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Blog Bestialmente Conhecido

O leitor pede, o leitor tem (desde que seja decente) - os papa-torradas que malham a fatia do meio

Comer uma torrada não é um exercício desprovido de ciência, como alguns podem pensar. É preciso garantir que as duas fatias de pão estão corretamente barradas com manteiga de ambos os lados, nada daquelas mariquices lisboetas de só barrar a torrada de um lado, e ainda a vender mais caro porque assim é light.

Isso é só chico-espertismo. Uma forma de vender mais caro uma coisa que fica ais barata, usando o colesterol e o medo de falecimento por enfarte do miocárdio, como forma de convencer a pessoa.

Se algum dia vos fizerem isso, é devolver! De imediato!

Garantida a conformidade do barramento do pão passamos a uma avaliação rápida para que possamos começamos a comer a torrada do lado certo. Às vezes à pedaços de pão mais tortos, ou apenas com um aspeto menos sedutor. Pelo que é começar por esses primeiro e gradualmente passar aos mais atraentes. A ideia é deixar o melhor para o fim. Ou seja, se começamos com a côdea do lado direito ou com a côdea do lado esquerdo.

E damos inicio ao deglutição da torrada.

Naco mais à esquerda.

Naco mais à direita.

Passamos à fatia de baixo.

Repetimos o processo.

Naco mais à esquerda.

Naco mais à direita.

O objetivo é que, a meio do processo de degustação, esteja no prato uma espécie de uma torre de pão torrado, com ambos os nacos do meio de cada fatia de pão, maioritariamente miolo, boa quantidade de manteiga e pequenos pedaços de côdea nas extremidades, cujo único propósito é que a pessoa consiga segurar no pão sem se borrar toda.

Em circunstâncias ideais a pessoa consegue concluir a degustação da sua torrada sem incómodos. Mas depois há os papa-torradas.

 

O papa-torradas-que-malham-a-fatia-do-meio (doravante apenas papa-torradas porque não há pachorra para escrever isto tudo várias vezes) é um elemento que, caso houvesse justiça divina, seria arrebatado por um barrote de 20 quilos no alto da pinha, no preciso momento em que toca com as ganfias no naco do meio da torrada de outra pessoa.

Mas como não há justiça divina para estas calamidades mundanas....temos de conviver com eles.

 

Agem de forma displicente mas sabem bem ao que vão.

Por regra o comportamento começa por se manifestar na negação a pedir uma torrada própria, não têm fome, vontade, deixaram de comer pão, são intolerantes ao glúten e merdas afins.

Depois, quando chega a torrada do outro começam gradualmente a ficar gulosos, a olhar de forma pecaminosa para o naco alheio. Vai daí, oportunistas que são, aproveitam para ficar com a melhor parte.

Quando a torrada chega à mesa, o dono da torrada oferece, porque é educado e porque quer garantir que se dá, é uma parte carregada de côdea. Mas o papa-torradas é sabido e faz-se de difícil: que tem bom aspeto mas não tem vontade.

Assim que a pessoa pega no primeiro naco da direita, diz o papa-torradas:

- Bom, já que insistes, vou aceitar! (dito com o pesar de quem esteve a pensar uma porrada de tempo naquilo)

E, como que está no bingo a comer em linha, pega no primeiro naco do meio.

A outra possibilidade de papa-torradas, é o papa-torradas introvertido. Esse espera que a pessoa coma todo o contorno do pão para depois dizer que afinal tem um ratinho e que sempre comia qualquer coisa.

Devia ser um fato que estava preso no metro em dia de greve...por isso é que chegou atrasado...

 

Este tipo de gente não vinga comigo.

Se eu ofereci e não aceitaram em tempo útil, assim que estendem as ganfias em direção à torrada esclareço:

- Se não querias, agora já não queres!

Atão mas o que é isto!

 

Toda esta conversa fez-me lembrar uma história podre de velha.

Quando eu entrei para a faculdade havia um tipo do 2º ou do 3º ano, ou lá o que era, que se vinha sempre sentar na mesma mesa que eu e mais umas raparigas com quem fiz amizade na altura.

Como as tinha praxado achava que era uma espécie de galo na capoeira. Ora como je ne suis pa une galinhe, il ne ha pa de galo pa canter avec mon habitation. Estão a ver?!

Vai daí que este marmanjo era um para-torradas. Abancava em mesa alheia, não pedia nada para si e depois ia mamando torrada dos pratos das outra.

Uma delas uma vez queixou-se:

- Já viste que é a segunda torrada que vou comprar, o gajo comeu a torrada quase toda...eu ainda não tomei o pequeno almoço.

E eu tentei ensina-la:

- Isso acontece porque tu não o pões no lugar dele.

Nesse mesmo dia o jovem, depois de ter malhado forte na torrada dessa minha amiga, e aproveitando que eu também tinha uma torradinha à minha frente, entendeu que havia de esticar o braço e abarbatar um naco de pão da minha torrada. Ora pois que, assim que a primeira falange tocou no pão ouviu o seguinte:

- Vais comer da minha torrada é o caral&%! Tira já daí essas ganfias. Tens fome? Vai comprar para ti. Não tens dinheiro? Pede à mamã. Não és meu filho pois não!? Atão põe-te a andar.

Acontece que o jovem era de famílias com posses relativamente simpáticas, até porque tinha um popó melhor que o de muitos docentes. Se a mãe gastou tudo com o carro e as propinas, que vendesse uma jante.

(eu hoje sou uma pessoa mais madura, mais educada e com outro saber-estar...já lá vão os tempos em que eu usava este tipo de vernáculo)

 

E é isto, a Ângela e sua cara metade chamaram a minha atenção para esta raça de gente. Uma espécie com a qual não gosto de me dar, mas para a qual já desenvolvi algumas ferramentas para educar.

Espero ter contribuído para que, de futuro, se sintam mais capazes para enxotar esta escumalha da vossa vida.