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Blog Bestialmente Conhecido

Mostra-me o teu cubo

Alguém conhece uma mãe cuja privacidade tenha sido esfrangalhada pelo rebeto piqueno, num daqueles momentos em que a pessoa vai à casa de banho fazer coisas da natureza humana e aproveita para respirar um pouco?

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu conheço.

 

Eu...

 

Ontem estava eu na casa de banho quando a porta se abre de repente. Entra Sôtor:

Eu - Sôtor põe-te a andar lá para fora.

Sôtor - Deixa-me ver o teu cubo.

Eu -    o meu cubo filho? Que cubo?

Sôtor - O teu cubo!

(e apontou para o meu rabo)

Eu - Ah! O meu cú?

Sôtor - Sim! Mostra-me o teu cú!

Eu -   (não sei o que responder)  (começo a rir-me)  olha, consegues ver o teu cú?

(ele olha para trás para ver se consegue)

Sôtor - Não.

Eu - Então se não consegues ver o teu também não podes ver o meu. Agora põe-te a andar!

 

Vida de mãe não é fácil, mas lá memorável é!

 

Sôtor, o anti-tabagista

Estava a fazer o seu passeio matinal com o avô. Por eles passa uma rapariga com os seus 16 ou 17 anos. A rapariga puxa de um maço de cigarros e põe um cigarro na boca. Sôtor para à frente dela, interceta-a e diz-lhe:

 

- Olha lá, quê isso que tás a por na boca?

 

A rapariga, a rir e sem saber o que responder aquela criatura de palmo e meio diz-lhe encolhendo os ombros:

 

- Olha, é um cigarro.

 

Ele seguiu à sua vida sem compreender porque raio uma pessoa põe na boca uma coisa que não é para comer. E a rapariga deve ter-se partido a rir a contar a lata daquela criatura às amigas.

 

Sôtor, o sociável

Passa pela praceta e é mais conhecido que o Marcelo.

 

Cumprimenta a vizinha do cabeleireiro, espreita lá para dentro, responde às perguntas dela e ainda lhe manda um beijinho.

A vizinha, que é religiosa diz sempre: Benzádeus, rico menino! Que tenha sempre muita saúde!

 

Passa pela padaria e cumprimenta a senhora que faz o horário da tarde. Metade das vezes ganha um biscoito. Encanta sempre com os seus: “Bom dia, Boa tarde, Boa noite”, “Faxavore”, “Obigada”, no gatilho.

 

Vai confirmar que a carrinha branca ainda tem o pneu furado e avaliar a arreliação do possível dono. (porque a carrinha não sai do mesmo lugar vai para cima de 2 anos)

 

Segue para avaliar os carros que estão na praceta e encontra o vizinho do andar de baixo. Trocam umas ideias sobre os carros, o vizinho tenta convencer que o dele é melhor que o Fiat que Sôtor gosta, mas este não de deixa influenciar, mesmo que as portas do carro do vizinho impressionem porque deslizam para trás e para a frente com um toque na chave.

 

Quer ir à papelaria, ver as fotografias dos jornais e cumprimentar o vizinho. Já não temos tempo para isso, subimos os degraus de entrada do prédio.

 

Entretanto chega a vizinha do 1º frente. Ela e a Camila, uma pug super bem disposta que adora crianças.

- Mãe, a Camila, a Camila!

Voltou a descer, cumprimentou a Camila que o adora. Cumprimentou a vizinha, respondeu às perguntas dela.

Despachados da vizinhança conversamos sobre coisas da Patrulha Pata escada acima.

 

Não sei a quem esta criatura saiu tão sociável. Sou uma pessoa educada e correta, mas pelo-me com conversa de circunstância. Sim, sou daquelas pessoas que, quando ouvem vizinhos a descer as escadas, espera um pouco para não ter de estar ali, rebeubeubeu o dia, larailailai o sol, etudoetudoetudo a roupa para secar e o António Costa e o diabo a quatro.

Este piqueno, adora uma conversa, não se incomoda com uma convivência de encher chouriços.

E eu, que ando com ele pela mão, cá vou arranjando como me habituar....a custo...a custo...

 

Pode ser que no fim ainda tenha para aqui o próximo PR, nunca se sabe.

 

Temo que se um dia calharmos a encontrar o Marcelo, se prendam os dois à conversa e eu tenha de convidar o PR para viver cá em casa.

 

O acordo

Tudo é uma negociação na vida de Sôtor.

Arriscaria a dizer que há verdadeiros homens de negócios que não fecham tantos acordos como esta pequena peste de 3 anos.

 

Para almoçar: sai acordo.

Para jantar: sai acordo.

Para ir à quinta das bolas: sai acordo.

 

Acordo para trás e acordo para a frente, lá vamos explicando ao rapaz que se tiver bons comportamentos as coisas que gosta têm maior probabilidade de acontecer.

 

Sim, eu sei que a vida se encarregará de lhe provar que não é bem assim, que nos podemos comportar como os maiores anjos e andar sempre a levar pancada da direita e da esquerda. Mas…o trabalho dos pais é mesmo este, fazer com que os filhos tenham princípios e sejam pessoas de caracter, que percebam que deve ser assim porque é a coisa certa a fazer, mas, até que tenha idade para compreender o conceito de forma mais complexa, é importante que apreenda que as coisas certas têm um resultado positivo.

 

Na terça feira não apanhámos muito transito e consegui chegar a casa a tempo de fazer um programa de 20 minutos da elíptica. Como ainda dava tempo tomei um banho à Quercus (dentro do espectro dos 5 minutos) e vesti uma roupa de andar por casa para o ir buscar ao caminho. O avô vinha do jardim direto para nossa casa com o piqueno artista.

Despacharam-se mais depressa e eu ainda estava de toalha na cabeça quando tocaram à campainha.

 

Para remediar a coisa, e porque precisava de lhe comprar o anti-histamínico que me passou na ideia à hora de almoço, perguntei-lhe se queria vir comigo ao Continente comprar as gotas.

 

Passeio? Alguém falou em laréu?

 

Para esta criatura qualquer motivo é um bom motivo para sair de casa.

 

Disse-me:

- Queo. Vamos vê os binquedos e depois vamos compá a comida.

 

Fui secar o cabelo e ele foi ter com o pai à cozinha. Ouvi-o dixer ao pai.

- Temos um acodo. Eu e a mãe. Pimeiro vemos os binquedos e depois compamos a comida. Temos um acodo.

 

E eu:

- Temos sim senhor!

 

Quando descemos encontrámos o avô outra vez, vinha a caminho da nossa casa porque lhe faltou trazer algumas coisas da criatura maravilha.

 

O avô pergunta onde ele vai e Sôtor…

 

Sôtor - Vamos ao tinente. Temos um acodo!

Avô – Aí sim! E que acordo é esse?

Sôtor – Amanhã conto, hoje nã poxo! Adeus avô!

 

E assim ficou. Tinha um acordo, da espécie secreto e o avô apenas podia saber no dia seguinte, não podia perder tempo.

 

Fomos até ao continente a falar. Ele fala ainda mais do que eu, o rapaz tem sempre conversa. É uma delicia. Fomos com tempo. Conversámos sobre os nossos dias, vimos os bonecos, comprámos o medicamento, voltámos com o ritmo dele, mais tranquilo que o meu, que passa o dia a toque de caixa. Eu deixei-me levar pelo compasso daquela coisa pequenina que segurava pela ponta da mão. Só o ouvia a ele, o dia estava ameno e aqueles 30 minutos lentos souberam melhor que mil horas.

 

São fins de dia que valem a pena e que dão algum brilho ao cinzento que ficou para trás.

 

E se eu o for levar à faculdade?

Assustam-me todas as coisas do Universo quando toca a Sôtor meu rico filho. Diria que até a espessura do chão que ele pisa me causa alguma preocupação. Se cai, se bate com a cabeça, se se arranha, se se magoa, se anda à bulha, se bate em alguém, se alguém lhe bate, as pessoas más do mundo, as noticias que deixei de ler porque me tiravam o sono, a independência dele, o dia em que vai para a escola, o dia em que mude de escola, o primeiro amor, a mulher que lhe parte o coração, o curso que escolha, ou se não escolhe curso, se tem bons professores, ou maus, se cai de bicicleta, se vai nadar para alto mar, se lhe batem no carro, se conduz muito depressa….

 

Tudo, literalmente tudo o que se possa imaginar. Seja mais premente, seja num futuro que está demasiado longe.

 

É idiota bem sei, mas é assim que a minha cabeça funciona.

 

Hoje de manhã a caminho do trabalho falávamos de uma colega que estava em casa porque terá comido umas ameijoas estragadas.

 

Nuno – Vamos lá a ver se ela hoje já está melhor. Não se brinca com intoxicações alimentares com marisco!

 

Eu – Sim, é bom que tenha juízo, porque isso não se resolve com cházinho!

 

(ontem o Nuno mandou-lhe uma mensagem a perguntar se estava melhor e se já tinha ido ao médico, respondeu que o filho estava a chegar e que lhe ia fazer um chá.)

 

Parei um bocado a pensar nas minhas coisas…

 

Eu – Olha lá, que idade tem o M.? Já vai sozinho da escola para casa? (o horror espelhado no meu semblante!!!!!)

 

Nuno – Deve ter uns 17 anos e creio que sim, estavas à espera de quê?

 

Eu – Não estou preparada que Sôtor faça essas viagens sozinho com essa idade. Vou continuar a ir leva-lo à escola e a ir busca-lo…

 

Parei para pensar….

 

Eu – Achas que era muito estranho que eu o levasse e o fosse buscar já na faculdade?

 

(estranhamente esta era uma pergunta verdadeira)

 

Nuno – Não! E se o levares ao trabalho e o fores buscar à saída também não! Ó mulher tem mazé juízo!

 

(ninguém me entende…)

 

Preciso de colinho da mamã

Não sou uma pessoa de contacto físico. Nunca fui.

Fico sempre constrangida quando sei que vou encontrar aquela pessoa que não passa sem um segurar de braço, uma palmada nas costas, dois beijos demasiado repenicados.

Não sou de abraços, ou pelo menos não de qualquer maneira. Admiro as pessoas que são libertas fisicamente, que distribuem abraços como quem dá maçãs.

Não sou assim.

Sempre fui contida nesta demonstração de afetos físicos.

Aquela pessoa amiga, aquele colega de trabalho, que se aproxima por detrás da nossa cadeira e, mesmo antes de começar a falar pousa as mãos nos nossos ombros. O meu corpo fica tenso e percebo que os meus nervos entram em modo shut down, recursos limitados até que a pessoa siga à sua vida.

 

Sou diferente no meu mundo. Em casa. Com o Nuno. Tornei-me numa pessoa peganhenta e afetuosa num nível que eu não acreditava imaginável. Somos daqueles casais nojentos, de beijos, de abraços, e braço dado, de mãos dadas. Um cliché de cumplicidade intelectual, física e arriscaria um espiritual também. Seja lá o que isso for.

 

Quando soube que ia ser mãe soube que ia ser uma mãe chata, peganhenta, e por momentos tive medo que ele fosse como eu, uma criança distante, pouco dada a afetos.

 

Felizmente é meigo, afetuoso e adora um abraço.

 

Mas as palavras têm uma magia própria, demonstram uma vontade, uma intenção, tocam sem tocar, é essa a sua magia. Não exagero quando digo que o que mais me emociona são as palavras do meu filho, as coisas que me diz, como as diz.

 

Gosto de palavras. Nas sentimentais, safo-me melhor quando escritas. Se tiver de as dizer ficam-se como que entaladas na garganta, custam mais a sair. Encontro formas e contornos para esta nossa língua formal.

 

Rendo-me quando me pede um abraço. Rendo-me quando me diz que "só te queo dá um béjinho e um abaço mamã!". Rendo-me, entrego os pontos e esqueço que subiu para cima da minha cama com os ténis sujos de lama do jardim.

 

Hoje chamou-me quando eu estava a arrumar umas coisas na cozinha. O pai foi lá, não precisava de nada.

Terminei o que tinha para fazer. Fui à sala, sentei-me ao lado dele:

- Precisas de alguma coisa filho?

- Preciso de colinho da mamã.

E eu derreti-me. Como sempre. 

Dei-lhe o colo que ele quis. Cheirei-o, porque tenho esta coisa de cheirar o meu filho, como as lobas, como as leoas. Aquele cheiro a pão quente com manteiga. O mesmo que um dia dará lugar ao cheiro de um homem, quando o meu menino já não for o meu menino. Quero gravar esta aroma a ferro quente na minha mente. Para nunca esquecer.

Ficámos ali 10 minutos.

A determinada altura não sei quem dava colo a quem, se era eu a ele se ele a mim.

 

O puto tem imaginação fértil #1

Em 3 anos tenho tido provas irrefutáveis de que o miúdo é constituído por 80 % genes da mãe e apenas 20 % genes do pai.

Hoje tive mais uma prova.

Estava a prepara-lo para ir ao penico.

- Mãe, vou levar os meus 2 aviões.

(não, eu não levo aviões quando vou à casa de banho...não tenho aviões)

 

Diz que é um piloto e persiste em mandar os aviões ao chão. Explico-lhe que se for um piloto que despenha aviões não terá muita empregabilidade. Não estou certa de que tenha entendido.

 

Pousa os dois aviões e, antes de se sentar diz-me:

- Quero contar uma história. Era uma vez os meus 2 aviões que iam a voar muito e iam para a selva, depois ficaram sem bateria e caíram no mar, estavam a ir ao fundo e depois apareceu o avião verde para os salvar. O avião verde é a Mira dos Super Wings.

 

Imaginação não lhe falta. Isso é certo. Saí à mãezinha, meu rico menino!

 

3 Anos (e o tempo podia passar mais devagar)

Não houve festa da grossa. Não houve lugar para bolos da moda nem temas especiais. A toalha dos Super Wings e o bolo da Patrulha Pata, pequeno e singelo. Serviram perfeitamente para cantar os parabéns. Afinal de contas ele nem gosta muito de festas e o bolo, para ser considerado bolo, tem de ser pão de ló. Bolos com cremes e artefactos não entram nessa categoria.

(coisas de pessoas que, apesar de pequeninas, têm os mesmos critérios alimentares que sua mãe tinha com a mesma idade)

Não houve lugar para mascaras nem correria de outras crianças. É o preço que ele paga por os pais terem sido os últimos a ter filhos. 

Até ao ultimo momento estivemos sem certeza se haveria sequer um pequeno lanche. Um dos tios não conseguia mesmo vir, o outro só soube de véspera que podia cá estar.

Comprámos as prendas ao final da tarde de sexta-feira. Arranjámos o lanche durante a manhã de sábado.

Considerando os percalços do ano passado, em que ficámos os três doentes no aniversário, decidimos deixar andar para ver. Afinal de contas, havendo saúde seria sempre melhor que a festa dos 2.

Isso e porque ninguém tem muito jeito para festividades e hoje, tendo ele 3 anos, e demonstrando o mesmo apreço pela "loucura das festas de aniversário" já dissemos adeus à culpa e celebramos da forma que nos faz felizes. Em vez de ser a forma que aparentemente faz toda agente feliz.

De manhã fomos pela primeira vez a um parque de diversões. Ficou louco, perdeu a respiração por segundos tal não foi a injeção de adrenalina. Correu, brincou, desceu escorregas. Estava tão alegre, tão eufórico, que não consegui tirar-lhe uma única foto.

Também não levei a máquina. Quis dar-lhe um aniversário de afetos, de atenção, de memórias. Fazer o oposto dos aniversários digitais, em que os pais gravam mil imagens para a posteridade e não gozam 10 segundos do presente.

Fiz duas gravações breves enquanto corria de um lado para o outros, queria guardar a imagem da felicidade que lhe percorria o olhar enquanto brincava, o sorriso que não conseguir tirar do rosto.

Foi um momento para ele, só para ele. E é tão bom saber isso.

De tarde apareceram os tios, o primo favorito (o único primo rapaz, aquele que apesar de ter mais 9 anos que ele, continua a ser o mais novo, o que o gosta como um irmão), aquele que acompanha as suas brincadeiras, o que passou parte da tarde a ler a pedido (quando nem gosta muito de ler), o que acompanhou as brincadeiras em casa.

Ganhou alguns presentes. Recebeu uma bicicleta. Porque eu gostava que ele tivesse a oportunidade de aprender aquilo que eu nunca soube fazer.

E quando ele aprender, eu vou aprender também.

Recusou a ideia de o primo seguir caminho para casa dele.

E tem passado os dias a falar do primo. É sempre assim quando se veem. Quer ir visita-lo todos os dias. O que ele não entende é que o primo mora a mais de 150 km de distância.

Se ele ao menos pudesse ir no patrulheiro aéreo.

 

Da festa de aniversário tenho 3 fotografias. Prometi que ia estar com ele, para ele, e que não estaria atrás de um ecrã. Só depois de todos terem saído é que percebi que não tinha tirado uma única foto.

E foi tão bom assim.

Parei para escrever algumas palavras. Escrevi-as no meu instagram, enquanto ele dormia a sesta, enquanto esperávamos pelos ilustres convidados.

 

Da minhas palavras importa saber que é o filho que eu precisava ter. O meu amor maior.

Um miúdo cheio de genica, alegre, circunspeto, conversador, com uma enorme curiosidade pela via, com um palavreado acima da média para a idade dele, um puto conciliador, que não anda à bulha com os outros, tenta resolver as diferenças a bem. Um miúdo doce, mais doce do que eu era com a idade dele, um menino de afetos, ainda que os guarde para aqueles que lhe estão gravados no coração. 

Por vezes uma pequena cópia minha, com tantos pequenos detalhes que vão para lá do cabelo. Há momentos em que me parece que tive a oportunidade de me ver nascer de novo.

 

E assim se passou um fim de semana de aniversário em que parei para escrever às 23 horas de domingo. Porque gosto de registar estes momentos. Porque tenho as minhas palavras que são só para ele escritas em papel, para que ele um dia possa ler. Possa ler o que lhe digo todos os dias. Porque os filhos não devem descobrir que os pais os amam aos 18, quando encontram um caderno. Devem ouvir da boca dos pais, todos os dias o quão amados são. A importância que têm. Mesmo quando há erros, mesmo quando há mau comportamento. Porque os pais não amam menos por isso. Muito pelo contrário.

Vim aqui escrever umas notas neste meu bloco digital porque apesar da falta de capacidade de celebrar datas, gosto de partilhar com o mundo estes dias, particularmente este, que é, naturalmente, o mais especial de todos.

O texto não é o melhor, mas acho que esse é o preço de ter canalizado o tempo para sentir, para gozar o momento, sobra menos para descrever.

E não há mal nisso.

 

Assim, por aqui, nestas quatro paredes a que chamo lar, há muito amor, muita felicidade, muita vontade que o tempo ande mais devagar, que estes momentos contem pelo dobro, que a memória dure para sempre.

E mais do que tudo, que continuemos a ter a mesma sorte que tivemos até aqui: de ter o filho que precisávamos ter, aquele que é mil vezes mais do que o filho que poderíamos sonhar. Com o sempre importante pedido de muita saudinha, da bendita sorte e de que as bolas curvas lhe passem sempre ao lado.

 

Venham então os 3 em força (mas se possível mais devagarinho, que os dois, esses danados, passaram que nem um foguetão).

 

Pérolas da parentalidade (2)

Por hábito é o pai que o vai buscar. Eu vou adiantando o jantar ou passeando os cães.

Casas onde há mais tarefas que mãos para as fazer é assim....é preciso escalonar, dividir e tentar organizar.

Ontem, como tínhamos coisas para arrumar (com o aniversário do homem ao fim de semana relaxámos um bocado), pedimos ao meu sogro para trazer o artista ao final do dia.

Faltavam 5 minutos para as 20 quando desço as escadas, pareceu-me que era melhor alombar eu com o pequeno escada acima do que fazer um senhor com 70 anos - que passou o dia a levar uma esfrega do neto - carregar com ele.

Quando vejo o carro a chegar aproximo-me.

Assim que o tiro do carro diz para o avô:

- Vá, agora vai-te embora.

- Não digas isso ao avô, coitadinho. Dá-lhe um beijinho, um abraço e diz "até amanhã". - digo-lhe eu.

Deu o abraço. Deu o beijinho e disse-lhe:

- Vá agora vai para o teu carro e vai-te embora.

Se eu não soubesse que o avô sabe bem a peça que ali está ficava mais embaraçada. Assim...

 

Chegamos à porta do prédio e eu não consigo pôr o código da porta. Um dos números está meio avariado e por mais que o pressione não consigo que funcione.

Pouso o pequeno enquanto bufo e ele diz-me:

- O avô hoje disse "porra mais isto!".

- Aí sim, e quando foi isso?

- No caminho. O carro avaliou e ele disse. Tem de ir à ofichina.

Deve ter sido bateria outra vez. Afinal de contas o carro já é um clássico, há que lhe dar um desconto. Pensei com os meus botões.

Chego a casa e peço ao Nuno para ligar ao pai, ficar a saber se havia algum problema com o carro e se era preciso alguma coisa.

Resultado: com o frio que fazia o vidro embaciou demasiado e o velhote teve de parar para limpar o livro. Para o neto foi uma avaria.

 

Vamos brincar para o quarto enquanto o jantar se faz. Levanta uma espécie de uma passadeira almofadada que tem no quarto e avisa-me que construiu uma casa.

Finjo que bato à porta e ele diz-me:

- Quem é?

- É a mãe, podes abrir?

- Não vai tabalar pa ganhar dinheio.

WTF?!? Atão mas quê isto pá!?

Finjo que vou trabalhar e que volto. Bato à "porta" outra vez.

- Quem é?

- É a mãe filho. Voltei do trabalho. Podes abrir a porta?

(ele finge que abre)

- Posso entrar?

- Não, já aqui tá muita gente. Nã cabis.

E é para isto que eu te crio!?

 

À noite, antes de ir para acama foi tomar banho. Deixei-o a brincar na banheira pequena - onde ainda toma banho - a brincar com os bonecos enquanto eu fui arrumar a mala para o dia seguinte.

A determinada altura chama-me.

Ponho a cabeça dentro da casa de banho e ele diz-me com o maior sorriso possível:

- Olha o que eu fizei!

O que ele fizou foi encharcar o chão da casa de banho com água. 

Estava numa alegria só.

O que é que eu faço com um sacripanta destes!?

 

Pérolas da parentalidade (1)

Passar o fim se semana com sôtor meu filho é o mesmo que andar à caça do tesouro, há moedas de ouro e pérolas a cada esquina.

É também bastante desgastante e infantil, considerando que, à parte dos momentos de sesta, com uma criança de menos de 3 anos passamos o dia a toque de caixa dos seus "queo, queo, queo, queo".

Este fim de semana não foi exceção.

No sábado, para comemorar o aniversário do Nuno vieram cá jantar algumas pessoas de família onde estavam incluídos (como seria de esperar) os meus sogros.

Sôtor passa os dias com os avós paternos e, ao final do dia e fim de semana quer estar apenas com os pais, mandando frequentemente para casa os avós (se calham a vir cá a casa por algu motivo) porque estar com os pais, aparentemente, é mais fixe.

Vai daí e o meu irmão e a minha cunhada preparam-se para ir embora porque a minha sobrinha tinha um trabalho de grupo para fazer na faculdade e precisava de ir ter com as colegas. Com eles foi também o meu pai.

Vendo todos de partida sôtor pegou na trela do cão dos meus sogros, entregou-a ao avô e disse-lhe:

- Tu também vais.

Todos nos rimos.

Não satisfeito e já depois de todos saírem, os avós foram ter com ele ao quarto.

Foi então que perguntou:

- Onde estão os outros?

Eu respondi:

- Foram para casa.

E ele disse para o avô e para a avó:

- Só faltam vocês. Adeus!

Fiquei sem palavras.

 

No Domingo, ao final do dia fui dar uma corrida. Quando cheguei disse ao pai:

- A mãe chegou, agora vai lá tu correr....

Contemos o riso.

Sentei-me com ele no chão a brincar e ele diz-me:

- Ai mãe, gosto tanto quando ficamos os dois sozinhos em casa...

Contive o riso. Sei que é egoista, mas é tão bom ouvir estas coisas.

 

Estávamos sozinhos em casa e eu fui à cozinha desligar um aparelho enquanto ele ficou no quarto a brincar. Quando ia ter com ele vejo-o a correr na minha direção. Dobro-me e digo:

- Oh amor, vens dar um abraço à mãe...tão bom.

Ele diz-me continuando a correr e passando ao meu lado:

- Sai da fente, tá a dar uma Patulha Pata!

 

E eu fiquei ali de braços abertos.

Depois ri-me.

Ah, as maravilhas da parentalidade (pérolas para o pai e pérolas para a mãe).