebi que, correndo o espaço de Leituras é possível selecionar posts como favoritos (que, sejamos francos, é o like da blogosfera sapo) – eu não fazia ideia disto, descobri sem querer – basta clicar na estrelinha que está no canto superior direito de cada post da secção de leituras. A estrelinha passa de vazia a dourada e plim!, a pessoa que escreveu tem um favorito.

Eu estranhava alguns favoritos que recebia porque, por mais rápido que a pessoa conseguisse ler, era preciso uma velocidade raio-x para ler, processar e favoritar com tamanha ganância. Quando isso me aconteceu – esse sem querer que trouxe conhecimento – percebi então o que se andava a passar. Não eram lidos os posts, eram postos favoritos com aquela premissa do “olha que eu gosto tanto do que tu escreves, vem lá agora adorar-me um bocadinho a mim”. Falhada a retribuição acabaram-se os textos bons, é que aparentemente nunca mais escrevi uma porra de um texto decente.

É curioso.

 

Eu também gostava de uma serie de coisas, que a minha escrita fosse adorada estratosfera afora, mas daí a recorrer a estratégias de marketing doméstico para obter validação para o meu contar de histórias…não fui talhada para isso.

Mais prefiro fazer como a outra: se tiver de chegar a algum lado, chego, as coisas ganham tração por si próprias.

 

Este tema do gosto-de-ti-vem-gostar-de-mim leva-me a outra questão: a necessidade que se presencia para obter a apreciação alheia sobre a vida que escolhemos ter.

 

Que sentido tem afinal a vida sem a validação alheia?

Para mim todo. Cada vez me cansam mais as redes sociais, a publicação de trechos triviais de vida, para quê? Para mostrar o quê? Que curiosidade é esta que faz interessar aos outros o que eu jantei? Quanto eu corri? Se apanhei os cocós dos cães ou se os deixei no jardim para estrumar? Que raio tem o mundo a ver com os sentimentos que tenho pelo meu filho? Porque seduz tanto as pessoas a partilha de fotografias dos restaurantes, das viagens? Parece que antigamente se escrevia numa árvore, com a ajuda de um canivete, tal-e-tal esteve aqui. Agora tira-se uma foto e vai de colocar nas redes sociais, para marcar que ali estivemos. Os outros a pôr os likes, mais porque querem likes de volta, porque têm pena de quem não tem likes, porque são amigos e têm de likar; do que porque de facto tiveram interesse naquela imagem.

 

Porque raio precisam as pessoas que os outros gostem delas? Porque precisam tão seriamente dessa validação?

Porque só essa necessidade de aceitação, de validação, de ser gostado, justifica o escrutínio no que é dito, a escolha astuta e fofinha das palavras, o cuidado nas histórias partilhadas. Se não é para o agrado dos outros porque não ser como se quer ser?

Porque se quer ser mais, porque se quer ser o centro das atenções. Porque existem objetivos para ser cumpridos e no fundo, todos querem ser os miúdos populares da escola, mesmo que já não tenham idade para isso.

 

Acho que é por isso que gosto de conhecer as pessoas em situações que lhe são adversas, é a melhor forma de lhe conhecer a natureza, está acionado o seu lado mais cru, não estão preocupados com a sua agenda: de ser os melhores, os maiores, os que têm mais seguidores, os mais adorados; estão preocupados, como qualquer outro animal, em sair daquela embrulhada.

 

Um sítio onde eu não seja "eu"

São muitos os dias em que me arrependo de ter escolhido assinar os meus posts com o meu nome. Quando criei o blog achei que a melhor coisa a fazer era dar nome aos textos escritos. Não sei o que é que me passou pela ideia, mas não terá sido certamente a noção concreta de que por vezes faz falta "não ser eu", para que se possa escrever com toda a liberdade, sem a censura imposta pelos milhares de papeis que desempenho no meu dia. Apenas escrever, coração na ponta dos dedos, zero procura de razão, apenas uma "pasta de arquivo" para as piores e mais tresloucadas ideias que nos passam pela mente. O se calhar só para aquelas que são tão normais que são censuradas. Ou nem são censuradas, mas não estou para ouvir a opinião dos conhecidos sobre elas. Para registar frustrações antigas, daquelas que mais ninguém se lembra para além de nós.

Sem que ninguém me saiba a pessoa do dia a dia. Sem que ninguém que me conhece leia o meu desabafo e o saiba com esta origem. Sem ter de conviver com o olhar, a critica, o ressabiamento, quando não escrevo exatamente aquilo que as pessoas querem ou gostam de ouvir.

Poder continuar com os meus papeis diários, aqueles para os quais é esperado um determinado comportamento. Os mesmos em que me apetece dar gritos, mas só me descabelo dentro da minha cabeça. Não partilho com o mundo.

O anonimato dá isso, a possibilidade de partilhar com o mundo, sem que o mundo saiba que sou eu.

Depois, desabafo despejado para o universo continuo, a ser: a mãe; a filha; a esposa; a funcionária; a chefa; a metida a escritora; o elemento da sociedade; a irmã; a condutora; a contribuinte; a pobre; a queixosa; a filósofa; a cronista; a quase gaja boa; a wannabe desportista; a psicóloga; a tia; a cunhada; um elemento de família; a cliente da padaria; a cliente de hipermercado; a pessoa doce e sensível; a camionista bruta e mal educada; a gestora de uma espelunca online; a invejosa; a confiante; a recatada; a minimalista; a consumista; a frustrada; e a satisfeita com a vida em geral.

 

Esta forma de acreditar que se sabe como a vida deve ser vivida

Convencionou-se que a vida é para ser vivida de uma determinada forma. Querer mais, uma casa maior, roupas mais caras, a promoção no emprego, o carro a 120 meses que faz os amigos pensar que se está mesmo bem na vida, as viagens para conhecer o mundo, porque é interessante conhecer outras culturas e tirar fotografias da praxe ao pé dos monumentos e das praias paradisíacas. Conhecer as culturas é como quem diz, porque com 5 noites num hotel de 4 estrelas - na loucura 5 - não há cultura que se conheça. Há hábitos que se podem presenciar, quem sabe confirmar o que já dizia no livro de viagens, o que já tinha sido contado pela Margarida que lá vai ano sim, ano não. 

Mas recomenda-se, porque a vida é curta e há que conhecer o mundo. Ver os sítios com os nossos próprios olhos, e confirmar que a fotografia que vimos no screen saver não é uma montagem.

A vida é para ser vivida, dizem. Mas não de acordo com a forma de cada um. Não. Tem de ser neste método que se definiu algures no tempo e no espaço, sem juízes nem decisores, por imposição quiçá ancestral, universal ou astrológica.

Quem não quer tudo isto só pode ser obtuso, porventura limitado. Sem visão de vida e do futuro. Alheio ao irrefutável estado de consciência de que tudo vai acabar mais cedo ou mais tarde, e de que ninguém sabe quando o nosso dia chega. Um triste prognostico de vida vaticinado ao arrependimento. Porque é isso que vai acontecer. Um recurso humano desperdiçado. Um dia vai perceber que a vida podia ter sido roupas caras, promoções, casas lindas e resorts. Mas já vai ser tarde.

Pobre alma.

Paz ao seu fim.

Às vezes dou comigo a querer o mundo. As casas, as viagens, as promoções, as frustrações (they are part of the game) que elas trazem, as roupas caras. Mas outras vezes. Muitas outras vezes, quero apenas o menos possível. Estar nos sítios que gosto, onde me sinto em casa, sem pressões, sem pontos para picar no mapa, sem a lista de afazeres e as coisas para fazer antes de morrer. Parece que com a lista andamos sempre com a morte às costas. Para quê? A gaja já está sempre à perna.

Sem casas que dão despesas astronómicas. Sem frustrações dispensáveis.

Só a ida diária para o trabalho.

Na loucura a possibilidade de trabalhar a partir de casa. Fazer alguma coisa por alguém que precise mais do que eu. Passar as tardes de fim de semana na praia do costume. Sem nada para fazer. 

Deitar-me sem a preocupação de inventar novidades para o dia seguinte. 

Às vezes planeio dias cheios para todos. E o meu professor sensato, do alto dos seus 3 anos de experiência, diz-me "vamos mas é para casa mamã". 

Outras vezes levantamos-nos com tempo para esticar o esqueleto e espreguiçarmos-nos como os gatos. Tempo para ler as noticias e ver um episódio novo da Patrulha Pata. Passeios mais curtos com direito a sesta na cama fofinha de casa.

O conforto do que é nosso.

Hora e meia no parque de diversões ao pé de casa. O tempo de sair e ir para casa sentarmo-nos a descansar no sofá encostados um ao outro.

Nesses dias a vida parece-me muito mais.

Uns dias acho que sou como a água, moldo-me a qualquer cenário, e encontro sempre uma forma para contornar as minhas barreiras.

Outras vezes estou certa de que sou feita de madeira, como o tronco de uma árvore, razão direta do meu nome. Às vezes sinto que as raízes são fortes e longas. Que estão inculcadas no chão. Que não querem arredar pé. Porque não há viagem como a minha, no meu lugar, com os afetos que me calham, com as pessoas que fazem o meu mundo, as paisagens mais importantes do meu dia.