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Blog Bestialmente Conhecido

No fim são tudo tendências

Sei que ao escrever este texto posso colocar em causa uma amizade blogosférica. Compreendo que estou a intrometer-me na vida de uma das pessoas mais queridas desta aldeia coaxadora e arredores.

Mas depois de ler este texto não consegui evitar que na minha mente se desenrolasse uma comédia romântica. Lamento mas não consegui. Tentei.

Esforcei-me.

Debati-me internamente.

 

Mas não resisti.

 

Joana, espero que me perdoes a audácia. Se achares que fui para lá do razoável diz-me que elimino num só clique este devaneio. Mas fazes-me rir demasiadas vezes, imaginar coisas no meu fértil campo criativo.

 

Aqui vai.

 

 

Joana prepara-se para o seu almoço romântico. Faz tudo com antecedência, planeia e organiza bem a sua vida para chegar a horas. Chega à porta do restaurante e não há lugares. Dá voltas ao quarteirão até vislumbrar um espaço onde julga caber o seu carro, olha para as horas, não quer saber se está dentro das linhas, se há espaço para as portas.

Coube.

Joana decide tentar a sua sorte entrando pela porta das traseiras, se der a volta ao prédio vai chegar encharcada ao seu encontro, não se arranjou para chegar a parecer um pinto, muito menos para apanhar uma pneumonia.

Bate à porta das traseiras, encontra um rapaz simpático que, por acaso, é seu leitor. Deixa-a passar ficando a condição de que, se encontrasse o senhor da jaleca preta dizia que tinha alergias.

Joana entra em jogo.

Dá dois passos e ouve um vidro partir, olha para o lado e vê, óleo de trufas derramado, chegou ao seu sapato mais depressa do que se pode dizer Bas Dost Joana entra em modo patinadora. Três patinadelas depois vem um tamboril em sua direção, Joana puxa pela ginasta que há em si e faz a espargata. Ufa! Mas cuidado! A caminho estão dois pargos de quilo e meio cada, Joana finta um e outro. Por milímetros desvia-se de uma solha, parecia uma manobra Matrix. Está quase no fim da cozinha quando atiram em sua direção uma travessa com uma posta mirandesa.

- Mesa 4 ! – alguém grita.

Joana pega na travessa, roda sobre si mesma, entra na sala e, com um sorriso só seu, pousa a travessa na mesa certa. Nunca uma funcionária tão bela tinha servido aqueles clientes.

É preciso dizer que, se Bruno de Carvalho a visse, estaria contratada e seria a única jogadora do plantel que não estava de castigo.

 

Joana ajeita o cabelo e caminha para a mesa.

 

Vê os pais do Pedro.

 

O Pedro abre muito os olhos.

 

A Joana percebe a importância do momento.

 

Está linda, arranjada, bem maquilhada e com um molho de coentros no cabelo.

 

A conversa desenrola naturalmente. O Pedro tenta colocar o braço por cima da Joana para tirar os coentros, mas embrenhada como está na conversa ele não consegue.

 

Bla-bla-bla Alice (embevecida). Bla bla bla Julieta. Bla bla bla Vasco (o cão que lhes aterrorizou o filho. Agora a verdade já se sabe)

 

Conversaram satisfeitos e com vontade. O Pedro regressou para o seu trabalho e continuaram os três, pai, mãe e a mulher perfeita, todos a conversas satisfeitos com a companhia uns dos outros.

 

O almoço chega ao fim e caminham para o carro, nem se apercebem que estão a ir na mesma direção, tão boa está a conversa. Chegam ao carro.

Joana – Eu estou aqui.

Pai do Pedro – Eu também, mas alguém ensanduichou bem o meu carro.

Joana estremece quando vê o carro do pai do Pedro a piscar. Ela tinha ensanduichado o carro.

 

Joana – Vou já tentar tirar.

Pai do Pedro – Deixa estar, eu trato disso. Compreendemos que a Joana é mais aviões.

Joana – Sim.

Pai do Pedro – E ainda bem?

Joana – Aí sim?!

Pai do Pedro – Sim. Esses não se estacionam…

Gargalhada geral.

 

Joana vai no seu caminho. Cheira-lhe a coentros e não sabe porquê. Nem comeu nada com coentros.

 

Já no carro dos pais do Pedro…

 

Pai do Pedro – Muito boa rapariga.

Mãe do Pedro – Sem dúvida. Bonita e inteligente. Tão simpática.

(fazem aquele segundo de silêncio de quem está a ponderar alguma coisa para dizer)

Pai do Pedro – Só não percebi uma coisa…

Mãe do Pedro – O quê querido?

Pai do Pedro – Aquilo dos coentros.

Mãe do Pedro – Ora são tendências, querido.

Pai do Pedro – Tendêndias….?

Mãe do Pedro – Sim. Se tivesses vindo comigo à Moda Lisboa percebias. As moças hoje em dia usam pendurezas de cortinados como brincos e ornamentos nos cabelos. Até gladíolos usam. São modernices, coisas desta nova era. E se pensares bem coentros é uma excelente escolha.

Pai do Pedro – Porquê?

Mãe do Pedro – Ora porque são plantas, são Primavera e são tempero. Tudo num só. Estou encantada com esta moça, é o que te digo.

 

 

E no fim disto consegui nesta história o que 90 % das mulheres não conseguem: a aceitação da sogra.

 

(Joana juro que é a ultima vez que me meto assim na tua vida…sou uma má, muito má pessoa…)