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Blog Bestialmente Conhecido

Inapta para o silêncio

Já não ia ao Porto sozinha há cerca de 5 anos.

A ultima vez que lá estive foi há mais ou menos 3 meses, na sequência de uma formação na PBS, cheguei ao final do dia, jantei no shopping, tive a formação e vim-me embora. Ou seja, nem estive no Porto, estive num edifício que fica no Porto. Foi um dia leve, tranquilo, partilhado com colegas do norte e com colegas de Lisboa. O Nuno também foi. Por isso tive companhia. E quando trazemos connosco alguém que ajuda a compor os nossos dias tudo se suporta com outra tranquilidade.

 

Antes disso, a ultima vez que estive no Porto foi em Outubro de 2014. Estava grávida de 5 meses e qualquer coisa, e, apesar dos contratempos e dos avisos continuei a achar que a minha vida não precisava de se ajustar nem 1 milímetro ao facto de estar grávida. Tinha uma barriga maior que antes, não via os meus pés, mas de resto tinha de ser igual.

Tinha saído de Lisboa às 7 da manhã, tinha acordado às 5, fiz mais de 300 km's para norte, subi escadas, estive de pé, entretive pessoas, falei com colegas, fiz sala, voltei a fazer mais de 300 km's de regresso. Cheguei quase às 22 da noite. Comigo tinha levado uma queimadura séria na perna direita, adquirida em dotes culinários que correram mal, porque lá está, estava grávida "mas não estava inválida".

No dia seguinte acordei à hora de sempre, fui trabalhar como noutro dia qualquer, por frações de segundo não me estatelei a meio de uma formação com 10 pares de olhos fixados em mim.

Mandaram-me para casa de baixa e com a indicação de que se o juízo não se apoderasse de mim, eu ia ficar num quarto de hospital até a médica entender.

Ajustei a minha vida. Ajustei a minha forma de pensar.

 

Agora tinha de ir, já tinham passado demasiados anos que não ia ao Porto, que não reunia presencialmente com colegas, que não ia às instalações. 

Sei que são apenas 300 km's, que dá para ir e vir no mesmo dia, mas é preciso que o dia seja útil, e é sempre mais útil ficando mais tempo. Mas com um filho pequeno as coisas são mais complicadas e com a ajuda das tecnologias é possível ir adiando.

Propus-me o objetivo de ir ao Porto por conta até ao final do primeiro trimestre deste ano. Estava tudo pronto para ir no final do mês de Março, mas por motivos de agenda não foi possível. Agendei para a primeira semana de Abril.

Na sexta-feira Santa fiquei com gripe, no sábado estava pior, no domingo não estava melhor e na segunda e terça fiquei a trabalhar a partir de casa para ver se garantia melhoras. Sabia que tinha esta viagem para fazer e não me apetecia adiar de novo, reagendar tudo. Para além disso já me tinha comprometido com mais de 30 pessoas que ia, e agora desmarcar...não podia ser...ia nem que estivesse a cuspir uma parte do baço.

 

Na quinta feira quando saí de casa ainda não tinha voz decente, parecia que estava a trabalhar com um microfone com pilhas gastas e de vez em quando a coisa falhava.

Para lá tive companhia, a conversa encurtou o tempo e fez parecer com que o afastamento se tornasse menos evidente.

Das 15 às 18 falei ininterruptamente. Quando desliguei a goela parecia que tinha as cordas vocais dormentes. Os meus pés estavam um caos. Pensava ter escolhido os sapatos mais confortáveis que tinha, afinal de contas só tinha vontade de os deitar fora. 

Para melhorar, à confiança, não levei mais calçado nenhum.

Esperta.

Cheguei ao hotel com energia a mais. Aquela energia ressacada de quem tem demasiada adrenalina no corpo, mas está para lá de esgotada. Faltavam os cães de um lado para o outro, o miúdo a querer coisas, a azafama do jantar, o deitar ás 23 para desmaiar na cama.

Tenho colegas de trabalho que dizem que férias só se for com 3 semanas seguidas. Uma semana para ressacar do trabalho, uma semana para ter férias, e uma semana para preparar o corpo para a frustração do regresso. Ou seja precisam de 3 semanas de ausência para ter uma de férias.

Penso que eu sou assim quando me ausento, preciso de tempo para a cabeça e o corpo se habituar ao silêncio.

 

Fui jantar ao shopping e tentar encontrar uns ténis para comprar. A andar parecia um caniche a caminhar sobre pedras quentes. Encontrei um único par de ténis que gostei, estilo casual, que serviriam perfeitamente para usar em escritório. Os únicos que gostei, os únicos que não havia no meu numero.

Decidi que tinha de aguentar a dor.

Voltei para o hotel, não consegui ler os documentos que tinha levado, a cabeça estava demasiado acelerada. Não consegui ler uma página do livro. Não tinha vontade.

Li uns posts de alguns blogs. Escrevi um pouco, porque me relaxa sempre. E esperei, esperei para receber noticias de casa.

 

Sei que parece idiota, não fui para o Afeganistão, não estive em estado de guerra, fui ao Porto. Mas 300 km's parecem 30.000 mil quando deixamos pela primeira vez um filho para trás. Porque a cabeça pensa em tudo o que pode acontecer e eu não estou ali ao lado para acudir. E sim, estava o pai. Mas eu estava sozinha com a minha cabeça e a minha cabeça tem demasiada vontade própria.

Acho que por ter perdido a minha mãe ainda em miúda tenho determinados receios, sei que às vezes os pais não estão presentes em todos os momentos da vida dos filhos, porque a vida pode ser cruel. E apoquenta-me pensar que perco momentos da vida do meu filho, não sei que mais me podem ser roubados, se vou vê-lo acabar um curso, se vou vê-lo casar-se, ou encontrar a pessoa dele. Se vou estar para o ajudar com a primeira casa.

Imagino-me a viver esses momentos com ele, mas ninguém sabe o que a vida nos guarda. E eu sei isso melhor do que ninguém.

É por isso que dias afastados me causam alguma angustia, porque há sempre qualquer coisa para viver com ele que eu não quero perder.

Tolice, eu sei. Eu sei.

 

Ligaram era quase 22. Estavam bem dispostos, um dia de pai e filho. Um serão de sonho para a minha sogra, só ela, o marido, o filho e o neto. Megera 300 km's a norte.

Falei com os 2. Bem dispostos. Vi o vídeo que me mandaram. Fiquei mais descansada.

Vi televisão até mandar a minha mão desligar o ecrã e ir dormir.

 

O silêncio era aterrador.

 

Mas não vou mentir, soube bem ter o comando para mim sem negociar mais um Ruca, poder ver TV até mais tarde sem ter de me levantar mais cedo. Ter a noite toda para mim sem ninguém me dar pontapés e lambadas.

Ainda assim acordei no mesmo canto em que me deitei. Parece que o corpo já não sabe dormir com espaço. Aninha-se, reza para não cair cama abaixo e rebentar com a cremalheira na mesa de cabeceira e quando adormece entrega para Deus.

 

Na sexta de manhã cheguei cedo. Preparei as coisas e falei das 9 às 12, quase sem parar. Saí a correr para ir apanhar o comboio. Apanhei uma molha, comi uma sandes de panado que parecia ter litro e meio de óleo no panado. Tentei afogar o panado num sumo. Entrei no comboio e depois de me sentar, de respirar fundo, foi preciso mais de meia hora para parar de achar que o comboio estava a ir demasiado devagar. Tinha quase 3 horas de viagem pela frente e queria que passassem em 30 segundos.

É fantástico como o tempo pode ser cruel, tão célere quando estamos felizes, tão penosamente lento quando estamos numa espécie de aflição.

 

Cheguei a Lisboa ainda não eram 17 da tarde. Comi um gelado gigante sentada na ponta de um banco do Vasco da Gama. Eu, a trólei, a mala do PC e um cone de baunilha com uma flor de gelado. 

Li, pela primeira vez em dois dias. Esperei pala minha boleia. Os pés estavam cheios de dores, mas parecia que doíam menos que no dia anterior.

 

Cheguei a casa para um abraço apertado. Para um "mãe tive tantas saudades tuas!".

Foi tudo o que era preciso.

E a vida continuou com a azáfama dos dias normais. Uma maravilha.

 

El piquênho almuéço

Recordo-me que a primeira vez que fiquei hospedada num hotel, já adulta (pelo menos no BI - na altura ainda não havia CC), devia ter os meus 20/21 anos. Fui de férias com umas amigas, creio que à Serra da Estrela, e ficámos num hotel simpático ali para os lados do Fundão. Eu, que sou pobre até à última molécula do meu ser, assim que ouvi falar em pequeno almoço incluído soube que tinha de me fazer valer daquela refeição. Se estava incluído é porque era uma espécie de grátis, e se era grátis é porque era para tomar proveito.

Quando as outras chegaram à sala para comer eu já tinha 3 taças de comida à frente e um prato com sandes e croissants.

- É para o dia....

Disse eu. Elas riram-se. Como é que eu, que era mais pequena que todas em todas as medidas (altura e largura) ia enfiar tudo aquilo na minha estrutura.

Enfiei, na altura o estômago tinha outras competências e triturava tudo o que eu lhe mandava...depois é que se tornou num fracote.

Nessa altura eu não sonhava que me esperavam pela frente inúmeras estadias em hotéis, por lazer mas mais ainda por motivos de trabalho. Os pequenos almoços de hotel perderam o encanto e passou a bastar-me que houvesse pão para torradas, um galão, um sumo, um cafézinho (se possível) e o tão desejado descanso.

 

Gosto de musica, clássica, grouge, POP, Fado (tudo menos heavy metal e aquela coisa em que eles gritam para o microfone, com o dito enfiado na boca até à goela, há quem diga que é musica, para mim é só dor - dor de quem grita e dor de quem ouve, é que eu faço sons muito similares quando vou ao dentista).

A música pode ajudar a relaxar quando é preciso, pode ajudar a dar aquele bust de energia quando estamos mais para baixo, pode entreter-nos e deixar-nos nostálgicos. Mas, para mim, a musica só aplica estes efeitos lá para as 10, 10 e meia da manhã. Logo cedo só me irrita.

Ao pequeno almoço, nos hotéis, já experimentei silêncio (o meu tipo de música favorito a essa hora) ou aquela musica de hotel, estilo clássico, com o piano. Isto é, tolerável.

Hoje quando desci para tomar o pequeno almoço fiquei com a sensação que tinha chegado à E, B 2/3 de Alicante, tanto niño nuestro hermano, mas tanto, tanto. Era só miudagem espanhola. Todos com idade para ser meus filhos (o que é deprimente).

Para entreter a juventude, que gosta de musica com ritmo para a tola, a musica ambiente era uma espécie de Rádio Cidade mas sem locutores e sem publicidade.

Fiquei sem fome.

Que raio de ideia.

Tomei o pequeno almoço em stress, com pressa de parar de ouvir a Katy Perry (moça de quem até gosto bastante, mas só depois do meio dia).

Balha-me Nosso Sinhoure! Estou a ficar mesmo beilha!

 

Vou contar-vos a história da minha primeira vez

Tinha 23 anos acabadinhos de fazer. Era moça, espevitada e não dizia não a um desafio.

O departamento onde trabalhava tinha passado por uma reestruturação, tinha uma chefa nova e a empresa, como estava a crescer, andava num buliço.

Fui chamada a falar com a big boss:

- Precisamos de uma pessoa com conhecimentos de tal-e-coisa para ir passar dois dias no Porto.

- OK.

- Queres ir?

- Quero.

(nunca tinha ido ao Porto, era uma primeira e ainda por cima era com tudo pago, perfeito)

- Vais de avião. Pode ser?

- Pode.

E assim ficou combinado, daí por duas semanas lá ia eu p'á terra dos lampiões, cuaraigo!

 

Ia haver um seminário dessa área e procuravam alguma pessoa que pudesse dar ajuda a outra colega, tinha que ser alguém com formação no tema e alguma experiência. Lembraram-se de mim, e eu, afinfei-me ao passeio.

 

No dia lá fui de mala às costas para o aeroporto da Portela, tudo me fazia lembrar o primeiro filme do Man in Black e nem era preciso aparecer aquele alien de 2 metros todo azul. Havia variedade suficiente. Faço o check in da mala - tal como se vê nos filmes - passo pelos detetores de metais. A senhora a dizer que eu podia passar com mais isto e mais aquilo, mas eu, que sou uma mulher de rigor, fiz questão de tirar tudo o que era metal, menos o chumbo que tinha no 3º incisivo esquerdo do maxilar inferior.

Chego à porta de embarque, mandam-nos passar e eu a estranhar a falta do pássaro. Onde raio estava o boing com destino ao Puorto cuaraigo!? Adonde?

Aparece um autocarro.

Autocarro, mas qu'ésta merda!? Atão mas eu venho pa ir d'abiõn e agora aparecem-me com um autocarro da Carris? Tá tudo tuolo ou quiê!?

Lá fui eu no autocarro a estranhar o que se estava a passar. Ocorreu-me que pudéssemos estar a ser sequestrados por talibãs para nos enfiarem num jato privado e arrebentarem connosco n'abenida dos aliados. 

Chegamos a um passarito e eu, de bilhete ainda na mão, olho em volta, vou ter com uma senhora da TAP e digo-lhe:

- Olhe, eu vou para o Porto, onde está o meu avião?

- Aqui mesmo, pode entrar.

- Aqui?

Mas que me...

Sentei-me. Não havia Boing nenhum, não havia executiva, não havia primeira classe, havia uma de um autocarro com asas.

Sim sinhor!!

Lá o pássaro se põe a caminho. A assistente de bordo pergunta se eu quero alguma coisa:

- Quero tudo aquilo que está incluído na minha viagem.

- Gelado então.

- Venha ele.

Comi dois sabores.

Cheguei ao destino tão mal do estômago que estava capaz de me grumitar toda. O gelado parou-me a digestão ou coisa que o valha.

No dia seguinte estava pior que o lobo mau quando lhe tiraram a velhota do bandulho e mandaram pedras lá para dentro, nem com Alka-Seltzer isto se revolvia. Mas, mulher decidida que bai ao Puorto, é mulher que bai malhar um Frâncesinha!!! E malhei!

Bandulho abaixo, capaz de me grumitar toda.

Ainda me lembro do momento em que saí do restaurante e senti as tripas a ganir, meu Deus! Balha-me Nosso Sinhor!

 

Voltei capaz de comer uma canja, tinha um casamento no dia a seguir. Fui e só comi grelhados, um sacrilégio.

 

E foi assim, a história da primeira vez que andei d'abiõn, pensaba que era uma águia balente, ali em primeira classe, e depois foi-se a ber e fui numa gaibota da Carris.

 

Porquiê esta cumbersa tuoda?

Porque bim a Bila Noba de Gáíía por conta e risco ao fim de quase 4 anos. Bim a trabailho, não bou andar a passear, não me bou debater c'uma frãncesinha, porque estou para lá de beilha. Mas bim de Intercidades, o que para mim também é uma nobidade. É que de Alfa o colega grumita-se todo e eu não queria que ele me borrasse a roupa fina. Fez-se bem a biagem e agora estou a choramingar gozar o silêncio de um quarto de hotél só para mim.

 

(já não sei viver em silêncio e sem mil tarefas em simultâneo, parece que o tempo fica parado, faltam sempre os cães para passear, o miúdo para dar jantar, o miúdo para dar banho, o andar a correr atrás dele para não me arrebantar com a casa, falta a minha azafama, rai's ma parta, que uma pessoa tem de se estar sempre a queixar)