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Blog Bestialmente Conhecido

Mostra-me o teu cubo

Alguém conhece uma mãe cuja privacidade tenha sido esfrangalhada pelo rebeto piqueno, num daqueles momentos em que a pessoa vai à casa de banho fazer coisas da natureza humana e aproveita para respirar um pouco?

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu conheço.

 

Eu...

 

Ontem estava eu na casa de banho quando a porta se abre de repente. Entra Sôtor:

Eu - Sôtor põe-te a andar lá para fora.

Sôtor - Deixa-me ver o teu cubo.

Eu -    o meu cubo filho? Que cubo?

Sôtor - O teu cubo!

(e apontou para o meu rabo)

Eu - Ah! O meu cú?

Sôtor - Sim! Mostra-me o teu cú!

Eu -   (não sei o que responder)  (começo a rir-me)  olha, consegues ver o teu cú?

(ele olha para trás para ver se consegue)

Sôtor - Não.

Eu - Então se não consegues ver o teu também não podes ver o meu. Agora põe-te a andar!

 

Vida de mãe não é fácil, mas lá memorável é!

 

Preciso de colinho da mamã

Não sou uma pessoa de contacto físico. Nunca fui.

Fico sempre constrangida quando sei que vou encontrar aquela pessoa que não passa sem um segurar de braço, uma palmada nas costas, dois beijos demasiado repenicados.

Não sou de abraços, ou pelo menos não de qualquer maneira. Admiro as pessoas que são libertas fisicamente, que distribuem abraços como quem dá maçãs.

Não sou assim.

Sempre fui contida nesta demonstração de afetos físicos.

Aquela pessoa amiga, aquele colega de trabalho, que se aproxima por detrás da nossa cadeira e, mesmo antes de começar a falar pousa as mãos nos nossos ombros. O meu corpo fica tenso e percebo que os meus nervos entram em modo shut down, recursos limitados até que a pessoa siga à sua vida.

 

Sou diferente no meu mundo. Em casa. Com o Nuno. Tornei-me numa pessoa peganhenta e afetuosa num nível que eu não acreditava imaginável. Somos daqueles casais nojentos, de beijos, de abraços, e braço dado, de mãos dadas. Um cliché de cumplicidade intelectual, física e arriscaria um espiritual também. Seja lá o que isso for.

 

Quando soube que ia ser mãe soube que ia ser uma mãe chata, peganhenta, e por momentos tive medo que ele fosse como eu, uma criança distante, pouco dada a afetos.

 

Felizmente é meigo, afetuoso e adora um abraço.

 

Mas as palavras têm uma magia própria, demonstram uma vontade, uma intenção, tocam sem tocar, é essa a sua magia. Não exagero quando digo que o que mais me emociona são as palavras do meu filho, as coisas que me diz, como as diz.

 

Gosto de palavras. Nas sentimentais, safo-me melhor quando escritas. Se tiver de as dizer ficam-se como que entaladas na garganta, custam mais a sair. Encontro formas e contornos para esta nossa língua formal.

 

Rendo-me quando me pede um abraço. Rendo-me quando me diz que "só te queo dá um béjinho e um abaço mamã!". Rendo-me, entrego os pontos e esqueço que subiu para cima da minha cama com os ténis sujos de lama do jardim.

 

Hoje chamou-me quando eu estava a arrumar umas coisas na cozinha. O pai foi lá, não precisava de nada.

Terminei o que tinha para fazer. Fui à sala, sentei-me ao lado dele:

- Precisas de alguma coisa filho?

- Preciso de colinho da mamã.

E eu derreti-me. Como sempre. 

Dei-lhe o colo que ele quis. Cheirei-o, porque tenho esta coisa de cheirar o meu filho, como as lobas, como as leoas. Aquele cheiro a pão quente com manteiga. O mesmo que um dia dará lugar ao cheiro de um homem, quando o meu menino já não for o meu menino. Quero gravar esta aroma a ferro quente na minha mente. Para nunca esquecer.

Ficámos ali 10 minutos.

A determinada altura não sei quem dava colo a quem, se era eu a ele se ele a mim.

 

A importância da saude dentária

No domingo à tarde fomos passear ao Parque da Paz, andava desde o inicio da semana passada a pedir para ir ao jardim dos patos, para lhes irmos dar pão.

Lá fomos.

Chegámos ao fim da tarde e a bicharada já estava de bandulho cheio, resguardada no meio das ervas altas a preparar-se para o final de dia.

- Mãe, os patos não têm mais fome?

- Parece que não filho, estão a preparar-se para ir dormir?

- Não se podem esquecer de lavar os dentes!

- Pois não, é muito importante ter uns dentes saudáveis...especialmente para os patos!

 

(tem uma preocupação muito grande com a saúde dentária este meu filho)

 

Dia da mãe é quando os filhos querem

O dia da mãe não é quando o homem quer, nem mesmo quando a mulher quer. O dia da mãe é quando o filho quer.

Quando o filho, porque ama a mãe que lhe calhou, acha que ela merece um dia especial.

 

Esta semana começou com o dia do pai; um desenho na biblioteca, uma surpresa, uma espécie de presente. Um dia especial para dizer ao pai o quanto ele vale. Muito.

Ontem, ao final do dia, sentou-se na cadeira da cozinha. Apanhou gosto por me ajudar a fazer tarefas de cozinha, acho que o tempo que tenho é tão pouco que ele começou a aprender a olhar para as tarefas domésticas, aquelas que um dia, adulto, irá detestar, rogar pragas; passou a considera-las brincadeiras de que faz parte.

Ajuda-me com o jantar, tarefas simples, sentado na cadeira da cozinha, afastado do lume e do forno, ajuda a pesar as farinhas, a pôr o queijo nos folhados, a perguntar qual o ingrediente seguinte.

Assim a mãe não se esquece de nada da receita.

Tínhamos acabado de preparar os folhados para o jantar, ele brincava com os carrinhos novos que deslizavam em cima da mesa, nas suas pistas imaginárias, competiam uns com os outros; eu acabava de lavar a loiça velha da manhã. Ele estacou a olhar para mim e disse:

- Sabes de uma coisa mãe? Hoje é dia da mãe.

- Aí sim filho?!

- Sim, e vais ganhar uma shupeja.

Pedi-lhe um beijo. Ele não sabe mas eu já tinha ganho a minha surpresa.

Esta semana foi dia do pai, e na sua pequena cabecinha fez todo o sentido que também haja o dia da mãe. Afinal de contas ama os dois e ninguém fica de fora.

 

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Como ultrapassar uma pergunta embaraçosa de um filho em contexto de supermercado

"Mãe o que é isto?"

 

Qualquer mãe que tenha um filho entre os 2 e os 3 anos compreenderá este post de uma forma muito pessoal e única.

Quando nos falam de maternidade preparam-nos para muitas coisas, mas ninguém nos consegue dar noções claras a respeito das respostas adequadas para as perguntas que se fazem num contexto de supermercado.

Ao principio tudo parece simples:

Para que serve o arroz?

Para que serve o atum?

Para que servem os cotonetes?

Para que servem os courgettes?

Para que serve o detergente para a roupa?

Até aqui nada a objetar nem circunstâncias a temer, estamos, como se costuma dizer “em casa”.

 

Mas há um dia em que o supermercado põe os preservativos de determinada marca em promoção, e por isso eles estão em escaparate espalhados por toda a superfície comercial.

Chega a primeira pergunta:

Filho: O que é isto mãe?

Mãe: São coisas para crescidos.

 

Dependendo da idade da criança e do seu nível de curiosidade bastará esta resposta, mas se a criança quiser saber mais sobre o mundo vai passar à pergunta seguinte:

Filho: Como se chama isto?

Mãe: Preservativos.

 

Se forem mães honestas vão dizer o nome verdadeiro, se forem mães esquivas vão dizer a marca, se não estiverem para se chatear e com medo da pergunta que já sabem que se segue, fingem não ouvir.

Para as que avançam para o nível seguinte. Para as que não têm fuga possível, chega a terceira pergunta?

Filho: Para que servem mãe?

 

A pessoa fica uns segundos sem saber como abordar o tema. Olha para a criança, olha para a caixa dos ditos. Olha para a criança, olha para a caixa dos ditos. Numa espécie de gaguez mental.

 

Eu, após vivência de momento difícil, descobri a resposta ideal. Para quem quiser usar, aqui vai:

Mãe: Servem para evitar a sobre população mundial e minimizar as ausências laborais que resultam de licenças de maternidade prolongadas, permitindo, ainda assim, algum divertimento à pessoa que é adulta.

 

No fim, a criança vai parar por 2 segundos, pensar e dizer:

Filho: Posso comprar gomas?

 

E a mãe: Podes filho, claro que sim.

 

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Seguimos caminho vitoriosas, cabeça erguida pelos corredores do supermercado.

 

Não têm nada que agradecer, estou cá é para ajudar.

 

Workaholic

Quando somos pequenos estão sempre a perguntar-nos o que queremos ser quando formos grandes?

E o que queremos ser, assume-se sempre que seja uma profissão, como se aquilo que decidimos fazer para ganhar a vida nos definisse.

Ainda hoje, depois de velhos a pergunta é muitas vezes a mesma: o que é que é?; em vez de o que é que faz?

 

Quando sabemos que vamos ter um filho, quando damos connosco de cabeça meio perdida a imaginar o futuro, é inevitável pensar "o que é que ele vai ser?". E tal como todas as outras pessoas, acabamos por pensar na profissão que vai escolher: engenheiro, médico, piloto, professor, jornalista, empreiteiro, gestor, pasteleiro, padeiro e por aí fora.

Ao fim de muito pouco tempo dei comigo a pensar: o que eu quero que ele seja é feliz. Que saiba aproveitar a vida. Que tenha a sorte necessária para ter uma vida longa, saudável e cheia de coisas boas. Que tenha a possibilidade de escolher uma profissão que o complete. Que seja um bom homem, uma boa pessoa, um ser humano de que eu me orgulhe, mas mais importante de quem ele próprio se orgulhe. Que goste de si mesmo.

A nossa profissão é uma ínfima parte do que somos e não nos deve definir.

 

(a não ser que a nossa profissão seja ser bandido...)

 

Desde que ficou amigo do médico otorrino que o operou, e mais ainda desde que ficou amigo do pediatra, que brinca a ser médico. Inventa objetos para fazer de conta de cuida dos brinquedos, está sempre a examina-los e eu tenho de guardar a 7 chaves os xaropes e os supositórios - não porque ele se possa magoar com eles (ele não os quer para ele) - mas porque ele os quer gastar a curar os bonecos.

 

Ontem oferecemos-lhe uma mala de médico. Uma coisa muito singela, uma gracinha, só mesmo para perceber se ele achava graça.

Ficou doido e meteu logo as mãos ao trabalho, o quarto transformou-se num consultório e só houve pausa no que estava a fazer para me ajudar a preparar um sumo de laranja. Até porque toda a gente sabe que mais importante do que salvar pessoas é espremer laranjas para lhes dar vitamina c 

 

Hoje depois de acordar quis logo ir para o quarto. Tinha coisas para fazer.

O pequeno almoço estava no bucho desde as 6 e qualquer coisa e então lá foi ele.

Estivemos a desconfiscar brinquedos. E se eram muitos!

 

Aqui em casa não há palmadas. Há ralhetes e confiscamento de brinquedos. Há televisões que se desligam. Impõe-se uma noção clara de que os bons comportamentos fazem com que tenhamos as coisas que gostamos, e os maus têm o sentido inverso.

Ainda não há mesada, por isso, quando os maus comportamentos imperam, há brinquedos que são confiscados pela mãe. Multa imediata. Mínimo uma semana. Saem de encarceramento no fim de semana. Isto se as coisas melhorarem. Senão é tipo pontos para a carta, acomula...

 

Hoje foi dia de restituição de pertences. Como a semana foi, digamos que, preenchida, havia muita coisa a devolver.

Depois de entregues todos os brinquedos perguntou-me:

- Mãe, agoa que tenho eta mala shô dotô?

- És filho, agora és um doutor.

- Se calar é milhô mostá aos binquedos as minhas coisas de dotô.

E assim fez, com os brinquedos em linha, começou a apresentar-lhes os objetos da sua mala, que é para eles saberem que agora, se tiverem alguma enfermidade, podem recorrer ao médico de serviço.

No meio disto aparece o pai para saber se ele queria comer mais qualquer coisa. A resposta foi simples:

- Huummm (pensou)....não. Agoa tenho de tabalar. Tô a tabalar, nã pocho!

 

E assim descobri que o meu filho é um potencial workaholic.

Eu farto-me de trabalhar para ele ter uma vida mais folgada, e agora o tipo quer é labuta e labuta.

Realmente Deus dá nozes a quem não tem dentes. 

 

Mãe, tu nã faças icho!

Sôtor meu rico filho está a entrar numa idade, digamos que, complexa.

É a idade das travessuras, dos testes, do pressionar dos botões dos pais para ver até onde dá para ir.

É também a idade das coisas mais engraçadas, a das expressões que ninguém está à espera, de compreender mais do que achamos que ele entende.

 

De vez em quando dá-lhe para subir para cima da minha cama….calçado.

E eu lá vou a correr atrás dele. Lá o mando ir para o chão. Lá lhe pego para que saia de cima da cama.

Explico e explico que não pode fazer aquilo. Que os pés estão sujos, que não pode saltar em cima da cama porque se pode aleijar.

Nada funciona.

 

Nem mesmo aquela ameaça de que vai levar uma palmada.

Provavelmente porque nunca levou nenhuma e aquila ameaça seja demasiadamente subjetiva para ele.

 

Esta semana decidi começar a confiscar brinquedos. Ou seja, quando tem maus comportamentos e ainda por cima nada faz para os corrigir, fingindo não ouvir os pais, eu vou ao quarto e confisco um brinquedo por tempo indeterminado.

Já tinha confiscado 3 quando entrei no meu quarto e dei com ele às gargalhadas e aos saltos, calçado, em cima da minha cama que, por essa altura, já estava num belo serviço.

Avisei uma vez.

Avisei duas.

Avisei três.

 

- Vou confiscar o patrulheiro aéreo da Patrulha Pata.

- Não vais nada.

- Queres ver?!

 

Peguei no avião (ou lá o que é aquilo), enfiei com ele num saco, meti-o noutra assoalhada e fechei a porta.

- Vai ficar ali até eu saber que os teus comportamentos estão a melhorar.

 

Fingiu que não queria saber.

Ia voltar a subir para a cama e eu disse-lhe:

- Sobes e o próximo a ser confiscado é o Marshall.

 

Ele desce, estica o dedo indicador e diz-me:

- Mãe, tu nã faças icho! Deixa o Mashal em paz! Ouviste? Tu deixas o Mashal em paz.

- Então e tu vais subir para cima da cama.

- Não.

 

Isto uma coisa é confiscar brinquedos, outra é dar chá de sumiço ao dálmata bombeiro. Vamos lá separar bem as águas.

 

(para a malta sem instrução ao nível da patrulha pata abaixo mais informações)

 

Patrulheiro aereo

patrulheiro.jpg

 

Marshall

marshall.jpg

 

 

 

 

Os filhos perfeitos que não temos

Tenham alguma paciência para mim hoje, que isto vai ser longo, não esperem!, vocês já estão habituados, isto aqui nesta chafarica é como com os livros dos JRS, é um bom rácio quantidade preço, barato à folha.

Vou falar de pais e filhos e depois de filhos e pais…pano para mangas…mas prometo que no fim há musica.

 

Como diriam os ingleses: bare with me just a little.

 

Ando nisto de estar viva há pouco mais de 34 anos e nunca encontrei um ser humano perfeito. Conheci gente que gosto, conheci gente que não gosto, gente a quem me apetecia arrear umas valente porradas; mas perfeição é coisa que este par de olhos nunca vislumbrou.

Faz-me crer que isto de ser perfeito está mais ou menos no mesmo patamar de realidade que os unicórnios, as fadas e as sereias.

Os chalupas e os bêbados de quando em vez lá dão por eles, mas a malta razoavelmente sã e completamente sóbria, nunca lhes pôs os glóbulos oculares em cima.

 

Muito se fala hoje da educação das crianças, da falta dela, do que é melhor e do que nunca deve acontecer. Toda a gente quer molhar a sopa porque é tema que tem assunto para dar e vender. Não há comprovações cientificas e por isso toda a gente pode alvitrar a sua tese.

Comummente, como devem ser educados os filhos dos outros, porque problemas de vida alheia resolvo eu bem.

Custam-me em particular os “instrutores” sem filhos. Pessoas que não fazem a menor ideia do que é criar um ser humano, mas que acham que têm a solução para todas as duvidas, até dos pais mais experientes.

Na berlinda estão sempre os maus comportamentos dos filhos (dos outros) e as más escolhas dos pais. A ocasional “no meu tempo levava umas lambadas” e o “se fosse comigo ia ver”. Mas na verdade não ia ver nada. Porque a maior parte das pessoas que conheço que prometiam, faziam e aconteciam, passaram a piar como canários roucos sem acesso a Mebocaína 6 meses depois de o primeiro filho nascer.

 

Antes de mais ter um filho é como jogar na lotaria. Podemos ganhar um grande prémio, como ficar na bancarrota. Pode ser mais fácil e melhor do que pensávamos, como pode ser mais difícil.

Quando eu andava na faculdade estudávamos Piaget, de forma muito sucinta Piaget acreditava que a influência exterior determinada a construção do indivíduo. Nunca gostei de Piaget porque não concordo com ele. Lá em casa éramos 4 filhos, os mesmos pais e a mesma educação. Todos temos formas diferentes de olhar para o mundo.

Há algo que pertence apenas à pessoa, e os mesmos fatores externos interagem com essas condicionantes de forma completamente diferente para cada individuo.

 

É por isso mesmo que há filhos maravilhosos que têm pais de merda. Histórias magnificas de sucesso.

E há pais fantásticos cujos filhos não se tornaram no que estavam à espera. Lembro-me de estar na faculdade e ter entrevistado um ex-toxicodependente com 40 anos, os pais eram tudo o que um filho podia querer, mas as influências, os amigos e a sua própria natureza ditaram que roubasse os pais, que os agredisse e que lhes tivesse destruído a vida.

 

São histórias de vida.

 

Por isso chateia-me esta permanente e incessante demanda em culpar ao pais. Se dão uma nalgada é uma desgraça, se não dão o miúdo fica mal educado.

É pá chega! As pessoas têm de olhar para dentro das suas casas e trabalhar para melhorar o que têm dentro das suas quatro paredes, em vez de ter sempre os olhos postos na tabanca dos outros.

 

Mas comecei com a perfeição e entretanto derrapei. Tenham calma, em principio vou chegar a qualquer lado.

 

Os miúdos querem-se perfeitos. Querem-se cheios de atividades extra curriculares para depois dizer aos colegas do trabalho como os miúdos são bons a tudo. Se não gostam têm de papar na mesma com aquilo, até porque o filho da Maria Amélia da Contabilidade faz e dá-se muito bem.

 

É suporto os miudos serem o que os pais não foram. Olhe-se para a quantidade de gente formada em temas que detesta. Os pais quiseram que tivessem o canudo - obviamente com a melhor das intenções - para que arranjassem, não um trabalho, mas um emprego. Para que pudesse estar à secretária todo o dia a ditar coisas e quem sabe um dia mandar em alguém.

Sim, porque neste nosso Portugal a carreira só levanta voo quando se manda em alguém.

 

E assim colocam-se as expectativas nos miúdos.

Não se lhes dá o acompanhamento necessário, não se conversa com eles, mas tiram-se fotos para pôr nas redes sociais e declarar o amor que não se diz ao ouvido antes de deitar.

 

Os miúdos revoltam-se com isto.

 

Os miúdos são umas pestes. Não prestam para nada.

 

Mas há motivos.

 

As crianças passam o tempo todo a desejar ser crescidas e quando lá chegam percebem que a vida não é nada do que estavam à espera. Os adultos só têm temas de merda.

As contas para pagar, o trabalho que detestam (na maioria), as maleitas de saúde, os miúdos que querem e querem e querem e a pessoa só queria estar descansada 5 minutos.

Então colocam-se os sonhos nos ombros dos filhos. A pessoa fracassou em tudo, mas aquele, aquele vai saber tudo e ter todo o acompanhamento necessário.

Mais ou menos como a promessa que se faz de ir ao ginásio no dia 31 de Dezembro. Parece tão real naquele dia, mas depois na prática é tudo tão mais complicado.

Vai daí e a criança ainda não largou as fraldas e o miúdo da Clarisse do arquivo até já limpa o rabo sozinho e tem menos 2 meses.

 

O filho da Joaquina só tira cincos e o idiota lá de casa mal passa a matemática.

 

Os sonhos começam a desvanecer.

 

A vida apressa os pais e os pais apressam os filhos: para aprender, para brincar, para crescer.

Pedem que se despachem a torto e a direito, tenham a idade que for, bufam: “ai filho, vá lá!” tantas vezes que as crianças já não sabem porque o estão a ouvir.

Eu sei, temos o jantar para fazer, o trabalho, os banhos, a casa, a roupa, os cães, os gatos e mais um par de botas. Têm lá agora vida para andar a jogar à apanhada.

Mas depois querem que os miúdos os ouçam, que se interessem, que brilhem.

 

Tudo o que os pais fazem é sempre pelos e para os filhos, e um dia, tal como os seus pais lhes disseram a eles e os avós disseram aos pais, um dia eles vão entender.

O quê, nem os pais sabem muitas vezes.

Por um motivo simples: fazem assim porque sempre se fez assim e quando passou a  haver maturidade para entender começou a faltar tempo para pensar.

Compram uma casa melhor, para eles.

Compram um carro mais caro, para eles.

As férias, são para eles.

São o bode expiatório para o tanto que os pais trabalham e é isso que se diz aos filhos: “temos de ir trabalhar para ganhar tostões”.

Não é por acaso que um dia acabem por achar que é para isso que os pais servem: para ganhar tostões.

 

Mas não é de propósito. As pessoas não queriam fazer assim. E os miúdos, no final das contas sabem que os pais não servem apenas para ganhar dinheiro.

 

Porque não há pais perfeitos.

Nem há filhos perfeitos.

Há educação.

Há algo intrínseco que apenas cada individuo consegue mudar.

E há a sorte que pode fazer toda a diferença.

 

Quando se está sempre a falar mal dos miúdos de hoje, quando se começa com a treta de que os miúdos agora não têm educação, importa lembrar que nós também já fomos miúdos e já fomos parvos. Para os nossos pais também foi esquisito lidar com os punks e freaks e piercings e coisas. Os putos de hoje também devem ter a oportunidade de errar.

Na loucura os pais podem optar por - e tenham calma, é só uma sugestão - falar com os miudos, explicar-lhes as coisas. Demonstrar porque é que está certo e porque é que está errado.

Mais ou menos o contrário do que aconteceu connosco porque eles agora têm acesso ao Google que lhes pode dar com uma serie de informação errada.

Na altura que éramos putos bastava que os pais dissessem: "é pá porque te estou a dizer pá!", e estava resolvido.

 

No fim, não fosse o tema da educação (ou falta dela) um nicho que alimenta muita coisa decide-se criar um programa para “resolver” - ou piorar (a ver) - a vida de miúdos que, obviamente, já não estão lá muito bem.

Programas que eu considero sensacionalistas e que expõem as fragilidades de uma criança.

Não vi, nem faço qualquer intenção de participar para o share de audiências. Também não vou bater no programa (acho que já foi dito mais do que suficiente), levanto apenas uma questão: estamos perante miúdos problemáticos, cujos pais já não sabem o que fazer com eles e consideramos, mesmo, que o melhor que há a fazer é expor todas as suas frustrações e fragilidades na TV generalista e em horário nobre?

A sério que achamos isto?

Como terá sido a segunda-feira na escola?

Terão sido gozados?

E daí por uma semana.

Será que não se vão sentir obrigados a fazer pior? Porque é óbvio que não têm as ferramentas necessárias para viver em sociedade.

Não se sentirão humilhados?

E será que a humilhação é a melhor forma de ensinar?

É apenas um pensamento de uma mãe que muito falha, com muitas imperfeições, mas parece-me que uma senhora super cool, com uns óculos de professora marota e ar de quem vai dar umas palmadas (não às crianças) mas aos papás mal comportados, não é a solução. Especialmente se acompanhada de câmaras.

 

Porque não há pais perfeitos.

Nem há filhos perfeitos.

Há educação.

Há algo intrínseco que apenas cada individuo consegue mudar.

E há a sorte que pode fazer toda a diferença.

 

O meu álbum favorito de todos os tempos é o Jagged little pill da alanis morissette. Na faixa 3 tema temos a musica Perfect, não é uma canção de amor como a do Ed Sheran, é sobre ser criança e o que se espera muitas vezes. Para quem é pai, para quem é mãe eu convido a ouvir, a olhar para os próprios defeitos (todos os temos) e perceber se às vezes é assim.

 

Sometimes is never quite enough
If you're flawless, then you'll win my love
Don't forget to win first place
Don't forget to keep that smile on your face

Be a good boy
Try a little harder
You've got to measure up
Make me prouder

How long before you screw it up
How many times do I have to tell you to hurry up
With everything I do for you
The least you can do is keep quiet

Be a good girl
You've gotta try a little harder
That simply wasn't good enough
To make us proud

I'll live through you
I'll make you what I never was
If you're the best, then maybe so am I
Compared to him compared to her
I'm doing this for your own damn good
You'll make up for what I blew
What's the problem, why are you crying

Be a good boy
Push a little farther now
That wasn't fast enough
To make us happy
We'll love you just the way you are
If you're perfect