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Blog Bestialmente Conhecido

Como não amar a corrida? Venha Félix, venha Teodoro, venha Jorge Tadeu dos tufões...

Estávamos sentadas num banco de rua da Costa da Caparica. Eu e a Andreia.

Estávamos de férias da faculdade, ela vinha de férias com os pais para uma casa alugada à beira mar.

Os ricos vão para o Algarve, os remediados vão para a Costa. Terra é sempre terra, já dizia a novela. Praia é sempre praia, grita o verão.

Tínhamos acabado de almoçar e estávamos deleitadas a lamber um gelado generoso, a deitar conversa fora e a definir objetivos. Daqueles que assentamos num papel para o final de ano. Dos que são mais sonhos que qualquer outra coisa.

- A minha mãe têm uma colega que corre todos os dias 1 hora certinha.

Falávamos de ficar em forma, de ginásios, enfim a conversa certa para acompanhar um gelado. Ou para nos sentirmos menos culpadas por estar a come-lo.

Prosseguiu para me contar uma história de que nunca mais me esqueci.

 

A mãe tinha uma colega cujo nome nunca dissemos. Da mesma idade que a mãe da Andreia, tinha uma filha com a mesma idade da Andreia e cerca de ano e meio antes desta conversa tinham feito uma pista mesmo em frente à porta de sua casa. A filha desafiou a mãe para ir dar uma corrida. Ela, agora com os seus cinquenta e poucos anos, saudável, capaz, moça ativa na flor da idade respondeu que sim, que ainda lhe dava uma abada. Ainda corriam uns valentes quilómetros juntas.

No dia a seguir lá estavam elas, lado a lado, a aquecer, a mãe a desafiar a filha, a filha a pensar que a mãe tinha confiança demais.

Começaram a correr e ao fim de 2 minutos o peso dos cinquenta e poucos começou a fazer-se sentir. Ficou sem fôlego. Disse à filha para continuar. Ela não conseguia.

Ficou triste com aquela situação, nunca se tinha sentido fora de forma, era capaz de tudo o que precisava. Como era triste ver-se sem fôlego ao fim de menos de dois minutos.

Foi para casa a matutar naquilo.

Tomou uma decisão. Ia começar a correr e ia recuperar resistência.

Decidiu que correria um minutos a mais cada dia. E assim fez. No primeiro dia correu 1 minuto e foi para casa. No segundo correu 2 minutos. No terceiro correu 3 minutos. E assim fez até ao dia em que correu 60 minutos. A partir daí passou a correr sempre 60 minutos.

Todos os dias, como se de um relógio se tratasse, chegava a casa do trabalho, vestia o equipamento e ia correr exatamente 60 minutos. Nos dias em que não conseguia ir ficava de mau humor e irritava-se com facilidade. Fazia-lhe falta. Não cronometrava distâncias e não sabia quanto corria. Sabia apenas que corria durante 60 minutos todos os dias.

Esta história foi-me contada há pelo menos 13 anos (mais coisa menos coisa) e eu, ainda hoje, a espaços, me lembro dela. Lembro-me sempre que fico sem tempo para cuidar de mim. Sempre que penso que devia correr 10 km e só consigo correr 3. Lembro-me desta senhora cujo nome não sei e que corria apenas 60 minutos por dia. Corria porque sim.

Porque tinha esse objetivo todos os dias e porque precisava de o ver cumprido para se sentir bem consigo e com o seu dia.

 

Quando conheci o Nuno ele corria. Sempre correu, desde miúdo.

Tinha voltado às provas e quando começamos a namorar puxou por mim. Para que corrêssemos os 2.

Comecei a ganhar o gosto da corrida. A perceber que me sentia melhor quando corria, que ficava mais em forma. Muito antes desta onda do running.

Depois fui operada às duas pernas e fiquei proibida. Durante alguns anos não pude correr. Voltei para a natação. Onde me sinto como peixe na água, literalmente, só me faltam as escamas.

 

Depois, aos poucos voltei a correr, já fiz provas – nunca maiores de 10 km – sempre com ele ao meu lado. Como a lebre que acompanha a tartaruga para me dar motivação.

 

Há uns anos decidiu que ia fazer uma maratona, dei-lhe todo o apoio, ralhei quando não treinava. No dia certo lá foi ele. Gosta de objetivos e precisa de os ultrapassar.

Foi sozinho e não contava com ninguém.

Sem ele saber apanhei os transportes necessários, fui ter à meta e já lá estava quando ele passou. Não sei o que é que o espantou mais, ter feito os 42 km ou ver-me ali especada quando lhe disse mil vezes que não estava para estar à seca para ver gajos suados a passar por uma fita.

Fiquei feliz de o ver feliz, com os objetivos cumpridos. A confiança onde deve estar.

(mesmo que eu lhe tenha dito algumas vezes que um tipo vestido de vaca acabou um minuto antes)

 

Fomos pais e as corridas passaram para segundo plano. Aos poucos, com o miúdo a estar mais independente ele voltou às corridas. Eu também, mas numa coisa mais modesta.

Quis ir à meia maratona, a de ontem.

Lá foi de manhã, com o Felix à perna, com a certeza de que ia ficar um pinto pelo caminho, sabendo que já não corria pela ponte e com um mar de logística até chegar ao local. Antes de começar recebeu um vídeo, a esposa sempre sensual no seu robe polar, ainda despenteada; o filho no seu robe polar da Patrulha Pata, a mandar beijinho e a dizer que queria era ver os bonecos.

Riu-se e preparou-se para correr.

Passou por calor, passou por frio, passou por chuva intensa, tão forte que mal conseguia respirar e nem conseguia ver o tipo que estava à frente. Levou com granizo.

Não houve tempestade para o parar. Nem o Félix. E podia ter vindo a rabanada Teodoro e o Jorge Tadeu dos tufões, nada nem ninguém parava este homem na sua demanda pelos 21-ponto-não-sei-quantos-quilómetros.

Acabou em menos de 2 horas.

 

Quando chegou a casa cheirava mal. Muito mal. Os ténis faziam shuec shuec de tão cheios de água que estavam.

Estava feliz e eu fiquei feliz por ele.

 

Porque quando cumpres os teus objetivos cumpres os meus, de te ver bem contigo mesmo.

 

Parabéns, és grande, só tu é que às vezes não vês isso!

 

(tu e a tipa da loja do cidadão que insiste em dizer que não tens 1 metro e noventa a nove )

 

(Este maravilhoso espaço de entretenimento tem conta no facebook e também arreia texto e imagem no Instagram. Ainda não segues?  Shame on you...)