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Blog Bestialmente Conhecido

Todos para a mesa!

Cresci numa casa cheia. Pai, mãe e 4 filhos. A minha mãe era a responsável por fazer as refeições rotineiras. O meu pai o homem dos petiscos. Mariscadas e caracoladas sempre foram com ele, a minha mãe não podia sequer chegar perto dos tachos. Ele é que percebia da poda. Aliás ele é que percebe. Ainda hoje, bons caracóis fazem-se lá em casa. Uma salada de búzios com o tempero perfeito é ele que a consegue.

 

Mas a rotina era papel da mãe. O meu pai trabalhava fora, passava os dias em Lisboa e regressava ao final do dia. A minha mãe trabalhava a partir de casa.

 

Chegava a hora de orientar as coisas para o jantar e lá ela largava a máquina de costura e ia para a cozinha. Os filhos ajudavam com algumas coisas. Punham a mesa e lavavam a loiça depois de jantar.

 

Quando a comida estava pronta ouvíamos o “chamamento”: Todos para a mesa!

 

Uns estavam na sala a ver TV, outros estavam no quarto, outros andavam a cirandar. Cada um nas suas coisas. A chamada para jantar era o corrupio para que se lavassem as mãos e todos se sentassem na mesma ordem na mesa da sala que, com tanta cabeça para jantar, era pequena.

 

Quando a minha mãe faleceu estas organizações foram dando lugar à logística individual de cada um. De quando em vez jantávamos todos juntos, mas era mais escasso.

 

Aos poucos a chamada para a janta, a azáfama da refeição em família, saiu do meu léxico de vida.

 

 

Pequeno sôtor começou a fazer refeições mais compostas pouco depois de completar o ano. Gradualmente o peixe e a carne que estavam na sopa foram saindo para um prato próprio e dando lugar a uma refeição composta por sopa e prato principal.

A preocupação central era que ele se habitua-se a comer 2 pratos e que fizesse refeições compostas, que ficasse alimentado convenientemente, nas horas certas e não para depois andar a penicar pão e queijo todo o dia porque ficava com fome.

 

Até à sexta feira passada o processo era sempre igual. Jantar de sôtor uma prioridade, um de nós tratava dessa tarefa, ele jantava antes de nós e, depois de garantido que ele tinha feito a refeição como deve de ser sentávamo-nos nós a comer.

 

Esta logística demorava mais tempo e fazia com que nós acabássemos muitas vezes de jantar já em cima das 22 horas.

 

Andámos a organizarmo-nos, a pensar refeições mais práticas e estruturar o nosso final de dia. Para pessoas que têm horários exatamente iguais, que não têm ninguém que lhes adiante nada em casa e que não conseguem estar despachados do dia de trabalho, em casa, e dedicados à vida de família antes das 19 horas, é preciso uma certa dose de organização.

 

Atingimos esse patamar e, em resultado disso, este fim de semana fizemos a primeira investida: todos a jantar à mesma hora. Em família, os três à mesa.

O pequeno empolgado, de garfo na mão:

- Mãe, o pai diz que comemos todos ao mesmo tempo!

 

Tem corrido lindamente! Melhor do que quando ele janta sozinho! Para meu grande espanto, está claro!

 

Come com vontade, participa ainda mais na própria refeição, tem curiosidade pelo que está no nosso prato e conversa, como se fosse um “quexido”, presenteando-nos com as suas histórias inventadas onde os personagens são os avós, a mãe e o pai, os cães, os bonecos da Patrulha Pata, os aviões dos Super Wings, o Ruca, os amigos do Ruca e os brinquedos de Sôtor. Todos convergem em histórias originais e fantásticas para uma criatura de 3 anos.

 

No inicio desta “viagem” chamada maternidade preocupava-me muito com os tempos, quando era tempo de fazer isto, quando era tempo de fazer aquilo. A determinada altura, e depois de falar com o pediatra, encaixei na minha cabeça a ideia fundamental, que me ajuda enquanto mãe e enquanto pessoa, no meu dia-a-dia: cada um tem o seu tempo, e as coisas aconteceram de acordo com esse tempo.

 

É verdade, cada pessoa, cada família, tem os seus tempos, tem a sua própria dinâmica, como se fosse uma dança contemporânea, a principio pode ser estranha, mas no fim faz todo o sentido no compasso da música.

 

Estava a terminar a salada e mandei para a sala um “Todos para a mesa!”. Voltei imediatamente a ter 7 anos, de carrapito no cabelo e boneca na mão. A minha mãe a dar as coordenadas para a nossa dança desestruturada, eu a correr para lavar as mãos, a ocupar o meu lugar na mesa da sala, sempre o mesmo. O buliço ainda ia começar, assim que se tirasse a tampa ao tacho.

 

Porque hoje é dia de recordar...de nos recordar...

Este texto foi escrito há praticamente 2 anos. Era Abril de 2016 e eu tinha iniciado o Blog "Em Busca da Felicidade" nesse mesmo mês.

São mais memórias. De tempos bons, é claro.

 

Por momentos entrei num túnel do tempo e voltei a ter 5 anos, a chegar à Costa da Caparica de mão dada com a minha mãe. O meu chapéu de pano, o meu balde de areia com a sua pazinha. Ia fazer castelos.

E que bem que eu voltava a ser assim pequenina outra vez, livre de preocupações, só eu e o meu balde, a areia da praia, o som das ondas do mar e os castelos que construía com a ajuda do meu irmão mais novo.

Hoje amo o mar. Não consigo ir à praia sem entrar na água, aliás, para mim não é ir à praia se não vamos ao mar. Mas naquele tempo tinha medo, um dia quando a maré estava a subir uma onda mais forte veio mais para dentro da areia e começou a arrastar-me, era mesmo muito pequena e só me recordo de umas mãos me agarrarem de repente. Deve ser uma das minhas memórias mais antigas, daquelas que dizem que perdemos quando nascem os dentes lá de trás mas que na minha cabeça ficou arquivada por algum motivo.

Depois fui para a natação, perdi o medo, mas manteve-se o respeito. Um respeito muito grande.

Quando eu era pequena os dias de praia tinham dois caminhos, quando o meu pai estava em casa, ao fim de semana ou nas férias, lá se pegava no carro e íamos todos para Sesimbra, não havia ondas, era tudo mais tranquilo, não havia obras nem melhorias e a maioria das pessoas preferia a Costa porque era maior e tinha mais espaço para estacionar. Para além disso o meu pai tinha a vantagem de ter onde estacionar o carro porque conhecia o senhor do porto que o deixava pôr o carro lá dentro. Passávamos por baixo da rede que não devia estar rasgada mas que se manteve assim durante anos e pum, ligação direta à praia.

Nadávamos até aos barcos e voltávamos, todos atrás do meu pai. Como patos. A minha mãe ficava na toalha, não sabia nadar, arranjava as sandes e os bongos para quando os pequenos regressavam à toalha. Chegávamos à toalha cansados e frescos, a pingar água por todo o lado, sem protetor que isso naquele tempo era coisa de gente com pele branquinha e lá em casa somos todos bem morenos. Toda a gente sabia que os morenos não tinham problemas com o sol, nem apanhavam escaldões. sentávamo-nos nas toalhas, cada um com a sua sandes e o seu bongo. O pão com manteiga e fiambre tinha um sabor diferente. Digo isso muitas vezes ao Nuno, há um sabor muito especial num pão com manteiga e fiambre quando saímos do mar. Sabe à minha infância, sabe a momentos felizes, sabe ao que não quero esquecer.

Jogar raquetes e correr na areia. Nunca soube estar na toalha.

Durante a semana íamos muitas vezes com a minha mãe para a Costa da Caparica, não tinha carta nem carro, por isso íamos de autocarro. Lembro-me como se fosse hoje, todos a pé bem cedo, preparava-se a cesta de verga com as sandes, os sumos e as peças de fruta. Depois saiamos e descíamos a rua para apanhar o autocarro, que o que parava ao lado de casa não ia para a Costa.

O autocarro parava mesmo em frente à praia e depois andávamos até à bola de Nívea. Porque não viemos naquele comboio, mãe? Porque não passa à porta de casa. Até hoje nunca andei no comboio que liga as praias, se calhar um dia havia de experimentar. Mãe quero um chupa daqueles, daqueles, dos da foto. Havia com papelinhos em volta e outros que tinham baunilha por fora. Escolhia sempre o de baunilha.

Quando viermos apanhar o autocarro. Dizia-me sempre.

E eu ia, sempre a pensar no meu chupa.

Escolhíamos um lugar longe das rochas, um dia tinha visto um menino ser puxado pelo mar junto às rochas e a mãe não lhe tinha conseguido chegar, nunca mais quis ficar ao pé das rochas. As rochas significavam coisas más e os meninos dela não iam ser levados a lado nenhum.

Cansada, cheia de maresia e areia voltávamos para apanhar o autocarro depois de uma manhã de praia, que o sol da tarde era muito forte e fazia mal à cabeça dos pequeninos. Para além disso ia-se almoçar a casa, que isto não era casa de gente rica e sandes não é refeição para quem está a crescer.

No caminho lá havia direito ao chupa, sempre o mesmo. Mas só se não tivesse pedido línguas da sogra, as daquela senhora que batia perna de ponta à ponta da praia, com a pele escura e castigada do sol.

Aqui à semanas fui dar um passeio à Costa com o Nuno e o meu campeão, quando passei pela antiga praia da bola de nívea lembrei-me desses dias, desses chupas, senti o sabor. Contei ao Nuno e tentei descrever, não encontrei na internet e ontem apareceu-me isto.

Fez-me lembrar as saudades que tenho desse tempo sem preocupações, que tenho das brincadeiras de quando eramos pequenos e os medos menores que nós, fez-me lembrar das saudades que tenho de andar de mão dada na rua com a minha mãe. Fez-me lembrar que tenho muitas saudades dela e que já lá vão 20 anos que não nos vemos.

 

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...mas nunca me esqueci de ti...

Quando acordava já estavas a pé há horas. Já tinhas cortado três fatos e alinhavado dois vestidos.

- Despacha-te, hoje vamos à Senhora da boutique.

E eu despachava-me. A nossa casa sempre foi quente e o sol enchia as assoalhadas de luz.

Só sei viver em casas com luz. De resto tudo me parece ofuscado, e as luzes artificiais não contam.

- O que é que queres vestir?

- Pode ser o vestido das flores?

- Pode. Leva os ténis brancos que ficam mais bonitos.

E tu arranjavas-te. A tua saia traçada, as tuas sandálias de salto alto, em cunha, porque descer a calçada portuguesa da rua principal era um martírio. A tua blusa creme de cetim o teu colar de pérolas. Numa mão o saco com a roupa arranjada, debaixo do outro a carteira, presa entre o tronco e o interior do braço.

Não havia telemóveis naquele tempo e para ir à vila visitar uma cliente não era preciso mala de ombro.

Arranjavas-me o cabelo em canudos. Demorava tempo. Mas naquela altura o tempo era diferente e os ponteiros do relógios passavam com outra paciência.

- Mas não são só arranjos? – perguntava-te.

Quando eram arranjos um de nós podia entregar, não era preciso que descesses a rua principal até à avenida para entregar roupas de pequenos arranjos a clientes.

Mas havia dias assim, em que nos preparávamos de manhã, em que saíamos para ir ao centro da vila. Em que eu me arranjava com a vestido que gostava mais, em que te arranjavas como a senhora que sempre foste, em que caminhávamos como quem ia à bica, mas na verdade íamos apenas bater perna no centro da vila. Dizer olá às clientes que eram amigas, voltar para casa a tempo de preparar o almoço. Eu passava as tardes entre brincadeiras, livros e os mesmos filmes de sempre. Tu trabalhavas até depois do jantar.

Ensinavas-me a tirar pespontos das roupas prontas, aquelas costuras incorretas feitas à mão com linhas velhas e coloridas, a preparação antes de costurar tudo na Singer.

 

Visitávamos a Adelaide nas fotografias, víamos o que de bonito lá havia, ela elogiava-te e dizia que linda estava a tua menina. Dali seguíamos para entregar os arranjos, falar com a D. Odete ou D. Otília, já não me lembro bem. Aquela que pagava bem, certo, a horas e que dava gorjetas maiores que o preço da encomenda. Às vezes lá trazia eu uma roupa nova, da coleção anterior, a senhora feliz porque me tinha feito feliz, as netas já não gostavam das roupas de boutique. Tu grata e eu alegre. Para mim só havia roupa costurada por encomenda, em casa, feita na Singer. Roupa de boutique era novidade.

Seguíamos para o mercado, comprar algum peixe para o jantar. Cumprimentávamos a peixeira amiga, aquela cujo nome já não me recordo. Conversavas um bocado. E seguíamos viagem.

Ultima paragem na casa da Marizé. Coitada sempre convencida que as vizinhas lhe mandavam mau olhado para casa. Sempre fechada numa casa escura, a gastar rios de dinheiro em eletricidade, porque as janelas e as varandas estavam tapadas com cobertores.

Não tinha amigas porque toda a gente a achava choné. Tu gostavas dela. Eu gostava que o genro dela trabalhasse na Olá e adorava trazer gelados de todos os tipos e feitios para casa.

“Manda cá a menina que tenho cá tantos que já não me cabem na arca”, ligava ela às vezes para dizer. E eu descia à vila de mãos vazias. Voltava com sacos para refrescar a família toda.

Às vezes íamos beber um café com a Marizé, outras apressávamo-nos para fazer o almoço.

 

Sempre de braço dado, com coisas para contar. As que eu aprendia na escola. As que eu lia nos livros. As que tu sabias que eu devia aprender. As que eu não queria entender e tu insistias em explicar.

 

Eram assim os nossos dias de Primavera, de principio de verão, quando ainda não havia praia, quando os dias eram longos e quentes, quando havia trabalho para fazer e nós tínhamos que nos entreter. Quando não havia televisão com 300 canais, a internet estava a anos de distância e os computadores eram caixotes brancos que custavam uma fortuna, destinados a pessoas com cursos especializados e que sabiam escrever coisas em ecrãs pretos com letras verdes. Em que os livros eram sempre em papel, os quadros da escola em ardósia e não havia alergias ao giz. Em que anotávamos as aulas nos cadernos com canetas de várias cores, em que a tabuada de decorava e as contas de faziam de cabeça.

Eram assim os nossos dias de Primavera, de principio de verão, quando eu ainda era uma menina que não sabia que o mundo podia ser mau, quando tu eras saudável, quando eu e tu éramos nós. Quando eu acordava com a certeza de que estavas sentava na tua Singer a fazer algo de maravilhoso. Como sempre.

Quando víamos a novela “Felicidade” e falávamos sobre os personagens como se os conhecêssemos desde sempre.

 

Faz hoje 22 anos que desapareceste da minha vida. Faz hoje 22 anos que soube o que era sentir dor, uma dor profunda, lancinante, sem que ninguém me tivesse tocado.

Não sabia que era possível sentir dor física sem que algo fosse arremessado contra mim.

Foram muitos os anos em que recordei esse dia. O dia do adeus, o dia com que nunca me conformei, o dia da partida inesperada, o dia em que foi definitivo. Não voltavas mais.

O dia em que se tornou estranho entrar em casa, abrir a porta e esperar ouvir a tua voz. Mas ser recebida pelo vazio.

Ainda hoje, quando abro a porta de casa, 22 anos depois, sou capaz de te ver, a máquina de costura na varanda – o teu escritório improvisado – banhada pelo sol, tu sentada na Singer a costurar mais um fato.

- Então como foi a escola?

E eu contava. Contava-te o meu dia em pormenor. Ou pelo menos as coisas que eu achava que te devia contar.

 

Durante 19 anos o mês de Fevereiro foi o mês cinzento da minha vida. Não conseguia sentir alegria. O peso era muito negativo. Depois o teu neto nasceu no dia 10 de Fevereiro. Logo em fevereiro – pensei eu – de todos os meses do ano. E o dia mais feliz da minha vida nasceu em Fevereiro.

Já não consigo sentir a mesma tristeza neste mês.

E sei que o percebes.

Por vezes senti que devia estar triste. Que devia sentir o peso deste mês, deste dia.

Mas hoje sei que não é o dia que faz diferença. São todos os momentos em que tenho saudades de ti. Aqueles em que me fazes falta. Os que desejava partilhar contigo.

Os que se perderam há 22 anos.

 

Decidi terminar este ciclo. Parar de recordar o dia do adeus. Quero recordar os dias felizes, os que passámos juntas, aqueles em que me ensinaste o que sei hoje, as manhãs que passeávamos na vila, as manhãs passadas na praia, as visitas às clientes, as tardes a conversar enquanto costuravas.

 

Como na música do Rui Veloso, bato a porta devagar, olho só mais uma vez, e vejo como é bonita a avenida das nossas avenidas.

As águas mansas dos nossos dias, como é frágil a memória e como é forte a saudade.

Como a sorte e a sina ditaram as nossas vidas.

Como com uma mão cheia de nada é possível construir uma vida.

 

E por tudo isto, por tudo o que foste e és para mim, nunca me esqueci de ti.

Nunca me esqueci de nós.

Nunca me esqueci dos momentos bons.

Dos nossos sorrisos, das gargalhadas, das conversas.

Nunca me esqueci de ti. Nunca me esquecerei. E são estas memórias, de manhãs de primavera, de fatos maravilhosos, de conversas deitadas fora, de princípios e de ensinamentos. São essas as memórias que vão fazer com que o teu neto te conheça tão bem como se passasse as tardes contigo.

Só tenho pena que nunca te possa dar um beijo.

Mas escuta.

Nunca me esqueci de ti.

Nunca me esqueci de nós.

Porque caminhas comigo em todas as decisões da minha vida.

 

Para ti. Para nós. Rui Veloso e “Nunca me esqueci de ti”.

 

 

Apontamentos da vida sobre coisas que pouco importam aos outros (2)

O meu pai é um homem feito de memórias, às vezes acho que a vida dele se alimenta das memórias de um passado de que não quer abrir mão. As decisões menos boas que ainda o atormentam, os azares que lhe calharam, os momentos que viveu em sítios que preserva na sua memória intactos como no dia em que os viu pela última vez.

Às vezes organizo um ou ourtro passeio com ele, não o faço tantas vezes quanto gostaria, mas gosto de o levar a sítios que conheceu bem, espaços que já não visita há mais de vinte anos, aqueles que continua a descrever como se tivessem ficado intactos na história, alheios à evolução e à corrosão do tempo. É frequente que a caminho nos presentei com todas as histórias lá passadas, lembra-se das pessoas e dos nomes dos restaurantes, fala no presente, como se aquelas pessoas ainda hoje estivessem sentadas na mesma mesa a comer um almoço farto. É assim que as recorda.

Quando chegamos vejo no seu olhar um misto de suspresa e desgosto, a surpresa de quem conhece uma terra nova, tão diferente daquela que um dia soube como a palma da sua mão; desgostoso porque as ruas e as pessoas que ainda vivem no seu presente já não existem ou estão envelhecidas pelo tempo.

Tudo lhe traz memórias passadas e eu sempre fiz pouco disso. “Ó Augustinho lá estás tu, isso foi há quantos anos? Essa história é mais velha que eu sei lá…”

E ele conta-a na mesma.

“Que é que queres?, são as minhas histórias, pá! Se não falo destas falo do quê?!”

Com a idade vou-lhe dando razão, vou compreendendo que as memórias nos compõem mais do que pensamos. As recordações fazem parte da nossa vida presente porque alimentam aquilo que somos.

 

Há uns dias o Nuno vendeu um aparelho de secar a roupa que tínhamos comprado o ano passado (falo como quem ainda está em 2017 e não se acamou ao 2018, como se o ano fosse um par de sapatos que tem de ganhar jeito ao corpo).

Deu para remediar a avaria da máquina de secar, mas este ano já não precisamos dele.

Quando foi entregar o aparelho à compradora viu-se grego para lhe dar troco, não havia uma única loja que lhe trocasse 10 Euros por duas de 5 Euros. Só à quinta loja e com a ajuda da rapariga é que conseguiu a troca.

Fez-me lembrar uma história.

A minha mãe sabia delegar responsabilidades como ninguém, quando aprendíamos a ler a escrever o básico ia-nos dando tarefas mais complexas para ver se ficávamos atentos, se eramos responsáveis. Um dia, quando fomos ao antigo Pão de Açúcar na Cova da Piedade – hoje já não existe, foi demolido e deu lugar a um terminar de autocarros – a minha mãe deu-me 500 Escudos para ir trocar à papelaria, tinha entrado em vigor à pouco tempo aquela coisa de os carrinhos precisarem de moeda e a minha mãe não tinha moedas de 100 ou de 50 Escudos.

Entro na papelaria e peço educadamente à senhora para trocar, numa atitude pedante a pessoa diz-me que não tem de trocar nada, que tivesse trazido moedas de casa.

Parei a olhar para a moeda. Para a senhora eu estava a parecer meio atrasada, na minha cabeça estava a engendrar-se uma solução que me garantisse que trocava a nota e não me metia em chatices.

- Então quero comprar uma pastilha Gorila se faz favor.

Aquela decisão requereu coragem, muita coragem. Eu não estava autorizada a gastar o dinheiro com doces, tinha apenas de trocar o dinheiro. Mas o valor era tão baixo, que decidi arriscar, deixado para trás as eventuais consequências. Aprendi nesse dia que queria dar uma lição áquela pessoa que estava a tratar-me incorretamente só mesmo porque eu era uma criança.

- Não me vais pagar com 500 Escudos pois não?

- Vou e a senhora vai dar-me troco, porque tem de me dar troco.

A tipa enfureceu-se e deve ter-me desejado as maiores pragas. Quando saí cá para fora enchi o peito, esta já tinha aprendido que não se metia comigo, faltava era explicar à minha mãe que tinha comprado um doce sem a autorização dela.

Quando lhe contei encheu-se de orgulho, afinal de contas, sem gastar praticamente dinheiro nenhum ensinei uma adulta que não fazia pouco de mim.

 

Cada vez estou mais parecida com o meu pai. A minha vida são histórias.